
Mais um conto da era abissal, quando eu usava um 486 e ainda tinha a ilusão de ser um escritor...
SUPOSITÓRIOSNa primeira aplicação dói bastante. Isto sem falar no desconforto da penetração, quando o objeto de ponta arredondada é sugado pela mucosa anal. Às vezes, sentimos o desejo de tentar impedi-lo que siga seu caminho até a corrente sanguínea. Esta é a pior parte. Dói, arde e incomoda.
Há maneiras diferentes de colocá-lo. Uns preferem a mais lenta. De forma bem suave para evitar ou adiar a dor. Sempre preferi que fosse introduzido de uma só pancada. A dor dilacerante, é cruel. Mas, segundo as leis das compensações, o alívio é bem mais rápido. O sangue se encarrega de dissolvê-lo e espalhá-lo pelo corpo. Aí, então, é fechar os olhos e sentir a imensa paz e o bem-estar infinito. Você sabe, é difícil explicar. É um sentimento de céu azul, algo de ‘vai dar praia no fim-de-semana’, talvez um pouco de ‘o carnaval está chegando’. É uma coisa de ‘Deus é brasileiro’, combinado com um certo ‘tudo dará certo’.
Reconheço que há casos raros em que nem sempre funciona. Mas, é irresistível o efeito. Com o tempo, seus males serão eliminados com mais rapidez. A vida fica mais bela, agradável e seu humor, inabalável.
Assim tenho vivido há anos. Anestesiado. Aplico-o a cada lambada da vida e espero o efeito. Nada pode perturbar a minha calma.
Nem mesmo quando, na mesa do café, esta manhã, ela voltou a me chamar de ‘monte de merda’, me perturbei. Pelo contrário. Abri um sorriso largo e falei apenas:
“Tudo bem, tudo bem.”
Depois, saí, sem saber que teria um dia difícil.
Ainda estava amanhecendo, quando recebi um chamado para levar o meu táxi até a Lapa e pegar um tal Sr. Adamastor de Almeida, no início da Mem de Sá, junto aos Arcos.
Lá, encontrei uma bichona vestida de mulher na porta de uma boate. Carregava uma enorme sacola de viagem e entrou batendo a porta com violência. E uma das poucas coisas nesta vida que quase consegue me irritar, é baterem a porta do meu táxi. Mas tudo bem, tudo bem.
“Para o Posto Seis”, pediu.
Acendeu um cigarro. Então, abri a janela e desliguei o ar condicionado.
“Por que você fez isto?”, perguntou, “ É provoção? Só por que sou gay, não é?
Era um bicha paranóica. Eu já havia pego alguns destes tipos.
“Sim, e o dia nasceu sem sol porque você é gay.”
“Vocês taxistas nos odeiam. Todo mundo nos odeia.”
“Tudo bem, tudo bem. Se a senhora quiser, ligo o ar com a janela aberta.”
“Veja lá como fala! Não te conheço e exijo respeito.”
“Ora, vocês gays são engraçados. Vivem brigando para poderem mostrar o seu lado feminino e depois se irritam quando nós lhes tratamos como mulher, e com muito respeito.”
“Pois fique sabendo que durante o dia, eu sou um rapaz como outro qualquer.”, falou, tirando a peruca e os cílios postiços.
“E à noite, o que você é?”
“Vanessa Ross.”
“Que lindo!”
“Vocês heteros estão morrendo de inveja porque estamos conquistando o nosso espaço.”
“Ah, é?”
“Sim. Você sabe que dia é hoje?”, tirando agora os seios postiços, “É o Dia Internacional do Orgulho Gay. É o nosso dia.”
“É mesmo? Quer dizer que bicha agora tem dia? E pelo jeito que as coisas vão, daqui a pouco será feriado nacional.”
Vanessa ficou enfurecida.
“Enfie o teu deboche no...”
“Cuidado, as palavras, às vezes, são um reflexo dos nossos desejos reprimidos”, falei recordando-me das aulas de psicologia, nos tempos de faculdade. Sou formado em Comunicação. Talvez venha daí a minha necessidade de entrevistar os meus passageiros. Sou um repórter frustrado. Mas tudo bem, tudo bem.
“Fique sabendo”, continuou ela, “que sou filiada ao Grupo de Defesa aos Gays Desamparados.”
“Verdade?”
