quarta-feira, dezembro 06, 2006

Mais um Rubem

"- Já ouvi acusarem você de escritor pornográfico. Você é?"

"- Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes".

Trecho do conto Intestino Grosso

Há 30 anos eu e milhares de brasileiros líamos o texto acima e era como se aquele livro nos esbofeteasse. Meu Deus! Eu mal havia deixado meus livros infantis e os romances da Agatha Christie!

O livro em questão era o Feliz Ano Novo, que havia saído no final de 1975, pela já finada Editora Arte Nova. Naquele natal, se você tinha alguém exigente e inteligente para presentear, a escolha era sempre a mesma: Feliz Ano Novo. Por este motivo Rubem Fonseca já havia vendido 30 mil exemplares naquele final de 1976 e uma quarta edição já estava indo para o forno, quando aconteceu o inesperado: o, então, ministro da justiça, Armando Falcão, proibiu o livro em território nacional, com o seguinte argumento: "Folheei algumas páginas e vi alguns palavrões. Então, determinei: Recolha-se!"

Há trinta anos, então, os brasileiros não puderam dar Rubem Fonseca de presente de natal. O livro já havia sido retirado das prateleiras das livrarias e tinha-se que recorrer aos sortudos - como eu - que haviam conseguido seu exemplar, antes da proibição. Na escola, nas festas, nos bares e praias, as pessoas discretamente sussurravam nos ouvidos das outras: "Me empresta o Feliz Ano Novo." O medo se justificava, pois você poderia ser preso ao carregar o tal livrinho, que só seria liberado, assim mesmo pela justiça, em fins de 1989. O próprio Rubem correu o risco de ser preso, por ordem de um senador da ARENA, o partido do governo militar, que acusou o autor de praticar um atentado ao pudor. Mas, ao ler o trecho acima, percebe-se que a ira do governo não era bem por causa dos palavrões.

Trinta anos depois gostaria de ganhar o mais recente livro deste, que, para mim, é o maior contista brasileiro de todos os tempos. Como amante da literatura polical tenho a maior admiração por este mineiro de Juiz de Fora, que mandou bala em livros como A Coleira do Cão, Lúcia McCartney, Romance Negro e Outras Histórias. Todos de contos, sim. Porque gosto mais do Rubem contista, embora ele também tenha publicado excelentes romances como O Caso Morel, A Grande Arte e Agosto.

E é justamente um livro de contos que a Companhia das Letras está lançando agora. São pequenos contos, todos com nomes de mulheres, cheios de histórias erótica e românticas. Alguns já foram mostrados em sites literários por aí, e achei uma delícia. Alguns críticos não gostaram. Mas, pelo menos, como há 31 anos atrás, já tenho um presente para dar e receber neste natal.

17 Comments:

Anonymous Marconi Leal said...

Bela pedida, Julio. Grande abraço!

quarta-feira, dezembro 06, 2006 7:28:00 AM  
Anonymous Bruna said...

Oi Julio,

muita gente acha o Ruben Fonseca chato. Pra mim, sinceramente, ele não faz parte das minhas preferências. É que sou complicada quando a parada é livro ...ou bate comigo, ou nunca mais leio o autor.
Depois desta tua apologia, vou anotar a dica. Pode ser que a chata seja eu, né?

Beijos

quarta-feira, dezembro 06, 2006 8:05:00 AM  
Anonymous DO said...

Eram mesmo impressionantes os motivos que deram para proibir o livro,hem JULIO.
Aposto que o tal Falcão soltava seus palavrões...
Abraços!

quarta-feira, dezembro 06, 2006 8:18:00 AM  
Anonymous PIps said...

Estou lendo Agosto dele e estou com um projeto que homenageia ele. Abraço.

quarta-feira, dezembro 06, 2006 8:43:00 AM  
Anonymous Luís Fernando said...

Buenas.
Júlio, estou lendo "A Gorda do Tiki Bar", do Dalton Trevisan. Eu creio que há um empate técnico neste quesito entre o mineiro e o curitibano.
Você tem razão: ótimo para presentear e ser presenteado neste Natal. Para que todos tenhamos um Feliz Ano-Novo.
Grande abraço.

quarta-feira, dezembro 06, 2006 9:53:00 AM  
Anonymous cilene said...

Ja li esse livro acho no final da decada de 80..quanto ao filme..triste...ja vi aqui varias vezes e nao conseguir comentar...dessa vez deu certo

quarta-feira, dezembro 06, 2006 2:14:00 PM  
Blogger poemusicas said...

Olha, a constatação de quem escreveu aquela abençoada frase, que é um poema, na visão e mãos de Mário Quintana, foi algo muito espirituoso e cheio de virtude. Muito mais, aliás imoral é ver pessoas como nós, iguais em tudo, serem renegadas ao nada, sem direito a nada a nem comerem decentemente quando tem, por lhes faltarem os dentes.
Te parabenizo por tua sensibilidade, se não escreveu, captou, o que são quase iguais.

Um beijo

Naeno

quarta-feira, dezembro 06, 2006 4:42:00 PM  
Anonymous Maitê said...

Eu li um livro ótimo do Rubem, chamado O cobrador. Eu acho ele maravilhoso. Ele é debochado, tem humor negro. Eu adoro... Abs

quarta-feira, dezembro 06, 2006 5:45:00 PM  
Blogger Edilson Pantoja said...

Alô, Júlio! Tempão sem aparecer, mas aqui vou.
Acho que a resposta, no trecho entre aspas, diz tudo. Aparece no Albergue. Abraço!

quarta-feira, dezembro 06, 2006 5:53:00 PM  
Anonymous Lino Resende said...

Júlio:
Eu fui um dos felizardos que conseguiu o livro antes dele ser censurado.
Você tem razão em relação ao Rubem Fonseca, que, como Dalton Trevisan, é um excelente contista.

quarta-feira, dezembro 06, 2006 5:57:00 PM  
Anonymous Daniel Lopes said...

"Agosto" está entre os cinco melhores livros que já li nestes meus poucos anos de vida. Li e reli. Os contos do Rubem são bons, mas os romanes são geniais. Abraço.

quarta-feira, dezembro 06, 2006 6:08:00 PM  
Blogger Jorge Ferreira said...

tambem nao ligo se alguem quiser me dar esse ai de presente...nao precisa ser no natal...pode ser a qualquer momento...

quarta-feira, dezembro 06, 2006 6:24:00 PM  
Anonymous Milton Ribeiro said...

É isso aí. Mais um Rubem, mais um livro para ler. Ele vai aumentar a montanha de "livros a ler" em meu criado mudo. Mas posso dar uma roubadinha e colocá-lo em cima, não?

Lembra que os livros da Artenova se desmanchavam, que as folhas se descolavam e a gente terminava o livro lendo folha por folha? Até sinto saudades.

Grande abraço.

quinta-feira, dezembro 07, 2006 2:50:00 PM  
Anonymous Daniela Mann said...

Suscitou minha curiosidade!
Abraços meu amigo

quinta-feira, dezembro 07, 2006 4:40:00 PM  
Blogger Vera Fróes said...

Júlio, para dizer a verdade Rubem Fonseca não faz parte das minhas leituras, mas depois do que vc escreveu, vou pensar com mais carinho.
E depois tem gente que diz que na época dos militares era melhor...fala sério!!!

Bjos.

quinta-feira, dezembro 07, 2006 7:01:00 PM  
Blogger Jôka P. said...

Li tudo de Rubem Fonseca.
É o único escritor que ainda tenho realmente saco pra ler.

:)
abç!

sexta-feira, dezembro 08, 2006 7:51:00 PM  
Anonymous Leila Wernick said...

Alguém poderia me ajudar, então? Estando no exterior, li o conto "O balão fantasma" do livro "O buraco na parede". Em francês o nome do balão é "L'enculé", cuja tradução não me parece boa. Alguma alma caridosa poderia me dizer como é o nome do balão no original? Muitíssimo obrigada!

segunda-feira, dezembro 18, 2006 5:31:00 AM  

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