Quinta-feira, Setembro 29, 2005

DOIS MESES DE BALA

“Estudou piano e bordado. Foi debutante e normalista.
Sempre frágil, meiga e triste.
Casou virgem com um rapaz de família e não foram felizes para sempre.
Amaram-se, mas continuou donzela.
Frágil, meiga e triste.
Só quando o estuprador se pôs em ação naquele beco escuro,
soltou a sua primeira gargalhada.”
Apenas um dos meus microcontos que está no meu livro Crimes e Perversões
DICA DE BLOG
Não é nenhum exagero dizer que o New York On Time, do jornalista Jorge Pontual é um dos melhores blogs atualmente na web. Muita informação interessante, lindas fotos, ótimas músicas, matérias inteligentes e muito bom gosto. Consulte o link ao lado.
E há também pérolas como esta poesia de Baudelaire...

Recolhimento
Sossega, minha Dor, não desesperes não.
Reclamavas da luz; já se vai;
finda o dia.
A cidade mergulha na escuridão que alguns atormenta
e outros alivia.
Enquanto dos mortais a reles multidão,
escrava do Prazer, carrasco sem perdão,
vai colhendo remorsos na mísera orgia,
aceita, minha Dor,
esta mão que te guia
pra longe deles.
Vê como os Anos finados nos olham lá do céu com seus velhos brocados;
no fundo d'água,
a Saudade sorridente;
o sol mortiço sob a ponte se deitar;
e, como mortalha que avança do Oriente,
ouve, cara, ouve a doce Noite chegar.

Charles Baudelaire

O milagre do amor é fechar o mundo em torno de um ser que nos encanta, o horror do amor é fechar o mundo em torno de um ser que nos acorrenta.”
O escritor e filósofo francês Pascal Bruckner. Também retirado do NY on Time, do Pontual, que em entrevistou o próprio Bruckner para a Globo News


“...Como os brasileiros, só os brasileiros. Para o bem e para o mal. Do mesmo modo que somos receptivos, quando os brasileiros têm que ser ruim, não há povo pior...”

Fábio Silveira Cardoso falando sobre sua viagem a Londres, em entrevista a Ricardo Senise, via podcast
Porque alguém tem que dizer umas verdades de vez em quando
"Se dirigir, não beba; se for beber, me chame"
Não li em nenhum traseira de caminhão e sim na página do roteirista Daniel Lion, no Orkut

Terça-feira, Setembro 27, 2005

O TAXISTA E A PUTINHA


“- Eu posso tirar você deste lugar, eu posso mudar sua vida, menina.
- E eu posso chupar o seu pau por apenas dez dólares.”

Diálogo entre o taxista e a vagaba di menor, em Taxi Driver.





HÁ QUASE TRINTA ANOS, UM TAXISTA E UMA PUTA DI MENOR ERAM NOTÍCIA

Mas não nas páginas policiais e sim, nos segundos cadernos do mundo inteiro. Taxi Driver, a película que levou Martin Scorcese até o andar dos maiores diretores do cinema americano, acaba de ser lançada em DVD e é uma ótima dica – não vou dizer obrigatória para não ser chato – tanto para os amantes do bom cinema, quanto para quem gosta de curiosidades.
Para se entender melhor Taxi Driver, é preciso entender os EUA naquele meio da década de 70. Bem, Nixon havia renunciado em agosto de 1974, fugindo de um possível processo de impeachment. O vice Gerald Ford assumiu e encarou uma das piores crises econômicas da história americana, com um cenário de greves, inflação crescente e o maior nível de desemprego desde a Grande Depressão. Ford, sem carisma e indeciso, passava a impressão de estar perdido, enquanto a nação esperava por medidas drásticas. A vergonhosa retirada das tropas e funcionários da embaixada americana no Vietnã, após a derrota na guerra, que completava dez anos, foi a gota d´água para que a auto-estima do país descesse tanto, que as minhocas olhavam para baixo e debochavam dela.
Nova Iorque foi a cidade que mais sofreu com a crise. Acostumada a sempre receber generosas ajudas federais, agora, a metrópole tinha que se virar sozinha, como um adolescente que foge do lar confortável e se vê na rua da amargura, esquina com a avenida do desespero. No verão de 1975, quando Taxi Driver começou a ser rodado, a cidade estava à beira da falência. Sem o socorro federal, os novaiorquinos passaram a ter que conviver com ruas cheias de lixo, a iluminação deficiente, sem-tetos e ratos por todos os lados, prostituição, crimes, tráfico de drogas e delinqüência. Nos guetos e bairros pobres, os moradores incendiavam seus imóveis para receber o seguro, já que se conseguissem vendê-los, receberiam bem menos.
E é nesse cenário de degradação e decadência, que Travis Bickle (Robert De Niro na melhor forma), um veterano do Vietnã de 26 anos, circula com o seu táxi. Travis é um bom sujeito, honesto, pacato e cheio de boas intenções. Parece um E.T. num mundo cheio de corrupção, violência, miséria e imoralidade. Seria apenas mais um solitário da metrópole, se, após ser desprezado pela bela Betsy (Cybil Shepard) e ter fracassado em salvar a prostituta adolescente Íris (Jodie Forster, na época com apenas 12 anos), não tivesse surtado, achando que poderia acabar sozinho com toda a podridão que via a sua volta.
Para contar esta história de solidão e violência, Scorcese optou por criar um clima noir, em que a música de Bernar Herman cai como uma luva na Nova Iorque suja, violenta e sinistra daquela época. O próprio Scorcese faz uma ponta no filme, como o marido traído que quer matar a esposa.
Taxi Driver é o elo numa corrente do cinema americano que havia começado com o revolucionário Perdidos na Noite (Midnight Cowboy), de John Schlesinger, em 1969, quando Hollywood ousou a olhar para os excluídos, lhes dando papeis de destaque. Isso já havia sido feito antes, mas não com visão tão humanista e carinhosa. Antes, filmes como O Homem do Braço de Ouro, em que Frank Sinatra interpreta um músico viciado em heroína, por exemplo, mostrava apenas uma visão do tipo “Vejam o que acontece no submundo, o mundo ao qual, graças a Deus, não pertencemos”. Mas nos incendiários anos 60, uma nova geração de diretores – como Scorcese – deixavam as universidades com uma visão social e política incendiária. E estavam decididos a fazer filmes que pareciam dizer: “Enquanto você está aí confortável nesta poltrona de cinema, seu babaca. Veja como nossos irmãozinhos excluídos estão vivendo.” Durante a primeira parte da década de 70, esta preocupação com os que viviam a margem da sociedade foi uma constante. Filmes como Operação França, Superfly, Um Dia de Cão, Nashville e O Estranho no Ninho, são um exemplo. Mas nenhum foi tão contundente quanto este Motorista de Táxi. Enquanto dirige o seu amarelinho, o olhar moralista e atônito de Travis parece procurar documentar nervosamente a decadência de uma Nova Iorque, que felizmente, não existe mais. É com se o espectador fosse o passageiro e o motorista dissesse: “Olha lá aquele viciado! Veja quantas prostitutas! Saca só os moleques tacando pedras no meu carro. Você viu aqueles coroas bêbados brigando no meio da rua, à luz do dia?” Sim, a cidade é mais uma personagem do filme.
Asssiti a Táxi Driver no velho cinema São Luiz, no Largo do Machado, assim que estreou, em 1976. Fui com a minha irmã e o meu futuro cunhado. Depois, fomos discutir sobre o filme no velho Lamas, que dois anos antes havia comemorado um centenário e que seria fechado pouco depois, devido às obras do metrô. Muita gente fez o mesmo. Assim como acontecia nos EUA, no Brasil, grande parte do público foi assiti-lo por causa do alvoroço que a imprensa fez em torno das cenas de violência – que são ridículas perto das mostradas hoje. Mas Taxi Driver é muito mais do que apenas um filme violento. Chega a ser quase um documentário de uma época, tão realistas são suas cenas, o que não seria possível sem o excelente desempenho do diretor, dos atores e de toda equipe.
Aliás, toda a ficha técnica e mais curiosidades, prêmios e outras informações, podem ser encontradas no site http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/taxi-driver/taxi-driver.htm. Uma das curiosidades é que Robert De Niro trabalhou doze horas, durante um mês para compor o seu personagem. Vale a pena dar uma olhada.


Iris e Travis, quem diria? Terminaram em DVD

“É triste ter o desejo como inimigo.”
Virgínia Brandão, a personagem atormentada do meu romance policial A Arte de Odiar, que aliás, já está no prelo. Aguardem!


UM BANQUINHO E UM CONTO NA MÃO. DE NOVO

Antes tarde do que nunca. Aqui estão os registros de mais um Sarau de Santa, no último dia 10, na livraria Largo das Letras. Como já falei, um antro de gente inteligente; um covil de pessoas interessantes.



Diana de Hollanda dando a cara a tapa,...




...assim como Flávio Izhaki,...




...Henrique Rodrigues,...




...Guilherme Tolomei,...



...David Cohen, e...



...eu.



E tudo terminou naturalmente na mesa do Simplesmente.














Quinta-feira, Setembro 22, 2005

UM POST SANGUE BOM



E aí vai mais um conto da antiga. Este foi escrito em 1993, na época em que Orkut podia ser nome de um grupo da máfia russa; Blog, poderia ser nome de guloseima; MP3 podia ser o nome de algum trio que cantava MPB,; MSN, poderia ser Movimento dos Sem Nádegas; e se você pedisse a alguém, “Pode me adicionar?”, certamente teria problemas.



VAMPIROS



Pessoas sensíveis não devem ler este conto.
É recomendável sangue frio.
Aliás, é recomendável ter sangue.



