Mãe

A mãe desceu de manhã, quando estávamos desfazendo o cerco ao Morro da Providência. Miúda, sofrida, sob o sol do verão. Pequenas gotículas de suor brilhavam como purpurina em sua pele morena. Passava silenciosa e inofensiva por entre as equipes da CORE e do BOPE. Nenhum dos homens notou a presença dela. Porque ela não era para ser notada mesmo. Em sua sacola de magazine barato poderia haver drogas ou armas. Mas policiais de equipes especiais são ambiciosos e não havíamos acordado cedo e nos arriscado num morro perigoso apenas para prender uma velhinha que estava complementando sua aposentadoria, vendendo alguns bagulhos.
Eu fui a única exceção. Fiquei observando a mãe circulando por entre os policiais, a cabeça voltada para o asfalto quente. Eu, naquela época, já estava passando a barreira dos trinta anos de polícia e sempre achei que quanto mais experiente, mais o policial fica feminino. Pelo menos no que diz respeito à intuição. E nesse ponto, eu sou uma vagabunda esperta, rápida e eficiente. Não tive dúvida de que aquela mãe era uma mula.
Cheguei a achar graça da sua coragem em circular no meio das equipes com o bagulho. Muito cara de pau!, pensei, enquanto não fazia o menor esforço para impedi-la. Embora, algo dentro de mim, dissesse que eu estava errado.
Meu Anjo da Guarda: “Cumpra o seu dever, meu filho.”
Meu Demônio: “O caralho! Prender a tia por quê?”
Enquanto via a mãe cruzando pelo meio das equipes, fazendo com que policiais fortemente armados lhe dessem passagem, eu me perguntava qual dos dois teria razão.
Por isso senti um certo alívio quando o cão farejador de um jovem soldado da PM passou a se projetar para cima dela. O soldado tinha o cão preso a uma coleira. Um veterano repreenderia o animal por importunar uma pobre senhora. Mas tratava-se de um jovem com poucos anos de polícia e que queria mostrar serviço. Ele abordou a mãe e descobriu os nove papelotes de coca. E mais: cocaína pura!
Aproximei-me do cerco de policiais que se formou em volta da velha. Mais de trinta policiais olhavam para ela e repetiam: “Porra, que esculacho, tia! Na nossa cara!” Mas ela olhou para o único que estava em silêncio.
“Isso é para o meu filho. Ele tá jurado. Não pode mais vir buscar.”
O rosto da velha era duro e talhado, rugas profundas, de quem não sofreu pouco. Procurei algum sinal de vergonha, dor, ou qualquer sentimento. Como não encontrei nada, falei:
“Aí tem o suficiente para uma overdose.”
Nesse momento, o rosto de pedra se transformou em um de argila. Os olhinhos da mãe se encheram d´água e a velha foi sacudida por um violento soluço. Mas ela resistiu bravamente e nenhuma lágrima ousou a sair dos seus olhos.
O rosto da velha era duro e talhado, rugas profundas, de quem não sofreu pouco. Procurei algum sinal de vergonha, dor, ou qualquer sentimento. Como não encontrei nada, falei:
“Aí tem o suficiente para uma overdose.”
Nesse momento, o rosto de pedra se transformou em um de argila. Os olhinhos da mãe se encheram d´água e a velha foi sacudida por um violento soluço. Mas ela resistiu bravamente e nenhuma lágrima ousou a sair dos seus olhos.
“Eu j-já n-não agüento-to ma-mais.”
O silêncio que se fez foi impressionante. Nem a respiração dos policiais era ouvida porque ninguém parecia sequer respirar.
O silêncio que se fez foi impressionante. Nem a respiração dos policiais era ouvida porque ninguém parecia sequer respirar.
Pensei no meu finado filho e em todo mal que a droga havia lhe feito. E quase falei: "Não acredito que a senhora tenha pensado em fazer isso."
Sem tirar os olhos de mim, a velha sufocou outro soluço violento. E falou gritando, lutando bravamente contra um choro que ela achava não lhe ser digno:
“E por que você acha que passei no meio de vocês?”, seus olhos foram desviados de mim para o céu, por alguns segundos. Quando voltaram, havia uma lágrima trasbordando de um deles. “Deus seja louvado! Deus seja louvado por ter salvo o meu filho!”
