domingo, dezembro 11, 2011

No próximo dia 22, lá estarão indo 31 anos sem o mestre Nelson Rodrigues. Saudades? Então, tome!

Luz pra ti, Nelsão.

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sábado, maio 29, 2010

Dos Cabeludos na Hora do Jantar ao Terrorismo Pouco Antes do Almoço

O Elenco e os membros do Green Day, idealizadores do fenômeno no momento na Broadway

American Idiot é o Hair do século XXI. Pronto, falei.
Por coincidência, Hair, o antológico musical surgido em 1967, voltou a Broadway em 2009 e está em cartaz - com aplausos da crítica e um Tony Award na bagagem, diga-se de passagem - no Al Hirschfeld Theatre (302 W 45th, entre as oitava e nona avenidas). Fui assitir aos dois e pude constatar ao mesmo tempo o abistmo cronológico entre ambos e o quanto os dois musicais tem a ver um com o outro.
A distância entre o pequeno teatro onde Hair é encenada e o St. James Theatre (246 W 44th), onde está American Idiot, é de menos do que um quarteirão. Mas o túnel do tempo que há entre os dois endereços mede mais de quatro décadas. Por isso, é indispensável dizer que a primeira retrata a vida dos avós dos jovens que são retratados na segunda.
Além do mais, se Hair foi concebida em cima do idealismo inocente de três amigos hippies, James Rado, Gerome Ragni e Galt MacDermot, a segunda foi concebida em cima de um trabalho totalmente sem ideologia. Estou me referindo ao milionário álbum The American Idiot, lançado pela banda americana Green Day, no final de 2004. O disco - que já vendeu mais de 20 milhões de cópias no mundo inteiro até agora -  é um trabalho conceitual, recheado de pessimismo, cinismo, rancor e desesperança. Lançado como trabalho conceitual, pouco mais de três anos depois da fatídica manhã de 11/09, em suas treze faixas tentava responder a seguinte questão: qual será o impacto da tragédia sobre o futuro da geração 00 e sobretudo do jovem nova iorquino?
A Hair, versão anos 60 propunha a contra-cultura, a rebelião, a reflexão sobre os costumes vigentes na época (sexo, drogas, religião, política) e parecia querer que os espectadores saíssem do teatro dispostos a deixar os cabelos crescerem e usar paz e amor como mantra. Datado? Claro! Diante da cena em que o bando de hippies invade a casa da menina rica na hora do jantar e cantam em cima da mesa, tentando tirá-la daquele ambiente burguês, chegamos a nos perguntar como aquilo pôde ser considerado revolucionário um dia, tamanha a ingenuidade? Queríamos tanto e ao mesmo tempo tão pouco, perto de uma juventude que luta para sobreviver, como a de hoje!  Na verdade, Hair parece tão distante dos dias atuais que, como disse a revista Time, em 2008, encená-la "parece ser a coisa mais ousada que se possa fazer."
Por que, então, se gastar em ingressos salgados - paga-se até mais de US$ 100 por um lugar - para se assistir uma peça que cheira a nafitalina? Justamente para se curtir o musical em si e não sua mensagem panfletária. Quando se vai assistir à Promises, Promises - um outro espetáculo em cartaz na Broadway -, que conta uma história passada no início dos anos 60, não se sente desconfortável com isso. O mesmo acontece com O Fantasma da Ópera. Tá certo que a diferença em relação a Hair é que o musical-rock propõe mudanças e reflexões, já que foi feito por gente que queria mudar o mundo. Mas se você conseguir ignorar este detalhe, vai apreciar um ótimo espetáculo, bem no padrão broadwiano. Porque por mais incrível que possa parecer, Hair virou um clássico da Broadway, como O Fantasma da Ópera, Cats, Chicago ou Mamma Mia. Mas um clássico impecável. Luz, figurino, atuações, cenários, coreografias. Tudo perfeito. Sem falar na música que é atemporal e conhecida de todos.