“Já contamos com um lobby no congresso e com o apoio de Organizações Não Governamentais.”
“Olha, não tenho nada contra os gays. E eu vou até lhe revelar uma coisa muito particular.”
Vanessa me olhava com curiosidade.
“Você jura que guardará segredo?”, perguntei.
“Juro.”
“É que...bem...descobri que em vidas passadas, fui uma gueixa, chamada Tamisha Nahima.”
A bicha soltou uma gargalhada.
“Não ria, por favor. Minha história foi trágica.”, pedi, muito sério.
Vanessa ficou me olhando.
“Eu era muito rica e casada com um importante samurai, responsável pela guarda imperial do condado de Kobe. E fui obrigada a fazer um harakiri em praça pública, enquanto a população me jogava fezes.”
“Tadinha.”
“E não foi só isso. Tive meus cabelos cortados(símbolo da vergonha suprema para os orientais, na antiguidade) e recebi uma cusparada dos meus pais, entre as gargalhadas de todos.”
“Mas o que você fez?”
“Bem, era comum os grandes samurais terem duas ou três mulheres e um rapazinho para satisfazê-lo.”, contei.
“Que maravilha!”
“E eu traí o meu veneravel senhor.”
“Pelo menos o bofinho valeu a pena, para compensar toda esta desgraça, eu suponho.”
“Não, fui pega na cama com a outra gueixa. A gostosona Fumiko Nokutu. Eu era uma lésbica.”
“Ah, você está querendo me gozar.”
“Verdade. Por isso acho que realmente tenho tendências homossexuais.”
“Eu sabia. Todos os homens que detestam os gays, no fundo...”
“Claro, claro.”
“Eu sou formado em psicologia, sabia?.”, contou Vanessa, orgulhosa.
“Não diga? Então foi Deus quem pôs você no meu caminho, sabe?”
“Por quê?”
“Talvez você possa me ajudar a decifrar um drama que vivi na infância.”
“Sei.”
“Se lembra quando éramos crianças e não conseguíamos dormir porque ficávamos sonhando com aqueles monstros dos seriados da TV? Aranhas gigantes, marcianos, Godzila, King Kong, as criaturas submarinas no Nacional kid.
“Sim. E daí?”
“Poi é, eu tinha pesadelos terríveis, sonhando com...uma boceta gigante.”
“Você está acha que sou algum palhaço?”
“Estou falando séiro. Ela vinha em minha direção querendo me devorar. Eu fugia, mas ela estava sempre me alcançando. Era horrível! Uma noite cheguei a me imaginar sendo sugado por ela. E não saindo nunca mais.”
“Que horror!”
“E havia ainda os sons.”
“Sons?”
“Sim. Algo parecido com pitzpuff.”
“Pitzpuff? Você é louco!”
“E não falei ainda dos odores nauseabundos, devido aos gazes tóxicos e a secreção venenosa...”
“Pare com isso!”
“Você não acha que isso pode ser um sinal de homossexualidade?”
“Pare este carro!!! Nunca fui tão humilhado! O GDGD(Grupo de Defesa dos Gays Desamparados), irá saber disto, seu politicamente incorreto!”
Preferia que ela me chamasse de filho da puta. Pelo menos, saberia do que se tratava. Mas tudo bem, tudo bem.
Estávamos no início da Barata Ribeiro e, de propósito, parei em frente a um botequim, onde, já naquela hora da manhã, vários homens estavam bebendo. Quando Vanessa desceu, um negro com a camisa do Flamengo gritou:
“Que porra é aquela?”
A bicha voltou a entrar no carro.
“Só voltei, para demonstrar que sou superior”, disse.
“Tudo bem, tudo bem.”
Ao deixá-la na porta de um prédio, na Sá Ferreira, me lembrei de minha mãe dizendo: ‘Garotos bonzinhos sempre recebem gorjetas da vida.’. Até hoje me pergunto se ela desconfiava que meu futuro fosse ser taxista. Para os olhos da sociedade, me tornei um garoto bom(sou honesto, bem humorado e nunca brigo,). Mas não costumo receber gorjetas. Tudo bem.
Minha próxima chamada era parar pegar duas garotas na porta de um hotel de luxo na Atlântica. Eu já conhecia aquele lugar. Era também local de encontros de altos executivos e milionários com modelos e atrizes famosas. As duas jovens , ambas louras e usando vestidos de malha pretos, curtíssimos, deixando à mostra pernas muito finas, já me esperavam na porta. Quando entraram(batendo a porta com bastante força), olhei pelo retrovisor e reconheci uma delas: Karina Picci, estrela em ascenção na TV.
“Você não é a...?”
“Sim, eu trabalho na novela das oito”, falou, como se não tivesse feito outra coisa na vida a não ser responder aquela pergunta para mim,“vamos para a Barra, por favor.”
“Minha mulher não perde um capítulo, sabe?”
“Sei.”
“Mas não é da novela que eu conheço você.”
“Não?“
“Não. Você não foi criada ali próximo à Roma?”
“Não. Nasci no Brasil. Mas minha família...”
“Estou falando da avenida Roma, ali em Bonsucesso. Mas é claro! Você é a Araciana, filha da Dona Raimunda.”
A outra mulher ouvia tudo com a boca aberta. Deviam ser colegas de trabalho. E, como eram mulheres, uma deveria querer ver a outra por baixo.
“Não. Você deve estar enganado. Eu nasci em Ipanema. E meu nome é Karina com K.”
“Ora, deixe de brincadeira! Você tinha duas avós, Araci e Ana, e esta foi a razão do seu nome. Foi uma homenagem a elas. Eu sou o André, filho do Zeca, campeão da purrinha, no botequim do...”
“Isso tudo é verdade?”, perguntou a outra.
“Não, ele está me confundindo”, disse ela com um sorriso esnobe.
Era verdade, sim. Araciana era a garota mais gostosa das redondezas e chegamos até a brincar de médico algumas vezes. Ela morava numa casa velha onde se lia na frente: Lar de Raimunda.”
“Eu sabia que você iria vencer. Nós morávamos na mesma rua. Sua casa ficava entre Paris e Londres. A minha ficava mais próxima a Nova Iorque. Nas noites de verão, costumávamos nos sentar na calçada e sonhar. Gostaríamos de conhecer um daqueles lugares. Mas você jurava que conheceria todos. Você não se lembra?”
“Já falei que o senhor deve estar me confun...”
“Eu entendo. Quer esquecer o seu passado, não é? Posso compreender. Deve ter sido duro. Ainda me lembro da sua pobre mãe catando verduras podres pelo chão, após a feira. E os meninos cantando aquela musiquinha ‘ai, ai, ai Raimunda...’”
“Não seja ridículo!”
“Tudo bem. Mas o importante é que você venceu. E eu previ isso.”
“Você previu?”, havia um sorriso cínico no rosto das duas.
“Também sou vidente. E prevejo um futuro de glórias para você.”
Aí , ela ajeitou-se no banco e aproximou o seu rosto, com interesse.
“Vamos lá. O que você está vendo para o meu futuro?”
“Bem, você crescerá na TV. Aparecerá também em vários comerciais, até mesmo promovendo obras do governo. Depois participará de alguma campanha em prol de uma causa nobre, enquanto badalará na noite. Permitirá ser fotografada em atitudes polêmicas. Depois processará a revista que publicar as fotos. Aceitará também uma proposta para fazer um nú artístico numa revista masculina. Ficará rica. Então, se casará com um cara ainda mais rico. Um outro ator. Não, um empresário. Terão logo um filho, para garantir uma boa pensão. Dará entrevistas dizendo que o amor é lindo. Mas o divórcio virá em breve. Depois, você dirá que está iniciando uma fase mais madura em sua carreira, et cetera e tal. Mas aí aparecerá Sabrina Puccini.”
“Sabrina Puccini? Quem é ela?”
“Neste momento ela é apenas uma garota ambiciosa do subúrbio. Já está fazendo um curso de modelo em uma escola barata. Mas em breve, ela sairá com os homens certos e chegará onde você está. Ela será a mulher que acabará roubando o seu papel na novela das oito. Cuidado. Ela é diabólica.”
As duas me olhavam como quem olha para o espelho após uma noite mal dormida.
“Dá para ir mais depressa, por favor?”, pediu Karina com k, irritada.
Depois peguei um mulher cheia de embrulhos e bolsas, na porta de um shopping, na
Barra. Bateu a porta com toda a sua força e pediu uma corrida até um condomínio ali
perto. Parecia excitada. Recentes estudos científicos comprovam: compras sempre excitam
pessoas mal amadas. Ou as pessoas mal amadas substituem o sexo fazendo compras.
