Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Mãe


A mãe desceu de manhã, quando estávamos desfazendo o cerco ao Morro da Providência. Miúda, sofrida, sob o sol do verão. Pequenas gotículas de suor brilhavam como purpurina em sua pele morena. Passava silenciosa e inofensiva por entre as equipes da CORE e do BOPE. Nenhum dos homens notou a presença dela. Porque ela não era para ser notada mesmo. Em sua sacola de magazine barato poderia haver drogas ou armas. Mas policiais de equipes especiais são ambiciosos e não havíamos acordado cedo e nos arriscado num morro perigoso apenas para prender uma velhinha que estava complementando sua aposentadoria, vendendo alguns bagulhos.
Eu fui a única exceção. Fiquei observando a mãe circulando por entre os policiais, a cabeça voltada para o asfalto quente. Eu, naquela época, já estava passando a barreira dos trinta anos de polícia e sempre achei que quanto mais experiente, mais o policial fica feminino. Pelo menos no que diz respeito à intuição. E nesse ponto, eu sou uma vagabunda esperta, rápida e eficiente. Não tive dúvida de que aquela mãe era uma mula.
Cheguei a achar graça da sua coragem em circular no meio das equipes com o bagulho. Muito cara de pau!, pensei, enquanto não fazia o menor esforço para impedi-la. Embora, algo dentro de mim, dissesse que eu estava errado.
Meu Anjo da Guarda: “Cumpra o seu dever, meu filho.”
Meu Demônio: “O caralho! Prender a tia por quê?”
Enquanto via a mãe cruzando pelo meio das equipes, fazendo com que policiais fortemente armados lhe dessem passagem, eu me perguntava qual dos dois teria razão.
Por isso senti um certo alívio quando o cão farejador de um jovem soldado da PM passou a se projetar para cima dela. O soldado tinha o cão preso a uma coleira. Um veterano repreenderia o animal por importunar uma pobre senhora. Mas tratava-se de um jovem com poucos anos de polícia e que queria mostrar serviço. Ele abordou a mãe e descobriu os nove papelotes de coca. E mais: cocaína pura!
Aproximei-me do cerco de policiais que se formou em volta da velha. Mais de trinta policiais olhavam para ela e repetiam: “Porra, que esculacho, tia! Na nossa cara!” Mas ela olhou para o único que estava em silêncio.
“Isso é para o meu filho. Ele tá jurado. Não pode mais vir buscar.”
O rosto da velha era duro e talhado, rugas profundas, de quem não sofreu pouco. Procurei algum sinal de vergonha, dor, ou qualquer sentimento. Como não encontrei nada, falei:
“Aí tem o suficiente para uma overdose.”
Nesse momento, o rosto de pedra se transformou em um de argila. Os olhinhos da mãe se encheram d´água e a velha foi sacudida por um violento soluço. Mas ela resistiu bravamente e nenhuma lágrima ousou a sair dos seus olhos.
“Eu j-já n-não agüento-to ma-mais.”
O silêncio que se fez foi impressionante. Nem a respiração dos policiais era ouvida porque ninguém parecia sequer respirar.
Pensei no meu finado filho e em todo mal que a droga havia lhe feito. E quase falei: "Não acredito que a senhora tenha pensado em fazer isso."
Sem tirar os olhos de mim, a velha sufocou outro soluço violento. E falou gritando, lutando bravamente contra um choro que ela achava não lhe ser digno:
“E por que você acha que passei no meio de vocês?”, seus olhos foram desviados de mim para o céu, por alguns segundos. Quando voltaram, havia uma lágrima trasbordando de um deles. “Deus seja louvado! Deus seja louvado por ter salvo o meu filho!”
O choro finalmente veio e veio daquele jeito que ele vem quando tentamos prendê-lo por muito tempo. Feroz, arrasador e emocionante. O jovem soldado levou a mãe para a patamo mais próxima.
Nenhum de nós ousava a dizer nada.
Juro que vi alguns policiais, com suas submetralhadoras penduradas nos ombros, enxugarem discretamente as lágrimas, como mulheres.
Mas só os melhores.