Na platéia, muitos senhores e senhoras de meia idade. Mas também, muitos jovens curiosos. Logicamente, ninguém queria mudar o mundo. No máximo, saiu-se assobiando o refrão Let the sunshine in. E foi-se comer uma pizza, sentindo-se a leveza de quem acabou de assistir a um bom espetáculo. E só.
Mas não muito distante dali, atravessando-se a Oitava e entrando-se na Quarenta e Quatro, o clima muda.
Talvez por preconceito, nunca imaginei que a geração 00 fosse capaz de dar uma peça de teatro. No máximo, um tweet. Tolo engano.
Logo de cara, American Idiot começa com dezenas de televisores mostrando cenas que marcaram esse  precoce século XXI. Tsunamis, Bush, gripe suína, aquecimento global, Katrina, Iraque, Afeganistão, avanço tecnológico, crise econômica, escândalos políticos, terrorismo. E de cara você entende que está diante de um espetáculo moderno. Já que estamos falando de uma geração massacrada como nenhuma outra por uma avalanche de informações. Quando o rock barulhento, urgente, nervoso, estressado e descontente começa a tocar, os mais velhos - como eu - podem ficar chocados. Mas a medida em que a peça se desenrola, você chega a conclusão de que não haveria outra trilha sonora melhor (Aliás, você deve estar ouvindo as músicas Are we the watting, Holiday, Boulevard of broken dreams e Wake me up when september ends).
Na Broadway estão os melhores coreógrafos, os melhores cenógrafos e iluminadores do mundo. E uma coisa que sempre me fascinou nos musicais ali são as soluções criativas encontradas para levar ao palco cenas, por vezes, complexas. No caso de American Idiot, Michael Mayer (diretor), Tom Kitt (coreógrafo) James Harker  (produtor de palco) e Steven Hoggett (diretor de arte) superaram as minhas expectativas. Tudo é tão empolgante, criativo, moderno e bem resolvido que os aplausos inesperados do público parecem pouco.
Ah, o público foi outra surpresa. A maioria era de gente de meia idade, classe média. Pareciam ter acabado de sair do mundo colorido de Hair, ali perto. Era gente que não curtia Green Day, mas estava imbuída da missão de tentar entender melhor os seus filhos ou netos. Essa geração que por muitas vezes é chamada de alienada, distante, pouco criativa, idiota.
O elenco? Não tenho adjetivos para qualificá-lo. Só extraordinário seria injustiça. São todos muito jovens, mas seguram a onda com tal precisão, talento e garra que deixaria o maior veterano encabulado. É preciso lembrar que American Idiot tem um ritmo alucinante e exige demais do seu cast. É verdade que alguns dos jovens atores não são totalmente desconhecidos do público americano. John Gallagher Jr., por exemplo, ganhou um Tony em 2007 pela sua performance em Spring Awakening. Também participou de seriados como Law & Order e The West Wing, assim como teve uma participação em Tudo Pode Dar Certo, do Woody Allen, sobre o qual eu postei aqui recentemente. De qualquer forma, ver gente tão nova e talentosa dar o novo colorido que a Broadway já há algum tempo estava precisando, me enche de esperança.
Vale destacar também a banda que toca durante o espetáculo, que não é o Green Day.
