domingo, julho 29, 2007

O crepúsculo da Vergonha






A Sra. Vergonhanacara era gorda e usava um antipático tallier cinza.
Carregava um bolsa de colo preta e tinha os
cabelos presos num coque ridículo.
Tão austera e grave quanto a sua aparência era a sua voz.
Alta e opressora. Treinada exaustivamente para
constranger. E ela era muito boa nisso.






Não era a melhor época para isso, mas nos conhecemos no natal de 1967. Eu tinha acabado de completar oito anos e tinha pedido ao meu pai um autormama, o brinquedo mais cobiçado pela garotada da época. Éramos uma pacata família de classe média baixa e morávamos em um simples apartamento no subúrbio do Lins de Vasconcelos. Autorama era um brinquedo caro e meu pai não teve vergonha de me dizer que não poderia comprá-lo. Naquela época garotos de oito anos eram muito mais incocentes dos que os de oito anos de hoje e costumávamos nos decepcionar com coisas tolas. Eu pedi, então, de presente um Forte Apache que eu havia visto num comercial da Estrela. Só que o comercial mostrava o brinquedo em tamanho grande e acabei ganhando o menor. Nova decepção.


Havíamos aceitado o convite para passarmos a noite de natal na casa de uns tios, na Tijuca. Esse tio era um alto funcionário do Ministério da Fazenda. Eles tinham quatro filhos e um deles era o Ronaldo, um pouco mais novo do que eu. A situação financeira deles era muito superior a nossa.


E eis a minha surpresa quando chego na casa desses meus tios, encontro o meu primo brincando com um lindo Forte Apache tanhanho família, com muito mais soldados, índios e cavalos. Nova decepção. E uma inveja horrorosa.


Garotos de oito anos costumam ter invejas horrorosas e podem ser cruéis. Então, sem que ninguém percebesse, peguei alguns soldadinhos e escondi dentro do sapato. Eu tinha consciência do que havia feito, sabia que estava fazendo algo errado. Mas "Pô! O Ronaldo tem muito mais brinquedo e mais dinheiro também, podia comprar mais soldados, pôxa!"


Mas ao voltarmos para casa, os soldadinhos começaram a machucar os meus pés e minha mãe estranhou o fato de eu estar mancando. Quando chegamos, ela me levou para o quarto e iniciou o seu sermão de mãe assim que me fez descalçar os instrumentos de ocultação do crime.


Não tínhamos telefone na época. Nos anos 60 ter telefone significava esperar meses até que um plano de expansão da Telerj fosse aberto em seu bairro e depois esperar mais alguns meses até a instalação. Mas sempre havia um vizinho prestativo para nos servir. O nosso era uma viúva chamada Dona Zara, que morava no primeiro andar com seus dois filhos.


E lá estavam os quatro, quando minha mãe me levou para telefonar para os meus tios para pedir desculpas e dizer que na manhã seguinte iríamos lá devolver os brinquedos.


Eu disse que estavam os quatro? Sim, além da viúva e seus filhos, lá estava ela. Com seu tallier antipático e sua bolsinha de colo. Magnânima, corpulhenta e opressora.


"Muito prazer. Ainda não nos conhecemos. Pode me chamar de vergonha.", ela gritou, enquanto eu ouvia a minha mãe contar para os meus tios, pelo telefone, o que eu havia feito.


"Eu só queria...eu só queria...", comecei a falar, evitando olhar para a viúva e seus filhos.


"Não adianta, meu querido. Não adianta se justificar. Eu não vou embora. Aliás, a partir de hoje estarei sempre por perto, sempre pronta para entrar em ação quando for necessário. Ha-ha-ha-ha-ha-ha!!!!!"


E soltou sua gargalhada pavorosa, enquanto eu sentia o oxigênio fugir das minhas narinas.


Mas na última semana me dei conta de que há ela mentiu pra mim. Ela não anda mais perto de mim. Nem me lembro qual foi o último contato que tive com essa senhora. Simplesmente porque depois de tantos contatos traumáticos, acho que desenvolvi algum mecanismo psicológico que me avisa sempre que a incômoda senhora está prestes a entrar em ação.

Mas não pense que a nossa convivência foi pacífica. Ela foi um grande tormento na minha adolescência. Não sei quantas experiências ou aventuras maravilhosas ela me impossibilitou de ter, sempre me reprimindo. Mas isso foi antes de eu ter consciência de que tudo na vida tem um lado ruim. E esse era o lado negro daquela senhora.

Nos último dias tenho pensado muito nela. Por onde anda? O que tem feito? Quantos infelizes deverá estar atormentando?

Conversando com um e outro, fui obtendo informações. E as notícias não foram nada boas. Parece que a Sra. Vergonha está prestes a se aposentar. Ganhando uma ninharia, mora de aluguel numa vila triste, em algum lugar na Baixada Fluminense. Envelheceu, emagreceu, encolheu. Está hipertensa, cardíaca, depressiva, diabética, com as varizes estufadas e a coluna rebelde.

Fiquei sabendo também que suas atividades estão cada vez mais reduzidas. Parece que a velha senhora não tem assustado muita gente. As pessoas riem dela, é ridicularizada pelos mais jovens e agredida pelos mais velhos. As crianças dão gargalhadas quando ela aparece, enquanto os seus pais nada fazem para impedi-las. E ela ainda tem que ouvi-los dizer: "Não quero que meus filhos repitam o meu erro. Fui dar ouvidos a você e veja o que aconteceu comigo. Fui passado para trás por gente que sempre lhe desprezou."

E lá ia a velha senhora, murcha, feia e acabada, servindo de chacota para debochados e cínicos. Em alguns lugares atiravam-lhe coisas.

Sozinha, velha e doente, a Vergonha parece estar mesmo com os dias contados. Soube que suas duas irmãs, a Ética e a Moral, as únicas que podiam ajudá-la, também estavam mal das pernas, jogadas em asilos, definhando às custas do INSS.

O que teria sido de mim se não houvesse a conhecido naquele natal?

Sinceramente, não sei. Prefiro responder com outra pergunta: O que seria do mundo sem ela?

Penso no mundo como um grande Orfanato e a Vergonha seria uma espécie de Madre Superiora a nos punir sempre que burlamos as leis das nossa própria moral. Sim, porque ela só amedronta aqueles que conhecem a dignidade, o respeito e a descência. Porque os que não os conhecem, tendem apenas a ignorá-la. Se eu, lá no fundo, não tivesse consciência de que estava realmente fazendo algo errado, teria mostrado o dedo para aquela mulher gorda e repressora e sabe-se lá o que estaria escondendo dentro dos meus bolsos hoje.


Talvez a missão desta velha morimbunda seja nos confrontar com as nossas verdades, com os nossos valores. E os nossos valores não podem ter realmente algum valor se for contra os interesses dos outros. Acho que esse sempre foi o nobre trabalho dessa senhora que está em sua fase crepuscular. Evitar que entremos em conflito, não com leis, sociedade ou justiça, mas com nós mesmos. Um conflito em que sempre saimos perdendo.


Todas essas reflexões sobre essa velha senhora surgiram após ler isso aqui. Um pequeno/grande texto que será uma vergonha você não ler.

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