Mais Lacerda...
Ernest Hemingway
E o Lacerda, o detetive do meu romance policial, A Arte de Odiar voltou a me aporrinhar, querendo contar mais uma das suas hitórias da crônica policial. Vai lá, Lacerda! Conta aê!
A Ruiva Solitária da Tijuca
Lá estava a garota, num ponto de ônibus, em uma rua da Tijuca. Era uma ruivinha, mínimo de dezessete, máximo de desenove aninhos. E qualquer um gostaria de saber o que uma menina bonita estava fazendo ali sozinha numa noite de sexta-feira, que já terminava. Talvez isso explicasse a melancolia em seu rosto. Uma mochila pesava em suas costas. Uma garota de família indo para casa, após os estudos.
De repente, o sobressalto, quando o carro parou junto ao meio-fio. Um homem ao volante. E biiiiiiiiiiiii.
Ela o ignorou. Era um homem de meia idade, olhos com papadas a examinavam como outros já haviam feito. Como era ruiva, já estava acostumada àquele tipo de abordagem.
E biiiiiiiiiii.
Por um momento, ela pareceu se divertir com aquilo. Não soube bem por que, mas passou a pensar em mulheres que tornaram-se famosas por lutarem para que ela pudesse ter alguma auto-estima naquele momento.
Biiiiiiiiiiiii. Joana D´arc e Anita Garibaldi. Guerreiras.
Biiiiiiiiiiiii. O desprezo dela parecia excitá-lo. Simone De Beauvoir.
Biiiiiiiiiiiii. A insistência dele, passou a incomodá-la. “Será que ele não vê que não estou lhe dando a mínima?”
Biiiiiiiiiiiii. As outras pessoas no ponto de ônibus começaram a olhar para ela. Biiiiiiiiii. “Será que eles pensam que estou dando bola?”
Biiiiiiiiiiiiii. “Que saco! Esse cara não se manca!” Biiiiiiiiiii. Frida Kalo, Leila Diniz, Janis Joplin...Biiiiiiii...Olga Benário...
E antes que ela terminasse a sua lista, ele colocou a cabeça pra fora da janela e gritou:
“Quer sair da porta da garagem!!!!”
E havia mesmo uma enorme porta de garagem de prédio atrás dela. Dessas de madeira e com giroscópio.
Morta de vergonha, ela moveu-se para o lado e o homem subiu com o carro na calçada.
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Horas mais tarde, Eu, Luizão e Mau, fomos destacados para averiguar possível estupro no Alto da Boa Vista. Moça ruiva havia sido encontrada perambulando nua pela escuridão da Edson Passos.
Quando chegamos, a garota estava envolvida por uma coberta, trazida por um casal que morava numa casa nas proximidades. Ela chorava e tremia de frio, medo, vergonha. O suspeito havia fugido. Ele não morava no prédio com porta de madeira na garagem e giroscópio. Aquilo foi um pretexto para subir na calçada e convidá-la para uma volta. Havia sido espancada, ao se recusar a permitir certos absurdos sexuais.
Na décima nona, após ouvir a sua história, fiquei olhando para ela, me perguntando se deveria ou não lhe perguntar algo. Ela percebeu e me respondeu com um olhar de cortar o coração: “Você nunca se sentiu solitário o bastante para fraquejar? Nunca enfrentou uma noite em que não era o bastante para si mesmo? Você nunca errou?”
Calei-me. O que dizer para uma ruiva solitária numa hora dessa?


