O espetáculo tem recebido ótimas críticas desde sua estréia em 20 de abril, inclusive uma entusiasmada do poderoso The New York Times. American Idiot foi indicado ao Tony de melhor musical.
A bilheteria também está bombando. Fomos numa noite de quarta-feira e só conseguimos lugar na parte de cima. Se você pretende assisti-lo agora, no verão, melhor comprar pela internet.
Do que se trata a peça? American Idiot conta em forma cronológica a história de um grupo de jovens amigos em Nova Iorque, durante os dois anos que se seguriam àquela manhã de 11/09/01, em que os americanos perderam o apetite ao serem surpreendidos pelo ataque terrorista mais devastador da história, quando se preparavam para almoçar.
Se existe alguma semelhança com Hair? Várias. Ambas traçam um retrato da sua época, da geração da sua época. Mas se a poucas quadras dali, hippies asquerosos chegam a petulância de pregar que eles são o remédio para o mundo, ali no Teatro St. James, jovens tidos como apáticos e alienados mostram como tentam sobreviver com dignidade num mundo que parece não ter mais solução.
O mais curioso é que os dois musicais tratam dos mesmos assuntos: sexo, rebeldia, drogas, política e guerra. Mas Hair prega a união para que possamos mudar o mundo. A garotada de American Idiot só quer se explicar, só quer mostrar os leões que precisa matar para permancecer de pé. Eles não são e não têm solução para nada. Estão perdidos e procuram apenas ficar numa boa.
Em American Idiot não se canta a otimista Good Morning Sunshine e, sim, versos como os de Letterbomb:
Onde todas as revoltas foram?
Enquanto o seu modelo de cidade é pulverizado
O que estava apaixonado está agora em dívida
Em sua certidão de nascimento
Então acenda a merda do fósforo pra iluminar este fusível
Os cabeludos de Hair se achavam fodões ao falarem de maconha nos anos 60. Em AI, se arregaça a manga e aplica-se um pico de heroína em público. Se pregava-se amor livre nos 60, no palco do St. James simula-se o ato sexual ao vivo e também discute-se o lado ruim da coisa, como a gravidez indesejada, problema cada vez maior nos dias atuais. A moçada de Hair prega a queima de certificados de reservistas contra a Guerra do Vietnã. Em AI, um dos personagens vai lutar no Iraque porque foi a última alternativa que encontrou diante do desemprego e da falta de perspectivas.
Bem, para resumir, embora eu não seja um especialista no assunto, posso dizer sem medo que American Idiot foi o melhor musical que já assisti. No conjunto, embora em termos de musica, meu preferido tenha sido Cristal Bacharach, que tive o prazer de assistir no Rio, em 2004.
American Idiot termina com todo o elenco munido de violões, cantando os versos de Good Riddance:
Outro momento decisivo;
uma encruzilhada na estrada.
O tempo agarra você pelo pulso;
direciona você aonde deve ir.
Então pegue o que tiver de melhor desse teste
e não pergunte porquê.
Não é uma questão
mas uma lição aprendida a tempo.
E aí você se dá conta de que não acabou apenas de assitir a um musical e sim presenciou um acontecimento. Assim como há mais de 40 anos a geração dos anos 1960 deve ter tido a mesma impressão. E seguindo o curso natural, daqui há 40 anos, a geração do futuro poderá achar American Idiot ingênua e  ridícula. E isso me assusta. Talvez a mensagem deste musical não seja apenas explicar a geração do início do século XXI e sim dar um alerta de que se nada for feito, estaremos sentindo nostalgia da época em que assistimos com horror às torres caindo pouco antes do almoço.

