Domingo, Abril 29, 2007

O Café com leite


Haviam acabado de sair da aula de ioga.
A academia ficava num prédio na Nossa Senhora de Copacabana, o sol ainda estava no meio do céu, era verão e as duas jovens suavam dramaticamente.
A loura encontrou a ruiva abrindo o carro.
“Ei, você é aluna da academia?”
A ruiva olhou para a loura com desdém.
“Estou suada e com roupas de ginástica, o que você acha?”
A loura com uma irritação calorenta: “É que não estou vendo o plástico no vidro do carro. Por isso perguntei.”
“Sim, eu não tenho o plástico da academia e daí?”, a ruiva.
“Se você não tem o plástico, você não podia estacionar aqui, que-ri-da. Só quem tem o plástico pode estacionar nas vagas da academia.”
“Sim. Eu não tenho o plástico e estacionei. E daí?”
A loura aumentou sua voz na mesma proporção em que sua paciência diminuía.
“E daí, filhinha, que eu tive que parar a uma quadra daqui porque não havia vaga pra mim. E eu tenho o plástico. Deu pra entender?”
“Olhe, meu amor. Você está querendo bater boca e eu não estou a fim, entendeu?”
A loura com um riso nervoso: “Imagine se eu vou bater boca com gente como você, querida? Só estou lhe avisando para você procurar o seu lugar. Se não pode pagar pelo plástico...”
A ruiva fechou a porta do carro e se aproximou da loura com o dedo em riste.
“Olhe aqui, ô garota. Veja lá como fala! Eu não tenho essa porcaria de plástico porque moro aqui perto e não costumo vir de carro. E não sei por que tanto escândalo por causa de uma vaga! Afinal, ninguém morreu por isto...”
Foi neste momento que o corpo da velhinha caiu em cima do teto do carro da ruiva, provocando um estrondo seco.
A loura e a ruiva ficaram lado a lado, olhando para aquilo paralisadas pelo horror.
*******************

Eu e o Magrão fazíamos uma diligência no prédio ao lado, para investigar a possível existência de um disque-droga.
Logicamente fomos convocados para descobrir o que havia acontecido.
E descobrimos que o corpo era da Dona Arlete, que morava no 1104. Para a nossa surpresa, a porta do apartamento estava semi-aberta.
Lá dentro, um velhinho num sofá, assistindo tv. Um ventilador do lado, controle remoto nas mãos. Não olhou para nós. E antes que falássemos alguma coisa, disse, com os olhos ainda nos ignorando:
“Eu só queria tomar o meu café com leite em paz.”
Girei o olhar policial pela sala. Havia uma xícara com café com leite, ainda pela metade, sobre a mesa de centro, ao lado de várias cartelas de comprimidos.
“A Dona Arlete vivia aqui com o senhor?”
O velho parecia nos ignorar totalmente. Os olhos sob o efeito do voodoo da tv.
“Por esta hora ela costuma ir ao Bingo. Mas não sei por que ela não foi hoje e ficou me aporrinhando, aporrinhando, aporrinhando, falando, falando...”
Meus olhos viram uma pequena estatueta de gesso caída sobre o carpete. Estava manchada de sangue. Quando meus olhos se voltaram para ele, o velho me olhava.
“O câncer não se satisfez em dominar a minha próstata e está se espalhando rapidamente por todo o meu corpo, como um exército vencendo uma batalha em território inimigo. Quase não saio de casa e um dos poucos prazeres que tenho na vida é o meu café com leite à tarde.”
“O senhor vai ter que nos acompanhar.”, o Magrão.
“E nem esse pequeno prazer ela me permitiu desfrutar em paz esta tarde. Sempre falando, falando, reclamando, me aporrinhando...”, disse o velho se esticando para pegar a xícara na mesa de centro
Senhor, teremos que ir agora...”
“Posso terminar o meu café? Por Deus! Posso?”
Esperamos.
* Muita gente se choca com as histórias que coloco aqui. Pois bem vou revelar algo que nunca havia dito antes: Fui policial durante sete anos e meio. E podem ter certeza de que o que ponho aqui é A Noviça Rebelde perto da realidade aí fora.
E essa foi mais uma história do mais carioca detetive da literatura policial. É o personagem principal do meu romance A Arte de Odiar, que continuo comercializando por aqui. São 98 páginas, formato PDF bem fácil de ler. Como remuneração pelos três anos dedicados ao livro estou cobrando o preço de dois chopes ou duas águas de coco: R$ 5, via depósito bancário. É só pedir pelo juliocorrea19@gmail.com e mando via email. Com direito a autógrafo.

