Quarta-feira, Março 29, 2006

Um Dia Perfeito X Um Plano de Cão


Um grupo de assaltantes invade a agência de um grande banco no centro de Manhattans e faz 50 reféns. São encurralados por centenas de policiais. Mas consegue sair pela porta da frente, levando o que queria e sem ser preso. Você acredita nisso? Não? Então corra para assistir O Plano Perfeito, o novo filme de Spike Lee, que teve estréia mundial no último dia 24 e já bateu recorde de bilheteria nos EUA no final de semana com arrecadação de U$ 28,9 milhões.
Mas antes leia esta historinha: 22 de agosto de 1972, dois ladrões invadiram uma agência do Chase Manhattans, no Brooklyn e foram encurralados pela polícia e a Guarda Nacional, fazendo cerca de dez reféns. Eram os tempos de Nixon, Watergate e Vietnã. Um ano antes, a Guarda havia invadido o presídio de Ática para tentar conter uma rebelião provocada por integrantes dos Panteras Negras e acabou provocando a morte de mais de 30 inocentes, a maioria funcionários do presídio. Muito inteligente, o assaltante que comandava o assalto, sabendo que grande parte da população estava muito p. da vida com a Guarda Nacional, tratou de jogar o povo contra ela, provocando cenas impagáveis, que seriam retratadas em Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, baseado num best seller do mesmo nome e lançado em 1975. Quem não se lembra do Al Pacino gritando “Ática! Ática! Ática!”, na frente do banco, com a multidão repetindo em coro, deixando os policiais sem saber o que fazer?
É difícil não lembrar de Um Dia de Cão ao assistir O Plano.... Mas entre os dois filmes há diferenças que nos fazem pensar que as mudanças ocorridas na América nesses 31 anos que os separam foram maiores do que supunhamos e fazem toda a diferença. Os bandidos dos anos 70 pareciam ter pretensões menores. Se em Um Dia de Cão, o assaltante líder, interpretado por Pacino, queria roubar uma grana apenas para pagar a operação de mudança de sexo do seu amante transformista, em Um Plano Perfeito, o líder (Clive Owen) do assalto quer se vingar do dono da instituição financeira, que havia enriquecido de forma inescrupulosa. E é aí que está o maior problema do filme, os personagens não convencem e não convencem o público a se envolver na trama. O rítimo rápido demais não permite que os bandidos – parecem robôs fortemente armados - , as vítimas – sem muita expressão - , os policiais – parecem máquinas de manter a ordem - não nos emocionam. Se por um lado, torcíamos mais pelos bandidos de Um Dia de Cão e nos afeiçoávamos com os reféns, na obra de Lee, apenas ficamos passivos sem nos engajarmos na luta do bando ou no drama dos demais.
Então O Plano Perfeito é um filme ruim, certo? Nada disso. Vale uma corrida ao cinema mais próximo. O Elenco está soberbo, embora Clive Owen esteja meio forçado como o bandido astuto que arquitetou tudo. Mas há ainda a bela Jodie Forster como a inescrupulosa, fria e astuta executiva de Wall Street. Só revê-la em seu melhor papel desde O Silêncio dos Inocentes já é um prazer.
O roteiro é super bem elaborado, desses que, em determinada hora, faz você se perguntar: “Meu Deus! O que esse roteirista vai aprontar agora?”
O problema do Plano Perfeito é que existiu um Dia de Cão. Se você não assistiu ao filme de Sidney Lumet, sorte sua. Em caso contrário, vai sair do cinema com a impressão de que apenas acabou de assistir a um bom filme. Só isso.

Quer saber mais sobre o Plano Perfeito? Mergulhe aqui.
Quer saber como a crítica tem recebido o filme lá nos States? Caia aqui.


"Fale, sua ordinária! Fale onde está o Lacerda."
"Aiiiiiiiii! Tá bom, eu falo! Ele agora está no A Arte de Odiar, sua cachorra!!"

Terça-feira, Março 28, 2006

Depois de ouvir tanta mulher reclamando sobre uma suposta falta de homem no mercado, cheguei à conclusão de que deve haver realmente uma...


