Segunda-feira, Maio 29, 2006

Falência & Concordata



Faliu.
Quem? A Varig?
Não. O Comando Vermelho.
Isso mesmo. A coisa anda tão esquisita neste país, que tem até facção criminosa indo mal economicamente.
O fato acabou de virar uma matéria no No Mínimo. Mas já há algum tempo tenho ouvido membros da cúpula da Polícia Civil do Rio falar sobre a queda nos negócios da maior facção criminosa do estado. Os motivos? Três podem ser apontados. A queda no consumo da cocaína. As chamadas "operações asfixia" da polícia que passaram a ser mais constantes, afugentando os compradores dos morros. E também o crescimento do consumo das drogas sintéticas, como o ectasy. Este tipo de droga, como já abordei aqui, não é vendida por bandidos dos morros. Ela vem da Europa, na mala de garotões de classe média. Isso significa que a garotada não depende mais das bocas para curtir um barato. E como era a cocaína a principal fonte de renda do Comando, o abalo financeiro foi inevitável.
De qualquer forma, aqui no asfalto nós já começamos a sentir os efeitos da crise lá em cima, nos morros: o aumento dos assaltos a transeutes, furtos e roubos de carros, arrombamentos e invasões a prédios. Geralmente praticados por uma garotada desesperada, precisando de grana, não só para sobreviver. Mas também para comprar mais droga. Sim, porque o consumo da cocaína não diminuiu nas favelas. Mas era as classes A, B e C do asfalto que sustentavam o CV. E a recente chegada do crack ao Rio não deve alterar esse quadro. A maioria dos usuários da droga, por enquanto, são garotos pobres das favelas e os casos entre a rapaziada da classe média ainda são poucos.
O CV surgiu em meados da década de 70, quando presos comuns eram estimulados por presos políticos a virarem Robin Hoods, ou seja, quando saíssem da cadeia, deveriam roubar por um ideal: patrocinarem a divisão de renda mais justa que os militares negavam às classes mais pobres. Escadinha foi o primeiro líder da facção e seguia à risca os mandamentos de "roubar por uma causa nobre".
Hoje, a facção é comandada por uma garotada desesperada, desorganizada e disposta a tudo para voltar a se drogar. Talvez essa desorganização tenha ajudao a levar o CV para o buraco, deixando na mão todos os que tinham no tráfico, o único emprego que os aceitava. São milhares de jovens que, se antes desconfiavam que a vida não lhes oferecia futuro algum, agora têm certeza.
Quem vai absorver esta "mão de obra"? O que poderá acontecer? Só Deus sabe.
Mas o que mais me preocupa é saber que no momento em que estou fazendo este post, em alguma favela, um casal miserável está fazendo mais um filho para engrossar o exército dos desesperados.
Mande bala!

Sábado, Maio 27, 2006

O Brasil Que Nos Orgulha


Quem vive no Rio com certeza já ouviu falar deles. O AfroReggae começou como um grupo de amigos músicos que editava, sem a ajuda de ninguém, um jornalzinho para circular na favela de Vigário Geral, ainda abalada com a famosa chacina de agosto de 1993 . A publicação, além de falar do cotidiano do lugar, promovia grupos de funk e também de dança afro. O negócio foi crescendo lentamente e acabou atraindo a mídia. Com a ajuda de algumas personalidades e ONGs, o Afro se transformou, além de um famoso grupo musical, numa verdadeira instituição, que oferece cursos de informática, fornece assistência médica e comida, põe crianças nos bancos das salas escolares, além de, é claro, de ensinar música de graça.
Você acha que isso deveria ser mais divulgado? Pois já está sendo. Na última sexta-feira, 26, foi lançado em Nova Iorque o documentário Favela Rising, dos diretores americanos Jeff Zimbalist and Matt Mochary. E o lançamento foi notícia do Village Voice da última semana. Mergulhe aqui para ler a crítica ao filme no Village.
Achei este post oportuno porque daqui a alguns dias, todo o país estará torcendo para que os Ronaldinhos divulguem o Brasil e nos crie a ilusão de que somos uma nação digna de tata festa. Os Ronaldinhos ganham fortunas para fazer o que fazem. Enquanto gente como o pessoal do Afro faz muito mais pelo país, por muito menos.
Não concorda? Mande bala!



Só pra lembrar.

