quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Toda Estupidez Será Castigada

Nelson Rodrigues

Na verdade poderia ser Nelson Rodrigues.
Este cidadão acima é o Luiz Biajoni, jornalista e um pacato pai de família do interior paulista. Mas também autor de um dos livros mais resenhados nos últimos tempos. Sexo Anal - uma novela morrrom. Livro esse cujo o tema é aquilo do qual muito se fala, mas sobre o qual poucos entendem.
Mas não se iludam. Vulgaridade e baixaria passam longe deste romance de 204 páginas. E não é pouca coisa, pois escrever sobre sexo é mais difícil do que a prática em si. É caminhar sobre uma linha tênue entre a beleza do erótico e a pura sacanagem pornô. Mas o Bia consegue, através de uma linguagem leve, simples, dinâmica e esperta, manter o equilíbrio.
Assim que comecei a ler o livro, a imagem de um Nelson Rodrigues mais moderno, de camiseta GAP, calça cargo e ipod, veio a minha mente. E as obsessões comuns nos textos do velho dramaturgo me perseguiram durante toda a leitura. Se não vejamos, Luiz e Virgínia são dois jornalistas que mantém um caso bem resolvido. Virgínia tem necessidades de sexo pela traseira, o que é resolvido sem problemas pelo namorado. Mas ao investigar o estupro e assassinato de uma menor e entrevistar um dos criminosos na cadeia, este lhe diz: “Eu quero comer o teu cú.” E como nos textos do saudoso Nelson, a liberal Virgínia perde o eqüilíbrio ao sentir os porões de sua mente invadidos por sentimentos estranhos. Ela passa a se sentir culpada pelo próprio desejo. E seu conflito interior aumenta ao lidar com o preconceito e o machismo dos colegas de redação, que vêem o sexo anal como uma excentricidade. “Não esquenta, esses desequilibrados têm mesmo essas perversões, sexo normal não satisfaz esta raça. Eles querem sexo anal, comer defuntos...essas anomalias.”, diz um deles. Além disso, Virgínia tem que enfrentar o ciúme de Luiz, quando ela confessa inocentemente que havia o traído com o seu médico, por quem ela sente uma avassaladora atração sexual. Enquanto isso Luiz busca consolo com uma jovem que havia sofrido abuso sexual na infância.
Sexo Anal é sobre isso. Sobre gente lutando para realizar seus desejos sexuais mais íntimos, numa sociedade que, se evoluiu muito, desde os tempos áureos de Nelson, talvez não tenha evoluído tanto quanto gostaríamos. Se estivéssemos nos anos 50, Virgínia poderia ser Ermelinda e Luiz, Adamastor. Mas estariam lidando com o mesmo tripé de conflitos: traição, desejos, obsessões. Tudo isso faz de Sexo Anal muito mais do que um livro sobre sexo. Na conclusão do livro, por exemplo, a escolha de Virgínia resume o principal proposta do romance, a luta para que a felicidade através da satisfação total dos desejos venha um dia a derrotar os pesos pesados da estupidez humana, em um desafio de vale tudo promovido pela moral.
Outro aspecto interessante é como os personagens falam de questões sexuais – algumas até mesmo fortes, como estupro e homossexualismo – de forma tão natural, o que dá um toque atual e inteligente ao livro. Mas se essa naturalidade é o trunfo do Sexo, em alguns trechos, também é o seu maior inimigo. O autor peca pelo excesso, ao descrever cenas totalmente dispensáveis. Um pecado típico de escritor iniciante, que tem a ilusão de estar sendo mais verdadeiro ao se prender a pormenores. Por exemplo, Virgínia tem problemas de hemorróidas, o que dificulta suas relações sexuais. Até aí, tudo bem. Mas os detalhes do seu sofrimento podem lever o leitor desatento a pensar que o autor quer apenas chocar, o que seria uma grande injustiça. Encaro isso como uma ingênua honestidade ao desenvolver o texto. Já posso até ver o velho Nelson com suas bochechas caídas dizendo: “Minta mais, meu caro Bia! Minta sem nenhum pudor!”
Por outro lado, o texto seria enriquecido com um perfil psicológico mais trabalhado de seus personagens, que são tão interessantes. Aliás, uma revisão também mostraria caminhos para agilizar trechos que parecem repetitivos, embora, no geral, a fluidez do texto seja uma de suas maiores qualidades.
Na verdade, Sexo Anal é um romance único que deveria estar nas melhores livrarias se as editoras brasileiras não fossem tão burras. Biajoni é mais um na extensa lista dos desprezados pelo mercado editorial, a recorrer a web para divulgar a sua arte. O que não é nenhum pecado. Mas neste caso, pela qualidade da obra, a web deveria apenas ser uma ferramenta e não a solução. Vai dizer!


Baixe o livro, mergulhando aqui.
E o blog do autor está linkado aí do lado.
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Por falar na burrice das editoras, continuo comercializando o meu romance policial A Arte de Odiar por aqui. São 98 páginas, formato PDF bem fácil de ler. Como remuneração pelos três anos dedicados ao livro estou cobrando o preço de dois chopes ou duas águas de coco: R$ 5, via depósito bancário. É só pedir pelo juliocorrea19@gmail.com e mando via email. Com direito a autógrafo. As razões que me levaram a isso estão no último post.

15 Comments:

Anonymous Patricia said...

Julioooooooooooooooooo, quero o meu Arte de Odiar!
Enviei um email pra você do meu email pessoal mas não obtive resposta. Não sei como funciona o Outlook :D...rs...Por isso peço a gentileza de me responder no email trica977@hotmail.com...Desde já agradeço!