O choro finalmente veio e veio daquele jeito que ele vem quando tentamos prendê-lo por muito tempo. Feroz, arrasador e emocionante. O jovem soldado levou a mãe para a patamo mais próxima.
Nenhum de nós ousava a dizer nada.
Juro que vi alguns policiais, com suas submetralhadoras penduradas nos ombros, enxugarem discretamente as lágrimas, como mulheres.
Mas só os melhores.
* texto postado em dezembro de 2005
Sem tirar os olhos de mim, a velha sufocou outro soluço violento. E falou gritando, lutando bravamente contra um choro que ela achava não lhe ser digno:
“E por que você acha que passei no meio de vocês?”, seus olhos foram desviados de mim para o céu, por alguns segundos. Quando voltaram, havia uma lágrima trasbordando de um deles. “Deus seja louvado! Deus seja louvado por ter salvo o meu filho!”
O choro finalmente veio e veio daquele jeito que ele vem quando tentamos prendê-lo por muito tempo. Feroz, arrasador e emocionante. O jovem soldado levou a mãe para a patamo mais próxima.
Nenhum de nós ousava a dizer nada.
Juro que vi alguns policiais, com suas submetralhadoras penduradas nos ombros, enxugarem discretamente as lágrimas, como mulheres.
Mas só os melhores.
* texto postado em dezembro de 2005
Mais uma aventura do Lacerda, personagem principal do meu romance policial A Arte de Odiar, que será relançado no próximo mês. Aguardem!
Drogas e violência andam juntas e este conto está participando da blogagem coletiva contra violência, proposta pelo Lino Resende, pela passagem do dia da luta contra violência (30 de janeiro). Uma grande iniciativa que tem o meu apoio.
E acabou a moleza. A partir do próximo post, este blog volta ao normal.
E acabou a moleza. A partir do próximo post, este blog volta ao normal.


20 Comments:
A necessidade é a mãe da invenção, né meu amigo?
Intuição feminina? Perspicácia policial. Equivalentes em universos paralelos.
Abração.
Show,JULIO. Que texto,hem!!
Uma otima semana a vc
Grande abraço!
oxente, como esse texto (muito bom, por sinal) pode ser de 29 de janeiro, se hj ainda é 28?
Vou querer esse livro. Já estou amando as histórias do Lacerda. Beijocas
Julio mas estamos deleitando com as aventuras.....
boa semana
abs
Júlio:
Muito boa esta história do Lacerda. Um cenário perfeito e um final mais que surpreendente dão um charme todo especial ao conto.
Valeu, Lino. O Lacerda agradece.
gd ab
belo conto, cara. gostei da inversão anjo/demonio... o anjo mandando prender a velhinha e o demonio mandando deixar rolar...
tou de volta, mas meu blog ainda vai ficar umas duas semaninhas repousando...
tiver novidade eu passo aqui.
valeu, JCC!
aquele abraço!
Valeu, Duda
Tamujuntusemisturadus
gd ab
Já está linkado companheiro!
Parabéns pelo texto.
Valeu, Alexandre
obrigado pela força
grande abraço
Eu não consegui salvar o meu...
abraço, garoto
Como uma mulherzinha boba e tricoteira, fiquei com aperto no peito.
Também tô na blogagem do Lino.
Gostei do texto. Vou comprar, autografado, lógico.;0)
GOSTARIA DE SABER SE ESSE LIVRO SERÁ VENDIDO EM SÃO PAULO TAMBÉM, POIS PRETENDO COMPRAR CONCERTEZA!
Bem, anônimo. Fique ligado, pois nos próximos post vou dar mais detalhes.
abração
Boa noite, Julio!
Por favor anota o meu novo blog:
http://umlugargostoso.blogspot.com
Conto com você!
Obrigada, beijos*.*
Gostei muito do seu blog, vou vir sempre.
Beijos
Volte sempre, Ursula.
bjs
Júlio:
Estou voltando para agradecer sua participação. E reafirmar a excelência do texto e da história do Lacerda, que tem tudo a ver com o assunto discutido.
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