Sexta-feira, Maio 26, 2006

Cidade Bêbada




Que o Brasil vive em crise, ninguém duvida. Que há algo de muito errado neste país, todo mundo concorda. No entanto, tudo parece incrivelmente bem.
Parece.
Eu não sei das estatísticas, mas, embora tenha me afastado um pouco da noite, nas minhas últimas saídas noturnas, algo me chamou a atenção: as pessoas estão bebendo demais. Isso acontece em todas as faixas etárias, mas o que mais me assusta é que parece que se está começando cada vez mais cedo. E pelos motivos errados. Tá certo que o Rio sempre teve tradição boêmia e um histórico de porres folclóricos. Mas eu sinto que o pessoal está bebendo por uma questão de sobrevivência, apenas para se estar bem.
Também tenho conversado com muitas pessoas que dizem estar bem “quimicamente”. Do Viagra ao Lexotan. Parece que todo mundo está tomando alguma coisa para comer, para não comer, para acordar de manhã, para dormir bem, para não ficar triste, para ter ânimo, etc.
E a cidade onde esse clima de faz de conta é mais evidente é o Rio. Isso porque parece que nós, cariocas, somos obrigados a sermos sempre simpáticos, alegres e de bem com a vida. A mídia nos impôs esta sina. E parece que aceitamos.
Não está nada bem. Vivemos numa cidade decadente que fica em um país que está naufragando e exigem de nós que ainda tenhamos o mesmo sentimento de 40 anos atrás. O que faz a festa dos laboratórios farmacêuticos, dos bares, dos traficantes e dos analistas.
Vá você falar mal do Rio para um carioca. É quase certeza de briga. Até certo ponto isso é compreensível. É a nossa cidade! Mas esse amor cego de “cidadão da cidade maravilhosa” é que nos arruína. Está tudo mal e até quando vamos fingir o contrário? As favelas estão sufocando a cidade num abraço, os serviços vão de mal a pior, as praias estão sujas, as ruas estão imundas, a deterioração dos logradouros é visível, o trânsito é assassino e o problema da população de rua é uma calamidade. Não vou nem falar na violência para não baixar ainda mais a auto-estima. Tenho viajado pelo Brasil e é viajando que percebemos o que está acontecendo. O Rio é uma cidade cheia de ódio. A crueldade da péssima divisão de classes que há neste país grita mais aqui, porque não fica escondida nas periferias. Da praia já dá para vê-la.
Não sei até quando o Rio vai continuar lindo. Só gostaria de saber até quando o carioca vai continuar rindo? Rindo este riso bêbado, drogado e falso que já não engana mais ninguém. Não há nada mais ridículo do que ver gari desnutrido sambando com uma vassoura no Sambódromo e com o tal riso fake diante das câmeras.
Me lembrei do Woody Allen que ama Nova Iorque e já cansou de sacaneá-la, de fazer piada sobre ela e mostrar para o resto do mundo os seus podres. Eu não vejo isso aqui. Há exceções, é claro. Mas geralmente quando se fala no lado negro do Rio não se dá muita ênfase no quanto isso está afetando o cotidiano da cidade. O problema da Cidade de Deus, por exemplo, é da Cidade de Deus.
Admitir os problemas é o primeiro passo para resolvê-los. Aliás, este é o lema dos Alcoólicos Anônimos. Onde esta cidade toda irá parar se continuar a viver essa mentira inventada e mantida pela mídia.
E mande bala!
Para anotar na agenda

Terça-feira, Maio 23, 2006

Uau!!!



Prestes a completar o primeiro aniversário na web, esta será a capa do segundo número da versão impressa da Revista de Contos Bagatelas!, a ser lançada no domingo, 4 de junho, na Livraria da Travessa, Ipanema, às 19 horas. Colocarei o convite em posts futuros.
Nesta edição você encontrará uma entrevista bilíngüe direto de Cuba com o escritor Pedro Juan Gutiérrez, um depoimento de Luiz Ruffato, contos do escritor da Guiné-Bissau, Waldir Araújo, do escritor Luís Naves, de Portugal, e da escritora Euza Noronha, de Minas. Quadrinhos feitos por Rafael Adorjan, ensaio literário, resenha, e a nova coluna de novidades literárias comandada pela nossa assessora de imprensa Liana Dantas.
Quer mais?
Que tal quinze contos dos escritores da Bagatelas?
São eles: Raphael Vidal, Luciano Silva, Miguel do Rosário, Amanda K., Rodrigo Melo, Nilovsky, Tatiana Carlotti, Flávio Corrêa de Mello, Márcio Calixto, Eloise Porto, Emerson Wiskow, Rogério Augusto, Camilla Lopes, Luis Filipe Cristóvão e este que vos fala, é claro.
O preço? Bagatela! Só três reais.
E a Bagatelas está com tudo. Depois de lançar o meu A Arte de Odiar, o selo da revista lançará mais dois títulos:

O meu amigo gaúcho Emerson Wiskow lança o seu livro de contos picantes Sorte Inversa.

Outro livro de contos, o do baiano-gente-boa Rodrigo Melo, Sonhos Não Passam Disso. Ambos serão lançados simultaneamente. Com o Designer de Raphael Vidal e fotografia de Thalita Rangel. Vale a pena conferir. Os pedidos podem ser feitos em bagatelas.net., é claro.


40 Milhões em ação...

No O Globo de hoje (23 de maio) saiu uma matéria sobre a rápida exapansão - em apenas 2 meses e 11 dias, 10 milhões surgiram na web e 75 mil são criados a cada minuto - dos blogs em todo mundo. Acredita-se que daqui a seis meses o número atinja a marca de 60 milhões. A matéria traz outros dados interessantes. Por exemplo, o maior crescimento dos blogs é registrado no oriente, principalmente na China e no Japão. A matéria ainda destaca a mudança de perfil dos sites pessoais, que deixaram de ser meros diários, para ser meios de grande circulação de informação. A mídia percebeu isso e até jornais do porte do Washington Post ou do New York Times, já têm os seus blogs.

Pena que muita gente aqui no Brasil ainda não sabe aproveitar essa grande ferramenta de comunicação, informação e divulgação, ficando no nível do bate-papo, competição, troca de ofensas, guerra de egos e outras baixarias mais.

Mergulhe aqui para ver a matéria do O Globo.

Domingo, Maio 21, 2006

A Cela



“Eu havia acabado de chegar na cidade, sabe? E quando você chega em uma cidade estranha, logo pensa em encontrar um lugar para se divertir. Ninguém quer ficar sozinho num quarto de hotel numa sexta à noite! E eu não queria ficar naquele quarto, por onde milhares de caras como eu deviam ter passado. Ah, eu podia sentir o cheiro deles no lençol. A angústia produz um tipo diferente de suor. É um cheiro que dá nojo e me deixa pra baixo, sei lá!
Bem, na verdade, aquele quarto de hotel parecia uma enorme cela de paredes brancas. É isso! E eu senti a necessidade de fugir dali o mais rápido o possível.
Por isso fui para a rua. Fui seguindo por aquela graaaaande avenida. Não era uma cidade feia e nem bonita, não estava frio e nem calor. Na verdade, não havia nada demais ali. Eu e aquela cidade estabelecemos um trato. Eu não queria saber nada sobre ela e ela também não saberia nada de mim, sabe como é? Não havia nada ali que me fizesse mal. Mas também nada que me fizesse bem. E nada que me fizesse supor que iria ouvir o que iria ouvir.
Onde eu estava? Ah, na graaaaande avenida! E eu fui andando pela graaaande avenida até que vi aquele homem de meia idade, sentado numa saída de metrô. Era um cara bem apessoado, bem vestido. Não parecia ser um...você sabe, um vagabundo. E eu devia ter desconfiado. Devia saber que um sujeito daqueles não estaria ali, naquele lugar numa noite de sexta, se não fosse alguém de quem eu deveria me manter afastado. De quem qualquer um deveria se manter afastado.
Pois não sei como, alguma força que não é desse mundo me fez me aproximar daquele sujeito. E eu disse:
“Escute, amigo. Estou procurando por um lugar para tomar um drinque., um lugar com alguma diversão.”
Então, o cara me olhou de uma maneira que não devemos olhar para ninguém. Dentro dos meus olhos, me intimidando, sabe como é? Depois, ele abriu um sorriso estranho e disse:
“Ah, é só dobrar a primeira à direita e você vai encontrar A Cela.”
Não pense você que me ofendi. Não! Eu estava apenas surpreso e cheguei até a abrir um desses sorrisos de gente boa e inocente.
“Cela?”, eu disse.
E o cara continuou sorrindo, quase se desculpando:
“A Cela é um bar. O pessoal o chama assim porque tem gente que vai à primeira vez e não sai mais de lá.”
Aí, o indivíduo soltou uma gargalhada gostosa, uma gargalhada de amigo de infância, ao ouvir uma piada. Uma gargalhada que me fez sentir bem. Durante alguns segundos, cheguei a pensar que havia conhecido um bom sujeito, cheguei até a pensar em convidá-lo para um drinque. Mas aí, ele voltou a me olhar nos olhos daquele jeito que não se deve olhar e completou:
“Você encontrará muitas pessoas bacanas lá, muito gentis. Certamente alguém vai lhe pagar um drinque, os garçons vão querer saber o seu nome e passarão a chamá-lo pelo nome que você lhes der. A música é alta e o ambiente é muito animado. Mas não o bastante para lhe incomodar. A bebida é sempre servida com sorrisos e a comida é ótima. Você realmente vai se sentir bem lá dentro.”
Não sei por que, mas tive a impressão de que havia um tom acusador naquelas palavras. E como se estivesse em meio a um flagrante, apressei-me a me justificar:
“Olha, amigo. Eu só estou querendo me divertir um pouco.”
Mas ele ignorou o que eu disse e continuou:
“Você vai se sentir tão bem que voltará amanhã. E depois de amanhã também. E depois, depois, depois. O seu café da manhã passará a ser na Cela. E você também passará a almoçar e jantar lá. E não conseguirá dormir sem antes tomar um último drinque. Com o tempo, você não vai mais suportar a vida aqui fora. Tudo lhe parecerá rude e frio demais. E a essa altura você desejará viver lá para sempre. Mas aí você vai conhecer o único defeito da Cela. É que ela tem sempre que fechar, largando você no meio da madrugada fria, sem ter para onde ir.”
Nesse momento, então, o sujeito ameaçou ir embora e eu segurei o seu braço. Se eu tivesse o mínimo de sensatez, eu o deixaria ir. Qualquer um o deixaria ir. Mas o impedi e com uma aflição imprudente, eu falei, quase gritei:
“Amigo, eu só não queria ficar trancado no meu hotel numa noite de sexta. Não quero passar essa noite sozinho, eu só queria ver gente, me divertir.”
Então, durante alguns segundos, ele me olhou. O olhar com o qual não se deve olhar ninguém. Depois, falou como se olhasse para um cuspe na sarjeta.
“Até que você aprenda a ficar sozinho, o seu lugar é A Cela. Vá e junte-se aos seus.”
Então, ele me deu as costas e se foi pela looooonga avenida. Me deixou ali com os meus medos. E com aquele súbito desejo de sair daquela cidade. Aquela cidade não era boa. Ela não cumpriu o nosso acordo. Ela agora sabia de mim e eu não queria saber dela, mas agora sabia da Cela.
Um lado da minha mente me dizia que aquele homem estava certo, o que só aumentou o meu pânico. Passei a procurar um táxi que me tirasse daquela cidade ruim. Aí, um lado da minha mente me disse que qualquer lugar seria ruim, que não havia para onde fugir. Comecei a suar,aquele tipo de suor, cujo o cheiro me dá nojo e me deixa triste. E eu tinha que sair dali. Aquela cidade não era boa. Você sabe...para um cara como eu.”


*Conto escrito na época em que eu era voluntário, levando litertura para pacientes de clínicas de recuperação de dependentes químicos.


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Sexta-feira, Maio 19, 2006

Os Novos Verdes




Sabe os ecologistas? Aqueles tipos chatos que só comiam comida natural, usavam roupas artesanais, sabiam de cor os hinos hippies dos 60 e cheiravam a incenso? Aqueles para quem a salvação do mundo parecia estar numa volta aos primórdios, a uma sociedade sem consumismo, sem tecnologia e sem nada politicamente-incorreto? Lembrou?
Então, agora esqueça. Esse tipo de ecologista está entrando em extinção. Tá certo que os novos ecologistas ainda usam roupas de tecido orgânico e pregam uma alimentação natural, mas estão usando cada vez mais a tecnologia a favor da sua luta, criando formas mais hight tech de proteger a natureza. Além do mais, eles já têm uma outra postura em relação ao dinheiro. Eles querem arrecadar muito para ter poder e formar lobbies gigantescos no congresso americano, logicamente para aprovar leis de preservação. E a matéria de capa da Wired deste mês fala desta "nova revolução verde" em andamento.
Na verdade, parece que até a mãe natureza já estava de saco cheio dos ecologistas. Sou uma criatura abissal que cresceu numa época em que as estações eram mais ou menos pontuais e típicas. Agora, assito com preocupação temporadas de tornados e furacões cada vez mais violentos nos EUA e na América Central, nevascas violentas no norte da América do Norte, temperaturas médias em elevação em boa parte do planeta e se alguém, há uns vinte anos, dissesse que iríamos ver seca na Amazônia, certamente seria internado e só sairia do Pinel no ano passado, quando sua profecia se realizou.
Que os movimentos ecológicos estavam perdendo a guerra para salvar o planeta, ninguém duvida. Mas parece que finalmente a ficha caiu e eles perceberam que conseguiriam atrair mais a atenção do cidadão comum e ao mesmo tempo conquistar mais vitórias, se lutassem com as mesmas armas que o seu inimigo. Em tempos de mudanças climáticas terríveis como estes, parece que os tempos das surradas boas intensões estão acabando.
E a mãe natureza agradece.
Mergulhe aqui e aqui para ler as matérias da Wired.
*******************
Janaína Noël e Paulo David no palco, lendo Palavras Cruzadas, peça da grande Anna Maria Ribeiro que discute as encruzilhadas nos relacionamentos no mundo de hoje. Foi ontem à noite no Espaço Café Cultural. Era a estréia do grupo Seis Autores Em Cena, do qual faço parte. E foi um sucesso! O público compareceu em peso, apesar de ser uma noite fria, no meio da semana e com jogo do Flamengo em final de campeonato. É isso aí!
Obrigado aos atores que deram muito de si.
Obrigado ao Espaço Café Cultural Petrobrás que nos acolheu com tanto carinho.
E Merda pra nós!!!

Quinta-feira, Maio 18, 2006

Tapa na Cara


Eles apareceram há uns cinco anos. Eram jovens, sabiam escrever, passavam horas viajando na web e alguns já tinham blogs. Ao contrário dos seus antepassados, eles não precisavam mais que uma editora os publicasse para divulgar os seus trabalhos. O mundo inteiro podia ler à noite o que eles haviam escrito à tarde.
O mercado lieterário precisava de uma renovação. Havia um vazio, uma mórbida falta de novidades na cena literária. Então, a mídia (sempre ela) começou a garimpar entre essa garotada, aqueles que seriam lançados como "os revolucionários", "os salvadores", "aqueles que vieram romper com a literatura tradicional" ou "os que estão criando uma nova linguagem literária". Infelizmente, muitos embarcaram no canto de sereia da mídia e começaram a se achar mesmo os Che Guevara da literatura brasileira. Muitos passaram a correr o Brasil, dando palestras e workshops. Apareceram no Jô e foram assunto nos cadernos B da vida. Eram figurinhas fáceis em noites de autógrafos e nas Bienais.
Foram chamados de Geração 00. Eu conheci vários deles. Me lembro que no lançamento de uma das inúmeras "antologias de Novos" que fui, uma integrante dessa geração, antes de me dar um autógrafo, ao invés de perguntar o meu nome, olhou-me com desdém e me mandou a seguinte pérola: "Como você ganha a vida?". Encontrei essa mesma figura, uma vez, em um shopping. Ao me ver, talvez pensando que eu fosse lhe pedir um outro autógrafo, foi logo mandando: "Agora não posso, estou com pressa!"
Eu convivi com alguns deles, pois foi uma época em que nós organizávamos saraus e eventos literários. Ainda me lembro deles, sempre em grupinhos, pelos cantos, nos evitando. Evitando ter contato com aquele tipo de gente que eles haviam sido há menos de um ano atrás, ou seja, aspirantes a escritores em busca de uma chance.
Eu nem me lembrava mais dessa gente, quando outro dia me deparei com um excelente texto do Paulo Polzonoff Jr., do Digestivo Cultural, em que ele comenta a superexposição e a supervalorização que sofreu essa enxurrada de autores novos neste início de século. Escritores apressados, para leitores apressados. Todos muito preocupados em criar formas, formatos e estilos "revolucionários" de se contar histórias. Só que a maioria não tem muito a contar. Isso, porque não tiveram muita leitura, estão muito ávidos a expor seus trabalhos.
Realmente, essa nova safra de escritores até conseguiu trazer algumas inovações. Mas foram novidades que logo envelheceram. Não pegaram porque, na maioria dos casos, não tinham conteúdo. E os poucos que irão permanecer, certamente preocupam-se apenas em contar uma boa história de forma universal e atemporal.
Não me considero um integrante dessa nova geração, apesar de ter lançado o primeiro livro recentemente. Afinal, já escrevo há quase 30 anos. Sou da geração pré-internet. Escrevíamos, reescrevíamos, mostrávamos para os amigos, reescrevíamos novamente e assim a coisa seguia por um longo caminho até chegar numa editora. Era mais difícil? Muito mais. Então, tínhamos que ter alguma compensação. E a compensação era o prazer de escrever, de curtir o texto, de mexer nele até deixá-lo quase perfeito.
Talvez a rapidez e a facilidade de se divulgar um trabalho pela internet seja a grande maldição da safra de escritores deste século. Parece que esse pessoal só consegue ter prazer após a divulgação ou a publicação, quando o prazer deveria vir no durante.
Eles parecem um casal que faz sexo e só gozam quando um responde sim para outro, após a pergunta: "Foi bom pra você?"