ESCASSEZ


Izaurinha resolveu vender o marido.
Endividada até o último fio de cabelo, decidiu se desfazer do bem mais valioso que tinha. Mas não se baseou em critérios sentimentais, não. Tomou sua decisão, após ler uma reportagem publicada em uma grande revista feminina sobre a falta de homens na cidade. O que para ela não foi nenhuma surpresa, dado o número imenso de amigas suas que estavam, há tempos, sem marido ou sem amantes. Isso sem falar nas que davam em cima do Adamastor, seu marido.
Mas o que ela não imaginava é que o macho estivesse tão valorizado no mercado. As agências de arranjos matrimoniais e os chamados clubes dos corações solitários haviam se transformado em verdadeiras bolsas de valores, onde homens de todos os tipos eram disputados a peso de ouro. Um mulato de 1,80 m, corpo atlético e bem dotado, por exemplo, estava valendo uma fortuna! Um coroa enxuto e rico, de cabelos grisalhos, à la Clint Eastwood, então, nem se fala! Fazia-se qualquer negócio: venda, troca, aluguel, consórcio e até financiamento. Um garotão tipo Brad Pitt, novinho, podia ser adquirido em 24 suaves prestações, sem sinal e sem juros.
Além do mais, estavam a pleno vapor as importações de homens de outros estados. Diariamente desembarcavam no Cais do Porto, lutadores de capoeira vindos da Bahia ou paraíbas de bigode com cara de cangaceiros. Mas, lá mesmo, eram atacados por centenas de mulheres desesperadas. Os gaúchos eram os mais esperados, devido à tradição que tinham no mercado, embora todos tivessem garantia de um ano, quanto a seu desempenho e sua identidade sexual.
Após ler tudo isso, Izaurinha não pensou duas vezes. Pegou o telefone e ligou para algumas agências. Mas sua frustração foi grande. A cotação de um homem de meia-idade, barrigudo, calvo e com reumatismo, não era nada boa. Só daria para pagar o cartão de crédito, o condomínio atrasado e o plano de saúde.
Foi quadro a Marinalva, sua manicure, lhe confidenciou que tinha contato com o CCH (Comando de Caça aos Homens), grupo guerrilheiro formado por solteironas na menopausa, que seqüestrava os últimos varões disponíveis para, após usá-los, vendê-los no mercado paralelo. Izaurinha já havia ouvido falar delas. Uma de suas ações mais ousadas havia sido a invasão de um quartel do Exército, na Barão de Mesquita, de onde levaram três soldados, um cabo e dois sargentos.
Mas foi a tentativa de seqüestro do Rodrigo Santoro que obrigou o governo a tomar uma atitude. A polícia chegou a estourar o aparelho central do grupo, que funcionava nos fundos de uma butique no Rio Sul. Mas a operação acabou fracassando porque, dos dez PMs que invadiram o local, só o comandante da operação conseguiu sair. Assim mesmo, de cuecas e todo arranhado, gritando para o resto do batalhão fugir em debandada.
O CCH era um grupo radical. Fazia negócio com qualquer tipo de homem e Izaurinha estava otimista. Uma casa de chá para senhoras, na Gávea, servia de fachada para as operações obscuras do grupo. Ela conseguiu entrar, após dizer a senha combinada: AH, COMO ERA GOSTOSO MEU RICARDÃO!
Lá dentro, duas mulheres de meia idade, sentadas numa mesa redonda, a examinaram atentamente. Usavam óculos, vestidos sóbrios, e mais pareciam professoras primárias do que perigosas guerrilheiras. Receberam Izaurinha com risinhos histéricos. A primeira se identificou como capitã Amélia e a outra como tenente Abigail.
— Companheira, sente-se e nos dê o perfil do seu marido — pediu Amélia.
— Bem, acho que será um pouco difícil vender o Adamastor, mas...
— O que que é isso, companheira? — falou Abigail — já fizemos negócio com paraplégicos, caolhas, idiotas e até um velhinho de oitenta anos!
— Você trouxe uma foto do seu marido? — perguntou Amélia.
Izaurinha entregou a foto que achava ser a mais sensual do Adamastor. Havia sido tirada no último verão, em Angra. As duas mulheres examinaram a foto por alguns segundos, dando os seus risinhos histéricos.
— Ele está nu, companheira? — perguntou Abigail.
— Não, é que a barriga está escondendo a sunga. Mas acredito que após alguma ginástica...
— Bem, companheira. É pior do que pesávamos - falou Amélia, devolvendo a foto — Mas acho que você consegue uns US$ 10 mil.
— Só? Mas isso não dá pra nada...
— Bem, talvez você possa dar o seu amante como brinde — disse Abigail.
— Mas eu não tenho amante.
— O quê? Todo esse tempo você conseguiu viver com essa coisa, sem um amante? — perguntaram as duas guerrilheiras ao mesmo tempo.
Izaurinha ia responder, quando o telefone celular tocou em sua bolsa.
— Alô.
Era a Ivoneide, a faxineira, dizendo que tinha duas péssimas notícias para dar.
­— É que o seu Adamastor acabou de ligar, dizendo que está indo embora com a Marinalva, sua manicure.
Isaurinha quase teve um troço.
— Meu deus, estou falida!
— Além disso, — prosseguiu Ivoneide — há um monte de homens, aqui na porta, cobrando o pagamento de dividas.
— Oh, céus! Mas espere aí. Você disse homens? E por acaso eles são bonitos?
*********************
E a novela do Bagatelas e o A Arte de Odiar continuam repercutindo. O grande Marcelino Freire lá de Sampa já falou sobre nós, hoje (28), no seu Era o Dito . E o terceiro capítulo da novela será no sábado e ficará a cargo do meu amigo Nilovsky . E para ouvir a novela no podcast da Bagatelas, mergulhe aqui .
Apesar da data, não será mentira...