* texto postado em dezembro de 2005
Mais uma aventura do Lacerda, personagem principal do meu romance policial A Arte de Odiar, que será relançado no próximo mês. Aguardem!
Drogas e violência andam juntas e este conto está participando da blogagem coletiva contra violência, proposta pelo Lino Resende, pela passagem do dia da luta contra violência (30 de janeiro). Uma grande iniciativa que tem o meu apoio.
E acabou a moleza. A partir do próximo post, este blog volta ao normal.

20 Comments:

Anonymous Osimar Medeiros said...

A necessidade é a mãe da invenção, né meu amigo?

Intuição feminina? Perspicácia policial. Equivalentes em universos paralelos.

Abração.

Sábado, Janeiro 27, 2007 4:27:00 PM  
Anonymous DO said...

Show,JULIO. Que texto,hem!!
Uma otima semana a vc
Grande abraço!

Domingo, Janeiro 28, 2007 12:33:00 PM  
Anonymous Daniel said...

oxente, como esse texto (muito bom, por sinal) pode ser de 29 de janeiro, se hj ainda é 28?

Domingo, Janeiro 28, 2007 6:57:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Vou querer esse livro. Já estou amando as histórias do Lacerda. Beijocas

Domingo, Janeiro 28, 2007 7:31:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Julio mas estamos deleitando com as aventuras.....
boa semana
abs

Domingo, Janeiro 28, 2007 8:40:00 PM  
Anonymous Lino said...

Júlio:
Muito boa esta história do Lacerda. Um cenário perfeito e um final mais que surpreendente dão um charme todo especial ao conto.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 12:11:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Valeu, Lino. O Lacerda agradece.
gd ab

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 2:45:00 PM  
Blogger Duda Bandit said...

belo conto, cara. gostei da inversão anjo/demonio... o anjo mandando prender a velhinha e o demonio mandando deixar rolar...

tou de volta, mas meu blog ainda vai ficar umas duas semaninhas repousando...
tiver novidade eu passo aqui.

valeu, JCC!

aquele abraço!

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 3:03:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Valeu, Duda
Tamujuntusemisturadus
gd ab

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 3:21:00 PM  
Anonymous Alexandre de Sousa said...

Já está linkado companheiro!
Parabéns pelo texto.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 5:15:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Valeu, Alexandre
obrigado pela força
grande abraço

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 7:43:00 PM  
Anonymous denise said...

Eu não consegui salvar o meu...
abraço, garoto

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 8:37:00 PM  
Anonymous Marcos said...

Como uma mulherzinha boba e tricoteira, fiquei com aperto no peito.

Também tô na blogagem do Lino.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007 10:35:00 PM  
Blogger Vivien said...

Gostei do texto. Vou comprar, autografado, lógico.;0)

Terça-feira, Janeiro 30, 2007 6:40:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

GOSTARIA DE SABER SE ESSE LIVRO SERÁ VENDIDO EM SÃO PAULO TAMBÉM, POIS PRETENDO COMPRAR CONCERTEZA!

Terça-feira, Janeiro 30, 2007 7:59:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Bem, anônimo. Fique ligado, pois nos próximos post vou dar mais detalhes.
abração

Terça-feira, Janeiro 30, 2007 8:03:00 PM  
Blogger Jéssica said...

Boa noite, Julio!

Por favor anota o meu novo blog:

http://umlugargostoso.blogspot.com

Conto com você!

Obrigada, beijos*.*

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007 1:13:00 AM  
Anonymous Ursula said...

Gostei muito do seu blog, vou vir sempre.
Beijos

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007 9:38:00 AM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Volte sempre, Ursula.
bjs

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007 10:29:00 AM  
Anonymous Lino said...

Júlio:
Estou voltando para agradecer sua participação. E reafirmar a excelência do texto e da história do Lacerda, que tem tudo a ver com o assunto discutido.

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007 4:12:00 PM  

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