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Kuka, Saci Pererê, Mula-Sem-Cabeça e As Classes D,E e F não gostam de ler


Essa última lenda, que sempre aterrorizou todos os escritores brasileiros, tem sido desmascarada aqui no Rio. Pois desde dezembro, quando foi estrategicamente instalada na estação do metrô da Central do Brasil, por onde diariamente passam algumas centenas de milhares de trabalhadores das classes mais baixas, a biblioteca Livros e Trilhos já tem 2159 sócios. E o que é melhor os atrasos na devolução são raros e até agora ninguém se esqueceu de devolver. E os títulos mais procurados pelo povão são O Código Da Vinci e Fortaleza Digital, ambos de Dan Brown, e O Caçador de Pipas.
Nem tudo está perdido.

Terça-feira, Abril 24, 2007

Cenas da Vida Moderna


ELE: “Quer dizer que você…?”
ELA: “Sim, eu desisti dos homens.”
ELE: “Posso concluir que você desiste fácil?”
ELA: “Nasci no interior de Minas e fui campeã de surfe aos quinze anos. Não conheci o meu pai. Minha mãe limpava privadas para me alimentar e hoje sou executiva em uma multinacional.”
ELE: “Isso responde a minha pergunta, mas não me convence.”
ELA: “Pertenço há nove anos a mesma mulher.”
ELE: “E está aqui neste bar porque...?”
ELA: “Pelo mesmo motivo que você. Preciso de um drinque para relaxar após um dia difícil.”
ELE: E por falar em dia difícil, esse meu está superando os piores da minha vida. E pra terminar, agora encontro você.”
ELA: “Mas por que o desânimo? Podemos conversar. Como dois adultos que tiveram dias difíceis.”
ELE: “Então, podemos conversar de homem pra homem?”
ELA: “Você me faz sentir uma PQD ou uma caminhoneira ou um peão de rodeio.”
ELE: “Deixe-me ver sobre o que poderíamos conversar...você assistiu ao Fluminense e Corintians ontem?”
ELA: “Que tal falar sobre sua vida de casado?”
ELE: “Não posso falar sobre a minha mulher com uma mulher que dorme com mulheres.”
ELA: “Então fale do seu trabalho.”
ELE: “Podemos falar sobre outras mulheres. Que tal sobre aquela loura do vestido vermelho naquela mesa ali?”
ELA: “Temos maneiras diferentes de encarar as mulheres.”
ELE: “Eu conheço aquela loura. Ela também gosta de garotas e o cara que está com ela é gay.”
ELA: “E isso choca você?”
ELE: “Não. Mas ela está olhando pra cá e certamente não é para mim.”
ELA: “Não estou interessada.”
ELE: “Olhe, se você quiser eu posso apresentá-la a você.”
ELA: “Não sou uma pessoa fácil.”
ELE: “Aqueles peitos também não são fáceis!”
ELA: “Não seja vulgar.”
ELE: “Vulgar? Você não gosta de uma rosca?”
ELA: “Olha, eu não estou gostando nada do rumo desta conversa. Me respeite!”
ELE: “Me respeite? Tudo bem. Eu desisto, não vou apresentar aquele mulheraço a você. A Sandrinha não ia gostar deste teu papo de mulherzinha.”
ELA: “Tá certo. O placar foi Fluminense 2 x Corintians 0. Gols de Adriano Magrão aos vinte do segundo tempo.”