Muvuca na porta do St. James, na rua 44, todos ainda chapados após a porrada de American Idiot. Os meia-idade de classe média tentando entender os seus filhos. Curiosamente, há um cartaz anunciando Hair ao lado esquerdo, como num convite à compração.
Se você está indo para Nova Iorque neste verão, não deixe de assistir.
Torço para que no próximo dia 13 de junho American Idiot ganhe o Tony de melhor musical.
Assim como torço muito para que chegue logo ao Brasil.
E aí me vem a pergunta: como o jovem brasileiro seria retratado?
É  esperar para ver.
Por enquanto, mergulhe aqui no site oficial do espetáculo. 

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domingo, julho 19, 2009

Na veia



Fila quase dobrando o quarteirão. Pessoas ansiosas (será que vou conseguir?). Alegria de quem conseguiu; frustração e revolta dos que perderam tempo e voltavam pra casa com as mãos vazias.
Em plena crise econômica, você deve estar pensando que estou descrevendo uma fila de emprego. Nada disso!
Começou sem muito alarde. Estreou no pequeno teatro do Oi Futuro, no bairro do Flamengo, zona sul do Rio. Era o mês de março último e havia pouco interesse na peça de nome esquisito e escrita por um autor desconhecido(embora muito premidado). Mas bastou a influente e temida crítica teatral do O Globo, Bárabara Heliodora, morrer de amores pelo texto do canadense Daniel Macivor, para que In On It se tornasse o mais recente fenômeno da cenário teatral carioca.
Desde os saudosos tempos de Irma Vap ou A Partilha, não vejo gente descabelada e perdendo a educação por causa de um ingresso. Fiquei curioso e me mandei para o Oi Futuro, que, aliás, fica no meu bairro. Não consegui.
Quando voltei dos EUA, tentei novamente e nada. Os ingressos estavam esgotados até o final da temporada, que seria em 28 de junho. Fiquei ainda mais curioso.
Para minha sorte, a temporada foi prorrogada até este domingo e na última sexta feira, fui um dos privilegiados a conseguir um ingresso, após uma fila desanimadora.
Bem, Bárbara Heliodora tinha razão. In on It é o trabalho mais criativo e moderno a baixar nos palcos brasileiros nos últimos anos. No pequeno palco, apenas dois atores (Emílio de Mello, do elenco original, e Enrique Diaz, que é o diretor, e que teve que substituir ás pressas Fernando Eiras, acometido de uma apendicite). O cenário: apenas duas cadeiras. O texto conta a história de dois amigos gays, atores que estão ensaiando uma peça e vão percebendo o quanto a história e os personagens estão enroscados nas suas vidas.
Na verdade, In on It é o teatro na sua mais genuína expressão. Uma aula de arte cênica, é teatro na veia. Tem dança, tem comédia, tem dublagen, há quebra da quarta parede - quando os atores se relacionam com o público -, tem drama e tem dois excelentes atores, interpretando diversos papéis, o que ficaria confuso num texto frágil. Mas nem de longe isso acontece ali. Além do mais, a peça discute o processo de criação e interpretação daqueles que lidam com a arte cênica e o quanto de pessoal pode haver no trabalho do ator e autor. Tudo isso com a originalidade, a rapidez e o humor que o teatro moderno exige.
In on It é sobre a pressa, a ansiedade, o individualismo, a solidão e a perplexidade dos dias de hoje. Quando um dos personagens fala perplexo sobre "skatistas dirigindo uma multinacional (se referindo à garotada que comanda a Google)", por exemplo, percebemos como esse texto é moderno e atual.
Bárbara Heliodora estava certíssima quando definiu o espetáculo como "uma experiência imperdível". Mas o outro mérito de In on It foi ter assassinado o mito de que o público carioca só gosta de comédias e textos fáceis. Veio provar que bons textos ainda têm lugar por essas terras, graças a Deus!
Quando você estiver lendo este post In on It deve estar saindo ou já deve ter saído de cartaz. Para os cariocas fica o consolo de que ela voltará em agora no início de agosto, no Teatro Clara Machado. Os paulistas parece que terão que esperar até 2010. Mas seja onde for que você viva, In on It chegando em sua cidade, brigue por um ingresso. O bom teatro merece.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Nós vamos sentir falta de 2008 por causa de...Parte II