Ou a Igreja(que condena o sexo sem a finalidade da procriação) está a serviço dos
empresários. Ou o comério não gosta de pessoas sexualmente satisfeitas.
“Foi bom pra senhora?”, perguntei.
“Sim, foi ótimo.”
“Posso imaginar. Descontos enormes, preços sedutores, promoções lascivas, liquidações
devassas.”
“Mas do que o senhor está falando??.”
Olhei para ela pelo retrovisor. Falsa loura, pele esticada, excesso de jóias. Era uma mulher sem berço. Devia ter nascido mais fodida do que eu e só porque se casou com um idiota cheio da grana, queria dar uma de gostosa no meu táxi. Eu conhecia este tipo.
“Estou refletindo sobre pessoas que susbstituem o sexo pelas compras.”
“Isto por acaso é uma cantada?”, perguntou.
“Não, eu já fui ao supermercado hoje. Estou satisfeito.”
“E foi bom para você?”, ela perguntou, sorrindo como uma menina travessa.
“Encontrei uma promoção fantástica e foi uma experiência maravilhosa!”
A mulher soltou uma gargalhada alta. Estava ficando à vontade e começava a revelar a sua vulgaridade.
“E você faz isso com freqüência?!”, perguntou.
“Sou um viciado. Minhas fantasias sexuais são os meus sonhos de consumo. Troquei as revistas pornográficas por catálogos de compras por correspondência. Costumo chegar ao orgasmo com as meninas do telemarketing.”
Quando conseguiu parar de rir, ela quis saber:
“Agora me responda: você tem alguma tara?”
“Ah, isso é uma coisa muito íntima. Não costumo falar disso com meus passageiros.”
“Pois eu tenho uma tara: produtos importados. E atinjo meu ponto G quando me dão desconto”, ela revelou.
“Bem, vou contar a minha. Às vezes sou sádico e troco as etiquetas dos produtos.”
“Você faz isso? Mas é uma coisa suja e imoral!”
“Não se preocupe. Também sou masoquista e as troco sempre por etiquetas com preços mais altos.”
A mulher se sacudiu toda numa gargalhada. Mas depois ficou triste e falou, olhando pela janela:
“Ah, mas hoje em dia fazer compras não é como antes. Todo mundo está indo às compras. As vezes, penso que o problema do país é, principalmente, sexual. Os shoppings estão sempre cheios!”
“Mas o povo também tem direito ao prazer.”
“Vocês, pobres, não estão preparados para consumir tanto. Vocês compram um carro e saem fazendo absurdos por aí; compram um rádio e o colocam no último volume; compram um telefone celular e começam a falar aos berros. Ai, o condomínio onde moramos, está cada vez pior! Cheio de cantores sertanejos, jogadores de futebol, modelos vagabundas, pagodeiros. Uma gente vulgar, cafona, barulhenta e sem classe nenhuma. Um horror!”
“O único jeito é o governo promover campanhas para que o povo possa satisfazer as suas fantasias sexuais. Aliás, qual a sua?”
“Você não acha que está querendo saber demais?”, disse a mulher.
“Tudo bem, tudo bem.”
“Tá certo. Vou contar: minha tara é dar uma palmada no bumbum de um PM na rua.”
“Não diga?”
“E qual é a sua?”
“Não, não fale na minha fantasia sexual, por favor! Ela é quase impossível de ser realizada. E fico muito angustiado quando penso nela. Ai, meu Deus! Porque você foi falar nela? Agora terei que ir a um lugar vulgar e barato, onde possa extravasar este desejo pervertido que me consome.”
“A esta hora? Você irá a uma sauna, a um bordel?”
“Pior. Irei às compras na rua da Alfândega.”
“Uau!”
Quando chegamos no condomínio, ela me deu o seu telefone e sugeriu que nos encontrássemos qualquer dia desses.
“Sinto a necessidade de trair o meu marido.”
“Ah, eu sabia! Você é mesmo uma insatisfeita sexual.”
“Não é só deste tipo de traição que estou falando”, ela disse ao soltar, “meu marido é comerciante.”
Rimos.
Depois enfrentei o pior engarrafamento da minha vida, na saída da Barra. O sol de verão já havia surgido e o calor era cruel. Mas tudo bem. Quilometros e quilometros de seres humanos parados, com ódio e com muito tempo para pensar, o que é perigoso. E eu que não me perturbo nunca, para passar o tempo, tentei adivinhar o que as pessoas nos outros carros estão pensando.
Um homem de meia-idade, com um terno caro, estava de olho na garota em um carro conversível ao seu lado. Fazia uma reflexão profunda sobre a influência do carro na imagem das pessoas, enquanto tentava descobrir por que há uma tendência de garotas em conversíveis sempre serem vistas como mulheres fatais. Aquela ao seu lado parecia um anjinho meigo e delicado. Talvez fosse até comportada na cama. Ah, como ele gostaria de tê-la como secretária para terminar suas experiências científicas.
A garota do carro conversível, usava os óculos e o penteado bem comportado de uma secretária. Parecia tímida. Sabia que o homem de meia-idade estava olhando para ela, mas, como uma boa menina, fingia não notar. Preferia pensar no quanto seria bom se seu chefe lhe desse uma cantada para poder processá-lo por assédio sexual.
Uma senhora loura e bem vestida, mais adiante, tinha um olhar tão triste, que quase me deixou deprimido. Talvez pensasse na possibilidade de sua filha não casar-se com o fulaninho, filho de sua melhor amiga. O fulaninho era um grande empresário. Era também um canalha, alcoólatra e viciado em jogo, é verdade. Mas o amor vence estas barreiras. Infelizmente, a filha gostava do ciclano, que era um jovem honesto e trabalhador, mas empregado do fulaninho.
Ah, se todos estes imbecis pudessem entender que não há saída! E que só nos resta rir de tudo isso. Tirar o suco da fruta podre, que é este mundo.
E agora este velho de terno e gravata, entra no meu táxi na Presidente Vargas. Grande, gordo e pesado, feito um saco de bosta. Nunca ninguém bateu a porta tão forte. Cheguei a sentir dor nos nervos. Mas tudo bem.
Joga-se no banco traseiro e diz arrogante:
“Vamos pra Penha!”
É o meu bairro. Onde moro com a patroa, Dagmar, e as crianças. Ontem completamos dez anos juntos. Dez anos desde que a tirei daquela caixa de supermercado, em Realengo, para ser a...bem, para ser a Sra. da Silva. Não é lá muita coisa, eu sei. Na verdade, não é nada. Mas ela não precisava me dizer aquilo ontem. Me chamar de “monte de merda.” E eu que havia comprado rosas, vinho e uma pequena lembrança em Madureira: meias-de-liga e lingerie vermelha! Mal cheguei e já fui colocando o último disco do Roberto Carlos que ela tanto gosta. Mas não adiantou. Me recebeu fria, de rolo na cabeça e chinelos, sem romantismo algum. Era muita esculhambação. Mas, tudo bem.
Por falar em “monte de merda”, Olho para o titio lá atrás. Já estamos na Francisco Bicalho e pergunto:
“Qual a rua da Penha, doutô?”
Sem tirar os olhos da janela, o velhote responde:
“Aimoré.”
É a rua onde moramos. Ah, pretinha! por que você foi fazer aquilo? E tudo por causa de uma TV, trinta e quatro polegadas, e um maldito videocassete. Ela cismou que quer os dois. Como os da vizinha. E eu disse “mas o marido dela é bicheiro e fatura por semana o dobro do que eu tiro por mês, trabalhando feito um jegue.” Aí, ela mandou “por isso não, minha irmã também tem e o marido dela é um reles jogador de futebol.” Devolvi “mas meu amor, você sabe quanto o Jurandir ganha?.” Não se conformou e lembrou do Valtinho do açougue e do Gilmar da padaria. E com a minha inabalável paciência, lembrei a ela que o primeiro tem um irmão traficante e o outro tem um caso com uma coroa rica.
Além do mais, o aluguel e as contas estão atrasados. No banco, estou no vermelho e o limite do cartão de crédito está estourado. Mas foi pior. Ela ficou puta e gritou: “Do que adianta o seu diploma, se estamos sempre fodidos? E quer saber de uma coisa? Nós não temos a TV e o vídeo, porque você não passa de um monte de merda!.” Aí, pela primeira vez, não surtiu efeito. E perdi a cabeça.
“Repita isso e eu te enfio a mão na cara.”
E não é que ela repetiu mesmo, sílaba por sílaba?
“Mon-te-de-merrrrr-da! Você não me leva pra sair e nem quer mais foder. Pelo menos, a TV e o vídeo iriam me distrair.”