Mergulhe aqui para ler a matéria do Digestivo, que já está dando o que falar. Tanto é que o Julio Dario, editor do site, foi obrigado a escrever outro artigo sobre o tema e que você pode conferir, mergulhando aqui.


É hoje!
O GRUPO
SEIS AUTORES EM CENA

CONVIDA VOCÊ!


LEITURA DA PEÇA “PALAVRAS CRUZADAS”
DE ANNA MARIA RIBEIRO

DIREÇÃO DE TOMIL GONÇALVES


EM CENA:
JANAÍNA NOËL
PAULO DAVID
PATRÍCIA COSTA
ALEXANDRE BORDALLLO

DIA 18 DE MAIO
21:30

ESPAÇO CAFÉ CULTURAL
Rua São Clemente, 409 – Botafogo
Entrada franca
Enquete


Você acha que realmente o governo paulista fez um acordo com o pessoal do PCC?

Terça-feira, Maio 16, 2006

Vergonha





"O casal estava de cabeça baixa. Ao contrário de outros crimes, estupros, uso e tráfico de entorpecentes, assassinatos, roubos, furtos e etcétera, quando, nos flagrantes, temos que nos deparar com marginais cínicos, cruéis e irrecuperáveis, no caso do dois três três, encarávamos pessoas simples e, geralmente honestas, cidadãos acima de qualquer suspeita que sucumbiram à fraqueza humana a qual todos nós estamos sujeitos. Bandidos não conhecem a vergonha. E é só vergonha, uma vergonha sufocante, o que encontramos no rosto da maioria dos inseridos no dois três três. A vergonha é tortura. Tem sido a arma usada pela Igreja durante todos estes séculos para humilhar, condenar, derrotar e reduzir a pó todos os que a incomodam. Vergonha fere. Se você tem um inimigo, imponha-lhe uma situação vexatória. Eu havia aprendido isso nas aulas de psicologia.
“Olhem para mim.”, pedi. Precisava ver a vergonha pintada no rosto deles. Eu adoro ver a vergonha no rosto deles. “Não há motivo para vocês se sentirem envergonhados.”"

(Trecho do meu conto Dois Três Três, no qual um delegado tarado interroga um casal que foi pego fazendo pouca vergonha num carro. Isso só podia acontecer num livro chamado Crimes e Perversões, que sairá em breve. Aguarde!)
Convite
E o grupo Seis Autores Em Cena, do qual faço parte, começa a atacar. Na próxima quinta será a primeira leitura de uma peça do brupo. Taí o convite. Aqueles que comparecerem, serão bem-vindos.
LEITURA DA PEÇA “PALAVRAS CRUZADAS”
DE ANNA MARIA RIBEIRO

DIREÇÃO DE TOMIL GONÇALVES

EM CENA:
JANAÍNA NOËL
PAULO DAVID
PATRÍCIA COSTA
ALEXANDRE BORDALLLO

DIA 18 DE MAIO
21:30
ESPAÇO CAFÉ CULTURAL
Rua São Clemente, 409 – Botafogo
Entrada franca