09 de dezembro

“Marcou às nove e já se passaram trinta minutos. Mas ela virá. E com certeza espera encontrar-me de braços abertos, morrendo de paixão e pronto para ouvir novas mentiras.”
“Mas o que ela irá encontrar aqui é um grande canalha. Sim, agora sou um canalha. Se iludir é uma arte, faço bem o meu trabalho. Engano, uso, traio e firo, com perfeição. Sou canalha no Leblon, canalha na Gávea, canalha na Barra. Por onde passo, posso ouvi-las gritar: ‘Lá vai o canalha!’. Mas elas se esquecem de que, por trás de um grande canalha, há quase sempre uma mulher ainda pior.”
“Na verdade, agora sou mesmo um vampiro. Aliás, não vejo muita diferença entre um bom canalha e um vampiro. Ambos vivem de retirar o que há de melhor dos outros.
“Não uso uma capa capa longa, não tenho castelo, nem fujo da luz do dia, como você deve ter visto nos filmes. Mas sou muito mais cruel. Ando à espreita, procurando uma vítima. De preferência, alguém bondoso e ingênuo. Da minha sedução, poucos escapam. Depois retiro tudo de bom que a infeliz pode me dar, até torná-la seca, fria e cheia de ódio. Um novo vampiro, que irá precisar fazer novas vítimas. Criando assim, uma corrente de dor, rancor e revolta.
“E não pense que comigo foi diferente. Não! Me pague uma bebida e te conto da prova de fogo por que tive que passar até chegar onde estou.”
“Tudo começou na noite em que a conheci, aqui neste mesmo bar na Ataulfo de Paiva. Eu era, então, um sujeito sensível, romântico e que acreditava na humanidade. ‘Colhemos o que plantamos’, dizia eu para justificar o meu ar de bom moço, o tipo que transmitia segurança às moças-de-família em elevadores no meio da noite.”
“Na época, eu atravessava aquilo que os astrólogos chamam de ‘inferno astral’. Estava deprimido, sozinho e cheio de problemas. Lembro-me dela ter dito que eu deveria agradecer aos deuses por ainda poder me dar o luxo de ficar triste. Mas eu disse ‘não, os deuses são legais e não gostam de me ver assim’. Hoje sei que ela sabia muito bem o que estava dizendo.”
“Seja como for, passamos a viver juntos e ela me fez voar alto, alto demais! Até onde nunca pensei que pudesse chegar. Se olhasse para baixo, teria visto a realidade já bem distante. Não, os astrólogos estavam completamente enganados. Se aquilo era o inferno, eu nem precisava mais conhecer o paraíso.
“Então, veio aquela manhã em que ela se foi e deixou um bilhete dizendo que precisava de mudanças, que estava sentindo-se sufocada. Pediu-me um tempo. Pediu também para eu seguir a minha vida, como se na altura a que havia chegado, ainda pudesse viver sem ela. Partiu para bem longe. E não foi sozinha. Enquanto nós desabávamos numa cama de pregos. Digo no plural, por que outros idiotas românticos, como eu, tiveram o coração perfurado pelos caninos da vampira.
“Seguiram-se, então, noites intermináveis com amigos(todos abandonados por ela, como eu). Saíamos juntos mas, no fundo, estávamos sozinhos. Começávamos a noite bebendo em uma mesa de bar, vomitando verdades e mentiras, tentando ignorar o lento naufrágio em nossa miséria afetiva. Quando a água chegava às narinas, era cada um por si. E, invariavelmente, eu fugia para algum lugar escuro, enfumaçado e sujo, mas onde o contato humano era sempre mais barato. Em noites mais difíceis, cheguei a procurar amparo nas esquinas do sórdido com o ordinário.
“E foi numa dessas frias madrugadas, que me deitei, e amanheci vampiro.
“Daí então, de vítima em vítima, fui reforçando o meu ego e me aperfeiçoando na arte de fazer sofrer. Cada lágrima derramada, cada coração partido, me ajudava a cicatrizar a imensa ferida dentro de mim. E dei um grande passo para a cura, ao conhecer uma ruiva inocente, rica e generosa, que me lembrava aquelas donzelas da Idade Média salvas por cavaleiros em armaduras de ferro. Falou em casamento, a pobrezinha. Tentei alertá-la de que os seus sonhos estavam sendo construídos em terreno pantanoso. Mas já era tarde demais. Casamos.
“Aliás, são nove e quarenta e é justamente ela que vejo entrar no bar, agora. Nossa, como está acabada! Estamos casados há quase um ano e só vejo decepção em seus olhos. Coitada, deve ter doído bastante descobrir que dentro da armadura de ferro, estava eu, o canalha, que beija seu rosto, enquanto esconde no bolso do termo o telefone dado, pouco antes, por outra.
“Ah, pobre princesa! Antes, ainda seria capaz de sentir pena de você. Mas fui saqueado e não restou nada aqui dentro. Meus sentimentos foram todos roubados por ela, a vampira. A mulher que tem a necessidade de distribuir feridas, de sugar o que há de bom nas pessoas. Veja só o belo trabalho que fez comigo. De um cara romântico e sonhador, me transformou no pior dos cafajestes, num vampiro dos mais sanguinários.
“Há um mês me escreveu. Disse estar passando por um ‘inferno astral’. Jurou estar sentindo muito a minha falta, que eu havia sido o melhor da sua vida e que poderíamos tentar de novo. Então, como um bom canalha respondi: ‘Venha. Afinal, todo esse tempo tenho esperado por você. Sim, vamos tentar de novo, meu amor!’.
“Me ligou dias atrás. Ficamos horas percorrendo um rio de mentiras que acabou desaguando aqui: no mesmo bar na Ataulfo de Paiva, onde tudo começou. E não posso mais esperar para ver a surpresa colorir o seu rosto, o que me trará um prazer maior do que todas as minhas vampirices juntas. ‘Não diga, eu não falei que estava casado? Oh, me desculpe!’.
“Ah, ser vampiro é uma diversão! E vejo também algo de espiritual nisso. Sim, nós já conseguimos transcender esse mundinho medíocre dos simples mortais, limitado por vergonhas, dignidades, pudores, éticas. Nosso único limite talvez seja alguém que consiga ser mais cruel do que nós.
“E é engraçado pensar nisso agora, no momento em que a vejo entrar no bar, de mãos dadas com um homem alto, bonito e com a exuberância típica dos bem nascidos. Tenho que admitir que ainda está ótima, com seus cabelos louros esvoaçantes. Com um sorriso cínico, aproxima-se de nossa mesa e o apresenta: ‘Este é Gustavo, meu marido’. Em seguida, colocando olhos frios sobre mim, diz para o companheiro: ‘Ah, Gustavo! Este é o amigo de que falei e com quem me diverti muito’.
“Sim, talvez tenha sido mesmo apenas uma grande brincadeira. Tudo foi e, pelo jeito, continuará sendo divertido. Pois, certamente, manteremos um caso secreto e jogaremos um jogo sujo e sórdido, no qual vencerá quem conseguir sobreviver mais tempo às nossas maldades, mentiras e traições. Perderá quem ficar magoado ou demonstrar qualquer tipo de sentimento pelo o outro.

22 de março

“Não deu outra. Estamos juntos, embora ainda haja os nossos casamentos. Aliás, com a nossa mente doentia, não acharíamos graça se ninguém estivesse sendo traído, se não houvesse mentiras e sofrimento. Nosso jogo está cada vez mais emocionante. Ela é uma vagabunda. Mas também não fico atrás. O placar está em cento e onze a cento e doze para mim.
“Estou lhe esperando há duas horas no bar onde nos conhecemos, no Leblon. Chove. Quando já estou indo embora, pensando em uma boa desculpa para dar a minha mulher, ela chega. Está acompanhada de um tipo quarentão, usando blazer e jeans. Aspecto de intelectual. Me recebe calorosa, como se há muito não nos víssemos. Era uma encenação para enganar o cara.
“Sentamos os três. Está eufórica. O álcool a faz falar e rir alto. Começam a discutir as contribuições de Platão para a filosofia moderna e as diferenças entre Tenessee Williams e Nelson Rodrigues. ‘É como comparar vinho e cerveja’, ela diz. ‘Mas eles nos entorpecem com os venenos da alma humana’, diz o outro, já meio bêbado. Estou calado. Ela sabe que não possuo o mesmo nível intelectual que eles e fez isso para me irritar. Cento e doze a cento e doze. Mas enquanto falam, os pés dela deslizam pela minha coxa.
“Lá pelas tantas, ela diz que quer ir embora. Deixamos o cara pagar a conta e quando ele foi ao banheiro, saímos rapidamente. Entramos no meu carro e vamos para um motel na Barra.
“Com certeza, o idiota ligará amanhã, furioso, exigindo uma explicação. E com certeza, terá que agüentá-la fazendo-se de vítima: ‘Nossa, mas por que você está sendo tão grosso comigo? Foi apenas uma brincadeira. Você leva tudo tão a sério!’.

09 de abril

“Liga no meio do jantar para dizer que seu marido havia saído de casa, após mais uma violenta briga. Coitado. Ele não tem o mesmo sangue podre que corre em nossas veias. Acho até que suportou demais.
“Minha mulher está no último mês de uma gravidez complicada. Mas ela falou que precisava se desabafar e marcamos um encontro próximo ao seu prédio, no Leme. Espero por uma hora e não aparece. Quando estou voltando para a casa, a vejo sentada em um bar, no Posto Seis, com um rapaz de aparência humilde.
“Absorvo o golpe sem reclamar. São as regras do nosso jogo doentio. Me aproximo sorrindo de sua mesa, embora esteja com vontade de esbofeteá-la. Ela me recebe com o seu sorriso falso. Me convida a sentar. Aceito. Falo do nosso encontro e ela me fere com o seu cinismo maquiavélico. ‘Nós havíamos marcado um encontro? Não me lembro!’, falou, ‘Eu saí para dar uma volta e conheci o Paulo Henrique, ele não é uma gracinha?’. Levo tudo na brincadeira. Cento e treze a cento e doze. Ela está na frente. O rapaz não deve ter mais do que vinte anos. Usa jeans e camiseta e tem uma virilidade forçada, típica dos garotos-de-programa. Começamos a conversar. E a beber. De repente, pergunto em inglês, o que ela havia visto naquele imbecil. Ela me responde, em inglês, que seu sonho de consumo sempre foi um dia alugar um homem. Comento, ainda em inglês, que se esperasse até um pouco mais tarde, poderia tê-lo conseguido mais barato na grande liquidação de carne humana que acontece lá pelas três da madrugada. Ela solta uma gargalhada e me pergunta onde eu havia visto vampiros pagar por um miché. Entendo. Ela já devia ter arquitetado um plano para deixar o garoto na mão. Seria apenas mais uma vítima. O rapaz não compreende o que falamos e nos olha como se acompanhasse uma partida de tênis. Após meia hora de conversa, em inglês, o pobre do garoto se levanta e pergunta, furioso, se ela não vai fazer o programa. A vampira se levanta e começa a gritar, em inglês, que o rapaz quer nos assaltar. Seguranças do bar o colocam para fora. O coitado perdeu tempo e deixou de faturar, mas isso não nos sensibiliza. Humilhar, ferir e fazer sofrer é o que nos dá vida.
Gostaria de ir para um motel, mas ela está tão bêbada, que tenho que levá-la em casa no seu carro. Levo a vampira nos braços até a sua cama. Antes de adormecer, ela me diz:
‘Obrigada por tudo. Me diverti muito’.
11 de abril

“Me liga de novo e marcamos um encontro. Eu já havia combinado de sair com uma secretária recém contratada pela a agência de publicidade, onde trabalho. Como um perfeito canalha, acabo levando a moça ao nosso encontro no bar combinado, em Ipanema. Obedecendo às regras do jogo, ela absorve o golpe ao nos ver entrar e nos recebe sorrindo. Cento eTreze a cento e treze. Pedimos uns drinques e começamos a conversar. Inicialmente os três. Depois esqueço completamente a secretária. Só me dou conta, quando a garota levanta-se furiosa, dizendo que vai embora. A vampira já está bêbada e diz que poderíamos ir os três para um motel. A moça sai sem se despedir.
“Horas depois, estamos em sua cama e o telefone toca. É o marido dela. Quer pedir desculpas e tentar uma volta. Ele pergunta se ela está acompanhada. A ordinária diz que sim e que não quer ser incomodada. Em seguida, bate o fone.
“No dia seguinte, sou surpreendido no café da manhã por ela. O imbecil do seu marido havia estourado os tímpanos com um tiro na noite anterior, após se falarem pelo telefone.
Fico surpreso com a notícia. Mas nada sinto. Nem pena, nem sentimento de culpa, nada. Meu amor por ela é o único sentimento a sobreviver em mim.
19 de maio

“Eu não sabia, mas a secretária com quem havia saído, é amante de um dos diretores da agência, e nesta sexta-feira, sou despedido. Aliás, o fato foi apenas a gota d’água. Meus atrasos, minhas faltas e o meu baixo rendimento, desde que conheci a vampira, já vinham colocando minha cabeça na guilhotina.
“Saio da firma e tomo um porre num botequim de luxo na Farme de Amoedo. Há um bando de canalhas e vagabundos da classe média enchendo a cara no meio da tarde. Me confraternizo com eles.
“Ao cair da noite, vou procurá-la. Não oferece soluções para os meus problemas. Me oferece, sim, cocaína para me animar e fazemos amor como dois loucos.
“Volto para casa, bêbado, no início da madrugada e sou recebido pelo nordestino da portaria. Histérico, me conta que a minha mulher havia sido levada por vizinhos a uma maternidade, em Botafogo.
“Lá, encontro os meus sogros no corredor. Me olham com cara feia. Meu cunhado, campeão de jiu-jitsu, me derruba com um murro. Enquanto vou perdendo os sentidos, vou ouvindo coisas como ‘sua mulher perde a criança, quase morre no parto e você ainda me chega neste estado, seu cafajeste?’(meu sogro), ‘Eu tanto avisei a minha filha para não se envolver com este tipo de gente’(minha sogra).
“Apaguei.
19 de junho

“Estou separado da minha mulher e vivendo com a vampira. O imbecil do seu marido lhe deixou um apartamento, um carro, ações e uma gorda pensão. O suficiente para lhe garantir uma vida de muito conforto e maldades sofisticadas e caras.
“Temos testado nossos limites das maneiras mais sujas. E tenho medo de como isso tudo irá acabar.
“Comecei a pensar nisso no dia do meu aniversário (9 de junho), quando havíamos combinado um jantar tranquüilo a sós, em casa. Ela falou que preferia ir a um motel. Escolhemos um luxuoso, na Barra. No caminho, ela revelou que havia encomendado um presente para mim. Durante o jantar à luz de velas, ela estava maravilhosa. Tinha a voz doce como se tomasse o cuidado de não provocar algum abalo naquele momento tão suave. O brilho nos seus olhos refletiam a minha ilusão, de que naquela noite a teria nos meus braços, como na primeira vez em que ela havia sido minha. Pensei até que este era o tal presente. Mas tudo desmoronou ao vê-la abriu a porta para que a puta, loura e de ar cansado, entrasse. Usava um vestido muito curto, apesar do frio que fazia, e sorria um sorriso morto. A vampira me apresentou como ‘o aniversariante mais divertido do mundo’. Mesmo com o coração estraçalhado, também sorri e cheguei a abrir uma champanhe para comemorarmos.
“Completamente enlouquecidos, fizemos sexo até o meio da madrugada. Senti nojo da vagabunda, na mesma proporção que odiava a vampira. Sentia vontade de cortar o seu pescoço, mas consegui esconder.
“Lá pelas quatro, ela ainda sentiu vontade de ir dançar. Pegamos o carro e saimos em direção ao Recreio. A droga havia nos deixado tão altos, que demorou para percebermos que já estávamos saindo da cidade. Paramos numa estrada escura e deserta, onde não havia mais prédios, nem casas, nem gente. Só mata e silêncio. A vampira colocou música e sugeriu que dançássemos ali mesmo. Mas assim que a puta saiu, ela deu a partida no carro e arrancou bem devagar. Ainda pegou a bolsa da mulher e começou a jogar pela janela, o dinheiro com que havia pago a noitada. As notas dançavam no ar. Senti pena da vagabunda, que foi ficando para trás, gritando desesperada, enquanto tentava pegar o dinheiro que lhe asseguraria a comida no dia seguinte. Olhei para a vampira, escondendo o meu assombro por trás de uma gargalhada falsa. Encontrei em seu rosto algo terrível. Ela estava mesmo feliz por deixar aquela pobre mulher em um fim de mundo, no meio da madrugada.
“Aliás, uma coisa estranha tem ocorrido entre nós. Para extravasar a raiva provocada pelas nossas maldades recíprocas, temos cometido atos de vandalismo ou de crueldade contra inocentes.
“Noites atrás, ela me apresentou a uma amiga em um coquetel. Acabei ficando com a garota. A vampira suportou o golpe direitinho. Chegou a emprestar o carro para irmos para um motel. Mas no dia seguinte, ela colocou um anúncio no jornal oferecendo um emprego de doméstica, com um salário bem acima do mercado. Quase uma centena de mulheres de todos os tipos apareceram para serem entrevistadas. Algumas tinham nível superior. A maioria deixou um telefone para recado. E foi através dele que a vampira começou a executar sua perversidade. Escolhia as que moravam mais longe.
‘Mas você tem que chegar aqui dentro de uma hora. Se não, contratarei outra.’, dizia.
‘Não sei se vai dar pra chegar, senhora. De onde moro são duas horas até o...’
‘Olha, daqui uns dias estarei indo para a Europa e preciso de alguém para me acompanhar. Você não quer ir para a Europa?’
“As coitadas vinham desesperadas. Algumas chegaram a gastar seus últimos trocados com táxi. E todas eram recebidas com a mesma notícia:
‘Me desculpe, mas a vaga acabou de ser preenchida. Você demorou demais.’
Era tudo mentira.
“Na noite em que abandonamos a prostituta no Recreio, eu estava furioso por ela ter mais uma vez me iludido. Então, já com o dia amanhecendo, deixei-a em casa e fui até a Central do Brasil. Parei o carro junto a um ponto de ônibus cheio de trabalhadores humildes. Escolhi o mais feio, magro e mal vestido. Pedi uma iformação. Quando o infeliz se abaixou, apliquei um jato de colorjet na sua cara. O coitado soltou um grito, enquanto eu arrancava em alta velocidade. Eu havia tomado o cuidado de tirar a placa do carro. Bem que pensei na dor que o sujeito deve ter sentido, quando a tinta vermelha entrou nos seus olhos. Havia vindo lá de longe e iria perder um dia de trabalho. Talvez perdesse a visão. Era mais alguém com ódio na cidade e que, em breve, passaria esse ódio para outro. Mas o importante foi que voltei para casa me sentindo ótimo. Fiz alguma ginástica e amei a vampira como nunca.
“E assim temos vivido. Destruindo sonhos, estraçalhando inocências, distribuindo a dor. Espalhando a nossa maldição de vampiros. Tornar o mundo pior, nos diverte.
“Hoje é o aniversário dela. Chego tarde, após passar o dia todo procurando emprego, e encontro a casa cheia. Ela está dando uma festa. Atores, modelos, estilistas, artistas plásticos, músicos, esotéricos, videomakers. Gente estranha usando roupas e penteados esquisitos. Música alta, muita bebida e drogas. Em um dado momento, a surpreendo beijando uma loura belíssima no sofá da sala.
‘Oi, este é o amigo do qual falei. Nós temos nos divertido muito’, diz ela ao me apresentar a sua amiga lésbica.
“Cento e trinta e nove a cento e trinta e oito. Ela leva vantagem. Quase enlouqueço de ódio. Saio sem que ninguém me veja. Circulo sem rumo pela cidade arrebentando alguns orelhões, queimando árvores, pichando muros e depredando monumentos públicos.
“Volto para a festa sentindo-me mais calmo e resolvo dar o troco. Fico com uma garota magricela chamada...chamada...como é mesmo o seu nome? Ah, Nina. Apresento à tal Nina a vampira.
“Essa aqui é a tal amiga da qual falei, ela me sustenta e eu a amo por isso”, digo.
“Cento e trinta e nove a cento e trinta e nove. A vampira apenas solta a sua gargalhada, mas percebo que não gosta da brincadeira. Mesmo assim, não se entrega. Quando a festa acaba, ela leva sua amiga loura em casa. O seu fiel doberman, Rex, vai com ela. Na volta, encontra um miserável sem pernas, desses que pedem dinheiro nos ônibus, se arrastando pela calçada de uma rua deserta, no Leblon. Chama o homem e lhe dá uma embalagem cheia de pernil e salada, que havia sobrado da festa. O coitado agradece humildemente. Depois, vai para um canto, sob uma marquise. A vampira, então, solta o cão. O Rex adora pernil e salada. Ela dá a partida no carro e foi até um bar próximo. Pediu um chope. Quando terminou, voltou ao local, onde havia deixado o cão, para pegá-lo. Encontra-o, sentado ao lado de um monte de carne ensanguentada. Ele é tão obediente!
“Ao chegar em casa, limpou o sangue do pêlo do cão e lhe deu um suculento prato de pernil e salada, como prêmio. Colocou uma música na vitrola e dança sozinha, enquanto bebe uma taça de vinho. A vida voltou a valer a pena de novo.
Mas ao entrar no quarto, me encontra na nossa cama com a...qual é mesmo o seu nome? Ah, Nina! Ela segue fiel às regras do jogo. Pede desculpas e volta para a rua, sorrindo, para nos deixar à vontade. Vai a Copacabana e põe fogo em um mendigo, sob uma marquise, na Santa Clara. Volta para casa assobiando New York, New York. Dorme no sofá da sala. Nos recebe sorrindo na mesa do café. Chega ao cúmulo de nos preparar suco de laranja e croissants. Cento e trinta e nove a cento e quarenta. Estou na frente.
“Assim têm sido os nossos dias. Um fere e o outro finge sentir cócegas. A vampira costuma abandonar as suas vítimas, quando tem a certeza de ter sugado o sangue bom de dentro delas. O seu trabalho já terminou comigo e se ainda não me dispensou, é porque sente algo por mim, eu penso.
19 de julho

“É o pior dia da minha vida. Estou deprimido, sem dinheiro, sem emprego e morando de favor na casa de uma vampira.
“Havíamos combinado de almoçar juntos. Volto para casa, ansioso. Cheguei até a comprar uma garrafa de vodka importada. Mas, na secretária-eletrônica, encontro um recado seu dizendo ter ido com sua amiga lésbica a um restaurante de frutos-do-mar, na Pedra de Guaratiba. Cento e quarenta a cento e quarenta. Empatamos de novo. Furioso, pego o telefone e ligo para várias pizzarias e forneço endereços errados. Também passo trotes e ligo para algumas embaixadas e prédios públicos para dar alarmes falsos sobre bombas. Só então fico frio. Ligo a TV e começo a esvaziar uma garrafa de vodka.
“Acabo dormindo. No início da noite, sou acordado pelo telefone. Atendo, meio tonto, e um cara me fala que ela havia acabado de dar entrada no Hospital Miguel Couto...
“Nem deixo ele terminar. Vou para lá o mais rápido que posso. Na portaria me informam que ela havia sofrido um terrível acidente numa das curvas da Niemayer. O carro importado, havia se reduzido a um monte de ferro retorcido.
“Quando entro na enfermaria e a vejo morrendo, algo começa a se revirar dentro de mim. Sobe pelo meu corpo e atinge o meu cérebro e o meu coração feito um raio. Em questão de segundos, percebo o quanto fui estúpido por ter perdido tanto tempo participando daquele jogo sujo e louco. Nada mais importa agora. Me ajoelho ao lado do leito e, segurando a sua mão fria, começo a dizer com todas as minhas forças:
‘Eu te amo! Não morra, meu amor! Eu te amo!’.
“Doentes, médicos e enfermeiros olham para mim comovidos.
‘Não sei viver sem você! Não morra, não morra! Eu te amo!’
“Ela coloca um olhar brilhante sobre mim. Parece feliz após ouvir a minha declaração de amor. Tenho uma certa impressão de que aguardava ansiosa por este momento. E com algum esforço, consegue sussurrar:
‘Obrigada por tudo, Hugo. Eu me diverti muito. Obrigada Hugo, obri...ga...da, Hugo, obrig...’
“Morre. O sorriso cínico, que tanto conheço, está congelado em seu rosto. Os olhos, ainda abertos, estão frios.
“Todos choram na enfermaria, inclusive um velhinho todo enfaixado, jogado num canto.
“Largo a mão da vampira, enquanto um ódio imenso me domina. A verdade, dura e cruel, me estraçalha.
‘Lamento muito, Sr. Hugo, fizemos o possível’, me diz o médico me confortando com um abraço.
‘Não quer fechar os olhos dela?’, me pergunta uma enfermeira que ainda chora.
“Olho para todos com uma expressão terrível. Em seguida, volto a encará-la. Aí, então, me lanço sobre o corpo da vampira com uma fúria nunca experimentada antes.
‘Vagabunda!’, grito.
“Começo a esbofetear e a socar a sua cara toda arrebentada e ensangüentada.
Médicos e enfermeiros tentam me conter, em vão. A fúria duplica a minha
força.
‘Vagabunda! Vampira desgraçada!
“Vem mais gente para tentar me segurar. Mas não adianta. Enquanto bato, ouço a
sua voz em meus ouvidos:
‘Obrigada, Hugo. Foi divertido, Hugo’.
‘Vagabunda!!!!’
“Alguém chama os seguranças e, logo depois, três nordestinos fortes me seguram e
começam a me arrastar para fora da sala.
‘Obrigada por tudo, Hugo. Obrigada, Hugo’.
‘Meu nome é Fernando! Meu nome é Fernando!’, grito feito um louco.
“Cento e quarenta e um a cento e quarenta. Ela venceu. Os guardas me atiram na calçada como um saco de lixo.
‘Meu nome é Fernando!!!’.
Os olhares de todos me julgam ‘sujo’, me condenam ‘monstro’, me acusam ‘canalha’.
“Aqui, atirado ao chão, não me sinto mesmo nada mais do que lixo. Gostaria de
morrer, mas vampiros não se matam. E tenho saudades dos tempos em que eu, pelo menos,
ainda conseguia chorar.
“Me levanto e com dificuldade me arrasto até o meu carro, estacionado perto dali.
‘Obrigada por tudo, Hugo’. O que me mata é a certeza de que nada poderá amenizar este ódio monstruoso dentro de mim.
Em frente ao hospital há um sinal. E está fechado. O velinho todo enfaixado, que havia visto na enfermaria, está atravessando, amparado por uma velinha. ‘Obrigada, Hugo’. Eles estão bem na minha frente agora. Bem na minha frente.
Sorrio. Os caninos brilham.

Segunda-feira, Setembro 19, 2005

BALAS E MAIS BALAS




E tome bala!




“Tenha sempre respeito pelos mais velhos”

Isso eu aprendi com a minha mãe, que não está mais aqui para ver que suas palavras nem sempre estavam certas.


“Quase sempre estão em nossas mãos os recursos que pedimos ao céu.”
Um cara chamado Shakespeare


“O cinismo consiste em ver as coisas como elas são, não como elas deveriam ser.”
Oscar Wilde


“Não se pode julgar um ser humano pelos círculos que ele freqüenta. Não nos esqueçamos que Judas andava em excelente companhia”
Ernest Hemingway


“Burguês é uma criatura muito delicada, que jamais faria mal a um leão
Leon Paul Fargue




Eu vou.







Sérgio Sant´anna e a galera do Bagatelas no Encontro do último sábado

NUMA ACONCHEGANTE TARDE DE INVERNO...

Duas e poucas da tarde, sábado, 17 de setembro de 2005. O desmoralizado inverno carioca ainda tentava provar que é macho e trouxe uma chuva fina e um ventinho frio. O convite a ficar em casa era irresistível, mas quem conseguiu vencê-lo e esteve na Livraria Dantes, no Cinema Odeon, na velha Cinelândia, assistiu um fato especial: um consagrado da literatura nacional, sendo entrevistado por gente jovem que faz a nova literatura. E o que poderia ser um embate, foi quase uma confraternização. Sem formalidades, o pessoal do Bagatelas, deu um show. Um show de autenticidade e orgaização. Em grande parte pelo impagável Vidal, que não somente lia, mas interpretava os textos, quebrando ainda mais o gelo que poderia haver, mas não havia. Sem puxa-saquismo ou glorificação de mitos, eles foram apenas o que são, um grupo de amigos, loucos por literatura que estavam recebendo um grande escritor para apenas conversar. E assim a tarde foi indo, agradável. Não parecia que havíamos saído de casa para um Encontro Literário com o Sérgio Sant´anna e, sim, para tomar uma cerveja com o Serjão, que entrou no clima e foi ficando e ali ficaria até mais, se deixássemos. Pode parecer exagero, mas não sei se era o aconchego de um prédio do início do século, eu me senti numa espécie de lounge literário. Na platéia, rostos conhecidos como o jornalista/escritor Marcelo Moutinho e o Augusto Salles, da Paralelos. E mais estudantes, jornalistas, blogueiros, fãs e amantes da literatura. E certamente, ninguém se arrependeu de ter saído de casa naquela tarde de sábado.

Aliás, a Dantes tem tudo para se tornar o point literário da primavera/verão. E o Bagatelas está prometendo...e mostrando a que veio. Parabéns a galera do Bagatelas, ao Serjão, a Dantes e a todos que conseguem pôr boas idéias em prática neste país, onde tudo joga contra.


Pegando a bike, depois do Encontro. Parabéns também ao Centro da Cidade, que, como já falei aqui, está voltando a ser mesmo um polo de atrções culturais interessantes.






Domingo, Setembro 18, 2005

UM CARA CHAMADO JIMI

“Será que vivi o bastante? Será que ainda terei muito a viver?
Não importa. Só sei que não estou vivendo hoje.”

Jimi, em I Don´t Live Today


FOI HÁ 35 ANOS ATRÁS...

Cretina! Aquela quinta-feira realmente me enganou. Chegou assim como quem não quer nada...eu tinha dez anos e estava convalescendo de uma hepatite, contraída na Praia Vermelha. Após o almoço, voltei para a cama, aonde, por ordens médicas, deveria ficar por tempo indeterminado, e só me levantar em casos especiais. E aos dez anos, se tem muitos motivos especiais. Em todo caso, segui à risca as determinações do Dr. Eudardo. O médico da nossa família. Os planos de saúde ainda não existiam.
Mas o telefone tocou e era a minha irmã (tenho uma irmã, que, na época, já tinha 21 anos). Estava no trabalho e queria falar comigo. Após muita insistência, minha mãe me chamou. Fui atender, intrigado. Que motivo especial seria aquele?
“Porra, Julio. Sabe quem morreu?”, minha irmã. Quem seria?, pensei. O Martinho, o namorado dela? Vovó Marina, que já estava velhinha? Tio Urbano que já não andava muito bom? Meu pai?, “O Jimi Hendrix, cara!!!!”
Era a quinta-feira, 18 de setembro de 1970 e Jimi Marshal Hendrix, havia mesmo morrido horas antes, devido a uma overdose de tranqüilizantes, em Londres. A notícia chegou no Brasil pouco antes das duas daquela tarde. O nosso primo João Régis havia ligado para a minha irmã e lhe deu a notícia chorando.
Há dois anos eu havia tido o meu primeiro contato com Jimi, quando o João havia importado – os discos estrangeiros costumavam sair com muito atraso no Brasil, na época – o LP Axis: Bold as Love. E foi um acontecimento. Ainda me lembro de estar sozinho no quarto da minha irmã, ouvindo If 6 was 9. Tem aquele momento em que a guitarra de Jimi pára de imitar os pássaros e ele começa a falar com a voz rouca. A maioria dos discos de rock ainda eram mono e a sua voz começou a se dividir entre as caixas de som, uma em cada lado do quarto, como se Jimi dialogasse consigo mesmo. O ambiente era iluminado somente por um abajur, as paredes eram cobertas por recortes de revistas e posters, dando um efeito psicodélico, típico da época. E a voz rouca de Jimi atravessava o quarto de lado a lado. Era a primeira vez que eu ouvia alguém falar durante a música. Era a primeira vez que eu ouvia um som como aquele. Se aquilo era possível, então tudo é possível. Hoje é ridículo, mas naquele momento, senti a minha cabeça abrir para diversas coisas. E quando eu recebi a notícia de sua morte, eu me lembrei disso.
A morte em si já foi algo traumático. Mas o pior foi a época em que ela aconteceu. Qual era a atmosfera naquele 1970? Bem, dias antes de Jimi morrer, Woodstock havia estreado no Rio. Ainda me lembro da minha irmã indo assistir o filme com os primos João e Ricardo, no Cine Carioca, na Praça Saenz Peña. Todos usando suas roupas hippies. Lá na América, Woodstock havia estreado em maio com protestos nas portas de alguns cinemas, devido aos preços exorbitantes. “O Rock virou comercio!”, gritavam os fãs. Hoje, ninguém mais duvida disso. Naquele mesmo mês de maio, vinha a notícia do fim dos Beatles. Os Stones haviam deixado a Inglaterra para um exílio de quase dois anos no sul da França, fugindo do massacre da imprensa inglesa, após a tragédia do Festival de Altamont, em dezembro de 69, nos EUA, quando quatro jovens haviam morrido. Bob Dylan estava ainda se recuperando do misterioso acidente de moto que teria sofrido, Jim Morinson, do The Doors estava preso e os Crosby, Stills, Nash and Young, estavam prestes a se desintegrar. Na mesma época, Nixon chamava o Camboja para a guerra do Vietnã, embora desde que havia assumido a presidência, em janeiro de 69, viesse prometendo acabar com o conflito. As universidades americanas pegaram fogo e quatro estudantes foram mortos pela Guarda Nacional, em Kent State, Ohio. Naquele verão, os EUA chegaram próximo a uma guerra civil, com violentos conflitos de rua e ataques terroristas. A atriz Jane Fonda foi presa, sob acusação de dar ajuda financeira aos Panteras Negras. O Festival da Ilha de Wight, na costa da Inglaterra, foi marcado por tumultos, com derrubada de cercas, confrontos com a polícia, prisões e artistas sendo vaiados. Quando o verão terminou, a maioria daqueles jovens que haviam investido muito no sonho dos anos 60, estava com o astral abaixo das minhocas. Suicídos, casos de overdose, violência, desilusão e desânimo, passaram a ser rotina. Foi quando a melancolia das canções de gente como Elton John, James Taylor, Joni Mitchel, The Carpenters e, mais tarde, Carol King, Carly Simon e Cat Stevens, começou a dominar as paradas.
Aqui no Brasil...bem por aqui, todos sabem o que acontecia.
Este era o clima que estava no ar, quando Jimi partiu.
A imprensa brasileira, não deu muito destaque à morte de Jimi. Afinal, durante uma época de ditadura militar, com forte censura, não era prudente dar destaque à morte de um guitarrista drogado. Houve algumas homenagens nas rádios. Jimi não tocava em AM, mas me lembro que a Mundial, a rádio da moda, no Rio, abriu espaço no seu Show dos Bairros para Hendrix. Me lembro ainda da emoção do Big Boy – também dj da Mundial - ao falar do maravilhoso negão que era um dos símbolos de uma era em que se acreditava ser possível a construção de uma sociedade alternativa.
Pode ser que muitos adolescentes e jovens de hoje chorassem a morte de Avril Lavigne, Robin Williams, Shakyra, Eneman, Britney Spears ou Mariah Karey. Mas seria apenas por gostarem de suas músicas ou por, de alguma forma, se identificarem com eles. Mas depois, certamente, esses adolescentes iriam se comunicar com seus amiguinhos no MSN ou pelo Orkut, marcariam um encontro no Shopping ou na academia, e logo esqueceriam o luto. E eles estariam errados? Não. Mas grande parte da juventude em 1970, estava comprometida, cada um ao seu modo, com o projeto de transformar um mundo que não estava legal. Os seus pais haviam falhado, não se podia mais acreditar no governo, no que lhes ensinavam na escola e nas instituições. Mas se confiava em Hendrix. Assim como nos Beatles, em Jim Morinson, nos Stones e nos Crosby, Stills, Nash and Young, Mas todos eles nos abandonaram naquele 1970.
E Jimi Marshal Hendrix morreu naquela quinta-feira safada.
Só nos restava nos conformar com a idéia de que pessoas como Hendrix são como o cometa Harley, que cruza o céu de séculos em séculos e deve-se agradecer a Deus por se estar na terra, quando isso acontece.
Dezesseis dias depois da morte de Jimi, era Janis quem partia. Mas isso é papo pra mais tarde.



Axis: Bold as Love. O meu primeiro contato com a música de Jimi.

Eram os anos 60, época em que as capas dos discos eram levadas a sério.

Have you ever been, have you ever been in the eletric ladyland?

Assim começava a poesia sonora de Eletric Ladyland, faixa título do album duplo lançado por Jimi em setembro de 1968, e que é considerado por muitos como o seu melhor trabalho. Na capa inglesa, putas londrinas contratadas por alguns xilings, para pousarem nuas.

Terça-feira, Setembro 13, 2005

VOU DE TÁXI...


Mais um conto da era abissal, quando eu usava um 486 e ainda tinha a ilusão de ser um escritor...

SUPOSITÓRIOS


Na primeira aplicação dói bastante. Isto sem falar no desconforto da penetração, quando o objeto de ponta arredondada é sugado pela mucosa anal. Às vezes, sentimos o desejo de tentar impedi-lo que siga seu caminho até a corrente sanguínea. Esta é a pior parte. Dói, arde e incomoda.
Há maneiras diferentes de colocá-lo. Uns preferem a mais lenta. De forma bem suave para evitar ou adiar a dor. Sempre preferi que fosse introduzido de uma só pancada. A dor dilacerante, é cruel. Mas, segundo as leis das compensações, o alívio é bem mais rápido. O sangue se encarrega de dissolvê-lo e espalhá-lo pelo corpo. Aí, então, é fechar os olhos e sentir a imensa paz e o bem-estar infinito. Você sabe, é difícil explicar. É um sentimento de céu azul, algo de ‘vai dar praia no fim-de-semana’, talvez um pouco de ‘o carnaval está chegando’. É uma coisa de ‘Deus é brasileiro’, combinado com um certo ‘tudo dará certo’.
Reconheço que há casos raros em que nem sempre funciona. Mas, é irresistível o efeito. Com o tempo, seus males serão eliminados com mais rapidez. A vida fica mais bela, agradável e seu humor, inabalável.
Assim tenho vivido há anos. Anestesiado. Aplico-o a cada lambada da vida e espero o efeito. Nada pode perturbar a minha calma.
Nem mesmo quando, na mesa do café, esta manhã, ela voltou a me chamar de ‘monte de merda’, me perturbei. Pelo contrário. Abri um sorriso largo e falei apenas:
“Tudo bem, tudo bem.”
Depois, saí, sem saber que teria um dia difícil.
Ainda estava amanhecendo, quando recebi um chamado para levar o meu táxi até a Lapa e pegar um tal Sr. Adamastor de Almeida, no início da Mem de Sá, junto aos Arcos.
Lá, encontrei uma bichona vestida de mulher na porta de uma boate. Carregava uma enorme sacola de viagem e entrou batendo a porta com violência. E uma das poucas coisas nesta vida que quase consegue me irritar, é baterem a porta do meu táxi. Mas tudo bem, tudo bem.
“Para o Posto Seis”, pediu.
Acendeu um cigarro. Então, abri a janela e desliguei o ar condicionado.
“Por que você fez isto?”, perguntou, “ É provoção? Só por que sou gay, não é?
Era um bicha paranóica. Eu já havia pego alguns destes tipos.
“Sim, e o dia nasceu sem sol porque você é gay.”
“Vocês taxistas nos odeiam. Todo mundo nos odeia.”
“Tudo bem, tudo bem. Se a senhora quiser, ligo o ar com a janela aberta.”
“Veja lá como fala! Não te conheço e exijo respeito.”
“Ora, vocês gays são engraçados. Vivem brigando para poderem mostrar o seu lado feminino e depois se irritam quando nós lhes tratamos como mulher, e com muito respeito.”
“Pois fique sabendo que durante o dia, eu sou um rapaz como outro qualquer.”, falou, tirando a peruca e os cílios postiços.
“E à noite, o que você é?”
“Vanessa Ross.”
“Que lindo!”
“Vocês heteros estão morrendo de inveja porque estamos conquistando o nosso espaço.”
“Ah, é?”
“Sim. Você sabe que dia é hoje?”, tirando agora os seios postiços, “É o Dia Internacional do Orgulho Gay. É o nosso dia.”
“É mesmo? Quer dizer que bicha agora tem dia? E pelo jeito que as coisas vão, daqui a pouco será feriado nacional.”
Vanessa ficou enfurecida.
“Enfie o teu deboche no...”
“Cuidado, as palavras, às vezes, são um reflexo dos nossos desejos reprimidos”, falei recordando-me das aulas de psicologia, nos tempos de faculdade. Sou formado em Comunicação. Talvez venha daí a minha necessidade de entrevistar os meus passageiros. Sou um repórter frustrado. Mas tudo bem, tudo bem.
“Fique sabendo”, continuou ela, “que sou filiada ao Grupo de Defesa aos Gays Desamparados.”
“Verdade?”
“Já contamos com um lobby no congresso e com o apoio de Organizações Não Governamentais.”
“Olha, não tenho nada contra os gays. E eu vou até lhe revelar uma coisa muito particular.”
Vanessa me olhava com curiosidade.
“Você jura que guardará segredo?”, perguntei.
“Juro.”
“É que...bem...descobri que em vidas passadas, fui uma gueixa, chamada Tamisha Nahima.”
A bicha soltou uma gargalhada.
“Não ria, por favor. Minha história foi trágica.”, pedi, muito sério.
Vanessa ficou me olhando.
“Eu era muito rica e casada com um importante samurai, responsável pela guarda imperial do condado de Kobe. E fui obrigada a fazer um harakiri em praça pública, enquanto a população me jogava fezes.”
“Tadinha.”
“E não foi só isso. Tive meus cabelos cortados(símbolo da vergonha suprema para os orientais, na antiguidade) e recebi uma cusparada dos meus pais, entre as gargalhadas de todos.”
“Mas o que você fez?”
“Bem, era comum os grandes samurais terem duas ou três mulheres e um rapazinho para satisfazê-lo.”, contei.
“Que maravilha!”
“E eu traí o meu veneravel senhor.”
“Pelo menos o bofinho valeu a pena, para compensar toda esta desgraça, eu suponho.”
“Não, fui pega na cama com a outra gueixa. A gostosona Fumiko Nokutu. Eu era uma lésbica.”
“Ah, você está querendo me gozar.”
“Verdade. Por isso acho que realmente tenho tendências homossexuais.”
“Eu sabia. Todos os homens que detestam os gays, no fundo...”
“Claro, claro.”
“Eu sou formado em psicologia, sabia?.”, contou Vanessa, orgulhosa.
“Não diga? Então foi Deus quem pôs você no meu caminho, sabe?”
“Por quê?”
“Talvez você possa me ajudar a decifrar um drama que vivi na infância.”
“Sei.”
“Se lembra quando éramos crianças e não conseguíamos dormir porque ficávamos sonhando com aqueles monstros dos seriados da TV? Aranhas gigantes, marcianos, Godzila, King Kong, as criaturas submarinas no Nacional kid.
“Sim. E daí?”
“Poi é, eu tinha pesadelos terríveis, sonhando com...uma boceta gigante.”
“Você está acha que sou algum palhaço?”
“Estou falando séiro. Ela vinha em minha direção querendo me devorar. Eu fugia, mas ela estava sempre me alcançando. Era horrível! Uma noite cheguei a me imaginar sendo sugado por ela. E não saindo nunca mais.”
“Que horror!”
“E havia ainda os sons.”
“Sons?”
“Sim. Algo parecido com pitzpuff.”
“Pitzpuff? Você é louco!”
“E não falei ainda dos odores nauseabundos, devido aos gazes tóxicos e a secreção venenosa...”
“Pare com isso!”
“Você não acha que isso pode ser um sinal de homossexualidade?”
“Pare este carro!!! Nunca fui tão humilhado! O GDGD(Grupo de Defesa dos Gays Desamparados), irá saber disto, seu politicamente incorreto!”
Preferia que ela me chamasse de filho da puta. Pelo menos, saberia do que se tratava. Mas tudo bem, tudo bem.
Estávamos no início da Barata Ribeiro e, de propósito, parei em frente a um botequim, onde, já naquela hora da manhã, vários homens estavam bebendo. Quando Vanessa desceu, um negro com a camisa do Flamengo gritou:
“Que porra é aquela?”
A bicha voltou a entrar no carro.
“Só voltei, para demonstrar que sou superior”, disse.
“Tudo bem, tudo bem.”
Ao deixá-la na porta de um prédio, na Sá Ferreira, me lembrei de minha mãe dizendo: ‘Garotos bonzinhos sempre recebem gorjetas da vida.’. Até hoje me pergunto se ela desconfiava que meu futuro fosse ser taxista. Para os olhos da sociedade, me tornei um garoto bom(sou honesto, bem humorado e nunca brigo,). Mas não costumo receber gorjetas. Tudo bem.
Minha próxima chamada era parar pegar duas garotas na porta de um hotel de luxo na Atlântica. Eu já conhecia aquele lugar. Era também local de encontros de altos executivos e milionários com modelos e atrizes famosas. As duas jovens , ambas louras e usando vestidos de malha pretos, curtíssimos, deixando à mostra pernas muito finas, já me esperavam na porta. Quando entraram(batendo a porta com bastante força), olhei pelo retrovisor e reconheci uma delas: Karina Picci, estrela em ascenção na TV.
“Você não é a...?”
“Sim, eu trabalho na novela das oito”, falou, como se não tivesse feito outra coisa na vida a não ser responder aquela pergunta para mim,“vamos para a Barra, por favor.”
“Minha mulher não perde um capítulo, sabe?”
“Sei.”
“Mas não é da novela que eu conheço você.”
“Não?“
“Não. Você não foi criada ali próximo à Roma?”
“Não. Nasci no Brasil. Mas minha família...”
“Estou falando da avenida Roma, ali em Bonsucesso. Mas é claro! Você é a Araciana, filha da Dona Raimunda.”
A outra mulher ouvia tudo com a boca aberta. Deviam ser colegas de trabalho. E, como eram mulheres, uma deveria querer ver a outra por baixo.
“Não. Você deve estar enganado. Eu nasci em Ipanema. E meu nome é Karina com K.”
“Ora, deixe de brincadeira! Você tinha duas avós, Araci e Ana, e esta foi a razão do seu nome. Foi uma homenagem a elas. Eu sou o André, filho do Zeca, campeão da purrinha, no botequim do...”
“Isso tudo é verdade?”, perguntou a outra.
“Não, ele está me confundindo”, disse ela com um sorriso esnobe.
Era verdade, sim. Araciana era a garota mais gostosa das redondezas e chegamos até a brincar de médico algumas vezes. Ela morava numa casa velha onde se lia na frente: Lar de Raimunda.”
“Eu sabia que você iria vencer. Nós morávamos na mesma rua. Sua casa ficava entre Paris e Londres. A minha ficava mais próxima a Nova Iorque. Nas noites de verão, costumávamos nos sentar na calçada e sonhar. Gostaríamos de conhecer um daqueles lugares. Mas você jurava que conheceria todos. Você não se lembra?”
“Já falei que o senhor deve estar me confun...”
“Eu entendo. Quer esquecer o seu passado, não é? Posso compreender. Deve ter sido duro. Ainda me lembro da sua pobre mãe catando verduras podres pelo chão, após a feira. E os meninos cantando aquela musiquinha ‘ai, ai, ai Raimunda...’”
“Não seja ridículo!”
“Tudo bem. Mas o importante é que você venceu. E eu previ isso.”
“Você previu?”, havia um sorriso cínico no rosto das duas.
“Também sou vidente. E prevejo um futuro de glórias para você.”
Aí , ela ajeitou-se no banco e aproximou o seu rosto, com interesse.
“Vamos lá. O que você está vendo para o meu futuro?”
“Bem, você crescerá na TV. Aparecerá também em vários comerciais, até mesmo promovendo obras do governo. Depois participará de alguma campanha em prol de uma causa nobre, enquanto badalará na noite. Permitirá ser fotografada em atitudes polêmicas. Depois processará a revista que publicar as fotos. Aceitará também uma proposta para fazer um nú artístico numa revista masculina. Ficará rica. Então, se casará com um cara ainda mais rico. Um outro ator. Não, um empresário. Terão logo um filho, para garantir uma boa pensão. Dará entrevistas dizendo que o amor é lindo. Mas o divórcio virá em breve. Depois, você dirá que está iniciando uma fase mais madura em sua carreira, et cetera e tal. Mas aí aparecerá Sabrina Puccini.”
“Sabrina Puccini? Quem é ela?”
“Neste momento ela é apenas uma garota ambiciosa do subúrbio. Já está fazendo um curso de modelo em uma escola barata. Mas em breve, ela sairá com os homens certos e chegará onde você está. Ela será a mulher que acabará roubando o seu papel na novela das oito. Cuidado. Ela é diabólica.”
As duas me olhavam como quem olha para o espelho após uma noite mal dormida.
“Dá para ir mais depressa, por favor?”, pediu Karina com k, irritada.
Depois peguei um mulher cheia de embrulhos e bolsas, na porta de um shopping, na
Barra. Bateu a porta com toda a sua força e pediu uma corrida até um condomínio ali
perto. Parecia excitada. Recentes estudos científicos comprovam: compras sempre excitam
pessoas mal amadas. Ou as pessoas mal amadas substituem o sexo fazendo compras.
Ou a Igreja(que condena o sexo sem a finalidade da procriação) está a serviço dos
empresários. Ou o comério não gosta de pessoas sexualmente satisfeitas.
“Foi bom pra senhora?”, perguntei.
“Sim, foi ótimo.”
“Posso imaginar. Descontos enormes, preços sedutores, promoções lascivas, liquidações
devassas.”
“Mas do que o senhor está falando??.”
Olhei para ela pelo retrovisor. Falsa loura, pele esticada, excesso de jóias. Era uma mulher sem berço. Devia ter nascido mais fodida do que eu e só porque se casou com um idiota cheio da grana, queria dar uma de gostosa no meu táxi. Eu conhecia este tipo.
“Estou refletindo sobre pessoas que susbstituem o sexo pelas compras.”
“Isto por acaso é uma cantada?”, perguntou.
“Não, eu já fui ao supermercado hoje. Estou satisfeito.”
“E foi bom para você?”, ela perguntou, sorrindo como uma menina travessa.
“Encontrei uma promoção fantástica e foi uma experiência maravilhosa!”
A mulher soltou uma gargalhada alta. Estava ficando à vontade e começava a revelar a sua vulgaridade.
“E você faz isso com freqüência?!”, perguntou.
“Sou um viciado. Minhas fantasias sexuais são os meus sonhos de consumo. Troquei as revistas pornográficas por catálogos de compras por correspondência. Costumo chegar ao orgasmo com as meninas do telemarketing.”
Quando conseguiu parar de rir, ela quis saber:
“Agora me responda: você tem alguma tara?”
“Ah, isso é uma coisa muito íntima. Não costumo falar disso com meus passageiros.”
“Pois eu tenho uma tara: produtos importados. E atinjo meu ponto G quando me dão desconto”, ela revelou.
“Bem, vou contar a minha. Às vezes sou sádico e troco as etiquetas dos produtos.”
“Você faz isso? Mas é uma coisa suja e imoral!”
“Não se preocupe. Também sou masoquista e as troco sempre por etiquetas com preços mais altos.”
A mulher se sacudiu toda numa gargalhada. Mas depois ficou triste e falou, olhando pela janela:
“Ah, mas hoje em dia fazer compras não é como antes. Todo mundo está indo às compras. As vezes, penso que o problema do país é, principalmente, sexual. Os shoppings estão sempre cheios!”
“Mas o povo também tem direito ao prazer.”
“Vocês, pobres, não estão preparados para consumir tanto. Vocês compram um carro e saem fazendo absurdos por aí; compram um rádio e o colocam no último volume; compram um telefone celular e começam a falar aos berros. Ai, o condomínio onde moramos, está cada vez pior! Cheio de cantores sertanejos, jogadores de futebol, modelos vagabundas, pagodeiros. Uma gente vulgar, cafona, barulhenta e sem classe nenhuma. Um horror!”
“O único jeito é o governo promover campanhas para que o povo possa satisfazer as suas fantasias sexuais. Aliás, qual a sua?”
“Você não acha que está querendo saber demais?”, disse a mulher.
“Tudo bem, tudo bem.”
“Tá certo. Vou contar: minha tara é dar uma palmada no bumbum de um PM na rua.”
“Não diga?”
“E qual é a sua?”
“Não, não fale na minha fantasia sexual, por favor! Ela é quase impossível de ser realizada. E fico muito angustiado quando penso nela. Ai, meu Deus! Porque você foi falar nela? Agora terei que ir a um lugar vulgar e barato, onde possa extravasar este desejo pervertido que me consome.”
“A esta hora? Você irá a uma sauna, a um bordel?”
“Pior. Irei às compras na rua da Alfândega.”
“Uau!”
Quando chegamos no condomínio, ela me deu o seu telefone e sugeriu que nos encontrássemos qualquer dia desses.
“Sinto a necessidade de trair o meu marido.”
“Ah, eu sabia! Você é mesmo uma insatisfeita sexual.”
“Não é só deste tipo de traição que estou falando”, ela disse ao soltar, “meu marido é comerciante.”
Rimos.
Depois enfrentei o pior engarrafamento da minha vida, na saída da Barra. O sol de verão já havia surgido e o calor era cruel. Mas tudo bem. Quilometros e quilometros de seres humanos parados, com ódio e com muito tempo para pensar, o que é perigoso. E eu que não me perturbo nunca, para passar o tempo, tentei adivinhar o que as pessoas nos outros carros estão pensando.
Um homem de meia-idade, com um terno caro, estava de olho na garota em um carro conversível ao seu lado. Fazia uma reflexão profunda sobre a influência do carro na imagem das pessoas, enquanto tentava descobrir por que há uma tendência de garotas em conversíveis sempre serem vistas como mulheres fatais. Aquela ao seu lado parecia um anjinho meigo e delicado. Talvez fosse até comportada na cama. Ah, como ele gostaria de tê-la como secretária para terminar suas experiências científicas.
A garota do carro conversível, usava os óculos e o penteado bem comportado de uma secretária. Parecia tímida. Sabia que o homem de meia-idade estava olhando para ela, mas, como uma boa menina, fingia não notar. Preferia pensar no quanto seria bom se seu chefe lhe desse uma cantada para poder processá-lo por assédio sexual.
Uma senhora loura e bem vestida, mais adiante, tinha um olhar tão triste, que quase me deixou deprimido. Talvez pensasse na possibilidade de sua filha não casar-se com o fulaninho, filho de sua melhor amiga. O fulaninho era um grande empresário. Era também um canalha, alcoólatra e viciado em jogo, é verdade. Mas o amor vence estas barreiras. Infelizmente, a filha gostava do ciclano, que era um jovem honesto e trabalhador, mas empregado do fulaninho.
Ah, se todos estes imbecis pudessem entender que não há saída! E que só nos resta rir de tudo isso. Tirar o suco da fruta podre, que é este mundo.
E agora este velho de terno e gravata, entra no meu táxi na Presidente Vargas. Grande, gordo e pesado, feito um saco de bosta. Nunca ninguém bateu a porta tão forte. Cheguei a sentir dor nos nervos. Mas tudo bem.
Joga-se no banco traseiro e diz arrogante:
“Vamos pra Penha!”
É o meu bairro. Onde moro com a patroa, Dagmar, e as crianças. Ontem completamos dez anos juntos. Dez anos desde que a tirei daquela caixa de supermercado, em Realengo, para ser a...bem, para ser a Sra. da Silva. Não é lá muita coisa, eu sei. Na verdade, não é nada. Mas ela não precisava me dizer aquilo ontem. Me chamar de “monte de merda.” E eu que havia comprado rosas, vinho e uma pequena lembrança em Madureira: meias-de-liga e lingerie vermelha! Mal cheguei e já fui colocando o último disco do Roberto Carlos que ela tanto gosta. Mas não adiantou. Me recebeu fria, de rolo na cabeça e chinelos, sem romantismo algum. Era muita esculhambação. Mas, tudo bem.
Por falar em “monte de merda”, Olho para o titio lá atrás. Já estamos na Francisco Bicalho e pergunto:
“Qual a rua da Penha, doutô?”
Sem tirar os olhos da janela, o velhote responde:
“Aimoré.”
É a rua onde moramos. Ah, pretinha! por que você foi fazer aquilo? E tudo por causa de uma TV, trinta e quatro polegadas, e um maldito videocassete. Ela cismou que quer os dois. Como os da vizinha. E eu disse “mas o marido dela é bicheiro e fatura por semana o dobro do que eu tiro por mês, trabalhando feito um jegue.” Aí, ela mandou “por isso não, minha irmã também tem e o marido dela é um reles jogador de futebol.” Devolvi “mas meu amor, você sabe quanto o Jurandir ganha?.” Não se conformou e lembrou do Valtinho do açougue e do Gilmar da padaria. E com a minha inabalável paciência, lembrei a ela que o primeiro tem um irmão traficante e o outro tem um caso com uma coroa rica.
Além do mais, o aluguel e as contas estão atrasados. No banco, estou no vermelho e o limite do cartão de crédito está estourado. Mas foi pior. Ela ficou puta e gritou: “Do que adianta o seu diploma, se estamos sempre fodidos? E quer saber de uma coisa? Nós não temos a TV e o vídeo, porque você não passa de um monte de merda!.” Aí, pela primeira vez, não surtiu efeito. E perdi a cabeça.
“Repita isso e eu te enfio a mão na cara.”
E não é que ela repetiu mesmo, sílaba por sílaba?
“Mon-te-de-merrrrr-da! Você não me leva pra sair e nem quer mais foder. Pelo menos, a TV e o vídeo iriam me distrair.”
Não prestou. Mandei um tapa no meio dos seus cornos. Mas a sacana não se intimidou e me acertou um murro no nariz. Caí esparramado na cama. Ela se jogou por cima de mim, me arranhando com suas unhas cor de sangue. Fiquei com tesão e a segurei nos braços. Colei o seu corpo no meu e trepamos a noite toda.
Mas hoje, pela manhã, voltou o inferno. Quer porque quer a maldita TV e o videocassete. Virou obsessão.
Ah, neguinha! Como eu gostaria de poder ficar contigo, vendo todos aqueles filmes de sacanagem na cama! Hum, já posso ver as louras de tetas abundantes, as mulatas de lábios carnudos. Lingeries, espartilhos. Ninfetas lésbicas, garotas lutando boxe na lama. REWIND. Amal an exob odnatul satorag. SLOW. Ga-ro-tas-lu-tan-do-boxe-na-la-ma. PLAY. Negras com coxas azuladas, duas ,três, quatro numa cama. Pernas para o ar, o V da vitória, frango assado, 69...ai, meu Deus! Ai, que bom! Tudo em trinta e quatro polegadas!
Por outro lado, quem sabe se com o vídeo, você não sossega mais em casa, quando eu não estiver, e pára com os seus passeios misteriosos no meio da tarde? Já estou ficando com o pé atrás. Mas, tudo bem.
Olho para o saco de bosta lá atrás. Quero puxar uma conversa, mas o nojento tem um telefone celular na mão, agora.
“Alô, Dagmar? É o Doutor Ricardo. Estou indo pra aí.”
Sinto o meu corpo tremer. Foi como um soco no estômago. Como a primeira aplicação. Aliás, pior. Entrou com dificuldade e abriu caminho, arrebentando tudo o que via pela frente.
“O babaca do seu marido está trabalhando, não é?”, falou, “ele comprou o quê? Meia-de-liga e lingerie vermelha? Ha-ha-ha-ha, mas que palhaço! Mas foi bom, você pode usar para mim. ”
Meu sangue ferve. Penso na arma que sempre trago no porta-luvas(os assaltos contra taxistas tem sido cada vez mais cosntantes).
“Sim, estou levando o dinheiro da TV e do videocassete, meu amor. Sim, o dinheiro do seu maldito aluguel também. Seu bunzunguinho não prometeu para a sua bunzunguinha? Então.”
Minha cabeça gira. Seguro com força o volante na ânsia de manter o controle. Vai entrando, entrando. Arrebentando tudo. Nada pode contê-lo. Dói e arde.
“Mas você vai fazer aquilo que prometeu pro seu buzungo, não vai?”
O cretino ainda me pede:
“Aí, ô bacana! Não dá pra ir mais rápido, não?”
É demais! Mil diabinhos brigam entre si ao meu redor. Uns me lembram da arma. Outros vem me lembrar do videocassete. Ai, e as louras de tetas fartas, mulatas de lábios carnudos, as garotas lutando boxe? E o aluguel? E o supermercado, a escola das crianças, o plano de saúde, a luz, o telefone, o gás...?
Não, isso já é demais. Todo homem tem o seu limite. Quase perco a direção. Dou uma fechada num carro de luxo. O motorista me chama de filho da puta. Concordo. Para manter a calma, penso em alguma coisa boa. Nas louras peitudas, nas crioulas com coxas azuladas, garotas na lama. Trinta e quatro polegadas. O pior havia passado. Ele já havia encontrado o seu caminho até a corrente sanguínea, onde se desfizera. Agora era só esperar pelo efeito. Mas será que viria a tempo?
O sangue me sobe. A imagem da minha Dagmar, usando meia-de-liga e lingerie, nos braços deste porco, me deixa louco. O ódio vai se transformando em um monstro dentro de mim. Não vai dar tempo, não vai dar tempo!
Trago a minha mente o aluguel pago, o colégio das crianças em dia, o cartão de crédito. Mas nada consegue conter o meu ódio.
Não vai funcionar, não vai funcionar.
Chega! Há momentos na vida de um homem em que é preciso tomar uma decisão, por mais difícil que seja. Por isso, decido fazer o que deve ser feito...viro para trás...viro para trás...e digo:
“Aceita um cigarrinho, doutô?”
Funcionou. É é tão relaxante!

Sexta-feira, Setembro 09, 2005

UM POST DE VIDA FÁCIL

Foto tirada da página da ONG espanhola Fundación Utopía Verde
Tá certo que este blog nunca foi muito familiar, mas não pensem que isso aqui virou a Casa da Mãe Joana. A verdade é que depois de despachar meus antigos monitor, impressora, mouse, gabinete e teclado para a Polinter (por formação de quadrilha, lembram-se?), fiz um upgrade, coloquei tudo novo e, no meio da arrumação, acabei descobrindo um velho disquete. Uma relíquia dos tempos em que eu tinha um 486. E neste disquete estavam vários contos da época em que eu havia começado a escrever contos. E foi com muita emoção que percebi que alguns deles são bons e mereciam ser mostrados aqui.


Mas onde entram as putas?

É que eu fiquei tão excitado com a redescoberta destes contos, que resolvi homenageá-las. E serão elas que vão disparar balas neste post. Ou melhor, eis algumas balas sobre as profissionais mais antigas do planeta:



“Mesmo a mulher mais honesta não pode viver sem homem!!!!”
Geni, a vagaba que literalmente deu errado, da peça Toda Nudez Será Castigada, do Nelson, gritava isso, para ódio das feministas de plantão.

“Você pensa que os homens se abrem com quem? Com Deus? Eles se abrem mesmo é com as putas. Certas coisas não se fala nem pra Deus. E pra alguns, Deus nunca tem tempo. Gente perdedora que nem eu e você. Nós, que já subimos no ringue, usando luvas de veludo, pra enfrentar adversários com luvas de chumbo.”

Odete Escarlate, na minha peça Esta Noite É Verão no Inferno


“Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme etraficante se vicia.”
Tim Maia
“Me chame de puta, mas não me chame de mulher direita. Eu vivo de tirar dinheiro dos maridos das mulheres direitas.”
A puta Mayrah, no meu A Arte de Odiar.


“Toda mulher se vende pelo menos uma vez ao dia.”
Uma tal de Jurema, enquanto tomávamos uma média, numa pé sujo na avenida São João, na época em que eu morava em Sampa.