Sexta-feira, Abril 20, 2007

Katrina

Lançado em 1984, Furacão Elis logo tornou-se um best seller. Mas era de se esperar de um livro que conta, de forma honesta e brilhante, a vida de um dos maiores mitos da musica popular que havia morrido pouco antes.
A jornalista gaucha Regina Encheverria vai mais além do que contar a vida de Elis, nos conta um período importante da nossa música e da vida do país (os festivais dos anos 60, a dtadura, a abertura política, a anistia. O início da carreira num programa de tv, o tempo do Beco das Garrafas, o fracasso do casamento com Ronaldo Bôscoli, os problemas com a esquerda política durante os anos de chumbo, a felicidade com o Cesar Camargo Mariano e o sofrimento da separação. A vida da pimentinha é contada sem sensasionalismo ou drama, mas com a honestidade que uma biografia deve ter. Na verdade o livro é sobre as diversas Elis. A ambiciosa, a mãe, a insegura, a competitiva, a contraditória, a talentosa, a sensível, a guerreira. Entre elas, a que mais fascinava era a que tinha um incrível talento para descobrir pérolas. Como é o caso dessa Jardins da Infância, que você deve estar ouvindo. Nela, a dupla Aldir Blanc e João Bosco fazem uma analogia - muito sutil, para escapar da censura implacável da época - entre as brincadeiras infantis com a tortura que ainda rolava nos porões da ditadura. Faz parte do lp Falso Brilhante, lançado em 1976, quando o país ainda estava chocado com as mortes do Wladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, ambos sob custódia do exército. Aliás, Falso Brilhante contém o repertório do mega-show com o qual Elis esteve em cartaz no Teatro Bandeirantes, SP, entre 17 de dezembro de 1975 e fevereiro de 1977. Foi um dos maiores sucessos do show business nacional. As fogos dos ensaios, feitos em pleno Viaduto do Chá, são ótimas. Ah, sim! A primeira versão do livro tinha fotos e acredito que esta reedição também tenha.
Li o livro assim que foi lançado nos anos 80 e fiquei feliz ao saber deste relançamento da Editora Globo, em parte das comemorações dos 25 anos da morte da cantora, completados em 19 de janeiro último. Confesso que me deu vontade de relê-lo, mas infelizmente emprestei o meu exemplar e não me devolveram. Mas foi bem feito. Certos livros não se empresta nem para a mãe.

Quinta-feira, Abril 19, 2007


John Updike acaba de lançar, pela Companhia das Letras, mais um romance. E quando este senhor lança mais um trabalho, a cena literária mundial se agita e as pessoas têm assunto para conversar nas festas. Mas esse distinto senhor norte-americano de 75 anos, parece ter levado isso às últimas conseqüencias, já que seu recente livro chama-se Terrorista e conta a história de um jovem mulçumano que, após estudar nos EUA, volta para o seu país e decide ser um homem-bomba. Então volta para a América para explodir o Lincoln Tunnel, em Nova Iorque.


No último mês, ele foi entrevistado pela correspondete do O Globo, Marília Martins. E ao falar do personagem principal do livro, ele disse o que pensa da juventude atual:




"Os jovens têm hoje um modo diferente de encarar a morte, um modo que parece muito estranho para alguém da minha geração. Nós tínhamos temor diante da morte. Nós a respeitávamos e por isso respeitávamos a vida. Questões como o suicídio eram muito sérias e profundas e tinham o pano de fundo de um certo idealismo existencial. Hoje, os jovens falam de tiros, bombas, violência, morte, sem qualquer atitude de temor ou de respeito. Não têm respeito pela vida dos outros e nem pela própria vida. E também não têm medo de morrer."




Updike foi polêmico, como sempre. Mas vejo uma triste verdade em suas palavras. Quando vejo o interesse dos jovens por esportes radicais cada vez mais perigosos, quando vejo jovens indo a estádios de futebol apenas para se surrarem, quando vejo garotos sendo cada vez mais protagonistas em crimes cada vez mais horrendos, penso que o velho Updike está longe da senilidade. Acho que o massacre ocorrido na universidade de Virgínia é uma mais prova disso.


