domingo, maio 09, 2010

Mais uma vez, ele...

Imagine a cena:
Dois homens se conhecem no balcão de uma espeluncas em Nova Iorque.
Mr. A é um sulista ultra-preconceituoso, moralista, religioso aos extremos e homofóbico. Está deprimido porque acaba de perder a mulher, que o deixou para seguir carreira como fotógrafa e viver com dois homens ao mesmo tempo.
Mr. B é um gay de meia idade que acaba de perder o caso modelo que o trocou para seguir uma carreira mais promissora em Paris.
E trava-se o seguinte diálogo entre os dois:
Mr. A: Quer dizer que você é gay?
Mr. B: Sim.
Mr. A: Mas isso é contra as leis divinas...
Mr. B: Mas Jesus Cristo também é gay.
Mr. A: Não diga isso! Nosso senhor criou o céu, o mar, os lagos, os rios, as florestas, as montanhas...
Mr. B: Pois é, ele é decorador.
Onde mais você poderia encontrar tal cena?

Aí, você me pergunta o que Woody Allen tem a ver com essa Carole King - que você deve estar ouvindo, cantando Music - se a música nem ao menos está na trilha sonora? E eu devolvo: Por quê? Não gostou?
Então você não passa de um(a) insensível mediocrezinho (a), que ama o lixo industrizlizado que tomou conta da música atual. Talvez o seu negócio deva ser Lady Gaga, essas artistas maluquetes pré-fabricadas ou essas garotas que se vestem como putas...
Me desculpe. Não estou querendo ofender você. Estou apenas tentando incorporar Boris Yellnikoff, o neurótico solitário de Tudo Pode Dar Certo, o novo trabalho do diretor novaiorquino.
O filme traz algumas particularidades. A primeira dela é o fato de Allen ter voltado a rodar na sua Nova Iorque natal, depois de filmar em Londres e Barcelona. Além disso, ao contrário dos seus últimos trabalhos, o diretor não está atuando.
Para falar a verdade, nem seria preciso. O tal Boris - interpretado brilhantemente por Larry David - é o próprio Allen. Não é a primeira vez que o mais neuróticos dos diretores norte-americanos faz uma refelexão sobre si mesmo na tela. Mas dessa vez ele pegou pesado. Chamou Larry David, o co-produtor da extinta série da tv Seinfield, famosíssima nos anos 90, na qual o próprio David interpretava George Constanza, outro insuportável problemático que era amado e odiado pela maioria dos telespectadores.
Larry se encarregou de viver Woody com todo aquele rol de problemas emocionais e psicológicos, mas vai mais longe, pois enquanto os persongagens interpretados pelo diretor eram confusos cidadãos esmagados por culpa judaica, Boris é um arrogante que se acha superior a tudo e a todos. Por isso, o mundo lhe é insuportável.
Mas Boris não passa de um solitário fracassado, que não obtem sucesso nem em suas dusas tentativas de sucicídios.
Então, ela chega.
Melodie - aliás, muito mal interpretada pela Evan Rachel Wood, que exagera um pouco nos clichês, transformando a persongagem quase numa debilóide e não era essa a intenção -, criaturinha de dezessete aninhos, toda pureza e doçura.
O tipo que mora no imaginário de todos os homens. E essa ninfeta de contos de fadas é posta pelo destino na vida do intragável tarja preta...
...vinda do interior, fugindo de um pai ultraconservador, religioso e ignorante - o Mr. A, lembra-se?...
...e de uma mãe porra louca (feliz participação de Patricia Clarkson)...
...que faz Dona Flor do Jorge Amado parecer uma freira, tentando tirar o atraso dos anos caretas que passou ao lado do Mr. A.
A criaturinha acaba caindo na lábia psico-existencial do tiozão e casa-se com ele.
Você consegue imaginar um brotinho desse se casando com figura tão deplorável?
Mas Tudo Pode Dar Certo, como o próprio título diz é uma fábula de amor e logo a criaturinha doce encontra seu príncipe encantado. 

Poderia ser o caso de uma história boba, gerando um filme ídem. Mas o talento de Allen de criar personagens interessantes, seus diálogos inteligentes e sua criatividade ao lidar com a câmera (o público também vira personagem, já que o insuportável Boris fala com a platéia quase todo o tempo, contando a própria história).
De quebra, o filme mostra diversos lugares de Nova Iorque que o turista descolado logo vai reconhecer...
...como a cena das comprinhas na UniQlo, no Soho, loja da marca japonesa, amada pelos jovens novaiorquinos.
Na verdade, o filme segue a linha dos recentes trabalhos do diretor, ou seja, divertidas comédias românticas para você rir e se divertir numa sessão da tarde. Os tempos do Allen magistral parecem ter ficado para trás.
Tudo Pode Dar Certo é uma fábula moderna sobre o amor, o perdão e a necessidade de ser aceitar o diferente. Mensgem bacana nesses tempos de individualismo extremo.
E é aí que entra Carole King, tão novaiorquina quanto Allen. Algumas cantoras têm a capacidade de nos estimular a cantar com elas. Billie Holliday tinha esse dom. A nossa Elis Regina também. Carole, ídem. Allen com o seu filme parece dizer: O mundo é uma merda. Viva o mundo! Relaxe e vamos procurar ser feliz enquanto o mundo não melhora. Da mesma forma que Carole King nos convida a cantar.
Não concorda? Que se dane! Esse blog é meu e ponho nele a música que eu quiser.
Me desculpe, mas acho que todos nós lá no fundo, beeeeeeem lá no fundo temos nossas verdades que tentamos vender como camelôs do Centro da Cidade. Como o Boris.
Vai dizer que não?
* Todas as fotos foram tiradas  daqui.

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7 Comments:

Blogger ~*Rebeca e Jota Cê*~ said...

Certas atrizes não entendem o X da questão, mas, pelo que foi detalhado, o filme parece ser bacana.

Que sua semana seja de luz, querido amigo.

Rebeca

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domingo, maio 09, 2010 10:33:00 PM  
Blogger ~*Rebeca e Jota Cê*~ said...

Esse trailer do documentário Babies simplesmente mexeu comigo demais. Se todos parassem, pelo menos um vez por dia, e vissem um mundo novo saído do cueiro, simplesmente teriam vontade de levar pra casa e cuidar. Essa comparação cultural que Thomas Balmes dirigiu, apenas mostra que pra fazer a esperança surgir, primeiro temos que fazer nascer o puro dentro de nós. São crianças de diferentes partes do globo: Namíbia, Mongólia, Japão e Estados Unidos.


O que acho super válido nessa vida é multiplicar a utopia de um mundo melhor.

Piegas? É nada....

http://www.youtube.com/watch?v=1vupEpNjCuY



Rebeca

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segunda-feira, maio 10, 2010 10:36:00 AM  
Blogger Marco said...

Rá! Rá! Rá!... Sua incorporação do Boris está excelente!
Olha, eu gostei do filme. Eu sou fã do Woody Allen quando filme como Woody Allen. Já quando ele tenta ser Ingmar Bergman ou Alfred Hitchcock eu acho uma bosta. Todo mundo adorou o Matchpoint, por exemplo. Eu detestei, achei um Hitchcock de quarta categoria...
Mas esse seu último trabalho que nos chegou agora é delicioso. pena que ele não atue mais. Eu gostaria mais ainda se ele fizesse o papel dele. O Larry faz bem, em alguns momentos chega a imitar direitinho. Mas ninguém diz melhor aqueles diálogos de neurótico do que o próprio Allen. Gostaria de vê-lo lavando as mãos cantando parabéns. Li numa entrevista que ele mesmo faz isso, olha que máximo.
Bela postagem, ótima música, sou fascinado por Carole King, quem não gostar que se lixe!
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

terça-feira, maio 11, 2010 2:40:00 PM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Valeu, Rebeca
Vou dar uma olhada
bj
Marcos,
de Boris tds nós temos um pouco
gd ab

quinta-feira, maio 13, 2010 11:50:00 PM  
Blogger . fina flor . said...

#adorei a música! quem não gostaria, me diga, meu Deus?

e claaaro que vou ver o filme.

beijos saudosos, querido

MM.

sexta-feira, maio 14, 2010 1:25:00 AM  
Blogger Julio Cesar Corrêa said...

Mônica, Carole é tudo!
bj

sexta-feira, maio 14, 2010 7:22:00 AM  
Blogger Pcesar said...

Ei , você não deve ter visto Seinfild ! Se viu, esqueceu que a série toda é sobre o nada. Isso mesmo. Nada tem a ver com nada. Você até poderia ser o Jorge Constanza em uma praia, informando à ultima quase namorada, ser biólogo marinho e tendo que curar uma baleia encalhada. Não deu ! Tudo isso saiu da mente desse psicopata alegre, o Larry David. Portanto, apenas aceite que o cara é problemático, mais nada.

quinta-feira, maio 20, 2010 9:24:00 AM  

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