A ECOLOGISTA: - Sabe quantos animais foram mortos para que fosse feito este casaco de pele que você está usando?
A PUTA DE LUXO: - E você sabe com quantos animais eu tive que trepar para conseguir este casaco?

Diálogo de uma comédia americana, da qual não me recordo o nome, no início dos anos 90.








Em setembro de 1967, estreiava no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, Navalha na Carne, do Plínio Marcos. A primeira foto é da montagem carioca, que estreiaria um mês depois, com Tônia Carrero, Nelson Xavier e Emiliano Queiroz, com direção de Fauzi Arap. Em 1970, entrava em cartaz, a versão cinematográfica desta obra prima, com o mesmo Emiliano Queiroz, o Jece Valadão, Glauce Rocha e Carlos Kroebe, sob direção de Braz Chediak. E é desse texto a última bala:

“Será que isso é vida? Será que viver é isso, a gente se agredindo, infernizando uns aos outros? As vezes eu me pergunto se nós somos gente. Será que somos gente?”

Norma Sueli, a puta cansada de guerra do Navalha...

E qual o motivo de toda esta putaria?

Porque o primeiro conto que encontrei no tal disquete é sobre essas moiçoilas que dizem sim...


O TRADUTOR DA VIDA


Rio, novembro de 1969


Conheci Jurandir da Conceição, o tradutor, um pouco antes do seu desentendimento com a vida. Mulato simpático e vaidoso, com suas roupas de linho branco e cabelos pintados, tentado desmentir o que as rugas afirmavam. Tinha um andar bonito, um mover de nuvem, uma fala de mel e cheirava a mar. Um sujeito bom de conhecer, uma criatura ensolarada.
Aparecia lá pelas oito, naquele café de esquina, na rua do Acre e acomodava-se em alguma mesa. Cumprimentava os que conhecia e os que não conhecia também. Pedia uma média. Depois, a primeira cerveja e assim seguia pelo resto do dia. Nunca tinha pressa.
Lá pela hora do almoço, começava a receber as suas meninas. Vinham sonolentas, de banho tomado e cheias de reverências, como mucamas diante do seu senhor. Traziam cartas de marujos estrangeiros com quem haviam deitado por trocados. Os olhos brilhavam e os dentes feriam lábios carnudos, enquanto o velho abria o envelope, desvirginando o segredo com carinho.
Em seguida, utilizando os idiomas aprendidos nos tempos de estiva, lia as confissões de amor, as saudades; as mentiras, as ilusões. Depois, traduzia a linguagem aprendida com a vida para dar a elas o que mais esperavam: seus conselhos.
Numa noite de calor e cervejas, me disse que a vida não passava de uma mulher bonitona e sacana, amasiada com um sujeito malandro chamado destino, de quem recebia ordens.
Não escondia o orgulho de ser íntimo deste casal de cínicos e debochados, mas nos últimos tempos vinha se queixando de ter sido traído por eles.
Isso aconteceu logo após ter conhecido Jussara, a paraense de olhos amendoados e pele morena-jambo, que tirava do sério os homens da área do porto. E ele que conhecia bem o mar, e que pensava conhecer a vida, de repente se viu tragado por uma paixão tal qual ressaca fora de época.
Um dia, a morena apareceu com uma carta escrita por John, fuzileiro naval do Texas, EUA. Falava de não conseguir esquecê-la, de precisar senti-la de novo em seus braços e de querer levá-la para a América. Mandava também um retrato, onde, em três por quatro, no rosto largo e saudável, um olhar penetrante nos agredia com a arrogância dos que querem muito e o sorriso movediço dos que estão dispostos a tudo para conseguir o que desejam.
Ao terminar, o velho sofria. E ainda teve que encarar os olhinhos de diamantes dela. Mas não por muito tempo. Jogou a carta sobre a mesa e, como uma enorme serpente, algo emergiu dos mares tempestuosos dentro dele para sair de sua boca:
— Não presta — sentenciou — ele gostou do seu corpo e só.
Avaliou o efeito do que dissera no rosto da morena e a dor que encontrou lá doeu nele. Mas já era tarde para voltar atrás e continuou sem poder encará-la:
— Ele é casado e pede desculpas por não ter contado antes.
Morenas-jambo não ficam pálidas. O seu tom marrom-escuro de madeira nobre apenas perde o brilho e parece ficar levemente esverdeado. Esta deve ser a cor da desilusão, pensou.
— O senhor tem certeza?
Nenhuma havia questionado antes os seus conselhos e isso aumentou a sua dor.
A morena debruçou-se sobre a mesa e espalhou o seu sofrimento.
— Estou gostando desse moço e não sei o que fazer.
O velho voltou a cuspir a serpente sobre ela:
— Você é uma puta, minha filha. Pode ter vários homens, mas jamais algum será seu de verdade.
A garota colocou olhos arregalados sobre ele. Afinal, havia o caso da Sebastiana com o marinheiro italiano. Havia ainda o caso da Marialva, da Mercedes, da Lucimar. Sim, ainda havia esperanças. Mas ao invés de uma palavra de alento, ouviu algo inesperado:
— Eu posso tirar você da noite, menina. Vamos viver juntos!
Os segundos que esperou por uma reação da morena, pareceram ser o pior momento de sua vida. Mas não foram e sim quando a viu levantar-se e partir, deixando para trás um rastro de dor.
E Jurandir bebeu pra valer. No final da noite, foi levado por amigos até o quarto onde vivia, na ladeira João Homem. Na manhã seguinte, mal acordou e correu para a Igreja de Santa Rita. Pediu perdão pelo o que havia feito. Mas mesmo assim, não teve paz.
Não esperava mais vê-la, mas dias depois, ela voltou. A noite era de calor insuportável. O ar estava imóvel e carregado de uma umidade angustiante. Jurandir comentava comigo que os temporais de verão chegariam mais cedo naquele ano, quando ela apareceu. Mais magra, mais triste. Ofegava e suava bastante. A malha barata do vestido, grudada na pele de seda.
Trazia mais uma carta. Em silêncio, Jurandir leu que “...irei enlouquecer se não a vir em breve...”, que “...você me fez mais homem e feliz...” e que “...pelo amor de Deus me escreva.” Sua intuição tropical parecia fazê-la sentir o desespero contido no pedaço de papel e perguntou, num fiapo de voz, quando o velho terminou:
— O que faço agora, senhor?
Ele nada disse e seu silêncio esgotou o assunto, espatifando o que restava dos seus sonhos envidraçados. A morena, então, pegou a carta e se foi.
Começou, então, um período de provação para o velho. Pela primeira vez a vida falava um idioma que ele não entendia. E vieram bebedeiras intermináveis, vieram noites mal dormidas; vieram agonia ardente e sofrimento gelado.
Vieram também os aguaceiros do verão. O primeiro chegou no meio de uma madrugada, após um dia de calor impiedoso. A tempestade pegou Jurandir durante um pesadelo em que via Jussara rindo, gargalhando alto como louca, como mulher de Exú. Era dia de carnaval. Não, não era carnaval. Mas parecia carnaval. Sim, havia um carnaval e o povo do cais ria também atrás dela. Mas não eram risos felizes. Eram risos de ódio e havia um punhal invisível por entre os dentes de cada um.
Acordou suado e nervoso. A vida gargalhando ao lado da cama, bêbada, louca. Às vezes parecia pedir para não levá-la tão a sério. Outras, pedia para que encontrasse Jussara e lhe contasse a verdade. No meio da loucura, Jurandir fez o que lhe pareceu mais sensato: pulou da cama, vestiu-se e saiu.
O aguaceiro o esperava lá fora. Os pingos agrediam-lhe a pele fina e embaçavam sua visão. A enxurrada descia como cascata pela ladeira íngreme, carregando o que estivesse pela frente. Jurandir estava decidido a não desistir. Descia trôpego, embriagado pelo desespero, o vento chicoteando-lhe o corpo curvado. A vida gargalhava ao seu lado, abraçada com o destino. “Não ria de mim, vida maldita! Não ria de mim!.” Foi quando o destino pôs o pé na sua frente e o derrubou na correnteza. Rolou ladeira a baixo, enquanto as gargalhadas da vida venciam os sons da tempestade.
Quando encontraram o seu corpo, em meio ao lamaçal, o sol já brilhava. Putas e vagabundos cuidaram da sua dignidade, levando o seu corpo para um local mais limpo. Cobriram-no com jornais. Alguém acendeu uma vela, choraram um pouco e se foram.
De Jussara nunca mais se soube. Foi vista partindo pouco antes do aguaceiro desabar. Dizem que voltou para o norte. Sumiu.
Cartas de John, o fuzileiro americano, continuaram a chegar. Até que, de repente, cessaram. Isso aconteceu antes de se assistir na TV, a prisão dele, junto com outros militares americanos, acusados de aliciarem mulheres e menores em países do terceiro mundo para se prostituírem ou trabalharem como escravos nos EUA. Na tela vinte polegadas, apareceu algemado, os olhos guerreiros voltados para o chão.
Foi só isso. O cotidiano na beira do cais voltou ao normal. E a vida continua a passar por ali, de braços dados com o seu homem, falando seu idioma estranho que poucos conseguem traduzir.



SETEMBRO IRADO

A galera do circuito literário alternativo carioca não pode reclamar de falta de programas este mês. Amanhã, tem Sarau de Santa, na Livraria Largo das Letras. Eu estarei lá metendo bala, ou balinhas, já que a proposta é contos com até 300 toques. No outro sábado, será a vez do Encontro Bagatelas, na Dantes. Isso tudo já foi anunciado aqui, mas não custa lembrar. E o mês deve terminar em grande estilo com a Primavera dos Livros. Mas isto é papo pra mais tarde.



Terça-feira, Setembro 06, 2005

ESTÃO VOLTANDO AS FLORES...

A primavera de Botticcelli

MAIS UMA PRIMAVERA CHEGANDO...

Uma vez, um amigo que morava na Inglaterra, veio passar o verão (deles) aqui. E eu lhe perguntei se ele não tinha saudades do nosso clima ameno, onde não ficamos tristes com o fim do verão, pois é praticamente verão o ano inteiro. E ele mandou essa: Pois é, mas vocês também não conhecem a verdadeira celebração da primavera, o que é comemorar o fim de um longo, frio e cinezento inverno.
E ele estava certo. Mais uma primavera se aproxima e nada muda. Vamos continuar na praia, aderindo a modismos fúteis, tomando o mesmo chopinho e fingindo que tudo vai bem.





ENCONTROS E BAGATELAS
No sábado, dia 17, tarde literária na Dantes, no Cine Odeon, na velha Cinelândia, 14h. Vou estar lá. Mais detalhes, visite o site da Revista Bagatelas (link ao lado), no qual eu fui um dos colaboradores deste mês.