Domingo, Março 26, 2006

E Nasceu Um Grupo


Alguém deveria fazer alguma coisa. Uma noite de quinta-feira por mês, enquanto milhões de cidadãos brasileiros estão no aconchego dos seus lares, assistindo tv, eles vão chegando em silêncio para mais uma reunião. E na sala deste apartamento na zona sul do Rio, sacam suas armas: textos com munição capaz de derrubar qualquer mediocridade a quilômetros de distância.
Estamos falando de pessoas perigosas, digo, talentosas. São eles, da esquerda para a direita na fota acima, Jomar Magalhães (dramaturgo); ao seu lado, um réptil asqueroso, sem modéstia nenhuma, e que tem um blog que é uma ameaça; no chão, Janaína Toscan (autora teatral e atriz); do meu lado, Ana Clara Santiago (autora teatral e ex-roteirista da Globo); Marcos Gonzalez (dramaturgo e roteirista); e Anna Maria de Assis (também autora teatral, colaboradora do site New York On Time, do Jorge Pontual, e cronista do jornal Montblaat, do Fritz Utzeri). E não se iluda com essa senhora. Na verdade, ela é a cabeça da facção, digo, do grupo. Abriu as portas da sua casa para essas reuniões que funcionam, sem nenhum exagero, como conspirações subversivas, no meio da mediocridade que vivemos hoje neste país. Aliás, há algo mais subversivo do que se fazer cultura, nos dias de hoje?



Entre uma comidinha e uma bebidinha e outra, eles lêem seus textos e planejam suas futuras ações. E suas ações serão muitas, num futuro próximo. Aguardem!


Na verdade, o grupo já vinha conspirando, digo, se reunindo há algum tempo, mas na última quinta, 23, ele passou a ter um nome. A facção, digo, o grupo passou a se chamar Seis Autores Em Cena. E assim nasceu o grupo do qual tenho muito orgulho e prazer em fazer parte. Tim-tim!


Na verdade, grupos que se reunem para trocar idéias e lerem seus textos não são uma novidade, mas iniciativas como essa que podem desaguar em mais cultura, diversão e arte, estão cada vez mais raras, quando deveriam se multiplicar. Aguém realmente deveria fazer alguma coisa.

E por falar em leituras...


Coincidentemente, a revista New York desta semana vem falando de um novo fenômeno nas noites novaiorquinas: as leituras de poesias, trechos de livors e peças em bares espalhados pela cidade. O assunto já havia sido abordado pela Times na semana anterior e compara as leituras literárias aos shows de rock que, no passado, aconteciam em palcos pequenos. As leituras conseguem um público cativo e ávido, que forçou os cadernos de programas de alguns jornais e algumas revistas americanas a colocarem a lista de locais onde os eventos ocorrerão. E eles ocorrem em locais bem variados, desde bares elegantes e caros de Manhattans, até os mais simplesinhos. A matéria da New York, por exemplo, sugere nove locais onde as leituras ocorrem e a descrição de cada um deles. Confira aqui.

Há muitos anos sou um rato de leituras. Nesta foto (que aliás muita gente pergunta onde foi tirada) sou eu mandando bala no falecido bar Di Carli, em Santa Teresa, janeiro de 20005. Nunca fui vaiado, mas já fiz muita gente beber um drinque a mais com certas balas que mandei. Aliás, não é fácil se expor num palco, sozinho, com um texto na mão, num país onde menos de um terço da população tem alguma intimidade com a literatura. Já merce aplauso quem tem essa coragem.

Deu no JB...

"De página na internet, a Bagatelas virou revista que se distribui nas boas livrarias da cidade e agora é editora: A arte de odiar, de Julio Cesar Corrêia é seu primeiro lançamento. No próximo sábado, dia 1º, o grupo se reúne para uma homenagem a Rubem Fonseca, com a presença dos escritores Tatiana Carlotti, de São Paulo, e Rodrigo Melo, da Bahia. Será a partir das 14h, na Livraria Imperial, na Praça XV. "
Caderno Idéias, de 25/03/2006. Não acredita? Então, caia aqui. (Se não conseguir, não é mentira, não. É o site do JB que anda meio problemático) e mergulhe aqui para saber o que o site Livraria do Crime, na seção News, falou também.

Quinta-feira, Março 23, 2006

Tiroteio

"ODETE: Ah, eu só quero um pouco de alegria! A vida me obriga a rir muito.
GÉRSON: Você está muito doida mesmo!
ODETE: (Risos) Às vezes eu me sinto como aquelas mulheres do circo, que ficavam sorrindo enquanto um homem atirava facas em volta delas, lembra?
ANA: Ah, sei!
ODETE: (Teatral) Eu sou a maravilhosa Odete Escarlate, a auxiliar do atirador de facas!
GÉRSON: Que ridículo!
ODETE: Ah, ridículo nada! Acho que viver é a arte de sorrir enquanto nos atiram facas."
Trecho da minha peça Esta Noite É Verão No Inferno
E a rádio-novela feita pelo pessoal da Revista de Contos Bagatelas está cada vez mais emocionante. Neste sábado, às 11h, é a vez do gaúcho Emerson Wiskow, do 500 Dentadas.
O quê? Você perdeu o último capítulo?
Enão, mergulhe aqui.

E depois não diga que não avisei:


Nova Revista na praça!

Trata-se da Palavril. Da qual faz parte o meu amigo Guilherme Tolomei. Vale a pena conferir.