Como muitos que freqëntam esse blog ainda são jovens e eu já transcendi essa fase da vida, gostaria de ouvir opiniões. Mandem bala!

Domingo, Abril 15, 2007

Virgínia Brandão


"Nunca fui bonita. Quando adolescente, era tão magra e frágil que evitava praticar esportes, com medo de contusões. Sei do meu rosto ossudo, meu nariz muito comprido e meu queixo miúdo. Sei também da minha boca pequena, talvez pela falta da prática de boas gargalhadas. Uma vez, Otávio me disse que, por vezes, meu olhar é estreito e ávido, como se eu procurasse algo ao redor; outras vezes, me lanço em contemplações distantes. E neste momento, segundo meu marido, uma expressão melancólica sugere que, talvez, eu procure por algo inexistente.
Fui uma jovem triste e solitária. Tive poucos amigos. Era tida por pedante e chata na escola. A aluna querida dos professores. Aquela cujas redações eram expostas em um quadro no corredor para que todos lessem.
Desde cedo, me apeguei aos livros, na tentativa de esquecer meus complexos e o sentimento de inferioridade que me acompanhava. Sou uma escritora frustrada. Não tenho talento para a escrita (E esta é uma das razões da existência deste diário. Escrevo-o como se fosse um livro. Minha última tentativa de escrever um). Aos dezoito anos, era capaz de recitar trechos das obras de Flaubert, Tostoi, Voltaire, Tchekov, Shakespeare, com uma intimidade impressionante. Mas não conseguia sustentar uma conversa de quinze minutos com os da minha idade. Meu pai, adido cultural, e minha mãe, funcionária do Ministério da Educação, me incentivavam tanto na busca pelo saber, que, em algum ponto da minha juventude, passei a crer ser a cultura a linha invisível que estabelece as divisões na sociedade. Talvez tenha sido aí que passei a sentir-me superior.
Tive dois namorados, que me abandonaram. Mas não chorei, nem sequer sofri. Apenas preferi acreditar que eles não estavam a minha altura. Otávio foi o terceiro. Conhecemo-nos no último ano do curso de Letras, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fazíamos um curso de verão sobre ‘A Moderna Literatura Francesa’. Ele havia acabado de publicar o seu primeiro livro, aos vinte anos, e foi o primeiro homem a me impressionar. Como eu, o jovem intelectual, filho do dono de uma editora e de uma poetisa judia, gastava suas noites de sábado trancado em seu quarto na companhia de bons livros, ou, se muito, em teatros ou cinematecas.
Passamos a ser vistos pelas alamedas da universidade em férvidas discussões filosóficas e freqüentando as sessões da meia-noite em cinemas de arte. Pouco a pouco, fomos nos enroscando na teia um do outro e não percebemos a perigosa conveniência que seria, para nós, o casamento.
Após alguns meses de namoro e um de noivado, eu disse ‘sim’, pensando em não deixar escapar, talvez, a única oportunidade de me unir a um homem do meu nível. Nos completávamos intelectualmente e isto era o bastante. Talvez tenhamos nos casado sem conhecer o amor. Mas amar é tão complexo! Tão complexo quanto odiar."

Trecho da introdução do diário de Virgínia Brandão, personagem do meu romance policial A Arte de Odiar, que continuo comercializando por aqui. São 98 páginas, formato PDF bem fácil de ler. Como remuneração pelos três anos dedicados ao livro estou cobrando o preço de dois chopes ou duas águas de coco: R$ 5, via depósito bancário. É só pedir pelo juliocorrea19@gmail.com e mando via email. Com direito a autógrafo.

Quarta-feira, Abril 11, 2007

Pode rir de mim, Argentina

Modernidade e tradição namoram na capital argentina.




Multidão de turistas em La Bocca.



Ambiente cool em Palermo Soho.




