Segunda-feira, Maio 19, 2008

Hienas




Veja o seguinte diálogo, em um badalado bar paulistano, numa noite de sábado:

GARÇON: "Quantos vocês são?"


GAROTA DESCOLADA, acompanhada de um grupo de amigos: "KKKKKKK, somos sete. Por quê?"

GARÇON: "Porque o bar está cheio e não temos mesa para todos vocês."


GAROTA DESCOLADA: "KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK."


GARÇON: "Vocês terão que se separar ou se apertar numa mesa lá do fundo."


GAROTA DESCOLADA: "KKKKKKKKKKKKKKKKKKK!!! Tudo bem, tudo bem! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK."


Você não achou graça? Nem eu. Nem o garçon. E nem ninguém que estava em volta.


Tenho reparado esse tipo de cena com cada vez mais freqüência, nos últimos tempos. Parece que as pessoas estão desesperadas para ostentar alegria. Outro dia, um famoso diretor de teatro carioca disse na tv: "Não estou mais interessado em drama, só comédia. O povo só quer rir, precisa rir!"

Se tenho algo contra a alegria? Sem querer me fazer de vítima, já passei por muitas coisas pesadas na vida, mas estou alegre...digamos 80% do meu tempo. E procuro me manter assim. Só que nem sempre dá, pois vejo a tristeza como um pedágio que temos que pagar se quisermos continuar na auto-estrada da vida. E sempre desconfiei de pessoas que dizem estarem "sempre felizes."

Como toda mudança de comportamento que acontece na sociedade, essa onda de complexo de hiena foi um processo lento, que começou há algum tempo.


E aí vou contar um fato da minha vida que nunca falei aqui antes. Em 2000, minha mãe morava em Juiz de Fora e estava com vontade de voltar pro Rio. Então, eu juntei uma graninha e lhe comprei um apartamento pequeno, próximo de onde eu vivia. Ela ficou muito feliz. Tão feliz que no dia da mudança, ela teve um enfarte.


Imaginem a cena: Eu tendo que atender os caras da mudança, o cara da tv a cabo e do telefone, todos apressados para fazer seu serviço e cair fora, enquanto minha mãe passava mal no chão. E cadê o telefone do médico? O cartão do plano de saúde? Tudo ensacado e encaixotado.


Isso foi no dia 21 de dezembro. Passei o natal tendo que arrumar a casa da minha mãe, enquanto tinha que visitá-la na UTI à noite. Só quem passou por situação idêntica tem noção do quanto é estressante. Fiz isso tudo sempre na esperança de que ela voltasse para o lar que eu lhe havia comprado. Mas ela veio a falecer no dia 28, sendo enterrada três dias antes da virada do ano.


Várias pessoas me chamaram para passar o reveillon em suas casas, mas preferi ficar só naquela que foi a pior virada de ano da minha vida. Mais tarde, fiquei sabendo que houve comentários do tipo "graças à Deus ele não aceitou vir! Reveillon não é noite pra baixo astral." No primeiro dia do ano, uma dessas pessoas me ligou. Estava num pagode, em um quiosque de praia. Queria que eu fosse até lá. Quando falei que não iria, me veio com os intermináveis "você precisa ser forte", "já está na hora de você tocar a vida", "a vida continua". Era como se estar triste naquela situação fosse uma vergonha.

Tenho certeza de que essa pessoa tinha as melhores das intenções. Só queria me ver alegre. Mas ela não teve a sensibilidade de entender que cada um tem um tempo para exorcizar sua tristeza. Logicamente, uns dez dias depois, eu já estava bem e tocando a minha vida. Mas eu precisei deste tempo. Todos nós precisamos. E acho que lhe dar com esse "pedágio" que a vida nos impõe fica mais fácil quando entendemos que ele faz parte da nossa existência.

Mas parece que esse medo da tristeza está aumentando. Tenho ouvido absurdos do tipo: "não quero ficar triste para não envelhecer", "não quero ficar triste para ficar feia" ou "não quero ficar triste para não ficar doente." E como não dá mesmo para se ficar alegre todo tempo, tome bebidas, tome drogas, tome remedinhos, tome comida em excesso, tome analistas. Espero que essa mentalidade ainda mude ou teremos uma sociedade de lindos psicopatas, depressivos elegantes, lunáticos saudáveis e suicidas sarados.

Marcadores:

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Lei de Murphy - O Roteiro


FADE OUT

Som: ruído de despertador

FADE IN

Close na minha mão socando o rádio-relógio. Cinco da manhã.

PLANO ABERTO
Me levanto, coçando o saco e caminho para o banheiro. Houve-se ruído de chuva e trovoadas lá fora.

Close na minha cara de alívio ao fazer as minhas necessidades fisiológicas.

PLANO FECHADO


Close em meu dedo apertando a descarga. A descarga funciona, mas não pára.


ZOOM


Close na minha cara apatetada, olhando para a descarga, tentando entender o que está havendo.


ZOOM


Minha mão socando desesperada a descarga.


OFF


O DEMO: E agora, Julio? A descarga não vai parar e a caixa-d´água do prédio vai esvaziar.


CORTE


Eu falando no interfone com o porteiro.


EU: Severino eu não estou conseguindo parar a descarga.


SEVERINO (SONOLENTO. OFF): Já fechou o registro?


EU: Já. Mas não adiantou. Acho que está com defeito. É melhor você fechar o registro desta coluna do prédio.


SEVERINO: Por quê?


EU: Porque vai acabar com a água da caixa do prédio.


SEVERINO: Mas todo mundo também vai ficar sem água se eu fechar o registro.


EU: Mas é só enquanto eu tento dar um jeito nisso. Aliás, você não pode me dar uma ajuda?


SEVERINO: Mas o senhor não quer que eu desligue a bomba?


EU (Tentando ficar calmo): Severino, você está acordado? É pra você desligar a bomba e vir me ajudar.


SEVERINO: Mas...


EU: Estou te esperando!


Desligo o interfone e fico olhando para o aparelho.



OFF
O DEMO: Você acha que ele vai largar a portaria sozinha e vir te ajudar? É ruim!


CORTE.


Volto para o banheiro e ainda tento interromper a descarga.


EU: Claro que ele virá.

Nesse momento a luz se apaga. A casa é iluminada apenas pelos relâmpagos do temporal.

OFF


O DEMO: Ele não virá. Está faltando luz, você mora no último andar e ele não vai subir todos esses andares, mesmo que você tenha dado uma boa caixinha pra ele no último natal.


EU (falando com alguém invisível): Vai pro inferno!!!! (percebi a tolice que havia dito) Vá se fuder!


OFF


O DEMO: Você não acha ilógico mandar se fuder alguém que vive nas trevas?


De repente, ouve-se alguém gritar ao longe:



OFF


VIZINHO: Olha essa descarga! Nós vamos ficar sem água!!!!!



OFF


O DEMO: É a Dona Gertrudes do 901. Ela está preocupada, tensa, nervosa. E você sabe que ela é cardíaca. E se ela tiver um piripaque? E a Luciana, a moça do 1002? Ela acabou de ter um bebê. O que vai acontecer quando ela acordar e não tiver água para fazer a mamadeira para a pobre criança? E o delegado que mora no 804? Quando ele sober que não tem água para tomar banho...


EU: Puta Merda!
Nesse momento, alguém começa a bater na porta.


Close na minha cara de suspense.


Quem será? O síndico? A Dona Gertrudes? O Delegado do 804? O Demo? Ou o porteiro?. Essa história é verídica. Aconteceu comigo mais ou menos assim há umas duas semanas. E se você apostou na última hipótese, esperando um final feliz, releia o título deste post e aguarde o próximo capítulo.

Ah, a música é Kitty with the bent frame, com o maestro Quincy Jones, da trilha sonora do filme Ladrão que rouba ladrão.

Marcadores:

Terça-feira, Maio 13, 2008

Meus "Botecos"

Foto de Sérgio Fonseca




Como não bebo, nunca fui muito chegado a botequins. Por confesso preconceito, sempre tive a imagem de bêbados vomitando num canto, grupos cantando um samba chato, chão grudento de sujeira e moscas sobrevoando ovos cor-de-rosa, expostos no balcão.

Nem depois que surgiram os botequins de grife (Armazens do chop, Manoeis & Joaquins, Belmontes, etc), me senti encorajado a freqüentá-los. A única coisa legal que eu via nos botecos tradicionais, era o gostoso clima de informalidade. Você podia tirar a camisa, você podia batucar, você podia gritar um palavrão durante um jogo e ninguém iria lhe olhar de banda. Você podia bater papo com o garçon, podia discutir futebol com o dono e podia tormar porres homéricos, sem ser expulso por nenhum segurança truculento.

Os antigos botecos eram uma confraria e seus freqüentadores, uma espécie de família. Parece que isso se perdeu um pouco com o surgimento das cadeias de botecos de luxo.

Posso estar errado, já que não freqüento nenhum tipo destes estabelecimentos.

Mas existe alguns lugares informais, que, apesar de não serem botecos, corro para eles quando quero relaxar e comer algo rápido, barato e bem feito. São os meus "botecos". Não estão para os pé sujo, com cadeiras e mesas de plástico, e nem para um lugar o garçon lhe fuzila com o olhar se você demora muito sem consumir.

Como estive em São Paulo neste final de semana, aproveitei para selecionar também alguns lugares onde posso ser encontrado em momentos de profundo relax por lá.

Aqui no Rio:

Deus existe!

É o que se diz ao provar os omeletes do Paladino. Os sandubas também são coisas do divino. Comida rápida, barata e light. Ideal para quem precisa fazer uma boquinha no meio da correria. O lugar é uma mercearia com uns cem anos de existência. Come-se entre garrafões de vinhos, tamancos de madeira e sacos de feijão-manteiga. O atendimento é bom e ferve nas happy-hours. Alguns famoso aparecem de vez em quando, como o compositor Aldir Blanc. Mas na hora da fome, famosos ou anônimos, somos todos iguais.

Glória ao Pai

Aleluia! Você tem vontade de gritar isso ao saborear um sanduba do Cervantes (Barata Ribeiro com Prado Junior, Posto 1, Copacabana) Só quem já saiu de uma festa furreca às quatro da manhã, com a fome insistindo para ir para cama contigo e deparou com esse templo, onde se encontra sanduíches criativos e irresistíveis, sabe do que estou falando. Não adianta procurar, porque você só encontra um sanduba que mistura lombo, abacaxi e bacon lá neste, que é o pai dos boêmios famintos. O cantor e compositor Fausto Fawcett que o diga.

Venha a mim as comidinhas

E se Deus existe, o Mercadinho São José, na esquina da rua das Laranjeiras com Gago Coutinho, é um templo. As mesas se espalham por entre lojinhas de artesanato. Já é um point na região há anos e os happy hours são concorridos. Para quem gosta, é um bom lugar para beber. Mas experimente as pizzas. São fartas e eliminam a fome sem piedade.


Em Sampa

...Continua lindo

Como já falei aqui, fui paulistano entre 1984/86. Naquela época, eu estudava numa faculdade que ficava ali no largo de São Bento. Eu era mais duro do que sou hoje e costumava agradar ao estômago com o Bauru, o sanduíche típico da paulicéia. Não sei quando ele surgiu, mas sei onde. O delicioso prato nasceu no número 27 do Largo do Paissandu, onde fica o Ponto Chic, tradicional e simático bar, que é a salvação de estudantes, jornalistas, do pessoal do teatro e boêmios de todos os tipos. Tive o prazer de aparecer lá neste findi e constatei que ele continua lindo: pratos deliciosos, preço razoável e atendimento super. É o meu preferido em Sampa.

Nem tudo está perdido

O que fazer quando se sai da balada no meio de uma dessas madrugadas de outono, roxo de fome, com pouco dinheiro e o vento sudoeste desce a avenida São Luiz, fazendo você pensar que a sua noite está perdida? O bar Estadão (São Luiz quase com Consolação) está a sua espera. Mesmo de madrugada está cheio. Seus sandubas com pernil são famosíssimos. Seu bauru embora não seja nenhum Ponto Chic, é honesto e barato. Apareça e constate.

Me traz meio quilo de Borges e um Woody Allen no ponto!
Parece pedido de bêbado, mas em se tratando da Mercearia São Pedro, ali na rua Rodédia 34, pode ser totalmente natural. Já falei deste local aqui e sempre que cruzo a ponte-aérea, procuro dar uma passadinha por este point de escritores da nova geração. O local realmente é uma mercearia, só que ao invés de cereais, frutas ou sabão em pó, o que se pede ali, além dos comes e bebes, são livros, cds e dvds. Ao contrário de samba chato, na noite fria da última sexta-feira, ouvia-se Billy Hollyday. O atendimento é ótimo - principalmente do Mário, o simpático dono - e os preços também não ferem o orçamento. A localização é que meio chata. Mesmo pra quem vai de táxi, deve-se levar um mapinha, pois 80% dos motoristas não conhecem o local e nem mesmo a rua. Pra voltar é ainda pior, já que trata-se de uma área muito residencial e poucos taxistas se aventuram por lá.
Mas, sem dúvidas, vale a pena o sacrifício.

Marcadores:

Segunda-feira, Maio 05, 2008

Enfim, o outono




E com ele, chega a vontade de ler um bom livro. Há época melhor para se atracar com um bom romance policial, enquanto o frio e/ou a chuva rolam lá fora?



Pois as editoras sabem disso e nesse outono estão caprichando. A Ojetiva principalmente, pois botou no mercado vários títulos top de linha. Vou citar dois para quem quer ficar antenado com o que de melhor está se escrevendo na literatura policial no exterior.



Echo Park, de Michael Connelly, foi lançado em 2006 carregado de elogios da imprensa internacional. Aliás, Connelly é o escritor policial mais cultuado nos EUA no momento.


A história gira em torno do drama de consciência do agente veterano Harry Bosch, que cometeu um vacilo no passado e deixou de prender um homem que tudo leva a crer ser o responsável pelo desaparecimento de uma jovem e por vários assassinatos brutais. Torturado pelo remorso, Boshc sente a obrigação moral de colocar o psicopata atrás das grades e aí é que o bicho pega.

Eleito pelo Los Angeles Times o melhor romance policial de 2006, Echo Park é suspense psicológico da melhor qualidade, além de ser moderno e não errar na dose da ação. Recomendadíssimo.


Morte em Dark Harbor conta a história do agente Stone Barrington, que é o protagonistas das histórias de Stuart Woods. Neste caso, o herói do escritor se vê obrigado a investigar um familiar: seu primo Richard mata a mulher e a filha. Por que um dedicado pai-de-família de classe média faria tal atrocidade? E o romance prova que investigar um crime em família pode ser muito mais dramático e perigoso.



Agora, se você quiser ler um autor nacional de ótima qualidade, leia Doutor Valdini, um conto policial deste metido à besta que vos escreve e que acabou de ser publicado aqui.

Marcadores:

Sexta-feira, Maio 02, 2008

Sem comentários


"Só tiro a minha burka pra quem eu quero, certo?"



Que sou apaixonado por fotografia não é novidade para quem freqüenta este blog. Pois lá no Favoritos da Luiza Voll, eu peguei o site que tem os ganhadores do Mastercup de fotografias, que pelo segundo ano consecutivo seleciona trabalhos de fotógrafos de todo o mundo. A garota iraniana acima é o da alemã Ulla Kimmig. Mas há muitas outras...


...como a do menino africano, que parece saído da fábula de Narciso...




...ou esta indigesta e curiosa de Jo Hanley, da Grã Bretanha. Quer mais? Mergulhe aqui. Mas prepare o coração, pois ao lado das engraçadas e bonitinhas, há aquelas que...você sabe.

Marcadores:

Domingo, Abril 27, 2008

E tenho dito!



"Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico".

A história você já deve ter ouvido láááááá no primário. Mas foi de uma dessas sacadas que o imperador Dom Pedro I, falou para a muldidão que lotava a praça, que não voltaria para Portugal, contrariando as ordens da côrte. A matriz o queria de volta porque tinha interesse em manter nosso país apenas como mais uma colônia. Pois o nosso bravo imperador, contrariando a todos, não só ficou, como abriu caminho para a posterior independência, meses mais tarde.


O Dia do Fico foi 9 de janeiro de 1822 e o Paço Imperial continua aí, lindo. Após décadas de abandono, ele foi completamente restaurado pelo, então, presidente, José Sarney, no final dos anos 80. Hoje é uma das atrações turísticas mais visitadas no Centro do Rio. Conta com um cinema, locais para exposição, livraria, café e animados bares, onde ocorrem animados happy-hours. Na Praça Quinze, ao lado, caminho para quem vai pegar a barca para Niterói, costuma rolar shows de MPB. Os cariocas gostam...


...e os turistas também. Ainda mais porque bem ao lado está...


...o Arco dos Teles, com suas ruas centenárias, com ar daqueles becos do centro histórico de Londres. É uma das áreas mais interessantes da cidade. Também ficou durante anos abandonado, até que ganhou fôlego com o aparecimento de vários restaurantes, bares, botequins de grife, livrarias e locais voltados para a cultura e as artes. O Centro Cultural Banco do Brasil, o Centro Cultural dos Correios e a Casa França-Brasil, por exemplo. Ali, os happy hours são disputados à tapa.



Essas fotos foram tiradas no feriadão do dia 21 de abril, quando o Centro estava um cemitério. Eu estava de bobeira e fui dar umas pedaladas por esta região da qual gosto muito. Aliás, ninguém deveria passar por essa existência sem pedalar, pelo menos uma vez, pelo Centro do Rio num feriado. É uma experiência inesquecível.

Marcadores:

Sábado, Abril 19, 2008

Menos um ovo para fritar (Músicas que podem lhe ser úteis - Parte VI)





O capítulo Músicas que podem lhe ser úteis dessa vez é diferente e em dose dupla.





Isso porque acabei de saber da separação de um casal amigo. E sempre fico triste quando vejo um casal dizer adeus. Principalmente quando há crianças.





Já passei por isso e sei o quanto dói.








Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim







Não me valeu







Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!







O resto é seu







Trocando em miúdos, pode guardar







As sobras de tudo que chamam lar







As sombras de tudo que fomos nós







As marcas de amor nos nossos lençóis







As nossas melhores lembranças







Aquela esperança de tudo se ajeitar







Pode esquecer







Aquela aliança, você pode empenhar







Ou derreter







Mas devo dizer que não vou lhe dar







O enorme prazer de me ver chorar







Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago







Meu peito tão dilacerado







Aliás







Aceite uma ajuda do seu futuro amor







Pro aluguel







Devolva o Neruda que você me tomou







E nunca leu







Eu bato o portão sem fazer alarde







Eu levo a carteira de identidade







Uma saideira, muita saudade







E a leve impressão de que já vou tarde.


A primeira música faz parte do famosíssimo disco Chico Buarque, lançado em fins de 1978. Além dela está Apesar de Você, que desde 1970 estava proibida pela Censura Federal.


Um ano antes, o divórcio havia sido aprovado no Brasil, após décadas de debates entre o governo, a Igreja e a classe política. O argumento dos religiosos era o de que o divórcio provocaria uma espécie de swing, com todos trocando de parceiros após a primeira briga. "Será a desestruturação da família brasileira", diziam. Realmente a família brasileira, hoje, anda bem desestruturada, mas definitivamente não é por causa do divórcio.


