Segunda-feira, Maio 19, 2008

Hienas




Veja o seguinte diálogo, em um badalado bar paulistano, numa noite de sábado:

GARÇON: "Quantos vocês são?"


GAROTA DESCOLADA, acompanhada de um grupo de amigos: "KKKKKKK, somos sete. Por quê?"

GARÇON: "Porque o bar está cheio e não temos mesa para todos vocês."


GAROTA DESCOLADA: "KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK."


GARÇON: "Vocês terão que se separar ou se apertar numa mesa lá do fundo."


GAROTA DESCOLADA: "KKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!! Tudo bem, tudo bem! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK."


Você não achou graça? Nem eu. Nem o garçon. E nem ninguém que estava em volta.


Tenho reparado esse tipo de cena com cada vez mais freqüência, nos últimos tempos. Parece que as pessoas estão desesperadas para ostentar alegria. Outro dia, um famoso diretor de teatro carioca disse na tv: "Não estou mais interessado em drama, só comédia. O povo só quer rir, precisa rir!"

Se tenho algo contra a alegria? Sem querer me fazer de vítima, já passei por muitas coisas pesadas na vida, mas estou alegre...digamos 80% do meu tempo. E procuro me manter assim. Só que nem sempre dá, pois vejo a tristeza como um pedágio que temos que pagar se quisermos continuar na auto-estrada da vida. E sempre desconfiei de pessoas que dizem estarem "sempre felizes."

Como toda mudança de comportamento que acontece na sociedade, essa onda de complexo de hiena foi um processo lento, que começou há algum tempo.


E aí vou contar um fato da minha vida que nunca falei aqui antes. Em 2000, minha mãe morava em Juiz de Fora e estava com vontade de voltar pro Rio. Então, eu juntei uma graninha e lhe comprei um apartamento pequeno, próximo de onde eu vivia. Ela ficou muito feliz. Tão feliz que no dia da mudança, ela teve um enfarte.


Imaginem a cena: Eu tendo que atender os caras da mudança, o cara da tv a cabo e do telefone, todos apressados para fazer seu serviço e cair fora, enquanto minha mãe passava mal no chão. E cadê o telefone do médico? O cartão do plano de saúde? Tudo ensacado e encaixotado.


Isso foi no dia 21 de dezembro. Passei o natal tendo que arrumar a casa da minha mãe, enquanto tinha que visitá-la na UTI à noite. Só quem passou por situação idêntica tem noção do quanto é estressante. Fiz isso tudo sempre na esperança de que ela voltasse para o lar que eu lhe havia comprado. Mas ela veio a falecer no dia 28, sendo enterrada três dias antes da virada do ano.


Várias pessoas me chamaram para passar o reveillon em suas casas, mas preferi ficar só naquela que foi a pior virada de ano da minha vida. Mais tarde, fiquei sabendo que houve comentários do tipo "graças à Deus ele não aceitou vir! Reveillon não é noite pra baixo astral." No primeiro dia do ano, uma dessas pessoas me ligou. Estava num pagode, em um quiosque de praia. Queria que eu fosse até lá. Quando falei que não iria, me veio com os intermináveis "você precisa ser forte", "já está na hora de você tocar a vida", "a vida continua". Era como se estar triste naquela situação fosse uma vergonha.

Tenho certeza de que essa pessoa tinha as melhores das intenções. Só queria me ver alegre. Mas ela não teve a sensibilidade de entender que cada um tem um tempo para exorcizar sua tristeza. Logicamente, uns dez dias depois, eu já estava bem e tocando a minha vida. Mas eu precisei deste tempo. Todos nós precisamos. E acho que lhe dar com esse "pedágio" que a vida nos impõe fica mais fácil quando entendemos que ele faz parte da nossa existência.

Mas parece que esse medo da tristeza está aumentando. Tenho ouvido absurdos do tipo: "não quero ficar triste para não envelhecer", "não quero ficar triste para ficar feia" ou "não quero ficar triste para não ficar doente." E como não dá mesmo para se ficar alegre todo tempo, tome bebidas, tome drogas, tome remedinhos, tome comida em excesso, tome analistas. Espero que essa mentalidade ainda mude ou teremos uma sociedade de lindos psicopatas, depressivos elegantes, lunáticos saudáveis e suicidas sarados.

Marcadores:

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Lei de Murphy - O Roteiro


FADE OUT

Som: ruído de despertador

FADE IN

Close na minha mão socando o rádio-relógio. Cinco da manhã.

PLANO ABERTO
Me levanto, coçando o saco e caminho para o banheiro. Houve-se ruído de chuva e trovoadas lá fora.

Close na minha cara de alívio ao fazer as minhas necessidades fisiológicas.

PLANO FECHADO


Close em meu dedo apertando a descarga. A descarga funciona, mas não pára.


ZOOM


Close na minha cara apatetada, olhando para a descarga, tentando entender o que está havendo.


ZOOM


Minha mão socando desesperada a descarga.


OFF


O DEMO: E agora, Julio? A descarga não vai parar e a caixa-d´água do prédio vai esvaziar.


CORTE


Eu falando no interfone com o porteiro.


EU: Severino eu não estou conseguindo parar a descarga.


SEVERINO (SONOLENTO. OFF): Já fechou o registro?


EU: Já. Mas não adiantou. Acho que está com defeito. É melhor você fechar o registro desta coluna do prédio.


SEVERINO: Por quê?


EU: Porque vai acabar com a água da caixa do prédio.


SEVERINO: Mas todo mundo também vai ficar sem água se eu fechar o registro.


EU: Mas é só enquanto eu tento dar um jeito nisso. Aliás, você não pode me dar uma ajuda?


SEVERINO: Mas o senhor não quer que eu desligue a bomba?


EU (Tentando ficar calmo): Severino, você está acordado? É pra você desligar a bomba e vir me ajudar.


SEVERINO: Mas...


EU: Estou te esperando!


Desligo o interfone e fico olhando para o aparelho.



OFF
O DEMO: Você acha que ele vai largar a portaria sozinha e vir te ajudar? É ruim!


CORTE.


Volto para o banheiro e ainda tento interromper a descarga.


EU: Claro que ele virá.

Nesse momento a luz se apaga. A casa é iluminada apenas pelos relâmpagos do temporal.

OFF


O DEMO: Ele não virá. Está faltando luz, você mora no último andar e ele não vai subir todos esses andares, mesmo que você tenha dado uma boa caixinha pra ele no último natal.


EU (falando com alguém invisível): Vai pro inferno!!!! (percebi a tolice que havia dito) Vá se fuder!