O charme arquitetônico de San Telmo.





Os lindos Bosques de Palermo. Clima de Central Park.

A cidade vista da reserva às margens do Rio da Plata


Na sua segunda lista anual das cem melhores cidades do planeta para se viver, publicada esta semana, a BusinessWeek colocou Buenos Aires no número 79. Caiu um ponto em relação a 2006. Parece um resultado ruim, mas não é tão mal, levando-se em conta que a exigente revista colocou Paris no 33, Londres (39), Madri (42), Lisboa (47), Nova Iorque (48), Milão (49), Los Angeles (55), Roma (61) Miami (62), Hong Kong (70), Atenas (78) e Seul (87). Entre as demais vizinhas, encontramos Montevidéo (76) e Santiago(83). Na pole position e com a medalha de prata estão duas cidades suiças, Zurich e Geneva. Vancouver, no Canadá, ficou com o bronze.

Para ver a lista completa, mergulhe aqui.

Não adianta procurar por alguma cidade brasileira. Não há nenhuma na lista. Para eles devemos ser inabitáveis.


Sábado, Abril 07, 2007

Não ria de mim, Argentina


Click nas fotos para viajar melhor nas imagens

Em janeiro último, muitos profissionais do ramo turístico brasileiro esgotaram os estoques de Lexotan das farmácias ou tomaram porres homéricos.

Vou explicar: é que o caderno de turismo do New York Times - um dos mais importantes do mundo -, elegeu a capital argentina como o lugar da moda.

Pois bem, ainda na fase "preciso aprender a ser só ou preciso mudar a minha vida e por isso tenho que ficar sozinho para pensar", decidi ir até a terra do tango para conferir.



Estive pela primeira vez em Buenos Aires justamente na semana santa de 1982. O país havia acabado de entrar em guerra com a Inglaterra pela posse das Ilhas Malvinas. Eu tinha, então, 22 anos. E quando se tem essa idade, curtição e aventura é o que interessa. Eu estava com um pelssoal que conseguia ser mais louco do que eu e nos juntamos a multidão de portenhos que se reuniam em frente à Casa Rosada, sede do governo, para apoiar o governo militar (o país vivia uma ditatura) em relação à guerra. Ainda guardo uma foto daquela época, mas não tive tempo de scanear.

Encontrei a Casa Rosa em obras. Este ano tem eleição por lá e a cidade está toda passando por uma plástica.


Aí em cima, a guarda presidencial a caminho da famosa troca de guarda que acontece várias vezes por dia na frente da sede do governo. A imponência européia continua nos prédios da Praça Del Mayo, onde as mães de desaparecidos se reúnem todas as quinta, ainda na esperança de encontrarem os corpos dos filhos.



Este aí é o prédio da Catedral Metropolitana.

Prédios suntuosos em largas avenidas, com largas calçadas desimpedidas de camelôs, dão um ar europeu, que nos faz muito bem.

Ares de Broadway na avenida Córdoba, com os portenhos se acotovelando nas portas dos cinemas e teatros, além das centenas de restaurantes e cafés. Quem pensa que só Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, não conheceu Buenos Aires. A noite de lá é pra lá de animada e começa tarde. Para se ter uma idéia, as boates não começam antes das duas da madrugada. É comum vermos gente voltando das baladas às nove ou dez da manhã e se arrastando pelas ruas e pelo metrô, com suas roupas de noite.


O Obelisco no meio da Nove de Julho é o símbolo da cidade. A avenida é a mais larga do mundo e nos lembra o Champs Elizier.




Buenos Aires tem mais livrarias do que todo o Brasil. É a cidade mais literária da América Latina. Na semana passada foi divulgado que as vendas de livros na Argentina cresceram 12,6%, enquanto estão despencando em todo o mundo. E falar em literatura portenha é falar no grande Jorge Luis Borges, freqüentador assíduo do Café Tortoni, na avenida Del Mayo, onde até hoje alguns objetos pessoais do escritor estão expostos. Tomar um café no Torni e respirar o mesmo ar que um dia Borges respirou é uma experiência especial para todos ligados à literatura.


