Lacerda, o fodão
Obrigado, Lacerda!
Vai lá. Conta aê...
O Café Com Leite
Haviam acabado de sair da aula de ioga.
A academia ficava num prédio na Nossa Senhora de Copacabana, o sol ainda estava no meio do céu, era verão e as duas jovens suavam dramaticamente.
A loura encontrou a ruiva abrindo o carro.
“Ei, você é aluna da academia?”
A ruiva olhou para a loura com desdém. “Estou suada e com roupas de ginástica, o que você acha?”
A loura com uma irritação calorenta: “É que não estou vendo o plástico no vidro do carro. Por isso perguntei.”
“Sim, eu não tenho o plástico da academia e daí?”, a ruiva.
“Se você não tem o plástico, você não podia estacionar aqui, querida. Só quem tem o plástico pode estacionar nas vagas da academia.”
“Sim. Eu não tenho o plástico e estacionei. E daí?”
A loura aumentou sua voz na mesma proporção em que sua paciência diminuía.
“E daí, filhinha, que eu tive que parar a uma quadra daqui porque não havia vaga pra mim. E eu tenho o plástico. Deu pra entender?”
“Olhe, meu amor. Você está querendo bater boca e eu não estou a fim, entendeu?”
A loura com um riso nervoso: “Imagine se eu vou bater boca com gente como você, querida? Só estou lhe avisando para você procurar o seu lugar. Se não pode pagar pelo plástico...”
A ruiva fechou a porta do carro e se aproximou da loura com o dedo em riste.
“Olhe aqui, ô garota. Veja lá como fala! Eu não tenho essa porcaria de plástico porque moro aqui perto e não costumo vir de carro. E não sei por que tanto escândalo por causa de uma vaga! Afinal, ninguém morreu por isto...”
Foi neste momento que o corpo da velhinha caiu em cima do teto do carro da ruiva, provocando um estrondo seco.
A loura e a ruiva ficaram lado a lado, olhando para aquilo paralisadas pelo horror.
Eu e o Magrão fazíamos uma diligência no prédio ao lado, para investigar a possível existência de um disque-droga em um apartamento.
Logicamente fomos convocados para descobrir o que havia acontecido. E descobrimos que o corpo era da Dona Arlete, que morava no 1104. Para a nossa surpresa, a porta do apartamento estava semi-aberta.
Lá dentro, um velhinho num sofá, assistindo tv. Um ventilador do lado, controle remoto nas mãos. Não olhou para nós. E antes que falássemos alguma coisa, disse, com os olhos ainda nos ignorando:
“Eu só queria tomar o meu café com leite em paz.”
Girei o olhar policial pela sala. Havia uma xícara com café com leite, ainda pela metade, sobre a mesa de centro, ao lado de várias cartelas de comprimidos.
“A Dona Arlete vive aqui com o senhor?”
O velho parecia nos ignorar totalmente. Os olhos sob o efeito do voodoo da tv.
“Por esta hora ela costuma ir ao Bingo. Mas não sei por que ela não foi hoje e ficou me aporrinhando, aporrinhando, aporrinhando, falando, falando...”
Meus olhos viram uma pequena estatueta de gesso caída sobre o carpete. Estava manchada de sangue. Quando meus olhos se voltaram para ele, o velho me olhava.
“O câncer não se satisfez em dominar a minha próstata e está se espalhando rapidamente por todo o meu corpo, como um exército vencendo uma batalha em território inimigo. Quase não saio de casa e um dos poucos prazeres que tenho na vida é o meu café com leite à tarde.”
“O senhor vai ter que nos acompanhar.”, o Magrão.
“E nem esse pequeno prazer ela me permitiu desfrutar em paz esta tarde. Sempre falando, falando, reclamando, me aporrinhando...”, disse o velho se esticando para pegar a xícara na mesa de centro.
“Senhor, teremos que ir agora...”
“Posso terminar o meu café? Por Deus! Posso?”
Esperamos.












Tatiana Castro, Eu, Calixto e Luciano.
De novo.
Marcelino, eu, Miguel do Rosário e o Marquinhos.
