Na minha infância, há quinhentos anos atrás, havia uma rádio, aqui no Rio, chamada Mundial-AM. Nessa rádio havia um programa chamado Show dos Bairros, onde cada bairro era representado por uma música. Os ouvintes votavam e, no final, as mais votadas, voltavam.
Em minha inocência -as crianças da época eram mais inocentes do que as de hoje - eu torcia pelo meu bairro, o pobre subúrbio do Lins de Vasconcelos. Torcia para que ele fosse representado por uma boa música e recebesse muitos votos. Uma vez, quase pirei de felicidade ao vê-lo chegar ao primeiro lugar dos mais votados, passando lugares como Ipanema e Copacabana.
Doce inocência. Só alguns anos mais tardes eu fui compreender que era o jabá recebido das gravadoras que fazia os programadores da rádio escolher quem estaria ou não entre "as mais votadas".
Pois bem, em 2005, já quarentão, iniciei este blog. Eu pensava que os tempos de inocência haviam ficado para trás. Mas eu pensava que se escrevesse direitinho, faria sucesso na blogosfera. Achava que as pessoas estavam atrás de qualidade e se eu me esforçasse, conseguria agradar a uma legião de fãs.
Burra inocência. Mal sabia eu da legião de gente carente que só frequenta o seu blog para fazer o social; dos leitores-spam, que só aparecem para fazer propaganda do seu site; dos jornalistas despeitados que vivem metendo o pau na mídia tradicional mas que adoram ser paparicados por ela; dos grupinhos de amigos que vivem se elogiando; da gente pretensiosa que acha que está fazendo uma grande revolução em seu site, quando só está repetindo o que a mídia impressa já faz há um bilhão de anos; das pessoas chatas que só passam pelo seu site para dizer alô, implorando para que você apareça no site dela, nem que seja para fazer o mesmo.
Enfim, sobrevivi a isso tudo. Mas umas das coisas que mais me chamou a atenção é que, em grande parte, os comentários - na maioria feito por blogueiros - sempre se referiam a um fato pessoal para falar sobre o post. Se o assunto fosse "fazer xixi em lugares públicos", por exemplo, sempre se começava com um..."uma vez EU precisei fazer..." ou "EU vi alguém fazer..." ou "EU quase precisei fazer...". Com as pessoas que comentavam e não eram blogueiras era diferente. A opinião vinha em primeiro lugar.
Hoje, isso já não me incomoda. Aprendi que os blogs são um espelho dessa época em que vivemos, onde muitos têm uma necessidade angustiante de se expor, se expressar, se mostrar, se lançar. Todos querem falar; poucos querem ou sabem ouvir. Aliás, há muito escutar é uma arte para a qual pouquíssimos despertam algum talento. Simplesmente estamos desaprendendo a ouvir.
E sobre isso que fala A Arte de Escutar, ainda em cartaz no Teatro da Justiça Federal, no Centro do Rio. Peça, que ao meu ver foi a melhor do ano que acabou de acabar.
Em pouco mais de uma hora, Amélia Bittencourt, Antonio Fragoso, Carla Faour, Isaac Bardavid, Juliana Guimarães e Patricia Pinho (todos da Companhia Teatral Quem São Esses Caras?), vão mostrando, em diversas esquetes, os apuros, nos dias em que vivemos, de alguém que prefere ouvir a falar, gerando situaçõs dramáticas, cômicas e perplexas. Afinal, numa época em que todos querem falar e poucos querem ou sabem ouvir, imaginem o desafio que é estar vivo para quem é toda ouvidos!
A peça foi escrita pela protagonista da peça (a mulher que é só ouvidos), a atriz e, agora, escritora, Carla Four e tem arrancado elogios por onde passa. Após grande sucesso em Sampa, o espetáculo está há meses em cartaz no Rio, onde ficará até 1 de fevereiro(corram!).

E aqui vai o site da companhia Quem São Esses Caras, que é um barato! Destaque para a veterana Amélia Bittencourt, que interpreta a senhora faladeira na fila do banco.
Aliás, eu tive o privilégio de ter a Amélia no papel de Odete Escarlate, a protagonista, em uma das leituras da minha peça Essa Noite É Verão No Inferno. Ops! Já estou eu falando do meu trabalho e deixando de lado a peça, motivo desse post. Mas, afinal eu também sou blogueiro.

E todo blogueiro deveria assistir A Arte de Escutar. E refletir.

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segunda-feira, janeiro 19, 2009

Alguma coisa acontece em meu coração...