No mesmo prédio, no segundo andar, funciona a centenária Escola Nacional de Tango.


Entrada da elegante Galeria Pacífico, na avenida Córdoba, onde, com o real mais valorizado, os brasileiros tem verdadeiros orgasmos consumistas.


E o clima europeu prossegue na Recoleta, o bairro classe média alta, um pouco mais ao norte, com seus recantos deliciosos...



...seus casarões que são um luxo só,...




...e sus lojinhas...




...eu disse lojinhas?




Essa da Polo aí de cima tem três andares, uma sala para cada tipo de roupa e até um lounge para os clientes cansados de tanto comprar. É pra baixar a auto-estima de qualquer brasileiro.


E o luxo continua no shopping Buenos Aires Design, onde os designers e artistas mais contemporâneos expões seus trabalhos voltados para objetos para o lar. Estilo gótico cercado por jardins.



Palermo Viejo com suas ruas arorizadas e seus restaurantes transadíssimos é o lugar mais badalado do momento. Se você não é cool, não vá. Aliás, vá sim, porque o lugar merece ser conhecido. É dividido em dois por uma linha férrea. Esse ai de cima é Parlemo Soho...

...onde pequenos artesãos e estilistas encontram espaço para expor seus trabalhos, junto com marcas famosas, como a Diesel.

Exite ainda Palermo Hollywood, mais calmo, e que ganhou esse nome por ser o lugar da cidade mais usado para filmagens.
Ambos são lugares interessantes e modernos, que fazem Ipanema parecer Quixeramobim e os Jardins, em São Paulo, parecerem coisa do século XIX. Mas os turistas já descobriram o lugar e os comerciantes já tiram vantagem disso. Cobram 15 pesos por um hamburguer, quando, no Centro, por este preço, você pode devorar uma parrilla, o prato típico do país. Mas vale a pena passar uma tarde ali, nem que seja para se sentir no Soho novaiorquino.



Mas existe um lugar ainda não tão descoberto pelos turistas e que não deixa de ser menos cool do que Palermo. Indo mais ao norte, encontramos La Imprenta, um bairrozinho esprimido na hípica, para onde os cool da classe média alta estão se mudando. Ainda não está nos guias turísticos e, por isso, permanece tranqüilo, escondendo tesouros como este pub irlandês na Calle Migueletes.


Os bares, cafés e restaurantes de La Imprenta não devem nada em elegância, originalidade e ar cool aos de Palermo Viejo, só que são mais calmos e baratos, freqüentados na maioria das vezes por moradores da região, que vão tomar seu café da manhã com seus laptops, sem serem incomodados por turistas barulhentos.

Um dos pontos de encontro do lugar é a sorveteria Persicco, onde, por preços acessíveis pode-se tomar um café gostoso ou saborear o melhor sorvete da cidade.



Eu recomendo.



Feriado de sol e a classe média portenha vai para os Bosques de Palermo, espécie de Central Park de Buenos Aires.

E querem saber? Achei mais bonito do que o parque nova iorquino.




Um lugar para se esquecer a vida. Aliás para se lembrar como a vida é boa.


Vamos a la plaia? Não. Buenos Aires não tem praia. Se tivesse, estaríamos fodidos. Mas tem essa reserva ao lado do Rio Da Plata. Os banhos são proibidos, mas é o lugar mais agradável que encontrei na cidade. Os portehos vão para um piquinique matinal, para relaxar, pegar um bronze, pedalar ou assistir o pôr do sol. Nota mil!

Sempre achei que ir a Buenos Aires e visitar La Bocca, bairro pobre, onde, dizem, o tango nasceu, fosse programa de índio. Mas não resisti e me juntei a multidão de turistas que foram curtir a tarde ensolarada nas ruas animadas por tangueros e até - pasmem - uma roda de samba!!! O bairro também ganhou bares baratos e modernos. Paguei pela boca.