Sexta-feira, Maio 12, 2006

Os Pequenos e Os Grandes Sonhos de Jurema da Silva

Foto de Lorenzo Moscia

Quando o sol começou a se meter atrás da mangueira, no quintal, e uma das últimas rajadas de sudoeste do dia entrou pela porta da cozinha, Jurema da Silva sabia que em breve estaria beijando o seu homem. Por isso, tratou de terminar o jantar. E o vento entrou de novo e ela teve a impressão de sentir o cheiro acre-doce de homem suado. Verificou se o bebê estava dormindo e tomou um banho rápido e eficiente. Precisava estar limpa para quando ele chegasse. E perguntasse se estava tudo bem. E ela responderia com um beijo. Um beijo de "Tá tudo bem, meu amor." Depois, iriam abraçados para o quarto. Um gesto de "Foi mais um dia vencido. Mais um dia sobrevivido." E ele lhe daria um abraço apertado e um beijo mais longo. Porque, assim que ele chegasse, era ela quem partiria. E aquele abraço seria um "Vai com Deus, meu amor." E depois, viria um beijo mais longo. Então, ele olharia o seu rosto, antes do último abraço de "Que pena que você tem que ir."
E ela teria mesmo que ir, mas antes, olharia para o seu homem pela última vez. Aquele olhar de "Quando se tem um homem como você, tudo vale a pena." Aí, então, viria o sorriso de "O final de semana já está chegando e vamos ficar juntos. Quem sabe um dia na Quinta com o moleque ou na praia?"
Foi quando pensava nisso tudo, enquanto olhava o menino dormindo no berço, enquanto verificava que nada – porque tudo tinha que estar perfeito quando ele chegasse - , a porta anunciou a chegada dele, o seu homem.
"Tudo bem?"
Tudo bem, meu amor e eles foram abraçados para o quarto. Conseguimos sobreviver mais um dia. Enquanto ele ia ver o filho, ela lavou o seu rosto e se perfumou um pouco mais. Que pena que você tem que ir. Ela vestiu-se, enquanto ele tomava o seu banho. Quando ele terminou, a encontrou já na porta esperando por ele. Vá com Deus, meu amor. Beijaram-se de novo. Quando se tem um homem como você...
Na longa viagem de ônibus, ela enfileirou os seus sonhos. Eram sonhos pequenos, mas como eram muitos, ajudava a vencer cada quilômetro. Do subúrbio ao Centro, centenas de quilômetros de sonhos.
No Irajá, sonho. Comprar a televisão maior, assim que liquidar suas dívidas.
Na Penha, sonho. Uma segunda lua-de-mel com o seu homem, em Araruama.
Em São Cristóvão, Levantar uma laje para fazer o quarto do filho.
Na Leopoldina, Um carro para ir à praia.
Saltou na Tiradentes e até a Senador Dantas era mais uns dois sonhos. Abrir um negócio com o seu homem. Não precisar mais trabalhar.
Parou na esquina de sempre, Evaristo da Veiga, perto do Bob´s. Era um local decadente, mas discreto. Homens entediados saindo do trabalho, viúvos solitários, funcionários públicos tarados. Retocou o baton e rezou baixinho para que Nossa Senhora da Aparecida lhe desse uma boa noite.
E a santa intercedeu pelo seu pedido. Logo um homem baixinho, de terno e com um bigode que lembrava o homem que havia deixado em casa, se aproximou.
"Quanto é a hora, morena?"
Ao pensar no homem que havia deixado em casa, lembrou-se de algo e pegou o celular.
"É trinta e mais o hotel, paixão"
"Qual hotel?"
"O da rua das Marrecas.", e ao celular: "Alô, amor! Olha quando o menino acordar dê o remédio que deixei sobre a pia."
O homem fez menção em se afastar. Ela segurou o seu braço. Naquele momento o estranho era tão necessário quanto o homem do outro lado.
Para o homem: "Calma, paixão!", e para o seu homem: "Depois eu ligo, beijos!"
"Você é casada?"
"E aí? Vamos fazer gostoso?"
"Tudo bem. Gosto de morenas como você."
"Também gosto de homens como você. Qual o seu nome, paixão?"
Abraçaram-se e caminharam para o hotel. Até tudo acabar, uma geladeira nova, o menino num colégio particular, ser feliz com o seu homem...



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Quinta-feira, Maio 11, 2006

Esperto



Saiu na coluna do Ancelmo Gois de hoje (11/05/2006), na página 30, do O Globo.


Cena Brasileira
"Um carioca a trabalho em São Paulo parou o carro num sinal da Rua República do Líbano e logo foi abordado por um menino de rua.
Mas antes que tirasse um trocado do bolso, acredite, outro menino deu o chamado: "O de trás! O de trás!" O guri correu, e lá se foram os dois abordar o carro de trás. Era um Ferrari."



Essa pequena notícia, num canto de jornal, é simplesmente o reflexo do maior mal que continua sendo a nossa desgraça, embora seja visto até como motivo de orgulho pela mídia: o jeitinho.



E essa vai para uma garota que não gosta de bege .


“Sabe, eu sou uma pessoa bege.”
“Bege?”
“Sim. Combino com qualquer um. Vermelhos, azuis, amarelos, verdes...”
“Que bonitinho! E que cor eu sou?”
Ela pensou um pouco. Enquanto pensava, sorria. Ex-normalista, suplicante, desesperada, bege...era de alguém como ela que eu estava precisando.
“Marrom. Você é machista e conservador.”, ela disse.
“Bingo!”

(Mais um trecho do meu conto Testosterona, que fará parte do Crimes e Perversões, meu livro de contos)

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Me, rock; You, lambada.


Em 1984, o cantor/compositor e insturmentista britânico Peter Gabriel esteve aqui no Brasil. O ex-vocalista do Genesis veio para fazer uma pesquisa musical. Entrou em contato com artistas nacionais, que logo o levaram para conhecer o samba. Mas Gabriel recusou. Nada de samba, nem de bossa nova. Ele queria algo mais exótico. Mostraram a ele outros ritmos e ele acabou se apaixonando pelo xaxado. E foi embora, prometendo fazer um xaxado em inglês. Ninguém acreditou.
Gabriel prosseguiu sua perigrinação por países do terceiro mundo, ricos musicalmente e pobres economicamente. No Senegal, por exemplo, ele descobriu e lançou o cantor Youssou N Dour.
O resultado de toda essa busca, o mundo conheceria em 1986, quando foi lançado o álbum So.
Impecável em todos os sentidos, este disco é cheio de ritmos dos terceiro e quarto mundos, mas com arranjos do primeiro. Até o nosso xaxado ganhou ares de obra prima, na belíssima Mercy Street. Acredito que a intensão de Gabriel não era catequisar os ritmos selvagens dos excluídos. Ele mostrou que havia música inteligente fora do eixo EUA-Inglaterra. Além do mais, difundiu um tipo de som que estava destinado a ser sempre desconhecido no chamado "mundo civilizado".
Críticos e público deram a So o destaque merecido. O disco vendeu milhões e foi rotulado de world music.
Mas logo Peter Gabriel não estaria sozinho...
No segundo semestre daquele ano, seria a vez do americano Paul Simon segurar a bastão. Assim como Eric Clapton, que, em 1973, havia chamado a atenção do resto do mundo para a música feita na Jamaica, Simon gravou um disco todo com músicos africanos, tocando músicas de raízes africanas. Novamente o mundo pop ficou de quatro. E milhões de cópias vendidas, críticas apaixonadas e um grammy, fizeram de Graceland um dos discos da década.
Muitos criticaram estes dois artistas por "faturarem em cima de povos miseráveis". Mas na verdade, a world music criada por eles também serviu para jogar os holofotes sobre a riqueza musical daqueles países.
Apartir de então, o mercado da música passou a se globalizar. O que foi ótimo para os músicos brasileiros. Por isso, quando, no final daquela década, a lambada ganhou as pistas de dança européias, já não causou tanta surpresa. Anos mais tarde, num mundo ainda mais globalizado, artistas de nacionalidade diversas como Shakyra, Christina Aguilera, Olodum e Bjork, faziam sucesso, cantando os ritmos de sues países.
Isso devemos a Gabriel e Simon.
Mas hoje, passados 20 anos, você acha que esse safari musical foi realmente uma mera exploração de colonizadores gananciosos, atrás das riquezas de povos do terceiro mundo ou foi apenas busca por novos sons?
Mande bala.

Sábado, Maio 06, 2006

No Edredom





"A noite era de chuva e fui navegando com dificuldade por entre a tormenta, jogado de uma onda a outra, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Para mim, as noites de crise sempre tiveram o gosto de cruzar um oceano em fúria.
De repente, um casal abraçado sob o guarda-chuva. E uma enorme vaga quase me afoga.
Parei na porta do Edredom e entrei.
O Edredom é um bar. Na verdade, este não é o seu nome. Mas o chamam assim porque é onde os carentes e solitários se refugiam da frieza do mundo.
Lá dentro, em meio a uma penumbra enfumaçada, homens e mulheres estavam espalhados pelo salão. Apesar do mau tempo, não eram poucos. Na verdade, nem mesmo o dilúvio do juízo final conseguiria afastá-los dali. Gente desesperada a procura de alguém.
Mas sabiam fingir. Uns fingiam estar ali apenas fazendo hora, esperando a chuva passar. Outros, para um drinque após o trabalho. E havia aqueles que fingiam estar apenas procurando amigos para um bate-papo. Mas era tudo mentira. Tudo não passava de uma estratégia aprendida em muitas noites iguais àquela. A vida lhes havia ensinado que, nesse mundo injusto, para se conseguir um copo d’água é preciso esconder a sede.
Encostei-me no balcão e pedi o meu drinque. Puro. Sem gelo.
Aí, notei a mulher. Vulgar, magra e com um olhar suplicante. Dessas que entregam logo o jogo. Dessas que não sabem fingir. Era o meu tipo. Sorria para mim. Mas tentei ignorá-la. Não iria facilitar as coisas para ela. Embora estivesse tão carente que seria capaz de pular em cima da primeira que me piscasse o olho."

(Você já precisou de um Edredom? Eu já. Muitas vezes. Trecho do Testosterona, conto que estará no meu livro Crimes e Perversões. Mas que já postei aqui, em algum lugar no ano passado)

Garotinho

"Forças Ocultas." Quase 45 anos depois de terem derrubado Janio. Elas parecem assustar de novo.

Sexta-feira, Maio 05, 2006

Oba!!!!!


De repente uma coisa chamada buraco na camada de ozônio fez a ficha cair. Corriam os anos 80 e o mundo inteiro entrou em pânico, enquanto os fabricantes de protetores solar enriqueciam.
Mas agora o tal buraco está diminuindo. A conclusão é de um grupo de cientistas americanos e dinamarqueses, após estudarem as conseqüencias do Protocolo de Montreal (1987), ratificado por mais de 180 países, que proíbe a contaminação pelas emissões do gás CFC (clorofluorcarboneto). Constatou-se uma estabilização na década de 90 ou uma desaceleração no crescimento.
Quem sabe o resultado desse estudo não convence Mr. Bush a assinar o Tratado de Kioto, que visa a eliminar de uma vez por todas a emissão de gases que possam afetar a camada de ozônio?
Não jogue fora o seu protetor ainda. O avanço é pequeno! Mas já é alguma coisa. E a natureza agradece.
A boa notícia foi publicada no O Globo.
“Era uma vez uma garota humilde do subúrbio. Bonita e muito ambiciosa. Sonhava em ser uma atriz do teatro e do cinema. E preferiu o caminho mais fácil. Os homens têm necessidades e ela aprendeu a satisfazê-las. Então, a moça humilde do subúrbio acabou se transformando na maior vagabunda que esta cidade já conheceu. Ganhou muito dinheiro com isso. Mas, como nas novelas mexicanas, não encontrou a felicidade. É isso que você quer escrever? Um drama mexicano?”
Gostou? Este é o trecho inicial do conto A Verdadeira História de Suzete Kitichnette, que faz parte do Crimes e Perversões, o livro que irei lançar em breve. Aguarde!
Nota da Diretoria
Comunico que ainda estou sofrendo dessa doença, que é uma epidemia mundial, chamada falta de tempo. Por isso os posts tem ficado mais escassos e,...digamos,...mais...minimalistas. Também não tenho visitado todos os blogs amigos, como gostaria.
Estou lutando para sanar o problema
Conto com a compreensão de todos
Obrigado

Quinta-feira, Maio 04, 2006

Eu Sou Uma Preta Velha, Aqui, Sentada Ao Sol

Esta foto foi tirada daqui

Em outubro de 1973, com grande estardalhaço, Milton Nascimento lançava o luxuoso álbum Milagre dos Peixes, seu primeiro trabalho produzido pelo também integrante do Clube da Esquina, Wagner Tiso. A segunda faixa deste disco chama-se Carlos, Lúcia, Chico e Tiago e tem o sub-título que dá nome a este post.
Hoje pela manhã, quando fui arrumar a minha estante, este Cd pulou em cima de mim, me forçando a lembrar um fato que já havia esquecido.
Quando este disco foi lançado, eu tinha 14 anos e já tinha uma vida meio boêmia. Eu andava com pessoas mais velhas e de vez em quando, íamos à zona de prostituição do Mangue, uma enorme área desvalorizada e decadente, perto do Centro, onde diversos quarteirões e ruas eram ocupados por bordéis, botequins, biroscas, casas noturnas. Tudo voltado para a prostituição. Mulheres vinham de todos os locais do país para ganharem a vida ali.
Com a chegada das obras do metrô, toda aquela área foi desocupada, os bordéis vieram abaixo e o que restou do Mangue, hoje está na Vila Mimosa, um trecho de rua, atrás da Praça da Bandeira. O Mangue deu lugar ao atual bairro da Cidade Nova, onde fica a sede da prefeitura.
Bem, eu e alguns colegas do Colégio Pedro II costumávamos ir ao Mangue para ver as putas. Só ver, pois como éramos menores, só as mais caídas iriam se arriscar a querer alguma coisa conosco. A maioria nos ignorava. Então, sentávamos em um bar e tentávamos esconder a nossa ansiedade. Às vezes, alguma se aproximava. Nós lhe pagávamos umas cervejas e era aquele tal de mão ali, beijo aqui, dedo acolá. Nas raras vezes em que a polícia aparecia, nós nos escondíamos no banheiro das mulheres. Putas não têm esse pudor.
Meus pais não sabiam que eu freqüentava o Mangue e nem podiam saber. Por isso, naquele final de madrugada, em fevereiro de 1974, quando deparei com a minha vó entrando no Mangue, senti as minhas pernas fraquejarem.
Minha vó Elisa tinha um irmão chamado Augusto, que era doente mental. Ele vivia numa dessas instituições para doentes, que quando estão superlotadas, deixam alguns internos fugir. E quando fugia, ele ia ao Mangue a procura de uma mulher. E essa mulher avisava a minha vó.
Vovó movimentou o seu corpo curvado até a porta do puteiro e perguntou pela Diana. De longe, escondido atrás da pilastra de uma birosca, eu vi a corpulenta e seminua Diana trazer uma cadeira para a minha avó. Uma outra puta lhe trouxe café num desses copos que antes havia abrigado requeijão ou geléia, sei lá!
E foi nesse momento que o sol nasceu. E minha avó estava sentada, voltada justamente para o leste. Assim, meio curvada, a velha Elisa apontava os cabelos prateados para a luz ainda inocente da manhã de verão e o reflexo que vi ali tornaram aquela cena ainda mais poética. Ali eu tinha o primeiro insight literário do qual me lembro. "Cara, eu vou ter que escrever sobre isso.", prometi.
E como se aquela cena fosse o flautista de Hamelin e eu, um camundongo, quando percebi, já estava indo em direção a minha vó.
"O que a senhora está fazendo aqui, vó?", perguntei.
"Vim pegar o seu tio e levá-lo de volta para o hospital. Sente aqui comigo."
Sentei ao seu lado. O seu cheiro de Leite de Rosas se contrastava com o fedor de cigarro, esperma, gordura e testosterona. Minha vó parecia linda de banho tomado e toda arrumada. Com o mesmo vestido que ia a missa aos domingos, lá estava ela sentada naquela rua suja, onde as últimas putas passavam agarradas aos clientes mais ordinários. Era a hora da xêpa.
A tal Diana voltou e minha avó nos apresentou como apresentaria uma velha amiga.
"Ele ainda está dormindo.", Diana, "Quer que o acorde?"
"Não, eu espero ele acordar. Deixe ele descansar. Vá descansar também, minha filha."
Diana trouxe mais café com bolachas cream-cracker. Depois, nos desejou um bom dia e sumiu por dentro do puteiro. Ficamos ali no sol, minha avó e eu, enquanto o dia amanhecia. As putas com cara de sono e seus clientes bêbados davam lugar aos primeiros passantes apressados, a caminho do trabalho.
"Ninguém deve saber que você me viu aqui.", vó Elisa pediu.
"Tudo bem, vó."
"Ninguém vai saber que encontrei você aqui."
Beijei o seu rosto, selando o nosso acordo, que nunca seria quebrado.
"Agora, vá embora! Pode me deixar aqui. Já estou acostumada."
Após um novo beijo em seu rosto salpicado de Leite de Rosas e talco Palmolive, me juntei aos últimos bêbados que deixavam o Mangue. Antes de sair, porém. Ainda olhei para trás e saboreei a poesia da cena da velhinha sentada ao sol, sob os olhares dos que passavam. Era apenas isso. Uma preta velha ali, sentada ao sol.
"Cara, um dia eu tenho que escrever sobre isso." E fui embora, com a música do Milton na cabeça.
E o Mangue acabou. Minha vó e meu tio partiram. E essa manhã, quando o cd pulou em cima de mim, senti que não havia cumprido de todo as promessas feitas naquele amanhecer.
"Cara, tenho que postar sobre isso."