Obrigada!

domingo, fevereiro 11, 2007 10:45:00 AM  
Blogger JokerMan said...

Grande Julião. Passei por aqui e foi bom ver vc comentando o livro do Biajoni. Também gostei bastante do livro. Foi o primeiro livro que li inteiro na net e a experiência me agradou. O texto também ajudou pq eu tava louco pra ver no que a estória ia dar.
Grande ano pra vc.
Abraços criminais,
Diego

domingo, fevereiro 11, 2007 11:46:00 AM  
Anonymous DO said...

Fico realmente muito chateado qdo sei destas coisas,JULIO.
Da um desanimo...
Abraços!

domingo, fevereiro 11, 2007 12:05:00 PM  
Anonymous Lino said...

Júlio:
Já havia lido sobre o Biajoni e seu livro, mas ainda não tive tempo de lê-lo.

domingo, fevereiro 11, 2007 1:32:00 PM  
Blogger Edward Bloom said...

Pô, o Biajoni tem uma escrita leve, mas acho que a linguagem não é o que eu poderia definir como leve hehe. Ele escreve muito bem, mas pra mim, um cara meio quadradão e tal, o Biajoni não conseguiu ser muito sutil na abordagem do sexo. E isto chama mais atenção do que deveria. Eu sei que foi proposital, mas, mas, mas...espero um dia poder ler um livro do Biajoni sobre algum assunto que eu goste. Tá, me deixe ser egoísta =]

Eu já passei por aqui antes, mas fiquei com vergonha de dizer olá. Olá, de qualquer jeito.

domingo, fevereiro 11, 2007 4:59:00 PM  
Blogger Marco said...

Caro Júlio,
Vim conhecer o seu blog por recomendação da querida Luma.
Sobre o Sexo anal, eu já tinha lido sobre ele no Prosa e Verso. Confesso que não me despertou a libido (ré! ré! ré!...). Mas acho interessante que um autor escreva sobre isso e ainda por cima em romance policial.
Post seguinte: Eu não sei como um crítico que honra suas teclas e seus neurõnios possa dizer que o gênero policial é "menor". Menor é a inteligência de quem diz isso.
Sobre o seu livro: sim, vou pedir um exemplar. Tenho a maior curiosidade em conhecer o seu trabalho. Quanto aos seus problemas com editoras, pois é, é assim mesmo. Acho que você fez muito bem em partir para produção independente. Amigos meus partiram e se deram muito bem.
Post sobre o Club de Esquina: Muito a propósito a sua lembrança. Tenho este disco e o no. 2 entre minhas antigas e queridas ternuras.
Um grande abraço.

domingo, fevereiro 11, 2007 7:22:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Edward, o Bia pega pesado em algumas passagens, sim. Foi exagerado, como falei. Mas no total, ele até que foi bem leve. Agora, quadrado eu não concordo.
gd ab

Marco,
valeu e volte sempre.
gd ab

domingo, fevereiro 11, 2007 7:31:00 PM  
Anonymous rubo medina said...

Você tem razão, Júlio Cesar. Para não cair na vulgaridade, no lugar comum, no boçal, é fundamental conhecer o que falamos. Deve ser o caso do livro.
Quanto a essa nossa política editorial, outra vez te dou razão, mas ainda bem que a web está aí, bem democrática. Só está faltando o retorno financeiro pra quem almeja isto.
Fazia tempo que eu nao passava por aqui. Foi bem proveitoso o tempo.
Abraços, boa semana.
http://napontadolapis.zip.net
http://dulcineia.blogspot.com

domingo, fevereiro 11, 2007 11:28:00 PM  
Blogger Biajoni said...

lindo, lindo, lindo, julião.
muito obrigado pelas palavras.
:>)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007 10:24:00 AM  
Anonymous Daniel Lopes said...

pô, o Biajoni sem barba tá parecendo gente.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007 10:39:00 AM  
Blogger luma said...

Ops!! Bia Jonis?? hahahahaha
As partes a que se refere, meticulosa. Bem, acho que deu mais personalidade.
Quanto às editoras, o que dizer de alguns escritores que têm sucesso mercadológico sendo a 'obra' de gosto bastante duvidoso?
Muitos partem para a produção independente porque não se encaixam no sistema.
Boa semana! Beijus

segunda-feira, fevereiro 12, 2007 11:43:00 AM  
Blogger Maitê said...

Finalmente o Bia está recebendo a atenção merecida por seu livro, que é realmente muito bom!

Abs

segunda-feira, fevereiro 12, 2007 1:24:00 PM  
Blogger Yvonne said...

Boa resenha de um livro ótimo. Beijocas

terça-feira, fevereiro 13, 2007 10:57:00 AM  
Anonymous Mônica Montone said...

Não me desperta o paladar, amigo Julio!!!! Apesar de sua resenha estar ótima!

Tô cansaaaaaaada de sexo verbal, visual, auditivo, rs*

beijos com saudades,

MM

wwww.finaflormonicamontone.blogspot.com

terça-feira, fevereiro 13, 2007 4:35:00 PM  
Anonymous Bruna said...

Oi Júlio,

Vou baixar o livro, ler e veremos se concordo ou não com teu post. De qualquer maneira, parabéns pela crítica. Se não é fácil escrever sôbre sexo, menos ainda é fazer uma critica isenta ... O título do livro já é bastante chamativo, uma vez que 100% dos homens que eu conheci na minha curta vida têm uma atração fatal pela porta de trás. Nenhuma editora se interessou? que pena!

Beijo grande

terça-feira, fevereiro 13, 2007 4:41:00 PM  

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