E Deu no Publish News...

Mergulhe aqui e saiba o que este importante site literário virtual falou sobre o A Arte de Odiar e o a Bagatelas.

E Por Falar no A Arte de Odiar...

Com saudade do Lacerda? Caia aqui.

Quarta-feira, Março 22, 2006

Príncipes e Fadas

Esta foto veio daqui.

O homem examinou a menina. Era bonitinha. Tinha um olhar triste que cortaria o coração de qualquer ser humano. Menos o dele.
ELA: — Você é o gringo?
ELE: — Sim. Pode entrar.
ELA: — Você fala meio enrolado, mas dá pra entender.
ELE: — Você é mesmo virgem?
ELA: — Sou.
ELE: — Quer beber alguma coisa para relaxar?
ELA: — Não. O senhor é bonito, tio! Acho que vou gostar.
O homem sorriu.
ELA: — A Sirlene falou que se eu fizer direito, o senhor me leva para a sua terra. É verdade?
ELE: — Quem sabe?”
ELA: — Ah, eu quero ir sim, tio. As meninas lá têm casa, escola e cada vestido! São tudo lourinhas que nem o senhor, né? Eu sei, eu vi na TV. Todo mundo lá é bonito. O senhor até parece aquele artista que vi no cartaz do cinema ali embaixo.
ELE: — Vamos tirar a roupa. Por que você aceitou fazer isso?
ELA: — Porque se não fizer, eu não como, tio. Meu pai bebe e não pára em emprego. Meu irmão Derlei foi morto. Eu vi os homens de capuz levarem ele. Foi deixado estirado na rua. O Sidenei saiu de casa e acho que também não dura muito, não. O Vandersão tá no exército. Minha mãe pede dinheiro na rua junto com outras mulheres. Até ontem, eu pedia com elas. Aí, a Sirlene disse que eu podia ganhar mais dinheiro com isso. Sei lá, meus peitinhos são só esses dois montinhos aqui, ó. Mas acho que já dá pra chupar, né? Pelo menos, os meninos lá na favela vivem bulindo em mim e tem um moço ali em baixo que quer...”
ELE: — Você é limpa?
ELA: — Sim, senhor. Não tenho doença, tomei banho hoje e a Sirlene até me emprestou este perfume. Gostou?
ELE: — Vamos deitar.
ELA: — O senhor é casado?
ELE: — Sim e tenho uma filha da sua idade.
ELA: — Quer saber o meu nome?
ELE: — Não.
ELA: — Me chamo Graziele. Qual o seu?
ELE: — Sem perguntas. Ok?
ELA: — Tudo bem. A Sirlene disse mesmo que o senhor não gosta de muito papo.
ELE: — Você gosta mesmo da Sirlene, não é?
ELA: — Pior que é. Eu queria ser como ela, já tem doze anos e é namorada do chefe do tráfico lá da favela.
ELE: — Já te explicaram como eu gosto que seja feito?
ELA: — Sim. E a Sirlene já me ensinou algumas coisas. Puxa, o senhor é bonito mesmo, hein! Acho que não vai ser difícil. Mesmo assim, tô nervosa! Ainda nem sou moça!
ELE: — Venha cá e sente no meu colo.
ELA: — O puto do meu pai nunca me pegou no colo. Coitado, ele só me pega pra bater. Quando bebe, então! Minha mãe grita pra eu correr. Mas não tenho medo. Só pena. Não corro e apanho muito, tio! Só vendo. Ai, que gostoso. Ele nuca fez isso e também nunca me contou histórias, de príncipes, fadas...
ELE: — O quê? Príncipes e fadas? — o homem soltou uma gargalhada.
ELA: — Você está rindo? Sabia que eu tenho um sonho?
O homem ainda ria: — Vamos cortar este papo.
ELA: — É verdade. Quero estudar, ser professora e morar aqui, em frente à praia de Copacabana.
O homem soltou outra gargalhada. Depois, olhou para ela, sério.
ELE: — Ah, minha menina! Dói o meu coração, mas vou ter que fazer isso. Para tornar as coisas mais fáceis. Levante-se!
Ele ergueu o braço e depois o abaixou como uma guilhotina. A bofetada acertou o rosto da menina, atirando-a no chão. Ela ameaçou chorar olhando para ele.
ELE: — Você nunca vai ser professora. E a praia de Copacabana será apenas o lugar onde você pegará seus próximos homens. Não viajei até aqui para ouvir os sonhos de uma puta.
O homem a tomou nos braços.
ELE: — Agora venha. Vamos brincar de príncipes e fadas.
Foderam durante uma hora. No final, ficaram estendidos na cama.
ELE: — Você está bem?
ELA: — Estou. Até que gostei.
ELE: — Você também foi boazinha. Vou te procurar quando voltar.
ELA: — Por que o senhor vem pra cá?
ELE: — Vivi alguns anos aqui. E venho sempre que me canso da minha mulher. Todo casal precisa ficar separado um tempo. Um dia você vai entender.
ELA: — Acho que sei como é.
ELE: — Agora, vá embora.
Eles se levantaram. O homem deu algum dinheiro a ela. O telefone começou a tocar.
ELE: — Alô. — olhou para ela, que se vestia.— É a minha mulher. (Em inglês) Alô, amor. Estou ótimo. Sim, embarcarei amanhã. Estou levando alguns presentes. Chegarei para começarmos a armar a árvore de natal. Também estou com saudades.
ELA: — Tio. Já estou indo.
O homem acenou para ela e mandou-lhe um beijo no ar. A garota se foi.
ELE: — O quê? O cortador de grama quebrou? Oh, minha querida! Verei isso assim que chegar. Não se preocupe. Há coisas muito piores, muito piores.

