domingo, outubro 02, 2005

ELA NÃO FAZIA IOGA




Em fevereiro de 1970, ela chegou para o carnaval.
Na época, embora, não houvesse mais a presença de censores nas redações dos jornais, a censura ainda era implacável. Vivíamos a fase mais cruel da ditadura militar e o clima era pesado. Para lembrar, o Pasquim tinha sofrido um atentado à bomba pouco antes. Por isso, grande parte da imprensa carioca a ignorou. Ou a massacrou. O Globo, por exemplo, deu mais ênfase a sua feiúra, a palidez de sua pele e às roupas extravagantes demais para um Rio de Janeiro careta, apensar do desbunde que rolava. Realmente Janis Lee Joplin não estava com uma aparência muito boa, devido ao tratamento para abandonar o vicio da heroína e do Southern Confort. Mas a imprensa achou que não era prudente dar muita publicidade à chegada de uma cantora que era vista nos EUA como desbocada, bebum, drogada, brigona e lésbica.
A própria Joplin não estava numa fase muito boa. O seu último trabalho, Kozmic Blues, havia sido mal recebido pela crítica americana e a imprensa começava a levantar a hipótese de ela estar perdendo a voz. Sofrendo de uma carência afetiva crônica, solitária - muita gente ao seu redor, mas poucos amigos -, com a família querendo vê-la longe e sem um homem para dividir a sua cama, Janis estava desesperada, pois, sem a voz, não teria mais o seu público e o seu público era tudo o que ela tinha (“Vou escrever uma canção sobre o que é fazer amor no palco com 20 mil pessoas e voltar para um quarto de hotel sozinha”). E como toda carente crônica, Janis precisava de atenção. Talvez por isso, tenha feito um escandaloso topless em plena piscina do Copacabana Palace, onde estava hospedada com sua grande amiga, a jornalista novaiorquina Myra Friedman, que em 1973 escreveria a biografia de Janis, Buried Alive (Enterrada Viva). Nas arquibancadas, assistindo o desfile das escolas de samba, que acontecia ainda na Presidente Vargas, Janis também fez de tudo para chamar a atenção.
Um dia, o tresloucado roqueiro Serguei foi procurá-la no hotel. Na verdade, eles já haviam se conhecido anos antes, quando ele morava em Los Angeles. Serguei passou a ser o uma espécie de guia turístico para aquela que, ao lado de Hendrix, era o maior ícone da cultura pop da década de 60. Ele a levou para o já decadente Beco das Garrafas, um pequena rua no Posto Dois, com algumas boates de música ao vivo, que pouco menos de dez anos antes, havia sido o berço de muita gente que seria astro na MPB, como Elis, Gil e Milton, por exemplo. Saindo da Bottle´s, no fina da madrugada, ela e uma turma que incluía o, então, marido de Elis, Ronaldo Boscoli, cismaram de ir para a praia. Estavam completamente bêbados. Na areia, Janis ficou encantada com as enormes dunas que haviam sido levantadas, devido às obras de construção do calçadão. Quando quis escalar uma delas, caiu e, sem conseguir se levantar, de tão bêbada, soltou a sua famosa gargalhada, enquanto se contorcia de tanto rir. Bôscoli e seus amigos, ficaram olhando para ela. “Porra, o que nós fomos fazer com a cantora mais famosa do mundo?”, recordaria Bôscoli anos mais tarde. Na verdade, Janis poderia estar no seu luxuoso quarto de hotel, dormindo como a estrela que era, mas como ela própria havia dito: “Prefiro viver só mais dez anos na maior agitação, do que chegar aos oitenta sentada numa cadeira de balanço, diante da tv”. O que vem comprovar que temos que ter cuidado com o que dizemos, pois antes daquele ano acabar, ela estaria morta, aos 27.
Mas dias antes de voltar para a América, Serguei a levaria de carro para conhecer a região da pouco habitada e bucólica Barra da Tijuca. Ao passarem por São Conrado, ela se impressionou com a Rocinha e quis ir até lá, inaugurando o já comum tour de turistas às favelas cariocas. Lá na, então pacifica, favela, experimentou caipirinha numa birosca e, ao passar por um barraco, onde na porta havia uma placa que dizia JOGA-SE BUZIOS, quis entrar e saber qual era. O pai de santo lhe revelou que o santo de cabeça da texana de Port Arthur era uma pomba gira chamada Pérola. Ao voltar para o hotel, Janis contou o fato a Myra, que achou graça. Mas Janis ficou impressionada e resolveu batizar o disco que começaria a gravar, assim que voltou para Nova Iorque como Pearl (pérola em inglês).
Em seguida, ela dissolveu a sua banda, a Kozmic Blues Band. Formou outra, a Boogie Tilt Blues Band, com quem começaria a gravar e a excursionar. O primeiro show, em junho, foi na Louisiana e ela resolveu ir ao Texas, visitar a sua cidade natal. E se arrependeu amargamente. Seus pais chegaram a sair de casa para não ter que receber a filha escandalosa e que usava roupas hippies. Além disso, Port Arthur não tinha o menor orgulho da sua filha drogada e freak. Janis esperava ser recebida com tapete vermelho, mas só encontrou deboche, hostilidade e frieza. Quando ligou para sua mãe, esperava um “Oh, minha filha! Parabéns por você ter conseguido virar uma estrela.” Mas ouviu um gélido “Você realmente não deveria ter nascido.”
Apesar da maioria dos amigos achar que ela estava clean, acredita-se que após este baque, Janis tenha voltado a usar heroína. Em agosto, o seu desmaio em pleno palco do Shea Stadium, em Nova Iorque, durante um festival/protesto pedindo o fim da guerra do Vietnã, já era um sinal de que as coisas não iam bem.
Em 18 de setembro, dia em que o mundo do rock chorou a morte de Jimi, uma Janis completamente bêbada, ligava para Myra Friedman dizendo: “Por que ele e não eu?” (“Eu trocaria todos os meus amanhãs por apenas um dia no meu passado.”)
No sábado, 3 de outubro, após finalizar as gravações do seu Pearl, que sairia no inicio do ano seguinte, ela foi com o ex-namorado Country Joe MacDonald ao show de um cantor de folk iniciante chamado Gordon Lightfoot. Na volta, ela pediu para que Country Joe a acordasse bem cedo na manhã seguinte, pois queria procurar um apartamento. Janis estava animada, com novos planos de voltar a morar em Los Angeles e iniciar uma fase mais madura em sua carreira. Parecia feliz.
Mas na manhã do domingo, 4, foi o próprio Country Joe que, com ajuda do porteiro, arrombaria a porta do quarto daquele motel em Hollywood e encontraria o corpo. Naquela madrugada havia ocorrido várias overdoses de heroína na região de Hollywood. Talvez um traficante iniciante tenha esquecido de malhar a droga... seja como for, foi difícil para grande parte da juventude americana absorver a porrada, apenas pouco mais de 15 dias após a morte de Jimi. A autópsia policial concluiu ter sido mesmo uma overdose que levou Janis. Mas a causa-mortis poderia ter sido solidão, tanto faz.
Seu corpo foi cremado e seus poucos amigos alugaram um helicóptero para espalhar as suas cinzas sob Los Angeles, a cidade que ela tanto amava.
Pearl foi um grande sucesso.
Sua biografia virou um best-seller, mesmo aqui no Brasil.
Um documentário sobre sua carreira foi feito em 1974.
Port Arthur foi atingida semanas atrás por um furacão chamado Rita. Poucos se preocuparam com o os prejuízos sofridos pelos seus habitantes. O governo se preocupou mais com as refinarias de petróleo existentes por lá. Como se aquela gente não existisse. Quem sabe Janis não está no céu rindo disso tudo com a sua gargalhada escandalosa de quem nunca fez ioga?




Enfim, restou a música.

9 Comments:

Blogger Jôka P. said...

Julio, valeu a sua visita lá no Avenida !
Obrigado pelas palavras, tá ! Volto aqui daqui a pouco, que já vi que merece ler post por post ! Até jáááá ! :)
JÔKA P.
:)

segunda-feira, outubro 03, 2005 8:53:00 PM  
Anonymous franciscomalta said...

Que bom texto!
Belas lembranças e boas informações.
abs,
chico

quarta-feira, outubro 05, 2005 9:02:00 AM  
Anonymous Raphael Vidal said...

Porra Júlio, tu era um músico que tava por lá?? CACETE! Parece que viveu o negócio...

quarta-feira, outubro 05, 2005 4:55:00 PM  
Anonymous Sonia said...

Janis, a única branca que sabia cantar como negra.

quinta-feira, outubro 06, 2005 1:00:00 AM  
Anonymous Elis said...

grande Júlio,
vc tem uma sensibilidade....
beijo.

quinta-feira, outubro 06, 2005 11:56:00 AM  
Anonymous Liliane said...

Julio nunca me encantei com a Janis Joplin. aliás não gosto de rebeldes sem causas. E como mãe teria dito exatamente aquilo o que a mão dela disse, se é que disse. Nem da voz, nem da vida.
Abraço,
Liliane

sábado, outubro 15, 2005 8:04:00 AM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Eu também pensava assim como você, Liane, até ler a biografia de Janis. Você não tem noção do sofrimento, da desilusão e da imensa solidão que Janis conheceu desde a adolescência. Ela não era bem uma rebelde. Apenas era a sua forma de se proteger de um mundo que a apedrejava, apenas por ser diferente, por não aceitar as coisas facilmente e ser inteligente, num meio ambiente em que era proibido uma mulher ser inteligente. Ninguém bebe tanto e usa heroína apenas por ser rebelde, sem ter uma boa razão para isso, vai por mim. Quanto a mãe de Janis, acho que nenhuma mãe deve dizer isso a uma filha, apenas porque não concorda com o seu estilo de vida. Janis era extremamente ligada a uma família que nunca a amou, sob o pretexto de ela não ter correspondido ao que a sociedade esperava dela (eram os anos 50!). Perdoe-me por discordar de você, mas eu gostaria de dizer que quem não deveria ter nascido era a mãe dela. Mas se a Sra. Joplin não tivesse nascido, Janis também não. Por isso, não digo nada.
Obrigado por você ter visitado o meu blog
Um ab

sábado, outubro 15, 2005 8:54:00 AM  
Blogger marcia helena said...

Amo a voz únida de JANIS JOPLIN.
Certamente não poderia deixar de citá-la no meu blog.
Faça uma visita ( sorteefelicidade.blogspot.com) e veja que foto linda de uma Janis Normal. Aliás, a foto foi tirada de um site e sabe qual o nome do aqruivo da foto? "JAnormal". Achei engraçado, pois é como se a Janis por ela mesma não fosse normal.

sexta-feira, outubro 06, 2006 8:05:00 AM  
Blogger marcia helena said...

onde se lê únida leia-se única, please!

sexta-feira, outubro 06, 2006 8:07:00 AM  

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