OFF


O DEMO: Você não acha ilógico mandar se fuder alguém que vive nas trevas?


De repente, ouve-se alguém gritar ao longe:



OFF


VIZINHO: Olha essa descarga! Nós vamos ficar sem água!!!!!



OFF


O DEMO: É a Dona Gertrudes do 901. Ela está preocupada, tensa, nervosa. E você sabe que ela é cardíaca. E se ela tiver um piripaque? E a Luciana, a moça do 1002? Ela acabou de ter um bebê. O que vai acontecer quando ela acordar e não tiver água para fazer a mamadeira para a pobre criança? E o delegado que mora no 804? Quando ele sober que não tem água para tomar banho...


EU: Puta Merda!
Nesse momento, alguém começa a bater na porta.


Close na minha cara de suspense.


Quem será? O síndico? A Dona Gertrudes? O Delegado do 804? O Demo? Ou o porteiro?. Essa história é verídica. Aconteceu comigo mais ou menos assim há umas duas semanas. E se você apostou na última hipótese, esperando um final feliz, releia o título deste post e aguarde o próximo capítulo.

Ah, a música é Kitty with the bent frame, com o maestro Quincy Jones, da trilha sonora do filme Ladrão que rouba ladrão.

Marcadores:

Terça-feira, Maio 13, 2008

Meus "Botecos"

Foto de Sérgio Fonseca




Como não bebo, nunca fui muito chegado a botequins. Por confesso preconceito, sempre tive a imagem de bêbados vomitando num canto, grupos cantando um samba chato, chão grudento de sujeira e moscas sobrevoando ovos cor-de-rosa, expostos no balcão.

Nem depois que surgiram os botequins de grife (Armazens do chop, Manoeis & Joaquins, Belmontes, etc), me senti encorajado a freqüentá-los. A única coisa legal que eu via nos botecos tradicionais, era o gostoso clima de informalidade. Você podia tirar a camisa, você podia batucar, você podia gritar um palavrão durante um jogo e ninguém iria lhe olhar de banda. Você podia bater papo com o garçon, podia discutir futebol com o dono e podia tormar porres homéricos, sem ser expulso por nenhum segurança truculento.

Os antigos botecos eram uma confraria e seus freqüentadores, uma espécie de família. Parece que isso se perdeu um pouco com o surgimento das cadeias de botecos de luxo.

Posso estar errado, já que não freqüento nenhum tipo destes estabelecimentos.

Mas existe alguns lugares informais, que, apesar de não serem botecos, corro para eles quando quero relaxar e comer algo rápido, barato e bem feito. São os meus "botecos". Não estão para os pé sujo, com cadeiras e mesas de plástico, e nem para um lugar o garçon lhe fuzila com o olhar se você demora muito sem consumir.

Como estive em São Paulo neste final de semana, aproveitei para selecionar também alguns lugares onde posso ser encontrado em momentos de profundo relax por lá.

Aqui no Rio:

Deus existe!

É o que se diz ao provar os omeletes do Paladino. Os sandubas também são coisas do divino. Comida rápida, barata e light. Ideal para quem precisa fazer uma boquinha no meio da correria. O lugar é uma mercearia com uns cem anos de existência. Come-se entre garrafões de vinhos, tamancos de madeira e sacos de feijão-manteiga. O atendimento é bom e ferve nas happy-hours. Alguns famoso aparecem de vez em quando, como o compositor Aldir Blanc. Mas na hora da fome, famosos ou anônimos, somos todos iguais.

Glória ao Pai

Aleluia! Você tem vontade de gritar isso ao saborear um sanduba do Cervantes (Barata Ribeiro com Prado Junior, Posto 1, Copacabana) Só quem já saiu de uma festa furreca às quatro da manhã, com a fome insistindo para ir para cama contigo e deparou com esse templo, onde se encontra sanduíches criativos e irresistíveis, sabe do que estou falando. Não adianta procurar, porque você só encontra um sanduba que mistura lombo, abacaxi e bacon lá neste, que é o pai dos boêmios famintos. O cantor e compositor Fausto Fawcett que o diga.

Venha a mim as comidinhas

E se Deus existe, o Mercadinho São José, na esquina da rua das Laranjeiras com Gago Coutinho, é um templo. As mesas se espalham por entre lojinhas de artesanato. Já é um point na região há anos e os happy hours são concorridos. Para quem gosta, é um bom lugar para beber. Mas experimente as pizzas. São fartas e eliminam a fome sem piedade.


Em Sampa

...Continua lindo

Como já falei aqui, fui paulistano entre 1984/86. Naquela época, eu estudava numa faculdade que ficava ali no largo de São Bento. Eu era mais duro do que sou hoje e costumava agradar ao estômago com o Bauru, o sanduíche típico da paulicéia. Não sei quando ele surgiu, mas sei onde. O delicioso prato nasceu no número 27 do Largo do Paissandu, onde fica o Ponto Chic, tradicional e simático bar, que é a salvação de estudantes, jornalistas, do pessoal do teatro e boêmios de todos os tipos. Tive o prazer de aparecer lá neste findi e constatei que ele continua lindo: pratos deliciosos, preço razoável e atendimento super. É o meu preferido em Sampa.

Nem tudo está perdido

O que fazer quando se sai da balada no meio de uma dessas madrugadas de outono, roxo de fome, com pouco dinheiro e o vento sudoeste desce a avenida São Luiz, fazendo você pensar que a sua noite está perdida? O bar Estadão (São Luiz quase com Consolação) está a sua espera. Mesmo de madrugada está cheio. Seus sandubas com pernil são famosíssimos. Seu bauru embora não seja nenhum Ponto Chic, é honesto e barato. Apareça e constate.

Me traz meio quilo de Borges e um Woody Allen no ponto!
Parece pedido de bêbado, mas em se tratando da Mercearia São Pedro, ali na rua Rodédia 34, pode ser totalmente natural. Já falei deste local aqui e sempre que cruzo a ponte-aérea, procuro dar uma passadinha por este point de escritores da nova geração. O local realmente é uma mercearia, só que ao invés de cereais, frutas ou sabão em pó, o que se pede ali, além dos comes e bebes, são livros, cds e dvds. Ao contrário de samba chato, na noite fria da última sexta-feira, ouvia-se Billy Hollyday. O atendimento é ótimo - principalmente do Mário, o simpático dono - e os preços também não ferem o orçamento. A localização é que meio chata. Mesmo pra quem vai de táxi, deve-se levar um mapinha, pois 80% dos motoristas não conhecem o local e nem mesmo a rua. Pra voltar é ainda pior, já que trata-se de uma área muito residencial e poucos taxistas se aventuram por lá.
Mas, sem dúvidas, vale a pena o sacrifício.

Marcadores:

Quarta-feira, Abril 09, 2008

Nóia






Quem freqüenta este blog sabe o quanto gosto de música. E quando a música é boa eu gosto de de assoviar.


Em primeiro lugar, eu quero ir para o céu e tenho pena das pobres almas ao meu redor, por isso não ouso cantar. Em segundo lugar, assoviar faz bem a minha alma, me enche de alegria e espalha alegria no ar. É o tipo de coisa que me faz bem e parece contagiar todos ao redor, com a exceção dos invejosos, é claro.


Pois, outro dia, uma amiga veio me dizer:


"Você não devia fazer isso. O ato de assoviar faz sua pele esticar para a frente, acentuando o envelhecimento."


A conscientização que os seres humanos têm hoje em relação à saúde e à estética é, na minha opinião, uma coisa sensacional. Mas quando a coisa começa a ir para os lados do exagero, o efeito é inverso.

Já falei aqui sobre uma colega de trabalho que adorava correr na praia e parou porque lhe disseram que "correr envelhece". Já estou cansado de ouvir gente dizer que não vai à praia para que o sol não estrague sua pele. Outro dia, eu estava em uma dessas comemorações que só acontecem uma vez na vida e outra na morte e alguém disse que não participaria do brinde porque alcóol faz mal à saúde. Achei, no mínimo, ridículo, já que não existem estudos científicos comprovando que uma taça de espumante tenha arruinado a saúde de alguém.


Mas isso não foi nada comparado à cena que presenciei numa festa, meses atrás. Eu estava num grupinho muito animado e alguém contou uma piada sobre política que fez todo mundo explodir em gargalhadas. De repente, a mulher de um dos convidados mandou essa: "Ai, vou me afastar deste grupo. Vocês vão me fazer ficar com rugas ao redor dos olhos de tanto rir."

Estiquei a minha gargalhada. Deixar de rir para não ficar com rugas! Fala sério! Só interrompi o meu riso quando percebi que a perua estava realmente falando sério. No mínimo, patético.
Acho que as pessoas devem procurar ter boa saúde e uma boa aparência para serem felizes. E não existe felicidade sem prazer. Devemos procurar fazer só o que nos traz prazer. Se isso faz mal à saúde, então, fazemos com moderação. Mas sem prazer não vale a pena permanecer neste mundo.
Talvez isso explique porque as pessoas estejam vivendo mais e mais bonitas, mas o consumo de anti-depressivo, barbituricos, soníferos, calmantes, bebidas alcóolicas e outras drogas está tão alto. Talvez isso explique porque os analistas estão ganhando tanto dinheiro.
Eu? Abrir mão do meu prazer só para não envelhecer? Tô fora!


Me deixa ficar velhinho assoviando, porra!


* Ah, e quanto à música? É o clássico do jazz, Blusette, com o graaaaaande Quincy Jones.





Marcadores:

Domingo, Março 30, 2008

Línguas


Este post nasceu de uma conversa que tive recentemente.
Outro dia, fui almoçar com uma amiga, que trabalha na seleção de recursos humanos de uma empresa,digamos, top de linha. O assunto não foi necessariamente sobre, mas falamos muito sobre nossos trabalhos.
Ela me disse estar selecionando apenas candidatos jovens e que sejam fluentes em, no mínimo, três idiomas, sendo o inglês, obrigatoriamente, um deles.
Voltei pra casa tentando não deixar a auto-estima cair, já que só falo dois idiomas e estou prestes a completar quarenta e nove verões.
Na verdade, as grandes empresas atualmente não estão mais selecionando e, sim, excluindo. A competição é cruel, os empregos se transformam em objetos cada vez mais raros e o número de candidatos aumentam a cada dia. Por isso, as exigências tendem mesmo a crescer.
Saber falar um idioma - além de falar bem a sua própria língua - é um dever de todos os que querem sobreviver no mercado. De preferência o inglês.
Mas existe uma outra língua que acho fundamental.
E acabei me recordando de um fato que me ocorreu há muitos anos, mais precisamente na noite de sexta-feira, 19 de abril de 1991.
Um dos maiores amigos que tive na vida era um cara chamado Alberto. Gente da melhor qualidade. Costumávamos nos encontrar para o happy hours animadíssimas, mas não muito longos, porque o Alberto era o que se chama hoje de workaholic.
Pior do que o Alberto era o Francisco, outro amigo nosso. Nunca tinha hora para sair do trabalho, levava serviço pra casa e nunca tinha tempo para um chope. Falávamos somente por telefone.
Por isso, naquela noite achei um milagre dos céus quando o Chico aceitou o convite para sair conosco.
Fomos para um bar no Centro e ficamos horas bebendo e dando muitas risadas. Betão e Chico estavam surpreendentemente relaxados e não olharam para o relógio em nem um momento.
Estranhamente, quando chegou lá pela uma e meia da manhã, falei que iria embora. O sábado seria de sol no Rio e eu queria pegar uma praia. Quando deixamos o bar, mais um milagre: a mulher do Chico havia acabado de chegar da europa e ele insistiu para que fôssemos a sua casa ver as fotos e conversar mais. E aconteceu outro milagre: o Alberto quis ir. E eu, o mais light dos três falei que precisava ir dormir, numa total inversão de papéis.
Nesse caso, o Alberto decidiu voltar comigo. Estávamos sem carro e ficamos procurando táxi. o Centro do Rio era mais deserto naquela época e os táxis não apareciam. Sugeri que fôssemos para a Rio Branco, onde as chances de encontrar um amarelinho seriam maiores. O Alberto insistiu em ficar parado num ponto, a espera de um ônibus.
"Relaxa, cara! Vamos ficar aqui botando a conversa em dia."
Eu não reconhecia o Alberto naquela noite.
E quando, dias depois, o Chico me ligou para dar a notícia da morte do nosso grande amigo, num trágico acidente de carro, a primeira coisa que veio a minha mente foi o seu estranho comportamento naquela noite. E a ficha caiu: era a vida, com o seu idioma muito sutil, me pedindo para que eu aproveitasse aquela que seria a última noite em sua companhia.
As empresas já há algum tempo descobriram que a intuição pode ser um instrumento valioso na guerra do mercado. Não é a toa que as mulheres estão ocupando cada vez mais cargos executivos. Mas parece que, ao contratarem, ainda não estão levando muito em conta as noções deste idioma, que é o mais difícil de todos e só se adquire com a experiência. Experiência essa que eu não tinha naquela noite de sexta-feira, 19/04/91.
É lógico que ainda não há um teste para se apurar a capacidade intuitiva do candidato, mas acredito que alguém com mais de quarenta tenha mais intimidade com essa linguagem tão pouco conhecida e que nenhum cursinho ensina.
E do alto dos meus quarenta e nove anos, tenho dito.

Marcadores:

Sexta-feira, Março 14, 2008

Falou e disse


"As únicas prostitutas que conheço são os lobistas."
Palavras de David Alexander Paterson, o primeiro negro a governar o estado de Nova Iorque, ao tomar posse, referindo-se ao escândalo que derrubou seu atecessor, Eliot Spitzer, envolvido com uma rede de prostituição.
Paterson teria o meu voto. Não por ele ter dado uma de bom moço. Pelo contrário. Foi por ele admitir, pelo menos, ter contato com lobistas. Enquanto a maioria dos políticos brasileiros agem como coroinhas de igrejas.

Marcadores:

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

Profundidade




"A sinceridade é o único tabu que ainda sobrevive. Ser sincero ainda choca."


Domingos de Oliveira, dramaturgo carioca.




Porque não há nada como ler ou ouvir algo inteligente neste mundo cada vez mais medíocre .




A voz do povo é a voz de Deus. A quarta edição já está rolando. E obrigado a todos que me deram aquela força. Peça o seu pelo juliocorrea19@gmail.com

Marcadores:

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

Personagem de filme

Não vou encher o saco de vocês, fazendo balanço de 2007. Se foi ou não foi bom para mim, acho que que não é de interesse de ninguém.
Mas um dos fatos mais chatos ocorridos no ano que acabou de acabar foi que roubaram a minha bike. A minha pretinha.
Quem freqüenta este blog há mais tempo sabe da minha paixão por pedaladas. E deve imaginar como me senti ao ver aquele poste vazio, onde antes a minha pretinha estava presa a minha espera.
No dia seguinte, comprei outra pretinha. Esta aí de cima, fazendo pose para ser fotografada. Para testá-la, acordei cheio de gás ontem, primeiro do ano, e subi ao Mirante Dona Marta.

2008 amanheceu meio esquisito, nevoento, abafado. O Mirante estava vazio, nem sombra de turistas. E pude aproveitar melhor a vista. Pode parecer clichê, mas era como se a cidade fosse só minha.

A minha nova pretinha passou no teste, se comportou bem. Mas não subustuirá jamais a falecida, companheira de tantas aventuras...



Espero que estejam tratando da minha pretinha com o mesmo carinho com que sempre a tratei.


E o passeio ainda teve direito a uma parada no Largo do Boticário, no Cosme Velho. Pequeno paraíso arquitetônico com chão de pé-de-moleque e ar de cidade histórica mineira, no coração da zona sul.


2008 começou...suado.

"Mas toda essa choradeira é para falar de qual filme, porra?!", você me pergunta...

O olhar desolado do trabalhador após perder sua bike, no clássico de Victorio de Cicca, Ladrão de Bicicletas, de 1948. Foi nele que pensei quando vi aquele poste vazio. Embora o motivo da desolação fosse totalmente diferente. O italiano por ter precisar da bike para sobreviver; eu por ser um materialista chato e piegas que enche o saco de vocês por ter perdido uma bike. A vida continua!

Mas que desse filme eu não queria ser personagem, isso é verdade.

Marcadores:

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Sangue em Los Angeles

Poderia ser mas não se trata de título de filme do Brian de Palma - que aliás acabou mesmo de estrear novo trabalho nos EUA -, baseado em livro do Elmore Leonard e roteiro de Quentin Tarantino.
É que o bicho anda pegando na Cidade dos Anjos e esse mês de novembro tem sido particularmente violento. O jornal Los Angeles Times abriu um blog para relatar cada morte violenta acontecida na cidade.
É uma emocionante prova do poder que os blogs estão tendo hoje. E tem gente ainda fazendo deles um diariozinho.

Marcadores:

Quinta-feira, Novembro 15, 2007

Sou f... mas tenho estilo


Nos idos dos anos 70 eu tive um estilo de vida assim meio...hippie. Carregava pesadas mochilas de lona pelas estradas, pedia carona, viajava em traseiras de caminhões, pedia dinheiro nas ruas e dormi muito em bancos de rodoviárias. E não estava sozinho. Muitos da minha geração embarcaram na onda da geração anterior que acreditava na possibilidade de um modo alternativo de vida.



Porém, essa minha fase teve seu prazo de validade, lógico.

Mas o sonho de levar uma vida fora dos padrões comuns parece atravessar as gerações. E o site espanhol Ziza resolveu fazer arte, fotografando vários destes outsiders em diversas cidades norte-americanas. Dica do blog da Luiza Voll. Infelizmente o site espanhol os chama de vagabundos. Mas creio que eles sejam mais do que isso.




Eles estão em praticamente todas as grandes cidades dos EUA. Muitos são ex ou atuais viciados. São excluídos do mercado de trabalho ou do mercado imobiliário. Vivem em parques, casas abandonadas, nas calçadas, traillers ou em qualquer buraco. Comem e vestem o que encontram ou fabricam suas próprias roupas, ganham trocados pedindo ou tocando música ou fazendo pequenos serviços. Geralmente são pacíficos e não dão trabalho a polícia.

Aparentemente parecem mendigos, mas o que os difere dos demais homeless é que eles têm um estilo de vida. E nem todos estão nessa vida por falta de alternativa. Como eu, há mais de 30 anos, acreditam num outro modo de vida, diferente do que a sociedade impõe. E riem daqueles que acham que esse sonho acabou.
Estilo é sinônimo de diguinidade, na minha opinião. E isso eles têm de sobra.



Ecologistas e pacifistas, muitos desses supostos vagabundos, defendem causas, mas ao contrário dos seus antepassados, eles não acreditam na possibilidade de uma vida alternativa. Eles criaram uma.


E, por isso, vagabundos ou não, merecem o meu respeito, assim como qualquer um que luta pelo seu sonho.

Marcadores:

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Da Bandidagem Pobre à Tropa de Elite


Há dois sábados atrás, estive no ensaio da minha querida Mangueira. Era noite da escolha de samba e já viu...quadra lotada, alguns famosos, calor e expectativa. Com o dia já clareando foi anunciado o vencedor dos quatro sambas concorrentes. Eram dois mediocres, um bom e um excelente. Ganhou o bom. Voltei para casa decepcionado.


No dia seguinte, a surpresa: soube através dos jornais que um dos compositores do samba vencedor era um tal de Tuchinha, que cumpria pena por tráfico e estava em liberdade condicional.
Imediatamente muitas vozes foram ouvidas dizendo: "Mas que preconceito! Só porque o cara é marginal não poderia ganhar?" Claro que poderia. Mas isso me fez lembrar do olhar complascente que a muitos brasileiros costuma ter com os que estão a margem da sociedade.


Não sei como isso começou, não sei se foi sempre assim. Mas vou partir dos anos 60, quando uma geração idealista acreditava que os marginais eram pobres criaturas que estavam no crime por falta de oportunidade. Em muitos casos, isso é uma verdade. Mas o que nem sempre se tem em mente é que o dificuldades financeiras não justificam o crime.


A foto lá de cima mostra o painel pintado pelo saudoso artista plático Hélio Oiticica, um dos baluartes do movimento tropicalista. Ele é uma homenagem ao Cara de Cavalo, um ladrãozinho medíocre, que assaltava na calada da noite e roubava marmita de trabalhador. O Cara teve a sorte de matar o inspetor Le Cocq, um dos criadores do Esquadrão da Morte. Isso aconteceu em 1964, logo após a Revolução e a esquerda festejou o fato, promovendo o bandido a herói.


Cara de Cavalo foi morto com dezenas de tiros por policiais civis que haviam jurado vingança. Hélio fez Bólide 18-B-331 - o painel da foto - em homenagem a ele. Quando Gil e Caetano foram presos na boate Sucata, no Rio, em dezembro de 1968, dias após a decretação do AI-5, a obra estava decorando uma das paredes da casa de espetáculos, exibindo como uma bandeira contra a repressão policial e, logo, contra o governo militar.


E assim foi durante anos. A obra de Oiticica foi esquecida, mas o idealimso contido nela permaneceu. O governo militar se foi, a esquerda assumiu o poder. Leonel Brizola foi eleito governador do Rio, em 1982, instalando o que chamou de "socialismo moreno", desaparelhando a polícia, impedindo incursões em morros e punindo severamente policiais acusados de atos violentos. O, então, delegado, e hoje deputado estadual Sivuca, foi quase linchado pela esquerda quando disse em uma entrevista a sua famosa frase: "Bandido bom é bandido morto." O mal que Brizola fez à polícia carioca até hoje é sentido. Justamente quando a primeira grande facção criminosa do estado, Comando Vermelho, crescia e bandidos perigosos como Escadinha desafiavam a polícia, o governador cortou verbas destinadas a segurança, o que fez com que tanto a civil quanto a militar se transformassem em policias de fantoche, anos luz atrás da bandidagem em ternos de poderio de fogo. Um retrocesso que até hoje não conseguimos reverter.


Mas foi justamente por aí que a coisa começou a mudar. Acho que, antes da revolução tecnológica, o mundo está vivendo hoje uma transformação moral e ideológica que há muito tempo não se via. O que parecia ser certo, justo e bonito no passado, está sendo revisto. E parece que todas as tolices pregadas nos anos 60 finalmente estão começando a desmoronar.


Quando vi o presidente Lula declarar "que a polícia não pode receber os bandidos com flores", referindo-se a participação da Força Nacional, criada em seu governo, em ações violentas, em conjunto com a PM carioca, quase dei uma gargalhada. E quando vejo o sucesso de Tropa de Elite nos cinemas, cada vez mais entendo que times they are changin´, como dizia Bob Dylan, justamente nos inocentes anos 60, que estão começando a desabar.
Voltando ao ensaio da Mangueira, Tuchinha é um bom compositor, mas estando em liberdade condicional, não poderia estar às cinco da manhã defendendo um samba em lugar público. Isso é fato. Como é fato também que uma polícia que está em guerra, não pode colocar em primeiro lugar os direitos humanos. Guerra é guerra. Tráfico de drogas e violência urbana existe em Recife, em Salvador, em São Paulo, em Porto Alegre, em Buenos Aires, em Los Angeles, em Paris, em Londres, em Nova Iorque ou em Roma. No Rio, existe guerra.


Nossa polícia não é santa e tem que ser fiscalizada para que não cometa excessos. Bandido merece justiça e não bala. BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO...DE MEDO DA POLÍCIA. E absurdos como os Esquadrões da Morte são tão nocissos quanto a idiotice do "socialimsmo moreno", porque afasta a opinião pública da polícia e Tropa de Elite veio mostrar o quanto isso é importante.


Moro no bairro do Flamengo e quando vou dar as minhas pedaladas pelo Parque, freqüentemente os homens do BOPE, cujo quartel fica há uns cinco quilômetros de onde moro, estão fazendo sua corrida matinal. Não é muito raro alguém bater palmas e gritar-lhes palavras de encorajamento. Por quê? Volte ao início e leia tudo de novo.



Povo na Mangueira festejando o samba vencedor, composto por um condenado em liberdade condicional.



Eu e o Antônio Parente, meu amigo de samba, horas antes da decepção na Mangueira.

Marcadores:

Segunda-feira, Outubro 29, 2007

Bebês X Criminalidade

Foto by Sick Love



Ainda está dando o que falar as declarações do governador do Rio, Sérgio Cabral, na última semana. O que o excelentíssimo governador falou? Simplesmente o que venho pregando há mais de dez anos: a necessidade do controle da natalidade. Quem costuma levar bala aqui há mais tempo sabe que não estou mentindo. Cheguei até a propor uma campanha do tipo FILHO É PRA QUEM PODE. Em algum ponto de 2006 eu fiz um post sobre o assunto, que gerou uma polêmica danada.
Já durante a campanha eleitoral, o atual governador fluminense já havia batido nessa tecla, mas como não costumo dar crédito ao que os políticos dizem nas campanhas, ignorei. Pois eis que na semana passada, numa entrevista Sérgio Cabral soltou a pérola de que para se combater a violência no estado seria necessário se conter a natalidade nas regiões pobres. Sérgio foi mais longe e confessou ser a favor do aborto para conter o avanço da população miserável. Também sou a favor do aborto, mas não o usaria como arma contra a violência. Mas entendo o que o governador quis dizer. Ele, na verdade, pensa exatamente como já coloquei aqui: o combate da violência passa obrigatoriamente pelo controle da natalidade.


O presidente da OAB/Rio achou um absurdo, apesar de ser a favor do aborto como controle da natalidade. O prefeito Cesar Maia disse que Cabral não deveria ser levado a sério. Por quê? Por que quando alguém diz uma coisa tão lúcida é visto como absurdo ou piada? Talvez o presidente da OAB esteja defendendo o ganha-pão dos seus filiados, que irão amanhã tentar tirar das grades os futuros traficantes, arrombadores, puxadores de carro, assaltantes, estupradores ou seqüestradores que essas mulheres pobres estão gerando hoje. Talvez o prefeito esteja defendendo o seu projeto de reeleição, já que o pessoal das favelas compõem a larga maioria dos seus eleitores. Mas Cabral é um político e a pressão foi tão grande que dias mais tarde ele meio que amarelou e disse que "não sou a favor do aborto, mas para combater a violência defendo a pratica do mesmo."


A verdade é que não há futuro para essas crianças. Já está difícil para a classe média! O país não está crescendo com a mesma velocidade com a qual esses casais de baixa renda estão indo pra cama, sem tomar nenhuma precaução. Basta ir a um baile funk numa favela para ver meninas transando, muitas vezes, até com três caras numa noite. Assim, nunca haverá escola, hospital, moradia, segurança e emprego suficiente.


Não concorda? Mande bala.

Marcadores:

Terça-feira, Outubro 23, 2007

Sua vaca!!!!!!!!!

Vila dos Remédios - Fernando de Noronha


Muito cuidado quando tentar ofender uma mulher com o título deste post, pois o efeito pode ser contrário. Isso depois que a exposição Cow Parade espalhou cerca de cem esculturas do mamífero em fibra de vidro pela cidade.
E há algumas semanas o Rio esqueceu seus problemas para curtir as vaquinhas espalhadas de norte a sul. Pais fotografando seus filhos, turistas maravilhados, gente colecionando fotos, jornais promovendo concursos para eleger a melhor vaca e cariocas apaixonados pelos trabalhos de vários artistas, que já foram expostos em 37 países. Numa cidade violenta e mal educada, como era de se esperar, algumas vaquinhas foram abatidas em combate, mas até que o número de vítimas não foi tão maior quanto nas cidades por onde a parada passou.

O Rio está apaixonado pelas mimosas, que parecem já integradas à paisagem da cidade. E ao ver tamanha demonstração de afeto e civilidade em relação aos trabalhos, chego até a pensar que esta cidade tem salvação.

E hoje pela manhã até eu não resisti em clicar uma mimosa. Algumas vacas passaram pela minha vida. Mas nenhuma foi tão thcuthcuca.

Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! Vaca no meio do povo, na Cinelândia.

Marcadores:

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Que povo é esse?


Imperdível o artigo de capa da Época que está nas bancas. O assunto ainda é o assalto sofrido pelo apresentador Luciano Hulck, em São Paulo, no qual um relógio rolex foi levado. Pois uma pesquisa feita logo após o incidente mostrou que a maioria dos entrevistados achavam que Hulck foi culpado por andar com objeto tão caro num país pobre, que era um absurdo se ter um rolex num país com tanta miséria, que era uma provocação ostentar tanto, etc e tal.
Mas que povo é esse que é capaz de eleger políticos que promovem verdadeiro saque, verdadeiros arrastões na verba pública e condena um trabalhador bem sucedido de usar o fruto do seu sucesso?
Já está mais do que na hora deste país fazer uma auto-avaliação e ver onde está o seu verdadeiro inimigo.

Marcadores:

Segunda-feira, Outubro 15, 2007

O MP3 não morreu

Foto by Cantabrigensis


Iniciei o meu contato com a web em 1999. E me lembro como, logo depois, o mundo assombrou-se (e varavilhou-se) com o Napster, onde se podia baixar livremente qualquer tipo de música gratuitamente. Naturalmente foi uma revolução no meio musical. As gravadoras e alguns artistas não gostaram, o Napster e outros sites de compartilhamento de músicas do tipo MP3 foram parar na justiça nos EUA e MP3 grátis começou ser coisa rara. Mesmo porque os americanos passaram a ficar com medo, quando as primeiras sentenças judiciais começaram a chegar nas casas, não dos donos dos sites, mas dos usuários. Na semana passada, por exemplo, uma muher foi condenada a pagar mais de 100 mil dólares por ter baixado mais de mil músicas. E segundo a Recording Industry Assossiation of America - a temida RIAA - , outras 29 mil pessoas deverão receber a mesma sentença nos próximos meses.
Mas ainda o MP3 ainda resiste bravamente. O Digitalachemy ofereceu uma lista de dez sites que ainda oferecem este serviço. Eu não tenho saco e nem tempo para ficar procurando música na web, mas quem estiver interessado, mergulhe aqui.

Marcadores:

Sábado, Setembro 15, 2007

Ô coisinha tão bonitinha do pai!


Eu estava em NY no dia em que foram lançado os novos modelos de ipod da Apple. Como eu estava precisando mesmo de mais capacidade de armazenamento, tive que enfrentar a fila da filial Soho e depois de lutar com vários japoneses, geeks alucinados, nerds desesperados e outros turistas descabelados, consegui o meu exemplar.
E o que mudou no ipod? Quase nada. Não sei se é impressão minha, mas o som ficou um pouco melhor. Além disso o aparelinho pode exibir vídeos e tem uma série de utilitários que fornecem a hora, notícias e a previsão do tempo.
Além do modelo que comprei - o Ipod Classic -, a Apple lançou o Touch, que parece que opera através de toques no visor.
Mas o que há por trás desses novos lançamentos?
Uma grande sacanagem. A poderosa Apple não está aperfeiçoando seus modelos porque é boazinha. Mas porque quer se redimir do que ela fez com os usuários do Iphone, lançado em julho, ao preço de 500 dólares.
Pois bem, na ocasião das liquidações do dia do trabalho - 1 de setembro -, o aparelho passou a ser comercializado a menos de U$ 300. Os usuários gritaram, com toda razão. E como lá a opinião pública é respeitada, a poderosa resolveu dar uma de boa moça. Quem comprou o modelo vermelho, como o meu, estará dando uma parte para campanhas de combate a AIDS na África, por exemplo. Além disso, a empresa gastou alguns milhares de dólares em propagandas, para pedir desculpas aos apressadinhos que adquiriram o Iphone por quinhentos mangos. Esses também terão bonus em horas de ligação nos seus aprarelhos. Nesse mês de setembro a Apple está organizando nas suas duas lojas em Nova Iorque uma série de palestras e workshops interessantes que vão desde temas como astrologia até depoimentos de artistas sobre sua relação com a web e workshops sobre como otimizar o uso do Iphone e ipods. Quem estiver por lá no próximo dia 26, por exemplo, poderá conferir na loja do Soho, o famoso fotógrafo novaiorquino Jake Dobkin conversando sobre blogs e, é claro,fotografias.
Nessa tentativa de recuperar a simpatia do público, é o próprio público quem está saindo ganhando. Mas não podemos ser inocentes. Por trás disso tudo, também há o medo da empresa de que o Ipod vire obra de museu, já que o Iphone oferece os mesmos serviço de armazenamento, a um preço um pouco maior.
De qualquer forma, eu presenciei a choradeira da opinião pública na mídia nos dias em que estive lá. Foi um escândalo, não se falava em outra coisa.
Coisa de povinho ainda primitivo em termos de escândalos. Se tivessem um Renan Calheiros não fariam tanto barulho.
* No próximo post, fotos e comentários sobre a viagem. Eu prometo.

Marcadores:

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

Quem tem medo do BOPE?

Nem o BOPE escapa da pirataria. Triste foto tirada lá da matéria do Leo Lima, no Overmundo.

Há 30 anos, o furacão punk ainda fazia estragos na Grã Betanha.
Dias antes da Inglaterra comemorar o jubileu de prata da Rainha Elizabeth, quatro dos seus súditos, muito mal criados, a chamavam de cretina e fascista, na música God Save The Queen.
Diante do desaforo, o governo inglês proibiu que a música tocasse nas rádios e os Sex Pistols, que a interpretavam, foram proibidos de se apresentarem em todo território inglês. As lojas de discos também foram proibidas de vender o disquinho atrevido.
Mas para horror de sua majestade, mesmo com toda essa proibição, o compacto raivoso dos Pistols chegou em primeiro lugar na parada inglesa, graças a divulgação feita boca-à-boca e à imensa rede organizada no mercado negro, no submundo punk, para a sua comercialização.
Para amenizar um pouco o constrangimento da rainha, o fato foi proibido de ser divulgado. Então, na primeira semana de julho de 1977, os ingleses ficaram atônitos ao olharem para a lista dos mais vendidos e encontrarem uma tarja preta no primeiro lugar. Pela primeira vez na história da música, o disco mais vendido era uma tarja preta, ou seja, não podia ser anunciado.

Trinta anos depois, coisa semelhante está ocorrendo aqui no Rio - guardadas as devidas proporções, é claro.
Tudo começou no início desse ano, quando foi lançado um pequeno vídeo mostrando o dia-a-dia da tropa de elite da PM do Rio, o BOPE. Tiroteios, cadáveres, armamento pesado, muito sangue. Tudo era mostrado em ritimo de vídeo clipe. Só que tudo real. Violência para todos os gostos. Mas o mais chocante era a trilha sonora, onde um rap afirmava tudo que os policiais faziam com os bandidos para manter a cidade livre deles.

O BOPE vai te pegar!

Cantava uma voz cavernosa no refrão principal.
A Polícia Militar não gostou e mandou recolher cópias de CDs piratas que haviam caído nas mãos do mercado negro dos camelôs. Para piorar, o vídeo foi parar no Youtube e acabaria sendo tirado do ar, após muita polêmica.
E como polêmica, quase sempre, é sinônimo de sucesso, o trabalho do BOPE virou um documentário, sob a assinatura de Tulé Peak, Daniel Rezende e Bráulio Mantovani, os mesmos que produziram o formidável Cidade de Deus.
O filme está para estreiar, mas há tempos o mercado negro dos cemelôs já o comercializa em cópias piratas. E pelo que sei, está vendendo como água.

Qual o motivo de tanto sucesso? A qualidade do filme? Pelos trechos que assisti no YT, nem tanto.

Na verdade, Trope de Elite está bombando pelo mesmo motivo que levou God Save The Queen ao topo da parada inglesa há trinta anos. Naquela época a Inglaterra viva uma forte recessão econômica, com uma inflação insistente e um desemprego cruel. Logo, não havia sentido em se gastar milhões de libras com uma festa para a rainha. A revolta da juventude proletária - a maior vítima da recessão - fez com que o disquinho dos Sex Pistols bombasse e não a qualidade musical da banda.

Infelizmente Tropa de Elite está fazendo sucesso através da pirataria, prática que eu condeno da mesma forma que condeno o tráfico de drogas. Mas ninguém suporta mais a violência no Rio, assim como ninguém suporta mais campanhas pela paz ou discursos demagógicos. E ver a polícia exterminamdo bandidos parece ser o desejo de nove entre dez cariocas.

Por isso o BOPE já pegou.

Marcadores:

Sábado, Agosto 04, 2007

Ambulantes


"O novo Reri Póter aqui! O novo Reri Póter é aqui comigo! Olha que se ninguém comprar eu conto o final, hein!"
Ambulante vendendo cópias piratas da nova e última aventura do bruxinho britânico, já o mais vendido no mundo inteiro, na rua Uruguaiana, centro do Rio, na última quinta-feira.

Marcadores:

Terça-feira, Julho 31, 2007

O Inimigo Número Um dos Blogueiros


Nome: Andrew Keen.
Idade: 46.
Nacionalidade: Inglês.
Profissão: Historiador/escritor.
Currículum vitae: ex-mestre nas universidades de Berckey e Massachusetts, nos EUA. Foi um dos primeiros moradores no Vale do Silicio, a região quase que exclusiva para feras da informática e foi um dos pioneiros da web.
Hobby: Criticar a internet.
Em seu mais novo trabalho, lançado há pouco na Inglaterra e sem previsão de sair por aqui, The cult of the amateur: How today's internet is killing our culture, ele fala horrores de mim. Aliás, de você também. Dos blogueiros em geral. Por isso blogueiros do mundo todo querem sua cabeça.
Mesmo sem ter lido o livro, já odeio este homem. Por que sou blogueiro e porque sei que no fundo, bem lá no fundo, beeeeeeeeeeeeeeem lá no fundo, ele está certo.

Marcadores:

Domingo, Julho 29, 2007

O crepúsculo da Vergonha






A Sra. Vergonhanacara era gorda e usava um antipático tallier cinza.
Carregava um bolsa de colo preta e tinha os
cabelos presos num coque ridículo.
Tão austera e grave quanto a sua aparência era a sua voz.
Alta e opressora. Treinada exaustivamente para
constranger. E ela era muito boa nisso.






Não era a melhor época para isso, mas nos conhecemos no natal de 1967. Eu tinha acabado de completar oito anos e tinha pedido ao meu pai um autormama, o brinquedo mais cobiçado pela garotada da época. Éramos uma pacata família de classe média baixa e morávamos em um simples apartamento no subúrbio do Lins de Vasconcelos. Autorama era um brinquedo caro e meu pai não teve vergonha de me dizer que não poderia comprá-lo. Naquela época garotos de oito anos eram muito mais incocentes dos que os de oito anos de hoje e costumávamos nos decepcionar com coisas tolas. Eu pedi, então, de presente um Forte Apache que eu havia visto num comercial da Estrela. Só que o comercial mostrava o brinquedo em tamanho grande e acabei ganhando o menor. Nova decepção.


Havíamos aceitado o convite para passarmos a noite de natal na casa de uns tios, na Tijuca. Esse tio era um alto funcionário do Ministério da Fazenda. Eles tinham quatro filhos e um deles era o Ronaldo, um pouco mais novo do que eu. A situação financeira deles era muito superior a nossa.


E eis a minha surpresa quando chego na casa desses meus tios, encontro o meu primo brincando com um lindo Forte Apache tanhanho família, com muito mais soldados, índios e cavalos. Nova decepção. E uma inveja horrorosa.


Garotos de oito anos costumam ter invejas horrorosas e podem ser cruéis. Então, sem que ninguém percebesse, peguei alguns soldadinhos e escondi dentro do sapato. Eu tinha consciência do que havia feito, sabia que estava fazendo algo errado. Mas "Pô! O Ronaldo tem muito mais brinquedo e mais dinheiro também, podia comprar mais soldados, pôxa!"


Mas ao voltarmos para casa, os soldadinhos começaram a machucar os meus pés e minha mãe estranhou o fato de eu estar mancando. Quando chegamos, ela me levou para o quarto e iniciou o seu sermão de mãe assim que me fez descalçar os instrumentos de ocultação do crime.


Não tínhamos telefone na época. Nos anos 60 ter telefone significava esperar meses até que um plano de expansão da Telerj fosse aberto em seu bairro e depois esperar mais alguns meses até a instalação. Mas sempre havia um vizinho prestativo para nos servir. O nosso era uma viúva chamada Dona Zara, que morava no primeiro andar com seus dois filhos.


E lá estavam os quatro, quando minha mãe me levou para telefonar para os meus tios para pedir desculpas e dizer que na manhã seguinte iríamos lá devolver os brinquedos.


Eu disse que estavam os quatro? Sim, além da viúva e seus filhos, lá estava ela. Com seu tallier antipático e sua bolsinha de colo. Magnânima, corpulhenta e opressora.


"Muito prazer. Ainda não nos conhecemos. Pode me chamar de vergonha.", ela gritou, enquanto eu ouvia a minha mãe contar para os meus tios, pelo telefone, o que eu havia feito.


"Eu só queria...eu só queria...", comecei a falar, evitando olhar para a viúva e seus filhos.


"Não adianta, meu querido. Não adianta se justificar. Eu não vou embora. Aliás, a partir de hoje estarei sempre por perto, sempre pronta para entrar em ação quando for necessário. Ha-ha-ha-ha-ha-ha!!!!!"


E soltou sua gargalhada pavorosa, enquanto eu sentia o oxigênio fugir das minhas narinas.


Mas na última semana me dei conta de que há ela mentiu pra mim. Ela não anda mais perto de mim. Nem me lembro qual foi o último contato que tive com essa senhora. Simplesmente porque depois de tantos contatos traumáticos, acho que desenvolvi algum mecanismo psicológico que me avisa sempre que a incômoda senhora está prestes a entrar em ação.

Mas não pense que a nossa convivência foi pacífica. Ela foi um grande tormento na minha adolescência. Não sei quantas experiências ou aventuras maravilhosas ela me impossibilitou de ter, sempre me reprimindo. Mas isso foi antes de eu ter consciência de que tudo na vida tem um lado ruim. E esse era o lado negro daquela senhora.

Nos último dias tenho pensado muito nela. Por onde anda? O que tem feito? Quantos infelizes deverá estar atormentando?

Conversando com um e outro, fui obtendo informações. E as notícias não foram nada boas. Parece que a Sra. Vergonha está prestes a se aposentar. Ganhando uma ninharia, mora de aluguel numa vila triste, em algum lugar na Baixada Fluminense. Envelheceu, emagreceu, encolheu. Está hipertensa, cardíaca, depressiva, diabética, com as varizes estufadas e a coluna rebelde.

Fiquei sabendo também que suas atividades estão cada vez mais reduzidas. Parece que a velha senhora não tem assustado muita gente. As pessoas riem dela, é ridicularizada pelos mais jovens e agredida pelos mais velhos. As crianças dão gargalhadas quando ela aparece, enquanto os seus pais nada fazem para impedi-las. E ela ainda tem que ouvi-los dizer: "Não quero que meus filhos repitam o meu erro. Fui dar ouvidos a você e veja o que aconteceu comigo. Fui passado para trás por gente que sempre lhe desprezou."

E lá ia a velha senhora, murcha, feia e acabada, servindo de chacota para debochados e cínicos. Em alguns lugares atiravam-lhe coisas.

Sozinha, velha e doente, a Vergonha parece estar mesmo com os dias contados. Soube que suas duas irmãs, a Ética e a Moral, as únicas que podiam ajudá-la, também estavam mal das pernas, jogadas em asilos, definhando às custas do INSS.

O que teria sido de mim se não houvesse a conhecido naquele natal?

Sinceramente, não sei. Prefiro responder com outra pergunta: O que seria do mundo sem ela?

Penso no mundo como um grande Orfanato e a Vergonha seria uma espécie de Madre Superiora a nos punir sempre que burlamos as leis das nossa própria moral. Sim, porque ela só amedronta aqueles que conhecem a dignidade, o respeito e a descência. Porque os que não os conhecem, tendem apenas a ignorá-la. Se eu, lá no fundo, não tivesse consciência de que estava realmente fazendo algo errado, teria mostrado o dedo para aquela mulher gorda e repressora e sabe-se lá o que estaria escondendo dentro dos meus bolsos hoje.


Talvez a missão desta velha morimbunda seja nos confrontar com as nossas verdades, com os nossos valores. E os nossos valores não podem ter realmente algum valor se for contra os interesses dos outros. Acho que esse sempre foi o nobre trabalho dessa senhora que está em sua fase crepuscular. Evitar que entremos em conflito, não com leis, sociedade ou justiça, mas com nós mesmos. Um conflito em que sempre saimos perdendo.


Todas essas reflexões sobre essa velha senhora surgiram após ler isso aqui. Um pequeno/grande texto que será uma vergonha você não ler.

Marcadores: