quarta-feira, dezembro 20, 2006

El Justiciero

Qual a imagem que você tem de uma favela do Rio? Miséria, pobreza e tráfico de drogas por todos os lados, certo? Quase. Em 92 das centenas de comunidades existentes na Cidade Maravilhosa o último ítem não existe mais. Não que as autoridades tenham tomado alguma providência. Mas na ausência do governo, milícias fortemente armadas, formadas em sua maioria por ex-policiais, tomaram conta desses locais para oferecerem segurança, em troca da cobrança de pequenas taxas, que, como na Kelsons, na zona da Leopoldina, pode chegar a R$ 15. E quem não pode pagar? Bem, nem é bom falar.
Os jornais cariocas tem falado muito no assunto, ultimamente. Mas nenhum deles destacou o fato de que essas versões dos justiceiros mexicanos do século XIX, não são bem novidade.
Se não vejamos, no final da década de 50 a marginalidade do Rio começava a deixar de ser romântica. Não se assaltava mais apenas com navalha e as ações estavam cada vez mais ousadas. Então, o Chefe do Departamento de Segurança Federal, general Amaury Kruel, destacou um grupo de policiais experientes para dar cabo dos bandidos mais perigosos. A intenção era intimidar os outros "recuperáveis". Nascia o Esquadrão da Morte.
Mas a bandidagem continuou assanhada. Tião Medonho era a maior ameaça, segundo a polícia da época. E ele foi o líder do bando que efetuou o famoso assalto ao trem pagador da Central do Brasil. Chegou a virar filme logo depois, nas mãos de Roberto Farias.
Surgiram, então ,outros pequenos Esquadrões pelo Brasil e aqui no Rio foram formados os chamados 15 homens de ouro da polícia , capitaneados pelo famoso detetive Milton Le Coq, cuja a finalidade era mesmo diminuir a violência através de balas na calada da noite.
A imprnesa e a literatura passaram a ficar de olho no trabalho dos justiceiros. A matança de vários marginais em Duque de Caxias e no Rio, em 1963, por exemplo, foi amplamente noticiada na imprensa e documentada no livro Sangue no 311, de Santos Lemos.
Quando Le Coq foi morto ao dar voz de prisão ao lendário bandido Cara de Cavalo, em plena luz do dia, na rua Teodoro da Silva, Vila Isabel, toda a polícia civil jurou vingança. Não só contra Cara de Cavalo, que seria fuzilado com mais de 50 tiros, dias depois, na casa de uma amante, em Cabo Frio, mas contra toda a marginalidade. Surgia, então, a horripilante Scuderie Le Coq, pesadelos dos vagabundos a partir daquele momento.
Presuntos começaram a proliferar nas periferias do Rio e dos municípios da Baixada Fluminense. A classe média não ligava, pois aquilo não lhe dizia respeito. Com a decretação do AI-5 e posterior recrudecimento da repressão militar, o cidadão comum tinha a ilusão de que estivesse seguro e passava a consumir o novo tipo de literatura que surgia, e que romanceava a vida bandida, sempre com um final feliz. Feliz para a polícia, é claro. Esquadrão da Morte, de Amado Ribeiro e Pinheiro Jr. hoje já virou cult. Mais tarde viriam os trabalhos de José Louzeiro, Aracceli, Meu Amor e Lúcio Flávio - Passageiro da Agonia. O clássico Meu Depoimento Sobre o Esquadrão da Morte, de Hélio Bicudo, que por sinal está completando 30 anos, também passou a ser cultuado.
Mas a bandidagem não esmoreceu. Pelo o contrário. Com parte dos policiais dos Esquadrões da Morte agora sendo usados na repressão política - sob a tutela do temido Delegado Fleury - , a criminalidade crescia. E surgiam bandidos ousados e destemidos que peitavam a forte repressão da época com coragem e deboche. Lúcio Flávio já é lenda. A parte dos Esquadrões que continuavam a agir em cima dos bandidos, agora, transformavam os grupos em negócios lucrativos. Passaram a matar por encomenda. Políticos, comerciantes, bicheiros, fazendeiros, eram grandes clientes deste "serviço".
Na segunda metade do anos 70, até a música passaria a registrar as ações dos grupos de extermínio. "Tá lá o corpo caído no chão...", dizia o João Bosco, em De Frente Pro Crime, do seu lp Caça à Raposa, 1975. Em 1979, Elis Regina cantava "Onze tiros e não sei por que tantos. Esses tempos não estão pra ninharia."
Mas enquanto as ações dos Esquadrões da Morte cresciam proporcionalmente com o aumento da violência, os militares cometiam um erro fatal. Presos políticos eram postos nas mesmas celas das dos bandidos comuns. Esse erro fez nascer no Presídio da Ilha Grande, no Rio, o Comando Vermelho, a primeira facção de "alto nível" do país, bem antes do PCC. Escadinha e Gordo, foram os primeiros encarregados a por em prática a filosofia robinhoodiana da facção, que queria tirar dos ricos para distribuir para os excluídos. Mas fazendo isso com armas pesadas, contrabandeadas do exterrior.
Mas como tudo aqui no Brasil vira bagunça, os ideais do Comando Vermelho foram pro buraco e tudo se transformou num bando de moleques drogados e desorganizados, capazes de matar por qualquer bobagem. Daí para bandidos como e Fernandinho Beira Mar foi um pulo.
Nos anos 80 e 90 a justiça agiu com mais rigor sobre os Esquadrões e muitos desses bandos foram desbaratados. Mas as chacinas da Candelária e de Vigário Geral, ambas no Rio, e num espaço de um mês, em 1993, vieram para mostrar que os grupos de extermínios vieram mesmo para ficar.
E agora surge essa nova modalidade de Esquadrão, mais mercantilista e mais cruel, pois obriga a quem não pode, a pagar pela proteção que o poder público nos deve.
A Classe média continua achando que isso não lhe diz respeito. A polícia, com sua truculência, trazida da época da ditadura militar, consegue manter a violência num patamar quase suportável. Mas até quando? E sem direito a justiceiro para lhe dar proteção no final.

A imagem da repressão com a qual a polícia ainda tenta manter a ordem, em foto premiada do Jornal do Brasil.

15 Comments:

Anonymous fernando cals said...

Oi, Julio Cesar,
Horrivel, mas necessário, termos que escrever, e ler, coisas como essa. Tempos tenebrosos, vivemos!

Mas, mesmo que pareça alienação, temporária que seja, quero é falar do Natal, do Ano Novo que se aproxima, e desejar muita felicidade, saude e paz para o amigo e os seus.
Grande abraço
fernando cals

quarta-feira, dezembro 20, 2006 7:21:00 PM  
Anonymous Osimar Medeiros said...

Lúcio Flávio é o meu herói. Não porque assaltava bancos, mas por ter peitado o Mariel Maryscott de Matos e ter exposto o esquadrão pra polícia federal.
E por ter fugido da Ilha Grande, salvo engano, pela porta da frente.
Era um macho.

quarta-feira, dezembro 20, 2006 7:29:00 PM  
Anonymous cilene said...

Nao conheco bem esse assunto,mas se nao estou enganada li uma entrevista com uma policial que foi eleita deputada ai..e ela fala de algo parecido, mas ela diz que eram policiais que passavam a morar nas favelas e a violencia tinha acabado, achei interessante a ideia dela..agora vc parece , se estiver falando do mesmo assunto, nao pode continuar isso..
Feliz Natal e super 2007 de paz para o Rio e pra voce e sua familia

quinta-feira, dezembro 21, 2006 6:06:00 AM  
Anonymous DO said...

Confesso que desconhecia muito disto,JULIO ,e ate fiquei impressionado com a situação atual.
Abração!!

quinta-feira, dezembro 21, 2006 2:44:00 PM  
Blogger Vera Fróes said...

Júlio, não sei de quem a sociedade deve ter mais medo dos bandidos ou dos esquadrões. Mas isso tudo acontece porque as autoridades competentes que deveriam dar segurança à sociedade se eximem da responsabilidade, aí abrem uma brecha para os ditos justiceiros.
Triste realidade.

Para inspirar:
http://www.cidadedocerebro.com.br/mensagem.asp

Para vc e família:
http://thumbsnap.com/v/mFp3porS.jpg

Njos.

quinta-feira, dezembro 21, 2006 10:46:00 PM  
Blogger Jorge Ferreira said...

cara...essa foto ai 'e algo que choca de umjeito!!!...a primeira coisa que me veio a cabeca:
NADA MUDOU!!

COM RELACAO AO PROGRAMA...ta uma bagunca so la na radio...nao vai rolar nada ate depois do ano novo...nem consegui estrar no estudio na ultima quarta....

grande abraco...
eu nao ligo pra natal...
entao nao vou desejar o tal feliz natal...
mas vou dizer
que aqui tens um amigo.
outro abraco

sexta-feira, dezembro 22, 2006 3:19:00 AM  
Blogger Yvonne said...

Querido, quanto mais eu rezo, mais assombração aparece. Triste situação essa da minha cidade.
Queria desejar um Feliz Natal para você, familiares e amigos. Que você tenha uma noite cheia de alegrias.
Beijocas

sexta-feira, dezembro 22, 2006 10:33:00 AM  
Anonymous Luiza Voll said...

Muito obrigada Julio! Boas festas e feliz ano novo para você e para os seus! Beijos!!!

sexta-feira, dezembro 22, 2006 2:42:00 PM  
Anonymous Luma said...

Bandidos ou mocinhos? Alguém tem que fazer o trabalho sujo.

FELIZ NATAL !!! Beijus

sábado, dezembro 23, 2006 9:28:00 AM  
Blogger Duda Bandit said...

a le coc tem um puta dum braço aqui no ES, acho que é único lugar onde ela ainda está amarrada dentro do judiciário, legislativo e executivo... tenho pesquisado isso, grande texto esse seu... abração.

domingo, dezembro 24, 2006 12:23:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Bandido é pra rodar mesmo!
Lucio Flavio demorou!

Isso ae cambada de fumeta borra-botas dos Direitod dos Manos.

Qdo o bicho pega...que venha a PC a PM a PF e qq esquadrão...ai tá valendo..
mas na hora de tomar um cappuccino e digitar no notebook....todo mundo é politicamente corretíssimo!

Abre o olho!

quinta-feira, setembro 20, 2007 12:50:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

E qto aos traficantes do Rio que fizeram churrasco de pneu c/ o Tim Lopes e decapitaram o camarada de quebra?

Isso sim é chocante...gdes coisas passar corda..o Policia devia era passar chumbo mesmo..

Pq os caras que assaram o reporter Tim Lopes estão soltos...e com certeza continuam aprontando.

Bandido bom nasceu morto...então nos que estão vivos...senta a pua!

E seja pobre, classe media ou rico...bandido é bandido e vítima é vítima e sangue se lava com sangue...e suja tudo em volta mesmo.

REALIDADE!

quinta-feira, setembro 20, 2007 1:09:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

não sejamos hipócritas, mas o que realmente desejamos é que estes vermes sejam metralhados IMPIEDOSAMENTE,e seus cadáveres sejam expostos diante de todos,quem sabe se algum aspirante a bandido pense um pouco antes de cometer algum delito......:

segunda-feira, março 12, 2012 6:48:00 PM  
Blogger Ney Gastal said...

Não é bem um comentário, mas uma pergunta: algum de vocês conhece um livro publicado em meados da década de 60, pela Editora Civilização Brasileira ou pela Brasiliense, e que, na forma de romance policial, misturava LeQuoc, Cara de Cavalo, Perpétuo e outros ao... assassinato de Kennedy? Li ainda guri, e faz anos o procuro para reler, mas como não lembro de do título nem do autor estou tendo alguma dificuldade de encontrar. Quem souber de um rastro, por favor, avise para gastal@terra.com.br.
Obrigado.

sábado, maio 05, 2012 8:30:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

"15 homens de ouro da polícia , capitaneados pelo famoso detetive Milton Le Cocq" Essa informação está completamente equivocada. Le Cocq foi assassinado em 1964 e a iniciativa da Secretaria de Segurança, sob a chefia do General Luiz de França Oliveira, de formar a equipe conhecida como "homens de ouro" (eram 12!) ocorreu em 1969.

segunda-feira, setembro 30, 2013 12:48:00 AM  

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