San Telmo continua sendo o bairro dos artistas. Nas tardes de domingo e feriados, a famosa feira de arte se espalha pelas ruas com ar de Cuba ou de Portugal. Turistas e portenhos de classe média se acotovelam atrás das peças de antiquários. Pesquisando se encontra coisas interessantes, mas os preços são caros.


A arquitetura é outro atrativo do local.

Este aí é o Cais do Porto. Pelo menos era, antes da prefeitura investir milhões de pesos em um gigantesco projeto de reforma, que transformou Puerto Madero em uma das maiores atrações turísticas da cidades. De um lugar sujo, abandonado e decadente, o conjunto de prédios, hoje, abrigam vários cinemas, restaurantes elegantes, um cassino e boates. O mundo ficou de boca aberta quando a prefeitura de Nova Iorque remodelou uma parte do da sua zona portuária. Conheci no ano passado e achei bonito. Mas não se compara com o que vi em Puerto Madera.

Os portenhos vão até lá no final da tarde para assitir o sol morrendo ou relaxar nos bares. Os happy hours ali são concorridos. Caras engravatados vão atrás das secretárias do centro financeiro, que fica próximo, num clima bem Sexy In The City. Uma dica de restaurante ali? o Il Gatto. Comida italiana da boa. Aliás, foi lá que notei um sorriso de deboche quando falei que era brasileiro. Tá certo que a Argentina há uns cinco ou seis anos enfrentava uma crise econômica cruel - quem não se lembra da cena dos argentinos batendo panelas nas ruas? - e conseguiram dar uma espetacular volta por cima. Tá certo que agora eu entendo o sumiço dos argentinos das ruas do Rio. Parece que eles não tem mais motivos para vir para cá. Mas não precisa humilhar. Além do mais, nossa moeda está mais forte e Buenos Aires fica apenas há três horas de avião.

Por isso, não ria de mim, Argentina.

Pelo menos não na minha frente.


E não digam que não avisei...
O meu grupo de autores teatrais voltará atacar neste quinta...


O GRUPO AUTORES EM CENA
CONVIDA VOCÊ PARA A
LEITURA DRAMÁTICA DA PEÇA


“CHAME O LADRÃO”

Texto e direção de

ANNA MARIA RIBEIRO

Com os atores
JANAÍNA NOËL, DUAIA ASSUMPÇÃO, GUSTAVO ASSIS


DIA 12 DE ABRIL ÁS 21:30
ESPAÇO CAFÉ CULTURAL
Rua São Clemente, 409 – Botafogo
Entrada grátis – Estacionamento em frente
Não será permitida a entrada depois de começado o espetáculo

Meu Santo de Cabeça

Chama-se Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial norte-americana. Entre os pontos dessa entidade, há trechos como esses:
“Por ele o papo terminava aí, mas eu tinha outros planos. Apoiei o cotovelo no balcão, cruzei um pé por trás do outro e dei uma longa tragada em meu charuto. Gostava do sujeito – tanto quanto a maioria das pessoas, é verdade -, mas ele era bom demais para eu deixar passar. Educado, inteligente: caras como aquele são o meu prato preferido.”
Ou
“O sorriso em seu rosto ia ficando forçado. Podia ouvir os sapatos dele rangerem,enquanto se contorcia. Se existe uma coisa pior do que um chato, é um chato piegas. Mas, como enxotar um cara tão legal e tão amigo, que lhe daria a camisa se você pedisse?”

Ambos são do assustador O Assassino Dentro de Mim, no qual, em primeira pessoa, ele mergulha na mente de um xerife psicopata. Foi o único livro policial que me fez sentir medo, tamanha é a frieza e a crueldade na descrição de assassinatos e as razões para cometê-los. Aliás, o velho James Meyer Thompson é daqueles escritores que provocam reações nos seus leitores - coisa rara hoje em dia - e ninguém fica indiferente ao ler suas obras.
Jim Thompson é a minha maior influência. Se a literatura é uma religião, ele é o meu santo de cabeça.
Hoje eu acendo uma vela pra ele, pois neste mesmo dia, há trinta anos, ele passava para o lado de lá e virava o santo de cabeça para milhares de aprendizes a escritor.
Saravá, Thompson!!!
* Meus queridos, acabei de chegar de Buenos Aires. Mas isso é assunto do próximo post. Com direito a muitas fotos. Me aguardem!