Domingo, Março 19, 2006

Gentinha

Meus queridos, lamento informá-los, mas nós somos a ralé da blogsfera.
Tem gente que está ganhando muito dinheiro pra blogar e são considerados a "elite". Pelo menos lá na terra do tio Sam, onde tudo gira em torno de grana.
Blogs sendo remunerados por empresas para exporem seus anúncios, não são uma coisa inédita. Mas, segundo o excelente artigo da New York, a novidade é o volume da remuneração que está circulando. É uma garotada que está enriquecendo apenas fazendo o que mais gosta: blogar.
Nessa história há um ponto positivo. Isso mostra o poder que os blogs têm atualmente na mídia e que, pelo menos lá fora, já deixaram há muito de ser brincadeira de aborrecente ou diário de gente moderninha.
O lado negativo é que, segundo a matéria da New York, a qualidade desses sites nem sempre corresponde à remuneração recebida. Os valores são pagos de acordo com o número de visitas ou comentários recebidos. Isso leva esses blogueiros milionários a uma corrida desesperada na tentativa de agradar a todos e caçar visitantes pela Web a fora. Sem falar no outro ponto enfocado na matéria: se você recebe de uma ou várias empresas, você fica preso a elas. E aí, a liberdade de opinião e de criar, que é a maior vantagem de um blog, fica comprometida.
E querem saber? Prefiro ficar duro mas mandar bala à vontade. E Gente Humilde com a Ângela Maria é o meu hino.

"ODETE: Todo mundo precisa de um sonho. Mas a vida é a predadora dos sonhos...O sonho da gente está lá, na relva, se alimentando. (Como alguém à espreita) E a vida está à espreita, por trás dos arbustos...Aí, quando o nosso sonho já se alimentou bastante e está bem gordo, (De pé, mas como se rastejasse) a vida vai rastejando em direção ao nosso sonho. E rastejando, e rastejando e rastejando, vai rastejando cada vez mais rápido...O nosso sonho ainda tenta fugir. Mas a vida sempre alcança o nosso sonho. Ela o pega pelo pescoço e, depois, leva o coitado pra um lugar afastado e, então, (Histérica) começa a devorá-lo, arrancando cabeça, pernas, e reduzindo o nosso sonho a um monte de ossos e restos de carne ensangüentada...Acho que a vida prefere os sonhos gordos e fortes. O Waldir sempre dizia: ‘Não alimente muito os seus sonhos.’ A vida sempre fica esperando os sonhos ficarem gordos. (Triste) Mas, às vezes, a desilusão é tão apressada!"

Odete Escarlate, personagem da minha peça Esta Noite É Verão No Inferno.

Sexta-feira, Março 17, 2006

Estupradores de Pizzas


Na Praia das Conchas, Ilha do Mel, conheci um casal que fazia amor com vinhos e tortas de limão.
Era o Sr. André e Dona Berta. Ambos aposentados paulistanos. Filhos criados, vida ganha, gente da melhor qualidade.
Voltamos juntos para Curitiba. Conversa vai, conversa vem, enquanto o carro subia a serra, passamos a falar sobre os prazeres da vida na chamada melhor idade.
E sobre o sexo? Sexo?
André: “O sexo ainda existe. Mas não poderia ser como antes.”
Berta: “Na juventude, gastávamos mais energia correndo atrás, do que no próprio ato sexual em si.”
André: “Hoje, canalizamos nossa energia pra outros prazeres.”
Berta: “Acabamos de fazer amor com uma excelente peixada e com uma torta de limão.”
André: “Ontem tivemos orgasmos duplos com uma feijoada.”
Eu: “Eu nunca consegui.”
Berta: “Relaxe e você conseguirá.”
André: “Esta noite, nós vamos pegar uma pizza numa cantina, em Santa Felicidade. Quer nos acompanhar?”
Eu: “Parece que alguém vai ser estuprado.”
André: “Sim, vamos estuprar uma calabreza ao som da tarantella.”
Berta: “E violentar um bom vinho.”
André: “Você é nosso convidado!”
Eu: “Aceito. Mas não sei por que estou com uma sensação de ser cúmplice.”
(Rs)

* Sr. André e Dona Berta, se por acaso estiverem lendo isso, revelei o nosso crime. Até a próxima! Se não formos presos antes. Felicidades a vocês.



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E o pessoal da Bagatelas está de morte. Amanhã eles vão ressucitar uma tradição da literatura e do teatro brasileiro: a leitura de textos em forma de rádio teatro. Um modelo que revelou tantos nomes e tantas obras. É mais um gol de placa da turma desta genial revista literária, da qual faço parte. O primeiro conto a ser lido será o do redator, Raphael Vidal, é claro. Confiram!