No final da semana passada precisei ir a Sampa para resolver certos assuntos pessoais. E como a coisa rolou mais rápido do que imaginei, aproveitei para, além de almoçar na Cantina do Roperto, no Bixiga, comer o famoso Bauru no Ponto Chic e fazer algumas comprinhas básicas, dar um giro nesta cidade pela qual tenho um carinho muito grande. O motivo já expliquei aqui, neste post de janeiro de 2006 que tem o mesmo título deste.

Vitrais do...

...Mercado Municipal, local que, apesar de ter morado nesta cidade, o desconhecia completamente. Mas é que na época- estamos falando dos anos 80 - o Mercado era um local tumultuado, sujo e nada acolhedor, como é hoje. Os turistas fazem a festa.


O belo Convento de São Bento...
...e a vista do Viaduto de Santa Efigênia, uma das partes mais bonitas do centrão de Sampa. E mais...

...o Ibiapuera velho de guerra.
Kássia Kiss, ótima na pele da mãe tirana, em Zoológico de Vidro(Foto da Folha de SP)
Aproveitei também para assistir a estréia de Zoológico de Vidro, do graaaande Tenneessee Williams, o dramaturgo responsável por eu adorar e escrever para teatro. Como é tão raro ver um texto deste gênio ser encenado atualmente no Brasil e como nem sei se ele virá para o Rio, resolvi não disperdiçar a chance.
Apesar de alguns probleminhas (introdução longa demais, interpretação meio caricata de Kássia Kiss em determinadas passagens e também de Erom Cordeiro, na pele do ambicioso e canastrão Jim O´Connor, por exemplo), a encenação é primorosa, graças ao talento gigantesco de Ulysses Cruz.
Zoológico de Vidro foi o primeiro trabalho de Teneessee. Baseada num conto do autor, ela foi encenada pela primeira vez em 1944. Fez sucesso, mas, infelizmente a peça seguinte deste americano genial, morto em 1983, Um Bonde Chamado Desejo, ofuscou completamente a primeira. A Margem da Vida - seu título original - foi pouco encenada no Brasil. Por isso, merece uma ida ao Teatro Sesc Anchieta, onde estará em cartaz até 22 de fevereiro, sexta á domingo, 21 horas sextas e sábados.
Poucos dramaturgos entendem tanto da fragilidade humana como Tennessee e conseguem extrair humor e drama de forma tão contundete. Zoológico... fala sobre o drama de Amanda Wingfield, uma matricarca abandonada pelo marido e que vê escapar a última chance de sair do atoleiro financeiro em que a família está, ao tentar aproximar a filha, Laura, hipertímida e deficiente física, de um ambicioso rapaz, Jim, amigo do seu filhoTom, sonhador e infeliz.
Embora tenha sido escrita nos anos 40, poderia se passar tranquilamente neste século XXI. E só mesmo os mestres escrevem textos tão atemporais.
A iluminação de Domingos Quintaliano é perfeita. A trilha sonora de Victor Pozas merece aplausos, assim como a direção de Ulysses Cruz.
Já a interpretação dos atores é irregular. Kássia Kiss está divina como Amanda, apesar de algumas vezes apelar para uma caracterização banal, apostando no patético para fazer o público rir. Kiko Mascarenhas, na pele de Tom Wingfield, é o melhor dos quatro. Impagável tanto como o insatisfeito e beberrão filho de Amanda, que sofre nas mãos da mãe dominadora, que ignora os seus sonhos, como o narrador da história. Karen Coelho também arrasa no papel da sensível e tímida Laura. Erom Cordeiro deixa a peteca cair algumas vezes nas partes mais dramáticas. É previsível e precisa trabalhar melhor o tempo dramático.
Bem, não levem este post tão a sério, já que não sou crítico teatral. Mas de uma coisa tenham a certeza: o texto é nota mil! Se eu tivesse ido a Sampa apenas para assisti-lo, já teria valido a viagem. Torço para que venha para o Rio. E quanto o pessoal de Sampa, não deveiram perder essa chance de assistir a um bom espetáculo teatral - coisa rara esses dias. E reservem com antecedência porque está bombando.