Domingo, Abril 01, 2007

O Novato


“Era essa a mulher que estava com a morta?’
O velinho olhou para o retrato e afirmou sorridente.
“Era, sim.”
“O senhor tem certeza?”, perguntei.“Com certeza. As duas estavam ali quando os motoqueiros passaram e mandaram bala.”
A execução havia sido num ponto de ônibus na estrada de Vicente de Carvalho. Maria do Rosário, 33 anos, mulher de ex-detento conhecido por China, foi morta. A outra que estava com ela, não identificada, chegou a ser baleada na perna, mas conseguiu pegar um táxi e sumir. Já era madrugada e a rua suburbana estava vazia.
E estávamos diante da única testemunha, seu Valdomiro, um velho solitário que estava voltando do seu serviço de vigia numa escola pública no Méier, quando viu tudo.
“A placa do carro?”, o novato.
Ao meu lado estava um garoto chamado Marquinhos. Mal havia entrado na casa dos vinte e havia decidido ser policial. Havia terminado a Academia de Polícia há cerca de um mês. Com mais de quarenta delegacias, ele foi cair logo na minha. E com três equipes, ele foi colocado logo na minha. A equipe tinha cinco detetives e o colocaram do meu lado para ensinar-lhe a ser polícia. E não é fácil ensinar alguém ser policial. Não é fácil ensinar alguém a assassinar suas ilusões. Não é fácil ensinar alguém a conviver com o medo. Não é fácil ensinar alguém a conviver e aceitar o lado negro da raça humana. Não é fácil ensinar que quase sempre o Bem vence o Mal. Não é fácil ensinar alguém a ficar descrente das maravilhas da existência.
O garoto estava empolgado e deixei que ele fizesse as perguntas.
“Como era o carro?”
“Era um Passat. Prateado. Em bom estado.”
“Um Passat é um carro antigo como pode estar em bom estado?”, o novato. Olhou pra mim, em seguida, o peito estufado de orgulho.
Olhei pra ele fazendo uma careta de “parabéns, meu garoto!” O novato prosseguiu.
“O senhor sabe o nome da mulher que estava com a morta?”
“Acho que é uma tal de Andréia. Ela tem uma barraca lá perto do Mercadão de Madureira. O pessoal chama ela de Déia.”
“Ela era sempre vista por aqui?”
“Sim, senhor. Sempre com a falecida.”
“Sabe se ela estava envolvida com alguma parada errada?”
“Não sei não, senhor. Mas o marido dela já teve passagem. Segurou um doze.”
O novato olhou pra mim. Fiz um sinal, dizendo que já era o bastante. Então, o novato se deu por satisfeito. Agradecemos e voltamos para a vitutra.
“Pro Mercadão?”, o novato, dando a partida.
“Vamos comer uma picanha.”
Antes que o garoto fizesse a pergunta aflita, atirei-lhe uma resposta à queima-roupa:
“A foto que mostrei era da minha mulher. Este velho está mais por fora do que bunda de índio.”
O mundo é assim. Não tive a mínima pressa em ver a decepção na cara do novato. Muitas outras viriam.
“Aqui perto tem uma boa churrascaria. Vamos nessa!”

Mais uma aventura do Lacerda, o detetive do meu romance policial A Arte de Odiar. São 98 páginas, formato PDF bem fácil de ler. Como remuneração pelos três anos dedicados ao livro estou cobrando o preço de dois chopes ou duas águas de coco: R$ 5, via depósito bancário. É só pedir pelo juliocorrea19@gmail.com e mando via email. Com direito a autógrafo.



Mais uma charge do Aroeira, publicada ontem, sábado, no O Dia.