E no dia 01 de abril, voltam os encontros promovidos pela Bagatelas. Agora em novo local, a livraria Imperial, no Centro. Nesse encontro, homenagearemos Rubem Fonseca. O homenageado será convidado. Mas como já é notória a sua reclusão, não podemos contar com a sua presença. Mesmo assim, a gente lhe presta esta merecida homenagem.


"ANA: É verdade! Gérson é um excelente marido.

ODETE: (Sarcástica) É mesmo?

ANA: É mesmo. Ele me satisfaz totalmente. (Fica de costas para Odete. Olha para a outra pelos cantos dos olhos, demonstrando malícia) Principalmente na cama.

ODETE: Ah, o que é isso, menina? Eu sou uma puta velha. Deixe-me ver: na sua lua-de-mel, você deve ter se sentido (Rindo e saltitando, como uma adolescente) como uma adolescente que esperou toda a semana para ir à matinê de domingo. (Aborrecida) E quando chegou no cinema, pegou um lugar horrível, o filme era chato e a pipoca estava salgada demais. (Sorrindo) Não foi assim?"
ANA: Que conversa louca! Gérson é ótimo na cama!

ODETE: Mas ele não te faz suar, não é? Enquanto ele te possui, você é capaz de resolver a raiz quadrada de trezentos e noventa e nove mil, seiscentos e quarenta e sete.

ANA: Não é verdade. Às vezes, chego a não agüentar tanta intensidade e volume...

ODETE: Intensidade e volume? Você? (Ri) Ah, me respeite, menina. Eu sou Odete Escarlate. O seu marido só tenta apagar o seu fogo com gasolina, tenta matar a tua sede com água do mar. É por isso que você não quer fazer sexo com ele.

ANA: Você está bêbada!

ODETE: Mas você não é a única, meu bem. Que tal a gente convidar pra uma cerveja todas as mulheres do mundo que conseguem ter satisfação total na cama? Todas caberiam nesta kitchenette."
Trecho da minha peça Esta Noite É Verão no Inferno

E o teatro mandou me chamar.

E seu chamado pra mim é uma ordem. Volto a trabalhar na segunda e estou envolvido com essa, que é a forma de arte que mais se aproxima da vida.

Sobre esses planos, volto a falar depois. Mas se não houver muitos post nos próximos dias, será por uma boa causa.

Terça-feira, Março 14, 2006

Assista e Vista a Carapuça. Ou Não.


Apesar de um pouco cansativo, no início, devido ao excesso e à rapidez das informações, Boa Noite e Boa Sorte vai envolvendo o espectador aos poucos. Quando você se dá conta, está naquele início da década de 50, quando o demoníaco senador Joseph Maccarthy promovia uma caça a todos que ele achava estarem ligados ao comunismo. Dirigido e roterizado por George Clooney, o filme conta ainda com o próprio Clooney. E também o excelente David Strathairn, no papel de Edward R. Murrow, o âncora que arrisca o pescoço para enfrentar o monstro e ao mesmo tempo preservar a sua equipe, numa atuação digna de Oscar (aliás, o filme concorreu a seis e obteve 4 indicações ao Globo de Ouro). Há ainda a charmosa Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Ray Wise e Frank Langella, entre outros. Foi também muito bom ver o Robert Downey Jr., que eu pensava ter tido a carreira encerrada sumariamente por causa das drogas. Todo em preto e branco e entremeado por lindas canções de jazz, o que aumenta o seu charme, o filme conta ainda com um trabalho de pesquisa e reconstituição de época monstruoso. O roteiro é uma obra prima. Diálogos inteligentes e cenas preciosas, como a inicial, quando a câmera desfila pelo salão captando rostos e gestos. Uma tacada de mestre de Clooney, que consegue também passar toda a tensão vivida pela equipe de jornalistas da rede de tv CBS que ousou a enfrentar o temido senador. São 93 minutos de muitos cigarros fumados, risinhos nervosos e respiração suspensa. No final, aparentemente, eles vencem - MacCarthy é indiciado pelo Congresso. Mas acabam sendo derrotados para um adversário mais poderoso: a indiferença do povo americano que tem a tv apenas como um meio de entretenimento e não querem esquentar a cabeça com assuntos mais sérios que não os estejam atingindo. A guerra pelo Ibope é muito mais inglória do que a guerra política. A burrice e alienação do público é mais poderosa do que qualquer
Quando o filme acaba, aqueles que se entorpecem todas as noites diante dos BBB da vida, custam a achar a saída, porque a carapuça lhes tapa a visão.
E qualquer semelhança com a era Bush, não é coincidência.
Se quiser se certificar antes de sair de casa, mergulhe aqui e aqui (com direito à musiquinha e tudo).

E por falar nele...
"Fellows americans! Quero que saibam que o Lacerda já tem texto novo no A Arte de Odiar. O cara é o bicho e estou pensando em recrutá-lo para nos salvar no Iraque. E também o meu governo."


