sexta-feira, agosto 11, 2006

Uma Avenida Chamada Dropsie

Três vagabundos grandalhões estão na frente de um prédio decadente. Estão esperando por um rapaz judeu para surrá-lo. Só por diversão.
Para se divertirem ainda mais, eles resolvem dar uma chance ao coitado. Ele deverá escolher entre dois papéis enrolados e com algo escrito, nas mãos do vagabundo-líder. Se o judeu tirasse o papel onde estaria escrito INOCENTE, ele seria liberado. Caso o contrário...
Só que nos dois papéis estaria escrito CULPADO.
Então, o jovem judeu, muito franzino, chega e é forçado a participar da brincadeira. Ele abre o papel escolhido, arregala os olhos ao ler o que está escrito e engole o papel.
"Ei, você engoliu. Como vamos saber se era culpado ou inocente?" - pergunta um dos vagabundos, irado.
"Pegue o outro papel?", pede o jovem judeu, "Então? O que está escrito?"
"CULPADO.", responde o grandalhão.
"Então quer dizer que sou inocente.", diz o judeu, saindo apressado, em seguida, deixando os vagabundos com cara de otários.

Semana passada fui assitir Avenida Dropsie, o espetáculo que está causando no Rio o mesmo frisson que causou em São Paulo em 2005. A peça, em cartaz no Conjunto Cultural da Caixa Econômica, é toda baseada na obra homônima do famosíssimo artista gráfico Will Eisner, cuja a capa está lá em cima. Parece que os quadrinhos estão mesmo na moda. Depois do sucesso no cinema no ano passado em Sin City, obra de Frank Miller, agora fazem bonito no palco, neste espetáculo, onde o universo criado por Eisner é tratado com uma maestria pouco vista até hoje na história dos palcos brasileiros. Isso graças ao roteiro e a direção primorosa de Felipe Hirsch e as interpretações fantásticas dos 8 atores do grupo curitibano Sutil Companhia (Guilherme Weber, Erica Migon, Duda Mamberti, Graziella Moretto, Leonardo Medeiros, Paulo Alves, Mauro Zanatta e Maureen Miranda), que interpretam mais de cem personagens. Fora isso, existe o cenário, os figurinos, a trilha sonora (com músicas que vão do jazz ao rap) e os pequenos efeitos especiais - como o aguaceiro (5 mil litros de água) de cerca de vinte minutos que desaba em pleno palco. E há ainda a narração de Gianfrancesco Guarnieri, que ainda estava vivo na montagem paulista, e que fica muito mais emocionante na montagem carioca. Tudo é bonito e bem feito em Avenida Dropsie.
Na verdade, a obra de Eisner é uma colcha de retalhos de fragmentos do cotidiano do que se passa na frente e dentro de um prédio em Nova Iorque. Bêbados, mendigos, vagabundos, viciados, assaltantes, namorados, tarados, amantes, golpistas, idosos, judeus, imigrantes. Todos são personagens das centenas de pequenas cenas que formam a colcha do panorama da vida numa cidade grande. Seu lado humano e seu lado monstruoso. Seus dramas e suas situações cômicas. Tudo é contado em cenas muito pequenas, isoladas, mas que de alguma forma se interligam. O Embate entre os grandalhões e o rapaz judeu é uma das histórias.
Quando as duas horas de encenação terminam, o espectador está extasiado com tanta beleza, emoção e virtuosismo. Pra quem gosta de teatro, como eu, foi um orgasmo triplo!
Na verdade, não acho que Avenida Dropsie seja um espetáculo teatral. É um acontecimento teatral.

8 Comments:

Anonymous manoel donini said...

Ola amigo.Acompanhando uma bala perdida cheguei a esta avenida.Andei um pouco por ela, tive sentimentos de revolta contra esses imundos racistas que existem por ai, mas rí feliz com um judeuzinho esperto, pois já me preparava para sofrer algumas dores e humilhações com ele.Lí e reli de cima abaixo, conquistando um pouco de conhecimentos de coisas que eu desconhecia.Por isto parabenizo-o e agradeço.Um abração.

segunda-feira, agosto 14, 2006 10:01:00 AM  
Anonymous DO said...

Fiquei deveras curioso,JULIO...
Otima semana a vc
Abração!

segunda-feira, agosto 14, 2006 12:07:00 PM  
Anonymous Luís Fernando said...

Buenas.
Julião, o Felipe Hirsch foi muito, muito feliz nessa montagem.
Aqui em Sampa foi um puta frisson, como você disse. Aposto que no Rio não será diferente.
E... pô, que saudade do Guarnieri.
Voltei ao conto, meu velho. Quando terminar, já sabe. =)
Grande abraço.

segunda-feira, agosto 14, 2006 2:06:00 PM  
Anonymous Lexotânica said...

Julio, vou te dizer que há um ano atrás, num domingo tedioso aqui na paulicéia, enquanto eu olhava o Guia da Folha, meio sonolenta, dei de cara com o anúncio do "Avenida Dropsie" em sessões gratuitas num teatro na Paulista. Li novamente, pra conferir se não era algum devaneio, mas não. Pois bem, obviamente fui e sem sombra de dúvidas foi das melhores peças que assisti...Primorosa!!!

segunda-feira, agosto 14, 2006 3:32:00 PM  
Blogger luma said...

Esperto o Judeu! (rs*)
Fiquei imaginando como é desaguar 5 mil litros de água em pleno banco. Não é pequeno efeito especial, é pura grandiosidade. Gostaria de ver o espetáculo na França! (rs*)
Boa semana! Beijus

segunda-feira, agosto 14, 2006 4:02:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Manoel,
obrigado pela visita e volte sempre.
gd ab

DO,
vc perdeu o bonde aí em Sampa. Agora só vindo ao Rio.
gd ab

Luiz,
o velho Guarnieri é uma lacuna que jamais será preenchida.
gd ab

Lexo,
Avenida Dropsie chga a ser arrebatadora!
Obrigado pela visita e volte sempre.
bj

Luma,
já imaginou na Broadway? deve ter sido um Katrina no palco. :)
bjus

segunda-feira, agosto 14, 2006 7:21:00 PM  
Anonymous pat said...

vi duas vezes aqui em Sampa
m a r a v i l h o s o !!!

terça-feira, agosto 15, 2006 5:21:00 PM  
Anonymous pecus said...

Gostei muito também.

quinta-feira, agosto 17, 2006 2:24:00 PM  

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