Tem mistério no samba

Neide voltou. Sambamos e namoramos um pouco.
Depois de mais de uma hora de sambas antigos (Cartola, Martinho, Alcione, Mano Décio, Monsueto, João Nogueira, Bete Carvalho, Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues e outros), começou um partido. Foi o Natinho quem puxou, provocando uma tal de Dagmar:
Ai, ô Dagmar! Pra que tu foi me desafiar?
Agora segura as pontas por que barato não vai ficar
Aqui quem ganha bebe de graça, quem perde tem que pagar
E se tu não tiver pra pagar a conta, os prato tu vai ter que lavar.
Ah, mas deixa a roda girar
Deixa roda girar
Vai girar...
A tal Dagmar era uma mulata de meia idade e bonitona. Estava numa mesa com outras quatro mulheres. Levantou-se e foi até o microfone, no palco, para responder:
Mas o que que é isso meu amigo? Não estou entendendo você
Quem é da Vila e do samba, é bom de partido e sabe perder
Agora ouça meu camarada, o que tenho para te dizer
Que se tu não tiver pra pagar a aposta, aceito o teu cavaquinho com muito prazer
Ai, mas deixa a roda girar...
O rapaz moreno de bigode dançava com uma neguinha magricela, mas ainda sem tirar os olhos de mim. Neide também sambava. Estava muito bonita naquela noite. Usava um vestido amarelo, que realçava o seu bronzeado. Havia pego uma praia. Parecia querer me agradar. O Natinho voltou a provocar as mulheres da mesa:
Ah, mas se tu gosta de cavaquinho, tu vai ter que comprar
Mas uma coisa minha camarada, eu tenho que te contar
A conta de vocês não pára, não pára de aumentar
Pois aquela moça de vermelho desde que chegou não parou de entornar.
A mulata, em um vestido de malha vermelha muito curto, correu até o microfone:
Ouça só meu camarada, sei que tu é um cara bacana
Mas olhe só tua barriga, ela não me engana
Ainda não parei de entornar, mas não sou pé-de-cana
Enquanto tua barriga tem mais curvas do que a praia de Copacabana
Neide me deu um longo beijo. Depois, sussurrou em meu ouvido, do jeito com o qual as mulheres vulgares acreditam excitar os homens: Te amo mais do que tudo no mundo, mais do que a própria vida. Suas mãos tremiam. O Natinho agora provocava uma outra mulher:
Mas Copacabana, Copacabana, do mar é a princesinha
E esta moça aqui de branco só quer saber de ficar sozinha
Eu não sei se é por timidez ou por medo de sair da linha
Ou será que a cerveja já detonou a coitadinha?
A tal moça de branco, estava ao lado da mesa do rapaz de bigode.
Mas meu amigo, meu amigo, só uma palavrinha
Copacabana pode ser a tua princesinha
Mas me deixe ficar quieta, me deixe ficar na minha
Pois, princesinha pra mim é pouco e no partido sou a grande rainha
Mas se tu é mesmo uma rainha, eu tenho que te avisar
Mulher só é rainha em casa, nasceu pra ser a rainha do lar
Vai procurar um ferro e um tanque pra trabalhar
Mulher só serve para dar a luz, fazer amor,cozinhar, lavar e passar
Os homens no salão gritaram eufóricos. As mulheres vaiaram. A mulata voltou ao microfone:
Me desculpe, companheiro, mas tu tá equivocado
De mulher tu não entende nada, mulher não é o teu mercado
E olhe só esse teu blusão, tão florido e delicado
Isto não é coisa de homem, isto é coisa de...
Todos riram no salão. Menos os dois suspeitos. Neide também não. Ao invés disso, disse:
“Vamos embora?”
“Já? Mal chegamos.”
“Tenho que levantar cedo amanhã.”
Talvez fosse mesmo uma boa idéia. Eu estava cheio de energia e queria ainda dar uma boa trepada. Enquanto eu pagava a conta, vi os dois suspeitos trocarem olhares.
“Espero você no carro.”, disse Neide.
Fui até o sanitário e verifiquei se minha arma, uma pistola adaptada para nove milímetros, estava bem carregada. Sim, estava. Era uma arma particular e não a oficial, da corporação. Uma arma fria, para fazer bico.
Me despedi do Natinho com um aceno.
O rapaz de bigode e o negão se levantaram. Saíram atrás de mim.