E por falar em Bush...


Aqui está o mapa astral do nosso presidente. Mais detalhes? Mergulhe aqui.

Segunda-feira, Março 13, 2006

Sinal dos Tempos

E depois de uma semana pegando praia e engordando, voltei disposto a falar sobre assuntos sobre os quais li nas vésperas da viagem, antes que eles fiquem velhos. Sobre a viagem falo depois.



Há 500 anos atrás, na minha juventude, a melhor coisa que nos podia acontecer numa noite de sábado era sair para a balada e arranjar alguém para se fazer a centenária pergunta: “Vamos para um lugar mais tranqüilo pra gente se conhecer melhor?” Mas até aí, gastava-se tempo com azaração e namorinhos. E grana com chopes, jantares e outras coisas mais.
O pior que podia nos acontecer era ficar em casa de pijama vendo tv ou tendo que namorar firme, assistindo tv e nem sempre com chance de se chegar aos finalmente. Enquanto pensávamos em como os amigos estariam se divertindo na balada, pensávamos “Pelo menos não estamos gastando grana.”
Mas parece que hoje as coisas mudaram muito mesmo. Afinal, já se passaram 500 anos, houve a AIDS e tudo mais. Pois eis que fico sabendo que há uma nova onda nos EUA que seria impensável nos meus tempos.
Segundo o imperdível artigo publicado há duas semanas no Mínimo, o grande barato dessas festinhas apelidades de Cuddle Parties (festas do carinho), parecem ser: Vestir pijamas e fazer carinho em estranhos durante horas. Entre as regras está uma importante: SEXO? NEVER! E mais, paga-se por isso.
Todo mundo sabe que a competição, o individualismo, a falta de tempo e etc, etc, etc, estão prejudicando os relacionamentos afetivos. A solidão e a carência são epidêmicas. Mas pagar para receber um abraço e uns cafunés!
Essa matéria, pode ser levada na sacanagem por muitos, mas antes de mais nada é um sinal de como as coisas vão mal nas relações humanas. Onde foi que erramos? Onde vamos chegar? Essas cuddle parties estão se espalhando também pela Europa (no mesmo artigo encontramos endereço de sites sobre elas e é só procurar no google para encontrar vários) e como elas devem chegar por aqui, ainda temos tempo para tentar refletir sobre essas perguntas.



Sei que vocês já estão carecas de saber, mas como lembrou a Luma, o filme que, no post de 03 de janeiro, eu havia conclamado como o melhor de 2005, levou o Oscar, derrubando o grande favorito O Segredo de Brokeback Moutain, de Ang Lee. Há muito tempo que uma barbada não levava uma volta de um filme desprezado pela mídia.
A partir de amanhã lerei mãos, jogarei tarot e búzios.

Quarta-feira, Março 01, 2006

O Universo Fala




O Universo Fala

Quando ela falou que acreditava na veracidade da linguagem das energias cósmicas, ele tomou um gole do seu San Fernando. Ela aproveitou a oportunidade para dizer que a humanidade caminhava para o aprendizado, que a sintonia com o universo deveria ser o destino de todo homem. A música começou a tocar e ele pediu que ela expusesse os seus argumentos.
Estavam num restaurante italiano e o garçon serviu a entrada. Ele disse que o imponderável é uma ilusão. Ela disse que o amava e ele tomou mais um gole do vinho.

A cantora negra subiu no pequeno palco e eles bateram palmas. A cantora negra anunciou o primeiro número, Mr. Wrong, de Sade Adu, Mathewman e Demman Hale. Ele segurou a mão dela. A banda se pôs a tocar e eles trocaram sorrisos. A cantora negra começou a cantar e ele mergulhou nas profundezas dos olhos aflitos da garota.
“Tenho que admitir que gosto de você. E isso não tem nada a ver com o Cosmos.”
“Mas foi uma brincadeira do Cosmos termos nos conhecido.”

He don´t care
Where he´s been playng

Ele soltou uma gargalhada , jogando a cabeça para trás. Parecia desesperado em tentar mostrar que não estava desconcertado.
“Brincadeira do Cosmos?”

He don´t hear
A word she´s saying

“Você por acaso entendeu o que falei?”
Diante da seriedade dela, ele riu ainda mais. A cantora negra desceu do palco e passou a desfilar por entre as mesas e, resignada, ela disse:
“Tudo bem, acho que foi uma besteira o que falei.”
Ela comeu uma torrada e ele segurou a mão dela.
“Você é tão bonita! Até me pergunto se mereço você.”

She´s a fancy girl

Ele passou a mão nos seu rosto e ela abriu o cardápio. As mãos dele alisaram a pele de seda. Os dedos dela deslizaram sobre o plástico. Ela fingia ler os pratos, só para escapar do olhar dele. Ele fingia acreditar estar dominando a situação.

So why´s she staying?

“É mesmo?”, ela com desdém e ainda evitando o olhar dele.

Ele perguntou se ela estava aborrecida e ela devorou mais uma torrada.

Hanging on for Mr. Wrong

“Bem,...”, o olhar voltou à posição de antes. Se fossem um murro, o olhar dela o teria nocauteado. “Não pense que eu o estou ecostando na parede, mas eu gostaria de saber se...eu preciso saber se...”

