Bíblia

Isto não é um blog. É uma ameaça.


Desfizemos o cerco e iniciamos a perseguição. Eu ia na frente para localizá-los. As viaturas iam do meu lado e as patamos, logo atrás. Meu Exu me dizia que eles não estavam longe.
E não deu outra. Deparamos com os putos na Augusto Severo. Estavam parados, conversando com uns travecos que faziam viração na Praça Paris. O funk ainda tocando alto. Achei estranho que tivessem parado. Pareciam esperar por nós. Assim que nos viram, deram um pinote a uns cem por hora. O mulato com o colete da civil, disparou o primeiro tiro. Os vagabundos revidaram.
“Calma, calma, porra!!”, gritei.
Não era interessante começar uma troca de tiros ali. Vi algumas bichas se atirarem no chão. Os bandidos dobraram no Passeio Público a mais de cem. As patamos ligaram as sirenes. Liguei o rádio e aumentei todo o volume. Na estação, um desses programas em que você liga e pede uma música. Minha adrenalina disparou. Um PM batia com o fuzil na lataria da patamo, me pedindo passagem. “Fudeu, fudeu, fudeu!”, gritava. Na curva, os deixei passar.
Alô, quem fala?
Joseane.
Você está falando de onde, Joseane?
Bangu.
O bando cruzou a Lapa atirando. Era um lugar de movimento, queriam forçar uma troca de tiros. Não revidamos. Eles insistiram e entraram na Mem de Sá atirando. Pânico. Correria.
Você estuda? Trabalha?
Estudo.
E qual a música que você quer ouvir no nosso programa?
Gostava Tanto de Você, do Tim Maia.
Os PMs perderam a cabeça e começaram a atirar também. Uma bala perdida derrubou um homem na porta de um botequim, na esquina com a rua do Resende.
Música antiga! E por que você quer ouvir esta música, Joseane?
Por que sim.
Você já era nascida na época desta música?
Não.
Algum motivo especial para você querer ouvir esta música, Joseane?
Oi?
Algum motivo para você querer ouvir esta música?
Eu briguei com o meu namorado.
Houve correria na praça Cruz Vermelha.
Qual o nome dele?
Wanderson.
Ele está ouvindo o nosso programa?
Tá.
Os vagabundos pararam de atirar e, conforme eu previa, não dobraram na Frei Caneca. Seguiram pela rua do Santana. Eles não se arriscariam a passar pelo Batalhão de Choque, na Frei Caneca.
Ele mora aí perto?
Oi?
Ele mora aí perto?
Mora. Ele tá tirando serviço na Vila Militar. Mas ele tá ouvindo seu programa, sim.
Você quer mandar alguma mensagem para o Wanderson?
Antes eu queria mandar um beijo para a minha prima Michele, minha amiga Alessandra,...
Os safados recomeçaram o tiroteio. Os PMs nas patamos voltaram a atirar também. O carro acelerou e passou direto pela esquina com a rua Benedito Hipólito.
...minha amiga Jéssica e para o pastor Ezequias da Comunidade Evangélica de Realengo.
Logo após eles passarem, dois carros que estavam estacionados na calçada, desceram e fecharam a rua. Os vagabundos dentro deles começaram a disparar suas AR-15. Era uma cilada. Através de um celular, os bandidos devem ter pedido reforço. Por isso, esperavam por nós, na Praça Paris.
E qual a sua mensagem, Joseane de Bangu?
As patamos deram cavalos-de-pau e quase se chocaram umas com as outras.
Wanderson, você nunca vai encontrar alguém que te ame como eu te amei...
Os PMs desceram atirando. Um caiu ferido.
...Mas você me traiu, me magoou, me desprezou...
Eu e as viaturas da civil paramos logo atrás. Por um fio, não nos chocamos com as patamos. Alguns carros, que vinham na retaguarda, freavam, fazendo uma sinfonia de pneus no asfalto.
...Naquela noite, no baile, você não sabe como eu sofri ao te ver com aquela garota. Eu sofri mesmo! Porque era amor o que eu sentia por você, tá ouvindo?
Eu e os companheiros da primeira DP corremos para dar cobertura aos militares. As patamos servindo de escudo. As latarias furadas e os vidros estilhaçados, pelos tiros. Era bala para todos os lados. Ouvíamos gritos nos botequins debaixo do prédio Balança Mais Não Cai. Em um dos botequins, um rádio tocava um samba bem alto.
...Mas fique sabendo que eu já tenho outro, ouviu? E o Evaílton me ama de verdade...
Os bandidos atiravam, enlouquecidos. De repente, o barulho de sirenes. Olhei para trás e não acreditei quando vi umas cinco patamos se aproximando. Vários carros estavam abandonados no meio da rua. Os companheiros, então, deixavam as viaturas e vinham correndo. Estavam armados até os dentes.
...Eu vou fazer com ele tudo o que não fiz com você...
O samba no botequim parou de repente. Os PMs haviam pedido apoio pelo rádio. Eram homens do batalhão da Tiradentes e do Quartel da Frei Caneca. O pessoal da PM queria vingar o soldado morto na ocasião do luto imposto pelo tráfico pela morte do King. Havia também dois carros da Civil. Em poucos minutos, a rua ficou infestada de policiais atirando. Uma chuva de balas caiu sobre os bandidos. Nunca vi tanto tiro. Eu estava fora de mim, por causa da overdose de adrenalina. Atirei feito louco, até ficar sem munição.
...Eu vou fazer bem gostoso com ele. No baile, eu vou passar bem na sua frente. Aí, você vai ver o que você perdeu, tá sabendo? Aí, você vai me dar valor, seu canalha...
Mais três patamos chegaram pela Benedito Hipólito e encurralaram os bandidos. Três meliantes, em um dos carros, foram fuzilados ao tentarem se evadir.
...Você vai aprender a nunca mais brincar com os sentimentos de ninguém. Seu canalha!...
O outro carro ainda chegou a arrancar, mas foi de encontro a um poste mais adiante. O cara no volante estava morto.
...Você não presta, seu canalha!...
Eu e os outros companheiros nos aproximamos e cercamos o veículo. Lá dentro, dois vagabundos feridos. Pediram para não serem mortos. Mas morreriam depois, no hospital.
...É isso o que você é, um canalha...
Alguns populares se aproximaram correndo. Os policiais comemoravam gritando. Nunca havia visto tal cena. Havia cheiro de pólvora e morte no ar.
...Canalha!
No botequim, o samba recomeçou.
Trecho de perseguição policial no meu romance A Arte de Odiar
E continuo comercializando o meu romance policial A Arte de Odiar por aqui. São 98 páginas, formato PDF bem fácil de ler. Como remuneração pelos três anos dedicados ao livro estou cobrando o preço de dois chopes ou duas águas de coco: R$ 5, via depósito bancário. É só pedir pelo juliocorrea19@gmail.com e mando via email. Com direito a autógrafo. As razões que me levaram a isso estão no último post.
(...) ...em Lopes Mendes...
Ilha Grande. ...litoral sul...
...do Rio. Pra onde volto todo o verão
Quer mais? É só dar uma olhada neste micro-vidozinho de 22 segundos que fiz aí em baixo e digam o que acharam. Foi o meu primeiro vídeo, por isso não sejam cruéis.
Num parque à noite, alguém infeliz é assassinado. Esse é o mote para o A Arte de Odiar.