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sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Checkhov e a casa seis no mapa astral



É fácil fazer teatro apenas com uma história dramática? Não. Nelson Rodrigues, Edward Albee, Tennessee Williams, Arthur Miller e outros grandes do teatro mundial que o digam.


Mas todos concordariam que fazer bom teatro apenas com as mazelas ordinárias do nosso cotidiano é bem mais difícil.


E nisso Anton Chekhov era fera.


Existe uma coisa em astrologia que é a a casa seis em nosso mapa astral. A maioria das pessoas que procuram uma consulta astrológica querem saber do amor, do emprego que vai mal, das dívidas que preocupam, da viagem sonhada, etc. Enfim, as nossas grandes aflições. Poucos se dão conta de que são as pequenas mazelas do dia-a-dia que nos desgastam, que enferrujam nosso entusiasmo, infectam os nossos sonhos e podem tornar o nosso viver mais cinzento. Não são as grandes tragédias que nos derrubam e nem são os momentos de felicidade que importam. Pois todos eles passam. O que realmente importa é como lidamos com os nossos dias


Checkhov sabia disso e escrevia sobre isso. Infelizmente, ao morrer em 1904, não deixou herdeiros. Seus textos, que contavam a nossa miséria humana diante da crueldade e das maravilhas do cotidiano, não encontraram seguidores.


Mas graças à mamãe web, não perdemos o contato com esse gênio. Pois o mestre Anton Checkhov também era contista e descobri uma overdose de textos seus aqui, que merecem ser lidos (em inglês).

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quinta-feira, julho 26, 2007

Frases que... - VII

Richard Burton e Elizabeth Taylor - marido e mulher na época - na versão cinematográfica do clássico de Edward Albee, em 1966. Foto de Haskell Wexler.



"Meu marido se apaixonou por mim e agora terá que pagar por isto."
A personagem Martha, justificando a sua ira, em meio ao maior lavação de roupa da história do teatro.



Uma madrugada, no início dos anos 60, o dramaturgo norte-americano Edward Albee estava bebendo num bar do Greenwich Village, quando suas necessidades fisiológicas o levaram ao sanitário. E neste sanitário alguém havia escrito na porta de madeira: Quem tem medo de Virgínia Wolf?

Foi a senha para que Albee escrevesse um dos maiores clássicos do teatro mundial, que estreou na Broadway há 45 anos.

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sexta-feira, junho 29, 2007

Frases que a gente lê ou ouve por aí - V

Brando no cartaz da peça, que alavancou sua carreira.



"Eu sempre dependi da gentileza de estranhos."





Porque neste ano, mais precisamente em 3 de dezembro, o teatro mundial comemorará os 60 anos deste que foi um dos maiores clássicos do teatro moderno de todos os tempos. Isso mesmo, Um Bonde Chamado Desejo, estreava na Broadway em 2/12/47 e o teatro nunca mais foi o mesmo. Tennessee Williams, falecido em abril de 1983, foi o meu dramaturgo preferido e sua Blanche Dubois, um dos papéis mais difíceis do teatro mundial. Seria interpretado belissimamente nas telas pela Vivien Leigh quatro anos depois. E é dessa personagem inesquecível a frase acima, que, talvez depois do "Ser ou não ser...?", do Hammlet, de Shakespeare, seja a frase mais badalada da terceira arte. E até hoje nos toca. Pois quem nunca dependeu, pelo menos uma vez?


Outras frases marcantes nesta obra do Tennessee, um mestre dos diálogos:


"Ah, o desejo! Esse bonde correndo barulhento pelas ruas estreitas!"


"Mulher direita? Uma régua pode ser direita. Uma rua pode ser direita, mas o coração humano..."


"Às vezes, Deus age tão rápido."


"Desejo, o oposto da morte."

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