He doesn´t show her that he needs her

“Eu sei o que você quer saber. Aquela conversa sobre o Cosmos...”

Ele riu como um menino e ela pareceu se transformar numa cobra, prestes a dar o bote.

“É que algumas coisas precisam ficar claras.”, ela, tentando esconder o esforço que fazia para manter a delicadeza.

She doesn´t know his love is a lie

“Eu não amo você. Não posso te amar.”, ele, com uma expressão, como se houvesse em sua boca morangos com chantily.

She´s a fancy girl – got to be strong


O garçon lhes encheu os copos de vinho e ela pediu mais uma garrafa. Ele concordou, pois também precisaria.

“Sou casado. Somos adultos. E sempre deixei claro que nunca serei seu totalmente.”

Say so long – Mr. Wrong


Ele voltou a alisar a mão da garota – precisava confortar suas vítimas antes de abatê-las. E ela olhou para os lados – precisava manter as aparências.
“Estou sendo bem claro?”

Ele tomou um longo gole de vinho. Ela providenciou um longo suspiro, como se estivesse numa aula de ioga.

Get out on your own, girl

“Exitem milhões de maneiras para alguém ser claro e você escolheu a mais cruel.”

Show him how

Ele, de novo, os morangos: “Não gostaria de vê-la partir. Mas se você preferir assim.

O garçon trouxe o vinho. Ela, de novo, a ioga.


You can be strong, girl

“Eu preciso de você.”

Enquanto enchia mais uma taça de vinho, havia sessenta por cento de cinismo e quarenta por cento de desencanto no sorriso dele.

“Eu sou o famoso diretor do maior canal de tv da América Latina e você é uma atriz iniciante. Sei que você não está mentindo.”

Ela fez um silêncio longo e ele não parecia estar constrangido. Ele parecia inflexível e ela esticou o silêncio, tentando ser cautelosa. Tentando ser cautelosa, examinou o rosto dele e encontrou o sorriso, agora cem por cento cínico. Ela tentou desesperadamente prolongar o silêncio, enquanto tentava captar algum sinal do Cosmos, e ele esperava. O sinal não veio ou ela não conseguiu encontrar algum. Tudo por causa daquele sorriso dele que a desconcentrava.

You don´t need him now

Ele ainda sorria, cínico, e ela, para sobreviver àquilo, mostrou-se digna, para que ele não percebesse o quanto ela se achava o contrário.

“É apenas por isso que estou com você.”, ela atirou a esmo.

Mas foi bala de festim contra a fortaleza dele.

“Ótimo. Isso torna as coisas mais fáceis.”, ele, submetralhadora MP5K, da Hecler 7 Koch, alemã, capaz de derrubar qualquer dignidade a quilômetros de distância.

Run away, pretty girl


“Sim.”, ela, respirando forte antes de dizer a frase mais difícil da sua vida (velhos iogues faziam isso há séculos, havia lido no folder do curso de ioga), “E você me prometeu um papel na próxima novela das oito. É por isso que estamos aqui.”
“Claro. Pode contar comigo. Fomos unidos pelo Cosmos, não?”
“Posso confiar em você?”, ela, forte. Da mesma forma como a suavidade do ar pode transformar-se em rajada de vento.
Ele, entre dois goles de San Fernando:
“Claro. Da mesma forma que você confia no Cosmos.”

Say so long – Mr. Wrong

Ele terminou o seu vinho e a encontrou examinando-o, como quem examina um olhar enigmático em uma pintura.

“Posso mesmo confiar em você?”

A cantora negra se aproximou da mesa deles e ele voltou a encher a sua taça de vinho.
“Já disse que sim. Santo Deus! Isso parece um jantar de negócios!”
Os restos das palavras dele ainda estavam no ar, quando o garçon apareceu para servi-los. Ele serviu-se, perguntando-se se sua mulher havia desbloqueado os seus cheques. Ela serviu-se, perguntando-se por que o universo não lhe enviava um sinal.

Run away, pretty girl
Say so long – Mr. Wrong


Jantaram.


Não percam 1!


Lançamento dos livros Linha de Recuo, de Mariel Reis, e Estrada de Espelhos, do Breno Hümmel.
Livraria da Travessa, rua Visconde de Pirajá, 572 - Ipanema
8 de março de 2006, 20h.

Não Percam 2!

Fundamental não só para quem escreve, como também para quem ainda insiste entender um pouquinho a raça humana. Só a brilhante atuação de Philip Seymour Hoffman, no papel do afetado e aproveitador Truman Capote, já valeria o ingresso. Está indicado a cinco estatuetas e, que me perdoem os demais, merece levar todas.


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Bem, estou tirando merecidos 15 dias de férias e durante uma semana estarei no Sul. Curitiba, Ilha do Mel e Floripa.

Durante esses dias, nada de bala.

As fotos virão depois.

E para quem gosta de fotos antigas, deixo um presente. Ganhei da minha amiga Anna Maria e divido com vocês.

Beijos e abraços a todos.

Comportem-se!

E até a volta!