domingo, agosto 20, 2006

40 anos do Revolver


Diz a lenda que numa tarde do verão de 1966, Phil Lesh, o guitarrista e fundador da banda psicodélica Grateful Dead caminhava por uma rua de São Francisco, quando um amigo, eufórico, o carregou para o interior de uma loja de discos.
"Ouça essa música que está tocando! Ela vem daqui."
Lesh olhou para o disco nas mãos do amigo e, por alguns segundos, ficou sem respiração.
"Cara, eles entraram na nossa!", finalmente conseguiu dizer.
A surpresa dos dois tem sentido. Até então o psicodélismo era tido como coisa de hippie doidão da Califórnia e, embora estivesse crescendo a passos largos, a mídia insisistia em desprezá-lo. Mas o que aconteceria quando o maior grupo musical da época começasse a fazer aquele som revolucionário?
Durante muito tempo ninguém ousava negar que Seargent Peppers Lonely Hearts Club Band era o melhor trabalho dos The Beatles. Até que algum corajoso questionou se o disco anterior, lançado em agosto de 1966, não mereceria o posto. Se querem a minha opinião, tenho dúvidas. Mas a única certeza que tenho é que Revolver é um dos melhores trabalhos da década de 60.
Este lp foi lançado numa época em que o quarteto estava se esforçado para melhorar a qualidade do seu som, depois de serem taxados de medíocres por seu ídolo, um cara chamado Bob Dylan. A primeira providência foi não lançar mais dois álbuns por ano e, sim, concentrar-se na realização de um único. A segunda, e mais drástica, foi abandonar os palcos, já que desde o lp Rubber Soul, de 1965, eles haviam timidamente começado a navegar nos mares perigosos do experimentalismo psicodélico e estava cada vez mais difícil levar tanta sofisticação sonora para os shows.
Revolver assume o que Rubber Soul apenas insinuava: uma mudança radical nos rumos da banda inglesa. A capa desenhada por Klaus Voormann já demonstra a perda de inocência pela qual os rapazes passavam, principalmente por causa do uso de drogas. Muitos destacam os complicados arranjos de algumas faixas, consideradas revolucionários para a época, como em Got to get Into My Life ou na intrincada sonoridade de Tomorrow Never Knows, faixa que encerra o álbum e que foi o motivo da surpresa de Phil Lesh e seu amigo. Eu prefiro jogar os holofotes sobre as letras muito bem cuidadas, aliás, uma preocupação cada vez mais constante no mundo do rock, de então, desde a chegada do furacão Dylan. Podia citar a ironia da primeira faixa, Taxman, ou a criatividade de I´m Only Sleeping ou na beleza singela de Here, There and Everywhere. Mas não dá para deixar de destacar Eleonor Rigby, em que, através de frases maduras como...
...ela espera na janela
com uma expressão facial que mantem num jarro
atrás da porta.
Para quem?
Oh, os solitários!
De onde eles vem?
Oh, os solitários!
A que lugar eles pertencem?
...os Beatles calaram a boca de Dylan.
Aliás, letras, sons, arranjos e melodias, tudo neste álbum ainda nos causa surpresa, quarenta anos após o seu lançamento. Não que ele ainda choque ou seja revolucionário. Mas é que ele nos lembra que já houve um tempo em que os discos ainda nos surpreendiam.

9 Comments:

Anonymous DO said...

Confesso que não manjo muito do assunto ,JULIO. Mas uma coisa concordo totalmente com vc : faz muito tempo que não aparece alguma coisa que ,realmente,nos surpreenda.
Grande abraço e otima semana

segunda-feira, agosto 21, 2006 8:37:00 AM  
Blogger milton toshiba said...

Julio gostaria de ter a caixa deles....
A minha preferida é the long and wide road...., aliás..todas!
Boa semana

Abçs

segunda-feira, agosto 21, 2006 9:45:00 AM  
Blogger Biajoni said...

não pintou sábado?
:>/

segunda-feira, agosto 21, 2006 2:25:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

DO,
tenho fé que a música POP ainda vai se regenerar.
gd ab

Milton,
gosto muito da segunda fase do quarteto.

Bia,
fui e te vi,mas houve um desencontro. Vou lá no teu blog explicar.
gd ab

segunda-feira, agosto 21, 2006 2:41:00 PM  
Blogger Alba Regina said...

é um clássico com certeza e me lembro bem de uma amiga fanática por beatles q só chegava lá em casa com este disco debaixo do braço e analisando as músicas, as letras...um troço...eu particularmente sempre gostei mais de dylan...enfim...beijo jc! ^^

segunda-feira, agosto 21, 2006 8:02:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Alba,
o problema do Dylan foi ser superestimado. Fizeram dele um mito e ele embarcou na onda. Se tivesse se contentado apenas em ser o grande artista que era, não teria decepcionado tanto.
bjs

segunda-feira, agosto 21, 2006 8:09:00 PM  
Blogger Vera Fróes said...

Júlio gosto dos Beatles mas não sou apaixonada, porque nesse época morava no interior do interior, onde as informações chegavam ou via rádio ou através de revistas(estas bem escassas).
Gosto do Dylan tbm. Tem um amigo é doente por ele, já foi a não sei quantos shows dele e diz ele ter o telefone do "Deus", o que não duvido!Rssssss.
Bjos.

terça-feira, agosto 22, 2006 3:26:00 PM  
Blogger Jorge Ferreira said...

eu costumsva ser um beatlemaniaco na adolescencia...depois a coisa meiuo que estacionou...o que nao quer dizer que tenha deixado de gostar...acho o revolver um dos grandes albuns da historia do rock...nao sei dizer se 'e melhor do que outros deles mesmo...so sei que 'e lindo...for no one 'e uma linda cancao...tomorrow never knows 'e uma revolucao...i'm only sleeping 'e uma perola...

terça-feira, agosto 22, 2006 8:56:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Vera,
Beatles forever!
bj

Jorge,
disse tudo
gd ab

terça-feira, agosto 22, 2006 8:59:00 PM  

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