Não prestou. Mandei um tapa no meio dos seus cornos. Mas a sacana não se intimidou e me acertou um murro no nariz. Caí esparramado na cama. Ela se jogou por cima de mim, me arranhando com suas unhas cor de sangue. Fiquei com tesão e a segurei nos braços. Colei o seu corpo no meu e trepamos a noite toda.
Mas hoje, pela manhã, voltou o inferno. Quer porque quer a maldita TV e o videocassete. Virou obsessão.
Ah, neguinha! Como eu gostaria de poder ficar contigo, vendo todos aqueles filmes de sacanagem na cama! Hum, já posso ver as louras de tetas abundantes, as mulatas de lábios carnudos. Lingeries, espartilhos. Ninfetas lésbicas, garotas lutando boxe na lama. REWIND. Amal an exob odnatul satorag. SLOW. Ga-ro-tas-lu-tan-do-boxe-na-la-ma. PLAY. Negras com coxas azuladas, duas ,três, quatro numa cama. Pernas para o ar, o V da vitória, frango assado, 69...ai, meu Deus! Ai, que bom! Tudo em trinta e quatro polegadas!
Por outro lado, quem sabe se com o vídeo, você não sossega mais em casa, quando eu não estiver, e pára com os seus passeios misteriosos no meio da tarde? Já estou ficando com o pé atrás. Mas, tudo bem.
Olho para o saco de bosta lá atrás. Quero puxar uma conversa, mas o nojento tem um telefone celular na mão, agora.
“Alô, Dagmar? É o Doutor Ricardo. Estou indo pra aí.”
Sinto o meu corpo tremer. Foi como um soco no estômago. Como a primeira aplicação. Aliás, pior. Entrou com dificuldade e abriu caminho, arrebentando tudo o que via pela frente.
“O babaca do seu marido está trabalhando, não é?”, falou, “ele comprou o quê? Meia-de-liga e lingerie vermelha? Ha-ha-ha-ha, mas que palhaço! Mas foi bom, você pode usar para mim. ”
Meu sangue ferve. Penso na arma que sempre trago no porta-luvas(os assaltos contra taxistas tem sido cada vez mais cosntantes).
“Sim, estou levando o dinheiro da TV e do videocassete, meu amor. Sim, o dinheiro do seu maldito aluguel também. Seu bunzunguinho não prometeu para a sua bunzunguinha? Então.”
Minha cabeça gira. Seguro com força o volante na ânsia de manter o controle. Vai entrando, entrando. Arrebentando tudo. Nada pode contê-lo. Dói e arde.
“Mas você vai fazer aquilo que prometeu pro seu buzungo, não vai?”
O cretino ainda me pede:
“Aí, ô bacana! Não dá pra ir mais rápido, não?”
É demais! Mil diabinhos brigam entre si ao meu redor. Uns me lembram da arma. Outros vem me lembrar do videocassete. Ai, e as louras de tetas fartas, mulatas de lábios carnudos, as garotas lutando boxe? E o aluguel? E o supermercado, a escola das crianças, o plano de saúde, a luz, o telefone, o gás...?
Não, isso já é demais. Todo homem tem o seu limite. Quase perco a direção. Dou uma fechada num carro de luxo. O motorista me chama de filho da puta. Concordo. Para manter a calma, penso em alguma coisa boa. Nas louras peitudas, nas crioulas com coxas azuladas, garotas na lama. Trinta e quatro polegadas. O pior havia passado. Ele já havia encontrado o seu caminho até a corrente sanguínea, onde se desfizera. Agora era só esperar pelo efeito. Mas será que viria a tempo?
O sangue me sobe. A imagem da minha Dagmar, usando meia-de-liga e lingerie, nos braços deste porco, me deixa louco. O ódio vai se transformando em um monstro dentro de mim. Não vai dar tempo, não vai dar tempo!
Trago a minha mente o aluguel pago, o colégio das crianças em dia, o cartão de crédito. Mas nada consegue conter o meu ódio.
Não vai funcionar, não vai funcionar.
Chega! Há momentos na vida de um homem em que é preciso tomar uma decisão, por mais difícil que seja. Por isso, decido fazer o que deve ser feito...viro para trás...viro para trás...e digo:
“Aceita um cigarrinho, doutô?”
Funcionou. É é tão relaxante!