Na verdade, o divóricio veio acabar com a hipocrisia de uma aberração jurídica, que obrigava os casais a permanecerem juntos, mesmo estando infelizes.


O que houve com a aprovação do divórcio foi uma enxurrada de separações, dado à imensa demanda reprimida. É o que o Chico e o seu parceiro Francis Hime parecem retratar nessa música é o que ele via acontecer a sua volta. Naqueles dias, todo dia a gente tinha a notícia de um casal se separando.


Trocando em miúdos fala do momento da partida e em se tratando de Chico Buarque, a coisa é tratada com precisão, humor, beleza e emoção. Acho incrível quando alguém me diz que Chico é um artista da elite. Que nada! Suas músicas falam de forma tão clara que tanto um trabalhador braçal da Baixada Fluminense, quanto um casal classe média de Ipanema, irão se identificar e se emocionar. Tá certo que o casal da Baixada nunca tenha ouvido falar em Pablo Neruda; nem o da Vieira Souto não tenha noção do que seja uma ajuda para o aluguel. Mas a emoção será a mesma, porque toda a separação é dolorosa, em qualquer lugar do mundo.

E talvez, para Chico a parte mais dolorosa da separação seja a hora da partida.

Mas para mim é ou foi a hora em que se percebe que se tem um ovo a menos para fritar.

E aí entra a segunda música.


One less bell to answer

One less egg to fry

One less man to pick up after

I should be happy

But all I do is cry

(Cry, cry, no more laughter)

I should be happy

(Oh, why did he go)

Since he left my life's so empty

Though I try to forget it just can't be done

Each time the doorbell rings I still run

I don't know how in the world

To stop thinking of him

'Cause I still love him so

I spend each day the way I start out

Crying my heart out

One less man to pick up after

No more laughter, no more love

Since he went away (he went away)

(One less bell to answer) Why did he leave me

(Why, why, why did he leave)

(One less bell to answer) Now I've got one less egg to fry

One less egg to fry

(Why, why, why did he leave) And all I do is cry

(One less bell to answer) Because a man told me goodbye

(Why, why, why did he leave)

(One less bell to answer) Somebody tell me please

Where did he go, why did he go

(Why, why, why did he leave) How could he leave me


One less bell to answer foi composta por Burt Bacharach e seu parceiro Hal Davies na virada das décadas 60/70, quando toda aquela revolução de costumes da época fez muitos casais discutirem suas relações e houve uma onda de divórcios nos EUA. Ela trata do dia seguinte à separação de fato, quando você acorda e se dá conta que dará um bom dia a menos. Quando você vai arrumar a cama e percebe que haverá um travesseiro a menos para guardar, no banheiro há uma escova de dentes a menos e na mesa do café haverá um ovo a menos. E mesmo que a separação tenha sido para o seu bem, como foi o meu caso, sempre haverá a dúvida, sempre haverá a surpresa, sempre haverá a saudade, afinal foram tantos anos!
É como uma tortura. Durante dias, a vida vai lhe dando pequenas alfinetadas. Uma música que toca no rádio, uma fotografia, um filme na tv, um objeto que foi lhe dado de presente pela(o) dita(o) cuja(o). Enfim, para uns essa tortura dura algumas semanas; para outros, pode durar anos. De qualquer forma, será uma eternidade.
É sobre essa tortura que Bacharach e Davies estão falando, com uma simplicidade - e ao mesmo tempo com uma beleza - que tanto o casal classe média de Manhattans, quanto os caipiras do Missouri irão entender. Só os gênios conseguem isso.
Aliás, não sei por que ainda me surpreendo com o Chico e com o Burt. Deles só se pode esperar mesmo isso.
De qualquer forma, se você estiver passando por uma separação, seja por qual motivo for, talvez essas músicas tornem a tortura um pouco menos dolorosa.

Marcadores: