Quarta-feira, Agosto 31, 2005

E MAIS BALA...



Então ei-la aqui afinal, essa coisa distinta.
Henry James sobre a própria morte

AND WHEN WE DIE
ALL’S OVER. THT IS OURS.
AND LIFE BURNS ON
THROUGH OTHERS LOVERS, OTHERS LIPS
HEART OF MY HEART, OUR HEAVEN IS NOW, IS WON!

RUPERT BROOKE
Direita? Uma rua pode ser direita, uma régua pode ser direita. Mas o coração humano...
A maravilhosa Blanche Dubois, respondendo a sua irmã, Stella que reclamava por ela não se comportar como uma moça direita, em Um Bonde...
E tome bala...
...O Fina Flor ficava em um casarão, em uma das transversais da rua Maxwell. Estava cheio, apesar de ser uma terça-feira. Ali, todas as terças, há uma boa roda-de-samba, só sucessos antigos e partidos-altos. Entramos e todos olharam para mim. Principalmente as mulheres. Mas era o meu homem, era Juvenal que viam. Fomos direto para o bar. O Natinho e sua banda já estavam tocando. Ele usava um blusão florido, de cores berrantes. Olhei em volta. Ninguém suspeito. Neide disse que ia lá fora, procurar uma amiga. Durante o trajeto, havia falado pouco. Tratando-se de Neide, isto não era normal. Pedi uma cerveja e me refugiei em um canto, próximo ao palco. Ali, teria maior visão e alcance de fogo, caso precisasse. O Natinho me viu e me cumprimentou de longe, com o seu sorriso turístico. O samba estava animado e senti vontade de dançar. Mas onde estava Neide que não aparecia?
Dois nacionais entraram. Um rapaz moreno, de bigode, e outro, negro, com uma camisa preta. O primeiro puxou uma cadeira e sentou-se no meio do salão, bem na minha frente. O segundo ficou encostado numa parede, do outro lado. Fiquei preocupado. Circularam o olhar pelo ambiente. Como fazem os policiais. Eram policiais. E sempre desconfio de policiais. Não gostei do olhar deles para mim.
Neide voltou. Sambamos e namoramos um pouco.
Depois de mais de uma hora de sambas antigos (Cartola, Martinho, Alcione, Mano Décio, Monsueto, João Nogueira, Bete Carvalho, Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues e outros), começou um partido. Foi o Natinho quem puxou, provocando uma tal de Dagmar:

Ai, ô Dagmar! Pra que tu foi me desafiar?
Agora segura as pontas por que barato não vai ficar
Aqui quem ganha bebe de graça, quem perde tem que pagar
E se tu não tiver pra pagar a conta, os prato tu vai ter que lavar.
Ah, mas deixa a roda girar
Deixa roda girar
Vai girar...

A tal Dagmar era uma mulata de meia idade e bonitona. Estava numa mesa com outras quatro mulheres. Levantou-se e foi até o microfone, no palco, para responder:

Mas o que que é isso meu amigo? Não estou entendendo você
Quem é da Vila e do samba, é bom de partido e sabe perder
Agora ouça meu camarada, o que tenho para te dizer
Que se tu não tiver pra pagar a aposta, aceito o teu cavaquinho com muito prazer

Ai, mas deixa a roda girar...

O rapaz moreno de bigode dançava com uma neguinha magricela, mas ainda sem tirar os olhos de mim. Neide também sambava. Estava muito bonita naquela noite. Usava um vestido amarelo, que realçava o seu bronzeado. Havia pego uma praia. Parecia querer me agradar. O Natinho voltou a provocar as mulheres da mesa:

Ah, mas se tu gosta de cavaquinho, tu vai ter que comprar
Mas uma coisa minha camarada, eu tenho que te contar
A conta de vocês não pára, não pára de aumentar
Pois aquela moça de vermelho desde que chegou não parou de entornar.

A mulata, em um vestido de malha vermelha muito curto, correu até o microfone:

Ouça só meu camarada, sei que tu é um cara bacana
Mas olhe só tua barriga, ela não me engana
Ainda não parei de entornar, mas não sou pé-de-cana
Enquanto tua barriga tem mais curvas do que a praia de Copacabana


Neide me deu um longo beijo. Depois, sussurrou em meu ouvido, do jeito com o qual as mulheres vulgares acreditam excitar os homens: Te amo mais do que tudo no mundo, mais do que a própria vida. Suas mãos tremiam. O Natinho agora provocava uma outra mulher:

Mas Copacabana, Copacabana, do mar é a princesinha
E esta moça aqui de branco só quer saber de ficar sozinha
Eu não sei se é por timidez ou por medo de sair da linha
Ou será que a cerveja já detonou a coitadinha?

A tal moça de branco, estava ao lado da mesa do rapaz de bigode.

Mas meu amigo, meu amigo, só uma palavrinha
Copacabana pode ser a tua princesinha
Mas me deixe ficar quieta, me deixe ficar na minha
Pois, princesinha pra mim é pouco e no partido sou a grande rainha

Os sujeitos com cara de policiais me olhavam com insistência. Olhei em volta. Não havia outra saída. Será que eles topariam uma troca de tiros com o salão cheio? Achei que não. Eu não estava com medo. Não era a primeira vez que me via numa situação daquela. O Natinho respondeu à moça:

Mas se tu é mesmo uma rainha, eu tenho que te avisar
Mulher só é rainha em casa, nasceu pra ser a rainha do lar
Vai procurar um ferro e um tanque pra trabalhar
Mulher só serve para dar a luz, fazer amor,cozinhar, lavar e passar


Os homens no salão gritaram eufóricos. As mulheres vaiaram. A mulata voltou ao microfone:

Me desculpe, companheiro, mas tu tá equivocado
De mulher tu não entende nada, mulher não é o teu mercado
E olhe só esse teu blusão, tão florido e delicado
Isto não é coisa de homem, isto é coisa de...

Todos riram no salão. Menos os dois suspeitos. Neide também não. Ao invés disso, disse:
“Vamos embora?”
“Já? Mal chegamos.”
“Tenho que levantar cedo amanhã.”
Talvez fosse mesmo uma boa idéia. Eu estava cheio de energia e queria ainda dar uma boa trepada. Enquanto eu pagava a conta, vi os dois suspeitos trocarem olhares.
“Espero você no carro.”, disse Neide.
Fui até o sanitário e verifiquei se minha arma, uma pistola adaptada para nove milímetros, estava bem carregada. Sim, estava. Era uma arma particular e não a oficial, da corporação. Uma arma fria, para fazer bico.
Me despedi do Natinho com um aceno.
O rapaz de bigode e o negão se levantaram. Saíram atrás de mim.

Onde mais você encontra partido alto em meio a um clima de suspense? Só no meu romance A Arte de Odiar.
SEM PROGRAMA PARA O PRÓXIMO FERIADO?
A DICA FOI EXTRAÍDA DO SITE CULTURA HOJE...


O Sebo Baratos da Ribeiro promove dia 7 de setembro o Dia dos Independentes, com uma série de eventos literários para animar a turma que curte um bom livro. O sebo abre as portas para receber a L.E.I.A.-M.E ! [Literatura Exigindo Inteira Atenção - Malditos Escritores !].
Haverá leitura de contos inéditos dos escritores do Aglomerado Terra Plana (Campos dos Goytacazes, RJ) e do coletivo Patife (Belo Horizonte, RJ) acompanhados por um combo musical (baixo, violão e trompete).
Esta será sua primeira aparição no Rio de Janeiro. O título desta apresentação é uma sutil homenagem a José Cândido de Carvalho, também campista, autor de Olha pro céu, Frederico! Entre os textos escolhidos, estão os de João Filho – autor de Encarniçado, que esteve na última Flip -, Jorge Cardoso, Löis Lancaster, Rocca Stockler, Carolina Tappa, Cassiano Viana e Mara Coradello. A Mutável Saralho Band, grupo que irá verbalizar os contos, terá como intérpretes Danielle Brandão, Cassiano Viana, Jorge Rocha, Löis Lancaster, Marina Andrade e Luiza Toschi, além de Simone Pedro.
E o encerramento será por conta do Fino Coletivo, um espetáculo de canções & causos reunindo dois compositores cariocas e três compositores alagoanos. O cidadão do mundo, com especial carinho por Maceió, Wado (da banda Realismo Fantástico) e o carioca da gema Marcelo Frota (que assina o belíssimo disco Bom que vocês vieram) coordenam a roda de quase ou mais-que sambas, puxados por bateria mansa, programações eletrônicas singelas e um contrabaixo maroto. Música Popular de Bacana que sabe que uma pitada de rock, breque, fossa, bossa, bolero e ginga podem todos acrescentar sabor a uma bela canção.
Serviço
Dias 7 e 8 de setembrono Sebo Baratos da Ribeiro
Leitura de contos com os novíssimos escritores do portal literário Patife.art.br e do Aglomerado Terra Plana.
Com encerramento musical por conta doshow do Fino Coletivo (quarta-feira, dia 7)DJ Marcelo Larossa (quinta-feira, dia 8)
quarta-feira (feriado), a partir das 18h
quinta-feira, a partir das 19h
Sebo BARATOS DA RIBEIRORua Barata Ribeiro 354, Copacabana(pertinho do metrô Siqueira Campos)Tels. (021) 2549 3850 ou 2256 8634

Segunda-feira, Agosto 29, 2005

POST DO AMOR


Nem que eu caminhasse às três da manhã
Nem que eu me enganasse prá ver o que é bom
Nem que eu caminhasse até o Leblon
Não iria encontrar
Você navegando os mares da Espanha
Tecendo prá outra seu corpo com manha
Você navegando o vazio da Espanha
E eu no Leblon
Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais
Você quando acorda tem gente do lado
Mas eu quando durmo é um sono abafado
De uísque e vergonha
Por nunca encontrar você...
Ainda insiste na experiência
Pensando que o amor é como a ciência
Amantes diversas não vão trazer nada a mais
Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais
Nem que eu caminhasse de volta prá casa
Deixando as mentiras e os sonhos prá trás
Tentando viver o real de um amor
Que se deu demais
Nem que eu caminhasse às seis da manhã
Nem que eu me cegasse prá ver o que é bom
Nem que eu rastejasse até o Leblon
Não iria encontrar....
Mares da Espanha, de Ângela "Escândalo" Ro Rô, que está ótima todas as quintas, às 22h, no Canal Brasil.
Dedico a todos que conheceram o inferno, durante uma madrugada, por causa de um amor.
Voltei para casa fora de mim. Tranquei-me no banheiro e tomei um banho demorado. Peguei a esponja de bucha e passei pelo meu corpo para limpar os vestígios dele. Esfreguei a pele até ficar exausta. Depois, deixei-me cair no boxe e acariciei minhas partes íntimas. Fechei os meus olhos. Penetrei o dedo indicador em minha boceta, toquei o clitóris. O prazer transmitido pelas terminações nervosas, simultaneamente com as sensações provocadas pela fantasia em minha mente, reduziram o meu ódio a nada. Era a mesma fantasia que tenho desde a adolescência e que ainda costumo ter na maioria das vezes em que faço sexo com Otávio: Nova Iorque, anos cinqüenta. Eu sou uma vagabunda da rua 42. Estou em meu apartamento miserável, no East Village. A única luminosidade vem de um abajur no canto do pequeno cômodo. A heroína ainda faz algum efeito e sinto uma paz sonolenta. Da vitrola sai a voz melancólica de Chet Baker cantando Time after Time. Espero por Ricky. Ele é boxeador e luta em um ginásio de propriedade da máfia. E ele chega. E eu adoro o seu cheiro acre-doce de homem suado. Diz alguma coisa e tira a minha roupa tão rápido que nem sinto. Então, ele me agarra e se põe dentro de mim com brutalidade. Meu corpo é sacudido com violência. Grito de dor e isto parece excitá-lo. E eu permito. Não sou mais uma vagabunda. Sou apenas uma mulher esperando de um homem muito mais do que ele pode dar. Como a maioria das mulheres.

A mal-comida Virgínia Brandão, após ser mais uma vez rejeitada por Gérson, o Homem do Parque, no meu A Arte de Odiar.
Tal como a sombra, o amor corre de quem o segue; foge, se o perseguis; se fugis, vos persegue.
Shakespear, em As alegres comadres de Windsor - Ato II, Cena II, Ford
O amor é o efeito colateral do sexo.
Domingos de Oliveira no seu filme Separações.

O homem só é livre, não quando obedece aos seus impulsos e sim às suas escolhas.
Up
Depois não digam que não avisei
Terminam na quarta, dia 31, as inscrições para o Livro Aberto, encontros literários e leituras dramatizadas, que serão promovidos todas as terças de setembro. Eis o calendário:

6/9 – Ferreira Gullar
13/9 - Carlos Nascimento Silva
20/9 - Alberto Mussa
27/9 - Luiz Ruffato

A entrada é franca e as inscrições podem ser feitas das 12h às 18h atravésdos tels.: 2588-3366 ou 2588-3368.
MAIS DICA DE CONCURSO (ISSO AQUI JÁ FOI UM BLOG DE RESPEITO. AGORA, TÁ PARECENDO AQUELE JORNALZINHO...):

I PRÊMIO EDITORA FÁBRICA DE LIVROS
CONCURSO LITERÁRIO – Ano/2005

A Editora Fábrica de Livros lança, em 2005, seu 1º Concurso Literário anual. São candidatos ao Prêmio autores que tenham imprimido seu livro através do Projeto Fábrica de Livros e que inscrevam sua(s) obra(s) em qualquer um dos gêneros previstos no Regulamento. As obras serão julgadas por um Júri formado por personalidades ligadas ao mundo literário e a premiação será em novembro próximo.
REGULAMENTO
1. Sobre as Inscrições
1. A obra a ser inscrita no concurso já deve ter sido impressa pelo Projeto Fábrica de Livros;
2. A obra inscrita não deve apresentar qualquer vínculo com outra Editora – e é de responsabilidade do autor, no ato da inscrição, assinar um Termo/Declaração confirmando o não vínculo contratual de edição da obra especificada com qualquer outra editora;
3. A obra deve ser inscrita pelo próprio autor, em qualquer um dos gêneros do Regulamento, de acordo com as definições adotadas e mediante a comprovação documental de sua autoria, através de cópias da Identidade e do CPF;
4. No ato da inscrição o autor deve apresentar 03 exemplares da obra, para a análise pelo Júri. Esses exemplares não serão devolvidos no final do Concurso;
5. No ato da inscrição o autor se compromete a entregar, no caso de sua obra ser uma das premiadas, o respectivo arquivo digital, no formato padrão Fábrica de Livros, para a tiragem-prêmio;
6. Fica estabelecido que qualquer alteração/modificação no conteúdo de uma obra inscrita, durante o período do concurso, a tornará EXCLUÍDA do mesmo, sendo a obra DESCLASSIFICADA automaticamente;
7. Cada obra poderá concorrer somente a um gênero, com exceção das Coleções, em volumes desmembrados;
8. Obras em co-autoria deverão ser inscritas apenas por um dos autores, com a autorização expressa do(s) outro(s) autor(es). Se o livro for vencedor em seu gênero, ambos (ou todos) os autores receberão um só troféu;
9. Não serão inscritas obras de autores já falecidos;
10. Não podem concorrer ao Prêmio as obras traduzidas;
11. No gênero 1.3 (Poesia) não poderão concorrer as Antologias;
12. Para a oficialização da inscrição será necessário: a entrega de 03 exemplares da obra impressa pela Fábrica de Livros, o preenchimento da ficha de inscrição, a assinatura do Termo/Declaração do não vínculo com outra Editora e o pagamento de uma taxa de R$ 30,00 (trinta reais).


Local e Horários das inscrições: na Fábrica de Livros, Rua São Francisco Xavier, 417, Maracanã - das 9h às 17h;


Período da Inscrições: 12 de maio de 2005 a 21de outubro de 2005.
2. Gêneros Literários Concorrentes
2.1 - Melhor livro de Romance
2.2 - Melhor livro de Contos e Crônicas
2.3 - Melhor livro de Poesias
2.4 - Melhor livro Infanto-Juvenil
2.5 - Melhor livro Acadêmico (textos acadêmicos de naturezas diversas: ensaios, tratados, teses, dissertações, monografias).
2.1 Descrição Gêneros Literários
· Romance: narrativa ficcional (em geral longa), que pode ou não mesclar elementos do mundo real.
· Contos e Crônicas:
a) Conto: narrativa curta, em geral, ficcional;
b) Crônica: narrativa curta, baseada geralmente em assuntos do cotidiano, de interesse geral. Caracteriza-se pela transitoriedade dos temas abordados;
· Poesia: texto sintético com alto grau de poeticidade. Caracteriza-se, fundamentalmente, pelo ritmo, sonoridade e outros recursos intrínsecos à criação literária;
· Infanto-Juvenil: texto ficcional ilustrado, ou não, que pode, ou não, mesclar elementos do real. Destinado ao público infanto-juvenil (infantil e adolescente);
· Acadêmicos: ensaios, tratados e textos acadêmicos que fundamentem ou descrevam conceitos a respeito dos temas específicos (teses, dissertações e monografias).


3. Como Participar - Procedimentos e Valores

a) No ato da inscrição o(s) autor(es) deverá(ão) preencher pessoalmente todos os campos da Ficha de Inscrição e assinar o Termo/Declaração de obra sem vínculos com outras Editoras, ambos disponíveis na Editora Fábrica de Livros;
b) No ato da inscrição o autor deverá apresentar cópia dos documentos de Identidade e CFP para serem anexados à Ficha de Inscrição;
c) No ato da inscrição o autor deverá apresentar 03 exemplares de sua obra, impressa pela Fábrica de Livros;
d) O autor deverá efetuar o pagamento de uma taxa, na Tesouraria do SENAI Artes Gráficas, ou efetuar um depósito bancário, no Banco do Brasil, Agência 0288-7, C/C 60799-1, em nome do SENAI CFP de Artes Gráficas. Nesse último caso, o comprovante de depósito bancário deve ser apresentado à Editora, para oficializar a(s) inscrição(ões);

e) A valor da taxa de inscrição, por obra inscrita, é de: R$ 30,00 (trinta reais);

f) Se inscritos em gêneros distintos, os volumes desmembrados de uma mesma Coleção, serão considerados como obras específicas, correspondendo cada um a uma taxa de inscrição.
4. Julgamento
As obras serão analisadas por 2 jurados/especialistas (por gênero), que selecionarão a melhor obra concorrente, atribuindo uma nota (de 1 a 10). Serão escolhidas vencedoras do Prêmio 2005, em cada um dos Gêneros, as obras que atingirem as melhores notas.

Serão premiadas as obras que obtiverem a maior pontuação,
em cada um dos gêneros

5. Premiação
O 1° lugar, de cada Gênero, receberá o Troféu Prêmio Literário Editora Fábrica de Livros e o direito a impressão gratuita de 200 exemplares do título premiado, nos padrões editoriais do selo Editora Fábrica de Livros, que incluem o apoio editorial, o evento de lançamento, a divulgação e a distribuição dos livros.

Sexta-feira, Agosto 26, 2005

UM MÊS DE BALA


“A mulher virtuosa é triste e seca”
Nelson Rodrigues


“The Man in a suit has just bought a new car from the profits he made from our dreams”
Steve Winwood, do Traffic, na música The Low Spark of The High Heeled Boys, 1972. Ele resume toda a choradeira da minha geração a respeito da crueldade do mundo capitalista.


“Eu não fumo, não bebo e não cheiro. Meu único defeito é que eu minto um pouco.”
Tim Maia
“Menos ama quem só fala de amor”
Shakespeare, em Os Dois Cavaleiros de Verona


"Às vezes, Deus age tão rápido!"
Blanche Dubois, em Um Bonde Chamado Desejo

Uma Peça que é uma bala



No seu filme Na Companhia de Homens (In the company of men, 1997), ganhador do prêmio de melhor filme nos festivais de Sundance e de Nova Iorque, Neil Labute conta a história de dois marmanjos – no caso, dois executivos -, que, para espantar o tédio de uma viagem de negócios, decidem iludir uma jovem surda-muda, dizendo que ambos estão apaixonados por ela. Só por diversão. Você achou esta história suja e cruel? Então, passe bem longe do auditório da EMERJ, nesta terça-feira, 30, quando será apresentada a peça Baque, do mesmo americano de Detroit. Aliás, a primeira de Neil a ser encenada no Brasil.
Baque é ótima a partir do nome. Pois é justamente isso que todos receberão em dose tripla durante os quase cento e vinte minutos da peça. São três pequenos dramas (Ifigênia, Bando de Santos e Medéia Redux) que mostram nada mais do que seres humanos. O mais surpreendente neste texto, ou nos textos, é o fato de tratar não de psicopatas ou marginais monstruosos. Mas sim de pessoas comuns que são surpreendidos com o que são capazes de fazer ao se verem em determinadas situações. Vale a pena conferir. Após o espetáculo, ainda haverá debate com o psicanilista Joel Birman.

Eis a ficha:
Elenco: Deborah Evelyn, Carlos Evelyn e Emilio Mello.
Direção: Monique Gardenberg
Tradução: Geraldo Carneiro
Classificação: 14 anos
Data e Horário: 30/8, às 19h - Apresentação Única! Entrada Franca!
Os ingressos serão distribuídos a partir das 18h
Local: EMERJ - Av. Erasmo Braga, 115 - 4° andar – Centro – RJ (Prédio do Fórum Central)Informações: Cultural EMERJ, das 12h às 18h 2588-3366/ 2588-3368 /mailto:emerjcultural@tj.rj.gov.br / www.emerj.rj.gov.br Realização: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro – TJERJ Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ Cultural EMERJ

"E hoje não. Que não me doa hoje o existir dos outros, que não me doa hoje pensar nessa coisa puída de todos os dias, que não me comovam os olhos alheios e a infinita pobreza dos gestos com que cada um tenta salvar o outro deste barco furado. Que eu mergulhe no roxo deste vazio de amor de hoje e sempre e suporte o sol das cinco horas posteriores, e posteriores, e posteriores ainda. "

Trecho do lindo conto inédito de Caio Fernando Abreu, Para um Roxo Dia de Sol de Fevereiro, que está no site Paralelo. Confiram.

“As bailarinas não davam a mínima para o morto. Eu devaneava, vendo-as patinar lentas, no gelo azul. Uma, duas, três, cinco, dez. Patinavam juntas, em linha vertical, no início. E na forma de um V, depois. Uma retardatária apressava-se para juntar-se às outras. E todas seguiam sem se preocupar com nada além de si mesmas.
Um homem e uma mulher se amavam. O primeiro filho estava a caminho. A gravidez tornou-se complicada e os médicos, então, aconselharam o aborto. Mas a felicidade havia tornado o casal arrogante e tal hipótese foi descartada. Nada poderia dar errado, pensavam. A mulher acabou morrendo durante o parto. O menino nasceu saudável, mas morreria dezenove anos depois em um estúpido acidente de moto. E o homem seguiu a sua vida, sozinho e infeliz.
Este homem sou eu e as gaivotas não ligavam para mim. Nem para o morto. “

Assim começa o Arte de Odiar. O Meu romance policial

DICA DE CONCURSO

O Concurso de Contos e Poesias - Prêmio Cataratas, abre a partir de segunda-feira, as inscrições para a edição 2005 do evento.
Com o objetivo de estimular poetas e contistas a produção literária em toda região e nos países que integram o Mercosul, o concurso premia os três melhores trabalhos de cada categoria. Instituído pelo Decreto nº 7.623, de 05 de março de 1991, o prêmio é aberto para escritores de toda região.
As inscrições seguem até 23 de setembro de 2005. Os interessados devem enviar somente um trabalho para cada categoria, escritos em português ou espanhol. Os trabalhos devem vir acompanhados de dados pessoais do autor endereçado à Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, rua Benjamin Constant, 62 - 85.851-380 - Foz do Iguaçu – PR - Concurso " Prêmio Cataratas ".
A obra deverá ser identificada somente com o título e pseudônimo do autor, em quatro vias impressas em folha A4.
Serão conferidos prêmios aos três primeiros colocados de cada categoria e ao primeiro colocado local . A premiação vai de R$1 mil a R$500. Os 10 primeiros colocados de cada categoria receberão Certificado de Participação.
O resultado do concurso, assim como o regulamento serão divulgados na imprensa local, na Sede da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu e no site: http://www.fozdoiguacu.pr.gov.br/ .
A seleção dos trabalhos acontece de 3 de outubro, a 27 de novembro. A premiação será divulgada dia 1º de dezembro.

**Obrigado a todos que levaram bala neste primeiro mês. Principalmente aos que reagiram com comentários.



Quinta-feira, Agosto 25, 2005

O BAIRRO DAS QUATRO LETRAS...

“Um autor só é autor no momento em que escreve. Depois, ele passa a ser um leitor a mais da sua prórpia obra.”
Autran Dourado

“Essas garotas transam com você numa noite e já acham que podem dançar contigo.”
Jonh Travolta interpretando Tony Manero, em Os Embalos de Sábado À Noite. Uma frase que resume aquele louco final da década de 70
“Pode os homi vir
Que não vão me abalar
Os cães farejam medo
E logo não vão me encontrar”

Me Deixa - O Rappa
Porque eles são cria da Lapa
Amanhece em Jeriquaquara/CE


É de manhã
È de madrugada, é de manhã
Não sei mais de nada
É de manhã, vou ver meu amor
É de manhã
Vou ver minha amada, é de manhã
Flor da madrugada, é de manhã
Vou ver minha flor
Vou pela estrada
E cada estrela é uma flor
Mas a flor amada
É mais que a madrugada
E foi por ela que o galo cô-cô-rô-cô
É de manhã – Caetano Veloso


Não sei por que, mas sempre que ouço esta música me lembro da Lapa. Aliás, eu sei sim. Há muitos anos, um amigo meu havia brigado com a namorada. Então, numa madrugada, ele e outros da faculdade saímos do Nova Capela e resolvemos subir até Santa Teresa para fazer uma serenata. Em estado normal, eu nunca pagaria um mico desses. Mas estávamos, para ser modesto...bêbados. Enquanto subíamos a rua Monte Alegre, pensávamos no que iríamos cantar. O Magnus, amigo nosso que tocava chorinho, começou a dedilhar essa É de Manhã no violão. O que tinha tudo a ver. A manhã já estava prestes nascer e o Paulinho – o namorado rejeitado – iria mesmo ver mesmo o seu amor.
Bem, fizemos a tal serenata. A Aninha, a namorada cortejada, dividia uma casa com mais três amigas e acordou de mau humor, e começou a brigar feio com o Paulo. Foi constrangedor. Deixamos os dois quebrando o pau. Voltamos para a Lapa no primeiro bonde, enquanto o dia amanhecia e eu me perguntava em quantas mulheres não gostariam de ser despertadas com este poema do Caetano. O Magnus disse que “Se ela está puta com o Paulo, tudo bem. Mas respeite a música, porra!” E estava certo.
Isso aconteceu há muitos anos. Paulo e Ana se casaram.
Com pessoas diferentes.
Eles não se mereciam.






Foto de José Lins do e-vista.fot.br

Muvuca na Lapa. Embora a muvuca tenha mudado um pouco para outros points, como os arredores da Tiradentes, por exemplo, a Lapa continua... Lapa. Em nenhum outro lugar do mundo, punks, muderninhos, velinhos, patricinhas, travecos, sem-teto, malucos, gringos, hippies, caretas, mauricinhos, artistas, tarados, putas, bebuns, gente cult, vagabundos, boêmios, enfim, todas as tribos poderm conviver pacificamente. Mesmo não se aceitando. Se você nâo se achar na Lapa, se mate.



Onde eu eu estava? Ah, sim...

De qualquer forma, eu contei eaquela história lá em cima porque estive na Lapa ontem, depois de algum tempo afastado da noite.
Comecei a freqüentar a Lapa nos anos 80. Bem antes desse atual “renascimento”. Digo entre aspas porque, para mim, a Lapa nunca morreu. Na época áurea do Circo Voador, ao final do show, as pessoas fugiam para outras bandas. Ser visto na noite da Lapa pegava mal. Após o Circo, eu ia para o Nova Capela ou o Bar Brasil ou o Nova República ou para um boteco qualquer, onde se podia escolher uma mesa com calma. Escolhia-se vaga para estacionar. Fila era uma coisa tão rara, quanto alguém com pressa.
Não sou saudosista. Acho que a Lapa está melhor hoje. Embora sinta saudade daquele gosto de transgressão que era o ato de ir à Lapa. Ao responder a pergunta “Qual é a boa pra hoje à noite??” Ninguém diz “eu vou à Barra” ou eu vou “eu vou à Ipanema. Hoje, ainda se responde: “Eu vou â Lapa.” Por que ir ao bairro das quatro letras ainda é, por si só, um programa. Nem que seja apenas pra caminhar. Mas hoje virou moderno, fashion, cult, cool. Na minha época, era coisa de vagabundo, maluco, viado, boêmio decadente ou gente que gostava de amanhecer vomitando na sarjeta.
De qualquer forma, amo a Lapa e até fiz uma crônica sobre ela. A Lapa de ontem e de hoje.


O DEGRAU



Levei algum tempo para entender a razão daquele degrau na porta do Nova Capela, quartel general dos boêmios, ali na Avenida Mem de Sá. Cá pra nós, aquele pedaço de mármore preto já é bem antipático. Mas sempre achei também que colocar um degrau na saída de um bar boêmio, palco de porres surrealistas, fosse uma maldade crudelíssima.
O maldito degrau nunca fez mal nem a mim, nem à minha turma de antigos freqüentadores. Mas sinto minha preocupação aumentar agora, quando o chamado “renascimento da Lapa”, tem atraído uma nova geração de boêmios. Gente bonita, bem sucedida, moderna, vinda lá da Zona Sul. São estressados, falam alto e riem um riso de vitrine. Como os antigos caçadores ingleses na África, vêm à Lapa atrás de programas exóticos.
São todos politicamente corretos. Mas o degrau malvado não quer saber, derruba sem piedade.
O problema é serio e alguém precisa fazer alguma coisa,antes que algo de grave aconteça. Já existe até um negro, conhecido por Gudnaite, que nas madrugadas, fica à espreita, esperando ganhar alguma trocado, fazendo curativos naqueles que se ferem nas quedas espetaculares.
E o danado do degrau já derrubou muita gente.
O triatleta e modelo Henrique Pallentine, por exemplo, um rapagão de quase dois metros de altura, ficou de quatro na calçada. A videomaker e modelo Veronique Cointreau e o modelo e estilista Silvinho Dreher também desabaram. O multimídia Horácio Bacardi, quebrou o nariz e o celular numa queda histórica, enquanto a modelo, atriz, capa da Playboy e vencedora de reality show Paula Martine Blanco fraturou suas nádegas avaliadas em US$ 500 mil.
Não daria para enumerar aqui todas as vítimas daquele degrau diabólico. Mas em nenhuma queda houve tanta badalação como a na da escritora-cineasta-cult-modelo e lésbica nas luas cheias, Ângela Smirnoff. Membro de uma família nobre da Rússia, Ângela chegou ovacionada pela mídia, as socialites e os deslumbrados de plantão. Numa noite, após um giro pelos lugares da moda, a boêmia de sangue azul cismou de fazer um safári na Lapa. Na saída do Nova, não foi alertada sobre o terrível degrau e a pobrezinha acabou caindo de boca na calçada da Mem de Sá, onde pisam e escarram plebeus de todos os tipos.
E ainda passou pelo vexame de ser socorrida pelo Gudnaite.
- Vai um mercúrio cromozinho aí, ô madame?
A queda da nobre escritora foi a gota d´água e marquei uma reunião de cúpula com a minha turma de habitues para combinarmos uma estratégia, visando a dar um fim àquele maldito degrau. Mas após muito papo e muitos goles, chegamos a conclusão sobre a razão de ser daquele degrauzinho safado. Entendemos que ele precisa existir para que nós, testemunhas de um Rio mais tranqüilo e feliz e que procuramos no Nova um restinho de lembranças daqueles dias cada vez mais distantes, possamos, ao sair, parar, respirar e encontrar forças para encarar a atual realidade carioca.
Concluímos também, que o degrauzinho só derruba os falsos cariocas, os que nada têm a ver com o espírito do Rio que conhecemos no passado. Só caem os apressados e sem jogo-de-cintura. Nós não corremos este risco.
Você acha que isso é conversa de bêbado?
Ôgh! (soluço) E é.








A Lapa
Está voltando a ser a Lapa
A Lapa
Confirmando a tradição
A Lapa
É o ponto maior do mapa
Do Distrito Federal
Salve a Lapa!

O bairro das quatro letras
Até um rei conheceu
Onde tanto malandro viveu
Onde tanto valente morreu
Enquanto a cidade dorme
A Lapa fica acordada, acalentando quem vive de madrugada

A Lapa
Composição: Herivelto Martins e Benedito Lacerda












Quarta-feira, Agosto 24, 2005

E TOME BALA

Puritanismo: O Insistente medo de que alguém, em algum lugar, possa ser feliz.
H.L.Mencken, Jornalista Americano, Sobre A Lei Seca.



“O homem virtuoso se contenta em sonhar com o que o homem perverso realmente faz.”
Platão


“A mentira é um poço sem fundo.”
Elizabeth Taylor diz isso em De Repente no Último Verão


“A infelicidade é tóxica”
Eu, num despertar mau humorado






Quer mais bala? Tome!!!


...Desfizemos o cerco e iniciamos a perseguição. Eu ia na frente para localizá-los. As viaturas iam do meu lado e as patamos, logo atrás. Meu Exu me dizia que eles não estavam longe.
E não deu outra. Deparamos com os putos na Augusto Severo. Estavam parados, conversando com uns travecos que faziam viração na Praça Paris. O funk ainda tocando alto. Achei estranho que tivessem parado. Pareciam esperar por nós. Assim que nos viram, deram um pinote a uns cem por hora. O mulato com o colete da civil, disparou o primeiro tiro. Os vagabundos revidaram.
“Calma, calma, porra!!”, gritei.
Não era interessante começar uma troca de tiros ali. Vi algumas bichas se atirarem no chão. Os bandidos dobraram no Passeio Público a mais de cem. As patamos ligaram as sirenes. Liguei o rádio e aumentei todo o volume. Na estação, um desses programas em que você liga e pede uma música. Minha adrenalina disparou. Um PM batia com o fuzil na lataria da patamo, me pedindo passagem. “Fudeu, fudeu, fudeu!”, gritava. Na curva, os deixei passar.

Alô, quem fala?
Joseane.
Você está falando de onde, Joseane?
Bangu.

O bando cruzou a Lapa atirando. Era um lugar de movimento, queriam forçar uma troca de tiros. Não revidamos. Eles insistiram e entraram na Mem de Sá atirando. Pânico. Correria.

Você estuda? Trabalha?
Estudo
.
E qual a música que você quer ouvir no nosso programa?
Gostava Tanto de Você, do Tim Maia.

Os PMs perderam a cabeça e começaram a atirar também. Uma bala perdida derrubou um homem na porta de um botequim, na esquina com a rua do Resende.

Música antiga! E por que você quer ouvir esta música, Joseane?
Por que sim.
Você já era nascida na época desta música?
Não.
Algum motivo especial para você querer ouvir esta música, Joseane?
Oi?
Algum motivo para você querer ouvir esta música?
Eu briguei com o meu namorado.

Houve correria na praça Cruz Vermelha.

Qual o nome dele?
Wanderson.

Ele está ouvindo o nosso programa?
Tá.


Os vagabundos pararam de atirar e, conforme eu previa, não dobraram na Frei Caneca. Seguiram pela rua do Santana. Eles não se arriscariam a passar pelo quartel do Batalhão de Choque, na Frei Caneca.

Ele mora aí perto?
Oi?
Ele mora aí perto?
Mora. Ele tá tirando serviço na Vila Militar. Mas ele tá ouvindo seu programa, sim.
Você quer mandar alguma mensagem para o Wanderson?
Antes eu queria mandar um beijo para a minha prima Michele, minha amiga Alessandra,...


Os safados recomeçaram o tiroteio. Os PMs nas patamos voltaram a atirar também. O carro acelerou e passou direto pela esquina com a rua Benedito Hipólito.

...minha amiga Jéssica e para o pastor Ezequias da Comunidade Evangélica de Realengo.

Logo após eles passarem, dois carros saíram do pequeno largo que existe no local e fecharam a rua. Os vagabundos dentro deles começaram a disparar suas AR-15. Era uma cilada. Através de um celular, os bandidos devem ter pedido reforço. Por isso, esperavam por nós, na Praça Paris.

E qual a sua mensagem, Joseane de Bangu?

As patamos deram cavalos-de-pau e quase se chocaram umas com as outras.

Wanderson, você nunca vai encontrar alguém que te ame como eu te amei...

Os PMs desceram atirando. Um caiu ferido.

...Mas você me traiu, me magoou, me desprezou...

Eu e as viaturas da civil paramos logo atrás. Por um fio, não nos chocamos com as patamos. Alguns carros, que vinham na retaguarda, freavam, fazendo uma sinfonia de pneus no asfalto.

...Naquela noite, no baile, você não sabe como eu sofri ao te ver com aquela garota. Eu sofri mesmo! Porque era amor o que eu sentia por você, tá ouvindo?


Eu e os outros companheiros da primeira DP corremos para dar cobertura aos militares. As patamos servindo de escudo. As latarias furadas e os vidros estilhaçados, pelos tiros. Era bala para todos os lados. Ouvíamos gritos nos botequins debaixo do prédio Balança Mais Não Cai. Em um dos botequins, um rádio tocava um samba bem alto.

...Mas fique sabendo que eu já tenho outro, ouviu? E o Evaílton me ama de verdade...

Os bandidos atiravam, enlouquecidos. De repente, o barulho de sirenes. Olhei para trás e não acreditei quando vi umas cinco patamos se aproximando. Vários carros estavam abandonados no meio da rua. Os companheiros, então, deixavam as viaturas e vinham correndo. Estavam armados até os dentes.

...Eu vou fazer com ele tudo o que não fiz com você...

O samba no botequim parou de repente. Os PMs haviam pedido apoio pelo rádio. Eram homens do batalhão da Tiradentes e do Quartel da Frei Caneca. O pessoal da PM queria vingar o soldado morto na ocasião do luto imposto pelo tráfico pela morte do King. Havia também dois carros da Civil. Em poucos minutos, a rua ficou infestada de policiais atirando. Uma chuva de balas caiu sobre os bandidos. Nunca vi tanto tiro. Eu estava fora de mim, por causa da overdose de adrenalina. Atirei feito louco, até ficar sem munição.

...Eu vou fazer bem gostoso com ele. No baile, eu vou passar bem na sua frente. Aí, você vai ver o que você perdeu, tá sabendo? Aí, você vai me dar valor, seu canalha...

Mais três patamos chegaram pela Benedito Hipólito e encurralaram os bandidos. Três meliantes, em um dos carros, foram fuzilados ao tentarem se evadir.

...Você vai aprender a nunca mais brincar com os sentimentos de ninguém. Seu canalha!...

O outro carro ainda chegou a arrancar, mas foi de encontro a um poste mais adiante. O cara no volante estava morto.

...Você não presta, seu canalha!...

Eu e os outros companheiros nos aproximamos e cercamos o veículo. Lá dentro, dois vagabundos feridos. Pediram para não serem mortos. Mas morreriam depois, no hospital.

...É isso o que você é, um canalha...

Alguns populares se aproximaram correndo. Os policiais comemoravam gritando. Nunca havia visto tal cena. Havia cheiro de pólvora e morte no ar.

...Canalha!

No botequim, o samba recomeçou.


Ufa! Trecho de perseguição policial no meu romance A Arte de Odiar


Dicas Literárias






Dennis Lehane já é conhecido dos amantes da literatura policial moderna. Nascido no subúrbio de Dorchester, Boston, este cidadão de 42 anos, fez grande sucesso no ano passado por aqui com Sobre Meninos e Lobos, que na mesma época chegou às telas, com Sean Penn, no papel principal. Este Gone, baby, gone, é anterior. Embora sem a contundeência do primeiro, Lehane consegue prender o leitor, principalmente a partir da metade do livro. Aliás, este é o seu principal defeito: o tamanho. Será alguma exigência das editoras americanas? Mas Gone...talvez conseguisse render muito mais com uma lipo que lhe tirasse umas cem páginas.
Assim como em Sobre Meninos...., este lançamento da Companhia das Letras, gira em torno do desaparecimento de uma criança. Só que neste caso, a menina Amanda MacCready não entra tem nenhuma participação na história a não ser a de desaparecida. Os protagonisatas são os detetives Patrick Kenzie e Ângela Gennaro, encarregados de investigar o desaparecimento. Ser humanos com seus medos, inseguranças e que cometem erros.
O que mais surpreende em Lehane é a construção do perfil psicológico dos personagens, a forma carinhosa em descrever a sua cidade natal e a caracterização dos tipos que habitam Boston, que chega a ser quase que poética. Em seguida, vai um trecho que é um exemplo de perfil psicológico bem definido. De qualquer forma, Vale a pena dar uma conferida nesse romance maduro e bem elaborado.


“A coisa funciona mais ou menos assim. Uma mulher inteligente, bonita e com amor-próprio entra num lugar como esse, e os homens põem os olhos naquilo que nunca tiveram e nunca poderão ter. Então eles são forçados a encarar as deficiências de caráter que os levaram a um lugar sórdido como aquele. Imediatamente, raiva, inveja e desgosto irrompem em seus cérebros atrofiados. E eles decidem fazer que a mulher pague – por sua beleza e, principalmente, por seu orgulho. Eles resolvem dar o troco, prendê-la contra o balcão, cuspir e vomitar nela.”




Mudando completamente de clima, O Assassino Em Mim, não se trata de um lançamento e sim, de um relançamento que é super bem-vindo. James Meyers Thompson (o senhor da foto acima), nascido em Oklahoma, não é bonzinho e nem carinhoso, muito menos poético. Seu universo é feito só de prostitutas, desajustados, bêbados, traficantes ou qualquer personagens do submundo. Estes são apenas perfumaria nos seus romances imorais, cínicos e violentos. Seus protagonistas, transitam pela superfície, através de golpes e de disfarces incríveis e estão dispostos a tudo para sobreviver na sociedade, como ciadãos aparentementecomuns.
Foi assim em Os Imorais, que virou filme de sucesso em 1990, com a inesquecível Angélica Huston. Foi assim em Os Implacáveis. E não é diferente neste relançamento da Ediouro, que fala sobre um psicopata. Mas não um psicopata comum. Ele é o xerife da cidade. E até cometer o seu erro, ele é visto como um cidadão modelo.
Todo narrado na primeira pessoa, O Assassino em mim, mergulha na mente doentia do xerife Corey e mostra de forma assustadora toda a engrenagem que dispara o sei desejo de ferir, enganar, iludir e matar. Chegamos até a nos perguntar como tanta crueldade pode ter saído da mente de um pacato senhor de idade, que faleceu em 1977. Abaixo, dois trechos do livro que mostram a preciosidade com que Thompson descreve a personalidade do monstruoso xerife Corey.

“Por ele o papo terminava aí, mas eu tinha outros planos. Apoiei o cotovelo no balcão, cruzei um pé por trás do outro e dei uma longa tragada em meu charuto. Gostava do sujeito – tanto quanto a maioria das pessoas, é verdade -, mas ele era bom demais para eu deixar passar. Educado, inteligente: caras como aquele são o meu prato preferido.”

Ou

“O sorriso em seu rosto ia ficando forçado. Podia ouvir os sapatos dele rangerem,enquanto se contorcia. Se existe uma coisa pior do que um chato, é um chato piegas. Mas, como enxotar um cara tão legal e tão amigo, que lhe daria a camisa se você pedisse?”

** Eu ainda corro perigo. Minha impressora, meu teclado, minha torre e meu monitor estão realmente tramando algo contra mim. Enquanto enquadro estes elementos por formação de quadrilha e faço um upgrade, o Bala vai ficar uns dois dias desatualizado.

Mas não por falta de munição.

Até o próximo post

Sexta-feira, Agosto 19, 2005

POST SINISTRO

O Globo - 2003
Existe algo mais assustador?

Sim, este meu conto que foi publicado no site Klick Escritores




DANÇA DO VENTRE



Do sol e do mundo nada sei dizer,
que os homens se atormentam é só o que posso ver.
Goethe
(Poeta alemão, 1749 - 1832)


Ah, olha só a vadia! E encolhe, e solta, e mexe, e sacode e rebola. E eu, a serpente, vou saindo do cesto, maravilhada e à mercê dos seus encantos. Como o velho leão de circo que faz o seu número para ganhar a suculenta carne no final.
E o meu número é arrastar-me até este lugar sujo e mal freqüentado, para deixar-me ser enfeitiçado por ela. Deus sabe como tenho resistido todos esses anos. Não posso, não devo, dizia eu — um homem bem sucedido e chefe de uma família adorável —, enquanto o demônio (um sujeito simpático e de boa conversa) me fazia deixar o meu confortável escritório e, nesta noite de chuva, vir até a um lugar sórdido como este, na parte suja e feia da cidade, onde, só ou em bando, vive-se em apartamentos apertados ou em vagas. Um lugar de gente ansiosa e disponível, onde o calor humano é mais barato.
Olho em volta e vejo que não sou o único. O que não me serve de consolo, pois me considero especial, levando em conta de onde venho e que o grande herói da minha vida foi o xerife Anderson.
Mas deixe-me falar sobre o xerife Anderson. Gosto de chamá-lo assim, porque sou de uma pequena cidade no interior, onde há fartura e prosperidade. Onde os homens vestem-se de vaqueiros, desfilam pelas ruas em carros importados, possuem enormes fazendas e promovem rodeios.
O delegado, ou xerife Anderson, era o segundo homem mais poderoso da cidade. Acima dele, estava o Reverendo Gomes. E abaixo dos dois, o prefeito. E não podia ser diferente, em uma cidade onde não há carnaval, onde se reza antes das refeições, onde comentários terríveis e pesadas maldições caem sobre os que desprezam a missa aos domingos e onde a igreja fica no meio da praça principal, no meio da cidade, no centro de tudo e tudo gira em torno dela. Nas noites de lua cheia, no verão, quando o vento oeste vem trazer o ar quente e seco do cerrado, as moças correm para os seus quartos, molham suas coxas com água fria e imploram ao senhor para que não as deixe cair em tentação. Enquanto os rapazes bolem em seus sexos, pedindo ao pai para livrá-los de todo o mal.
Namorava-se, casava-se, procriava-se. Como deve ser a vida. Não havia lugar para desvios.
A vida deve ser uma estrada reta em direção ao Senhor.
Era o que ouvíamos o Reverendo Gomes dizer em suas missas.
E nas tardes solitárias, diante da TV, ou nas longas caminhadas pelos campos, eu costumava pensar na tal estrada. E sentia medo. Estaria eu no rumo certo? O que eu deveria fazer caso quisesse conhecer outros caminhos? Então, em uma das aulas de catecismo, o Reverendo me respondeu com o seu sorriso frio:
“Não pode haver outro caminho, meu filho. Lembre-se disto!”
Eu não gostava do Reverendo Gomes. Na verdade, o temia. Usava um enorme crucifixo pontiagudo, pendurado em seu pescoço, e seus olhos pareciam ler pensamentos. Às vezes, tinha a impressão de que ele podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Como um deus. Sempre me lembrava dele em noites de tempestade.
E lá está ela no palco. Se contorce, faz gestos com as mãos, balança a saia colorida e remexe, e ginga, e encolhe, e solta. Vagabunda! Usando o ventre sagrado para ganhar a vida. No ambiente enfumaçado e escuro a minha volta, outros idiotas se deixam envolver pelo seu feitiço. Como eu, devem ter suas famílias e voltarão para casa embriagados, exaustos e sem dinheiro.
Tomo um gole do whisky barato e fecho os olhos.
Ah, que delícia! Tenho agora sete anos e estou debaixo dos cobertores. É noite de tempestade e minha mãe me conforta: ‘Não tenha medo, filhinho. Deus está um pouco zangado com alguém. Mas não há nada a temer.’ E eu que havia roubado frutas na casa do vizinho, dito palavrões no jogo de bola e brigado com algum amiguinho no colégio, só tinha o Reverendo Gomes na mente. Era ele que estava zangado e sua ira haveria de cair sobre mim.
Agora estou saindo da escola e encontro o xerife Anderson. E ele me dá uma carona em sua rádio-patrulha. Todos os garotos sonhavam em andar ali, ao lado daquele homem que era a imagem da força e da coragem, que carregava uma arma na cintura e protegia nossa comunidade dos maus elementos, daqueles que haviam saído da estrada.
Mas ele só convidava a mim.
Uma tarde, eu desfilava, orgulhoso, com ele pela cidade, quando percebi que não estávamos indo para a minha casa, conforme o combinado.
“Quer dar uma volta?”, ele perguntou, sorrindo.
Estava quase na hora do almoço, mas como dizer não ao xerife Anderson? Apenas balancei a cabeça, obediente.
“Vamos lá em casa.”, ele disse com a voz suave e baixa. Como um rapaz sussurrando no ouvido da sua garota, dentro do carro, num lugar escuro e deserto. “Hoje vou descarregar a minha arma e deixarei você segurá-la.”
A casa do xerife Anderson ficava no lado bonito da cidade, perto do rio. Era grande (dois andares, uma piscina no jardim), alegre e barulhenta.
Por isso, estranhei ao encontrá-la vazia naquela tarde.
“Os meninos estão viajando com Nora”, ele falou, subindo a escada de madeira que levava aos quartos.
Nora era a esposa do xerife. Uma mulher delicada e quieta. Até quando sorria era triste.
“Venha”, disse ele.
Algo me dizia para não subir. Havia um sorriso estranho em seu rosto. Subia, sem pressa, tirando o seu cinturão. O ranger da madeira me assustava.
“Não tenha medo”, convidou-me.
Medo? Por que eu haveria de ter medo do xerife Anderson? Meu herói! O mais forte e corajoso. Nem quando o vi fechar a porta do quarto e tirar a sua camisa, senti qualquer tipo de medo. Chegou a estender a arma para mim, mas quando fui pegá-la, voltou atrás e falou:
“Só deixarei você segurá-la, se prometer que não contará a ninguém sobre o que está acontecendo aqui.”
Eu balancei a cabeça, obediente. Faria tudo o que quisesse. Nos meus sete anos de idade, ele era o meu xerife Anderson. O mais forte e corajoso. Mesmo quando fechou as cortinas e me olhou com aquele sorriso mau, ainda o admirava.
“Não tenha medo.”, falou, de novo, como o rapaz para a sua garota, dentro do carro. “Seja bonzinho e serei bom pra você também.”
Achei estranhas as suas palavras. Ainda, ao vê-lo aproximar-se com aquele sorriso ruim, seria capaz de fazer qualquer coisa para ele.
Não me lembro quando isso aconteceu. Acho que foi um pouco antes dos assassinatos começarem. O xerife Anderson era o melhor amigo do meu pai e participamos da fase mais difícil da sua vida.
O primeiro crime aconteceu no dia em que fiz oito anos. Os policiais vieram chamá-lo às pressas, no meio da festa.
Haviam matado um jogador.
Era também o único negro da cidade. Chamava-se Wellington, cinqüenta e poucos anos. O nome era de branco, mas tinha o destino da sua raça. Pobre e sem oportunidades. Há quase um ano havia chegado. Sem mulher, sem família, sem história. Era o cozinheiro do restaurante na praça principal e morava numa casa pequena, nas bordas da cidade. Um homem pacato e simpático. Tinha sonhos e trabalhava cantando.
Uma noite, comentou no trabalho que havia ganho um bom dinheiro na mesa de carteado, num salão de jogos, em um município próximo. Entre nós, não se apostava nunca e o fato correu de boca em boca.
O Reverendo Gomes fez um longo sermão na missa, no domingo seguinte. O jogo é um vício e escraviza o homem, disse, aos berros. Tinha um olhar terrível e senti medo. Ele chegou a nos lembrar as palavras escritas em letras douradas, numa placa, na entrada da nossa cidade:
O TRABALHO LIBERTA.
Senti pena do Wellington. Ele havia saído da estrada. Procurei por ele na missa, mas não o encontrei. O negro não ia às missas. E não ouviu o sermão. Talvez o Deus dos negros fosse diferente, eu pensava. Talvez não fosse um Deus tão bom. Não o salvou da sua morte horrível: dias após a missa e do discurso do Reverendo Gomes, foi encontrado com a garganta cortada e jogado à beira da rodovia.
A cidade logo o esqueceu. Mas algumas noites mais tarde, mataram um alcoólatra.
O velho Josias. Um pobre diabo, ex-palhaço de circo. Vivia de esmolas e de pequenos serviços. Um sujeito inofensivo. Ainda me lembro de vê-lo caído na praça, quase todas as manhãs, quando eu ia para a escola. As pessoas olhavam para ele com desprezo. Eu o olhava com curiosidade. Um dia, o encontrei, não caído, mas gritando coisas confusas. Parecia estar alegre. Minha mãe segurou o meu braço e disse: “não olhe para este pobre homem, ele saiu da estrada. Você já se esqueceu do sermão do reverendo?” Não compreendi o que havia de errado com o Josias. Ele parecia estar feliz.
Os crimes abalaram o sossego da cidade. E nosso tormento estava longe de terminar.
Na semana seguinte, mataram um viciado em drogas.
Foi o André, o criador de casos, filho de um fazendeiro da região. Como outros rapazes ricos e infelizes, era conhecido pelas brigas e as arruaças que aprontava. Muitos o odiavam, mas o suportavam, assim como são suportados os arruaceiros ricos e poderosos. Alguns o viam até como o possível culpado pelos crimes. Por isso, fiquei surpreso ao ouvir minha mãe dizer que deveríamos ter pena da sua alma, pois ele havia saído da estrada. Foi neste dia, então, que compreendi que deveria haver alguma coisa que nos afastava do caminho que nos leva ao senhor. E deveria ser algo muito forte, a ponto de alguém se arriscar a receber a ira dos céus e do Reverendo Gomes.
Em meio a tudo isso, a polícia não encontrava nenhuma pista para desvendar os assassinatos e eu sofria ao ver o padecimento do xerife Anderson. Uma noite, ele apareceu em nossa casa. Fazia o calor seco de março e fomos conversar no varandão. Ele tinha um ar cansado, havia olheiras sob seus olhos, e parecia mais magro. Minha mãe lhe serviu um copo de suco, ele me colocou em seu colo. Então, quase chorando, nos confidenciou a sua intenção de deixar o cargo, devido ao desgaste causado pelos crimes. Falou das dificuldades. A falta de pessoal, de recursos. E ao ver aquele homem ali, diante de mim, tão frágil, senti algo parecido com dor e decepção. Recusei-me a acreditar tratar-se do meu herói. O meu xerife Anderson.
A conversa foi interrompida por um telefonema inesperado.
Haviam matado um homossexual.
O Ezequiel, um rapaz solitário que trabalhava no único salão de cabeleireiro da cidade. Havia sido visto usando roupas femininas em um baile, na capital. Virou motivo de piadas na região. Ria-se quando passava. Evitava-se falar com ele e seu comportamento era vez ou outra comentado nos sermões. Na véspera da noite em que foi encontrado estrangulado e com a cabeça enfiada no vaso sanitário do casebre onde morava, ainda cheguei a vê-lo chorando, ao ser humilhado por alguns rapazes, na praça. Não sei como suportava. Não entendia por que não voltava para estrada e acabava com todo aquele sofrimento.
Mas os crimes não pararam por aí.
No dia seguinte, mataram uma prostituta.
Em nossa cidade não havia mulheres deste tipo. A Marlene era vista apenas como uma mãe-solteira que, para sobreviver, trabalhava como garçonete em um bar de estrada. Mas descobriu-se que ela também dançava numa boate ordinária em uma cidade próxima. Lá, nas horas vagas, se vendia para homens. Seu filho era meu colega na escola. Ainda me lembro da sua solidão no recreio e da bronca que recebi por tê-lo incluído na lista de convidados da minha festa de aniversário. Nunca entendi bem por quê. Será que ele também havia saído da estrada?
Mas o pior estava apenas começando.
Duas noites depois de Marlene ser encontrada morta, o xerife foi jantar conosco. Eu gostava de recebê-lo. E permiti que assássemos um dos meus coelhos para servirmos na ceia. Mas ele chegou nervoso e quase não tocou na comida. A sua tristeza me fazia sofrer e, após a janta, fui caçar vaga-lumes por entre a plantação. Não suportava vê-lo assim.
A noite era de estrelas e uma lua cheia iluminava os campos.
Também iluminou os rostos do Reverendo Gomes e do prefeito quando chegaram. E vi algo terrível neles. Entraram em minha casa e, logo depois, voltaram a sair, com o xerife. Escondi-me por entre as folhagens e ouvi tudo:
“Não adianta, Anderson, já sabemos de tudo.”, o primeiro a falar foi o Reverendo.
A palidez no rosto do meu herói, realçada pela luz da lua.
“Como?”, perguntou.
“Não importa.”, disse o prefeito, “Já sabíamos dos seus crimes desde o início.”
“Eu tentei me controlar, mas não consegui, não consegui.”, Anderson, num fiapo de voz.
“Nunca o impedimos porque todas as vítimas eram pessoas das quais gostaríamos mesmo de nos livrar.”, revelou o prefeito.
Então é isso? Meu herói havia livrado a cidade de todos os que haviam saído da estrada? O que mais eles queriam?
Anderson parecia ter envelhecido uns dez anos.
“Depois, descobrimos sobre você e a Marlene.”, disse o pastor, “Meu Deus, você é casado!”
“Mas...foi apenas uma aventura...”
“É o fim, xerife. Está tudo acabado”, sentenciou o prefeito.
“Não pode haver outro caminho, você se esqueceu? Um homem casado não pode ter olhos para outra mulher.”, completou o Reverendo.
Anderson parecia sem forças.
“Vocês devem me perdoar....”
“Venha. Vamos dar uma volta”, disse o prefeito tomando-lhe o braço.
Enquanto eles partiam, corri para casa e, aos gritos, contei aos meus pais o que havia visto. Sentia que algo terrível iria acontecer. Precisava salvar o meu herói.
Não consegui dormir. Ardi em agonia durante toda a noite.
Na manhã seguinte, a notícia: haviam matado um adúltero. O Xerife Anderson.
Fora encontrado em um matagal. Um tiro na cabeça e os olhos arrancados.
Um clima pesado encobriu a cidade. Havia tristeza e medo nas ruas.
Não me lembro de ter chorado tanto em minha vida.
Após o enterro, o Reverendo foi até a nossa casa e procurou o meu pai. Caía a primeira chuva de outono e enfrentei o lamaçal para segui-los, secretamente, até o celeiro, onde eles tiveram uma conversa terrível.
“Então foi mesmo ele?”, perguntou meu pai, abatido.
O pastor, que eu havia visto fazendo um discurso emocionado ao pé da sepultura e consolando a viúva e seus filhos com palavras de carinho, agora respondia com seu sorriso gelado:
“Sim, foi ele. Matou Marlene porque descobriu que ela continuava a sair com outros homens. Anderson estava apaixonado e lhe dava dinheiro para que ela não se prostituísse. Mas você sabe como são as mulheres deste tipo. E nós o matamos por ter sujado o nome da sua família com uma vadia repulsiva.”
“E quanto aos outros? Por que ele matou todos?”
O Reverendo Gomes falou como se estivesse fazendo o seu sermão:
“Um homem que toma a estrada errada, muitas vezes se sente tão mal, por ser obrigado a se igualar aos outros perdidos, que ao invés de mudar o seu caminho, prefere livrar-se deles. É mais fácil.”
“E como vocês descobriram sobre ele e Marlene?”.
Gomes sorriu um sorriso cínico, para responder:
“Você já se esqueceu de que é para mim que as pessoas se abrem no confessionário?”
“Meu Deus, Anderson era meu amigo!”, meu pai levou as mãos ao rosto, num desalento total, “E os seus olhos arrancados! Como vocês puderam fazer isto? Que horror!”
As mãos do pastor seguravam o enorme crucifixo pontiagudo em seu peito. Ainda estava manchado de sangue e senti um arrepio.
“Um homem casado não poderia ter olhos para outra mulher.”, disse.
Então, Gomes pousou suas mãos no ombro do meu pai e a sua voz gelou o ar:
“Esqueça, filho. Você será o nosso segundo homem forte, a partir de agora, entende? A vida é assim. Tem que ser assim. Não há outro caminho.”
E mexe, remexe, rebola, sacode, ginga, encolhe e solta. A saia colorida completa o seu feitiço de bruxa. Ao ver aquela vagabunda sobre o palco, compreendo bem a força terrível que pode fazer um homem abandonar a estrada. Mas não podia ter acontecido com ele. O xerife Anderson, meu herói. O mais forte e corajoso. Aquele por quem fiz e faria tudo o que quisesse. E que foi destruído por uma ordinária como esta que dança a minha frente agora.
O show termina e a vejo aproximar-se da minha mesa. Deve ter recebido o recado do garçom. Senta-se sorrindo, profissionalmente. Se fosse eu o Corcunda de Notre Dame, ela ainda apostaria nesta sedução barata.
Deus é testemunha do quanto me esforcei para não ceder como o pobre Anderson. Ah, todos esses anos, tive que lutar contra um inimigo poderoso dentro de mim para não vir a lugares como este. Sabe lá o que se passa em minha mente e me faz desejar rastejar atrás de mulheres imorais. Eu adoraria ser humilhado e humilhá-las; ser maltratado e maltratá-las. E na intimidade, sempre desejei sofrer e fazê-las sofrer dores terríveis. Tão terríveis, que seriam marcadas a ferro em nossas mentes para jamais esquecermos de tal horror. Como o fim de um sonho, a desilusão, a perda da inocência.
Mas não deixarei que a sua magia surta efeito.
Penso em lhe oferecer uma bebida, mas ela mesma chama o garçom. Precisa aumentar o faturamento da casa, se quiser continuar a dançar aqui. Exibo um sorriso falso, enquanto o garçom nos serve. Depois, brindamos.
“A esta noite maravilhosa”, ela, com uma sensualidade vulgar.
Ao xerife Anderson e a todos os que você prejudicou, sua puta.
A vida deve ser uma estrada contínua em direção ao Senhor.
E nesta noite, morrerá uma dançarina do ventre.


Por onde anda você?

As mulheres
Depois de um longo percurso
Ficam louras
Como último recurso


Eliane Pantoja Valdya
Da antologia de poesia, crônica e conto Contemporâneos, organizada por Cairo Assis Trindade, em 1993



Fui dar um pulo ali embaixo e volto no próximo post.

ATENÇÃO: Aliás, tenho discutido minha relação com o meu micro. Após entrar em luta corporal com ele, consegui convencê-lo de voltar a funcionar. Mas neste exato momento, ele está me olhando de modo sinistro. Por isso, se não houver post nos próximos dias, comuniquem à polícia e digam que não foi acidente.

Segunda-feira, Agosto 15, 2005

RAPIDINHAS




"(!!!)"
Praia do Francês/AL - Neste país, apesar de tudo, salva-se a natureza...
“Nem todo mundo tem o dom de odiar.”, Mayrah parecia excitada, “Quero dizer, odiar mesmo, entende? Saber construir um palácio de felicidade com os escombros do inimigo. A arte de odiar não está no mal que causamos e sim em quanto tempo conseguimos enganar, iludir... o mestre na arte de odiar vive até nas profundezas do amor. Como um tubarão. Você olha aquele mar azul, lindo! Mas lá embaixo, sob aquela beleza toda, está o ódio. O ódio nos faz crescer, nos fortalece. Não importa o preço que se tenha que pagar. Tudo na vida tem um preço!”, cada vez mais excitada: “O ódio me deu forças pra fazer o que fiz. Dormi com homens terríveis. Mas sempre tirei algo deles. Dei pra bandidos, bêbados, doentes, loucos. Fui currada; apanhei e também bati muito; fui obrigada a amar mulheres diante dos seus maridos, a permitir que mijassem em cima de mim. Fui fodida por três, cinco, dez ao mesmo tempo. Pirocas enormes esporraram na minha cara. Pouca gente suportaria passar pelo que passei...”

A puta Mayrah, justificando o título do meu romance policial, A Arte de Odiar.

“Não saio com mulheres famosas, pois não pago acima da tabela.”


O grande filósofo Tim Maia.

“Prefiro os malvados aos imbecís. Porque os malvados, às vezes, descansam.”

Grande Alexandre Dumas Filho!





Festinhas do Bem

Eu acabei de me convencer de que sou mesmo um primata do período paleozóico. Na minha juventude, bem antes da AIDS, fui a algumas festinhas onde os primatas tiravam a roupa. Pois a matéria de Nina Lalli, no Village Voice da última sexta-feira, dia 12, mostra que a a nova moda entre os jovens novaiorquinos neste verão é as chamadas clothes -swapping party—STAT, ou seja, festinhas em que as pessoas vão para trocar roupas. Na terra do consumismo e da opulência, isto me parece uma boa idéia. Pega-se aqueles sacos e bolsas cheias de roupas velhas que você há anos diz que vai dar aos pobres e nunca o faz, e reúne amigos que tenham o mesmo problema para fazerem uma divertida troca. Sua casa vira um brechó. Só que com comidinhas, amigos, música. Não há grana envolvida, é tudo troca mesmo.Então, fiquei pensando...e se fizesse o mesmo com livros. Afinal, nem sempre despertamos pelos livros que compramos, algum valor sentimental. A idéia não seria nova, pois a Suzana Vargas há anos já promove o Livros Na Mesa, onde há uma troca de livros que ocorre paralelamente ao encontro de um autor.Mas bem que essa ótima idéia poderia ser ampliada e ocorrer em todos esses saraus, encontros, rodas de leitura e eventos literários que há por aí.
Dica de ConcursoJá estão abertas e vão até 30 de setembro, as inscrições para o 16o. Concurso de Contos Paulo Leminski. Os prêmios vão de R$ 500 a R$ 1.300., respecitivamente, do quarto ao primeiro colocado. Aqui vai uma minuta do edital, e maiores informações devem ser obtidas nas páginas: www.unioeste.br/eventos/pauloleminski2005/.O Concurso destina-se a todas as pessoas interessadas. Cada concorrente poderá participar com apenas um trabalho inédito, de TEMA LIVRE que ainda não tenha sido premiado em outro concurso.Consideram-se inseridas as obras entregues sob protocolo ou enviadas pelos correios (em registro com A.R.), endereçadas à Unioeste/Campus de Toledo ou à Biblioteca Pública Municipal.Unioeste/Campus de Toledo/PR.R. da Faculdade, 645 CEP 85903-000Caixa Postal 250 Toledo/PR.Biblioteca Pública Municipal de ToledoAv. Tiradentes, 1165 CEP 85900 230 - Toledo/PR.O conto deverá ser apresentado em 02 (duas) vias, em língua portuguesa ou espanhola, digitado em espaço 1,5 (um e meio), fonte Arial, tamanho 12 (doze), de um lado só do papel, com o mínimo de 2 (duas) e o máximo de 10 (dez) páginas.Deverá constar dentro do envelope que contém o trabalho outro menor lacrado contendo: título do conto, pseudônimo, nome completo, endereço, telefone, R.G., e-mail e grau de instrução do autor. Na parte externa do envelope, deverá constar apenas o pseudônimo e o título do conto.A comissão julgadora será composta de 7 (sete) membros, de reconhecido nível intelectual, sendo sua decisão soberana e irrecorrível.

E Boa Sorte, meus queridos!


Eu fui ali num instante e volto no próximo post. É uma ameaça.

Sábado, Agosto 13, 2005

ESCRITORES QUE ROUBAM, O COQUEIRO-AVESTRUZ E TOME BALA, MUITA BALA


Alguém já viu um coqueiro-avestruz? Parece que até a natureza está envergonhada com o cenário político do país
(Foto - Praia do Carro -Quebrado/AL)

Bem, meus queridos. Cheguei de viagem e chapa está quente. E tome bala!!!!


“Oh, desejo! Este bonde seguindo barulhento pelos becos estreitos.”
Blanche Dubois.
Que saudade de Tennessee Williams!


“Sou puta, sim. Mas nasci limpinha como as outras.”

Norma Sueli, de Navalha na Carne. A puta mais maravilhosa do teatro brasileiro. Alô, Plínio!


“O dono deste apartamento deve ser um sujeito gordo e arrogante. Gordo e arrogante! Um cafajeste oportunista e bem nojento. Desses tipos que costumam vencer na vida.”

Ana, a maliciosa personagem da minha peça Esta Noite É Verão No Inferno, está falando sobre o proprietário do apartamento onde mora, mas poderia certamente estar se referindo a algum político que tem aparecido nos noticiários recentes.


“Não confie em garotas tímidas, olhando para o chão. Na verdade, elas estão olhando para o seu pau.”

Susan and Nancy, duas sapatas de Nova Iorque
Mais detalhes, na próxima bala





TODO ESCRITOR ROUBA

Se os nossos digníssimos deputados juram pela mãe que não o fazem. Eu não tenho o menor pudor de afirmar que roubo sim, como todo escritor. Se é que sou um escritor. Mas confesso que roubo para escrever. Já roubei de velhinhas, de crianças, de aleijados, de grávidas, de ceguinhos. Já cheguei a roubar de mim mesmo. E não tenho a menor vergonha de declarar em público. Veja o que mandei para o Digestivo Cultural e que o meu xará Julio Dario postou no último dia 06, fazendo, inclusive, menção a este blog:

BALA PERDIDA
Eu ainda não me considero um escritor. Nelson Rodrigues, provavelmente, diria que estou num estágio assim, assim...mas faço parte dos escrivinhadores que amam escrever. Acredito que todo escritor não passa de um ladrão canalha e sórdido. Quando um escritor vai ao supermercado, ele não vai apenas ao supermercado. Ele vai roubar. Ele tira suas idéias de cenas protagonizadas por pessoa indefesas. Lá estará ele na fila do supermercado com seu olhar astuto de batedor de carteiras. Basta que algum desavisado lhe dê uma chance e...CRAU! Nas ruas, nos bares, nas praias, no metrô. Lá estará ele roubando de senhoras de idade, de mocinhas indefesas, de pais de família, de crianças e até de policiais. Uma sordidez total. Acho que um bom escritor vive disso, pegar as mediocridades nossas de cada dia e transforma-las em arte. Quem manda a gente dar bobeira? Se cada ser humano tivesse o dom de perceber quanta arte existe na existência de cada um, esse gatuno não teria mais razão de ser. Rubem Fonseca tinha razão quando, a certa altura de O Caso Morel, escreve: “Mas que vida ordinária a sua. Advogado, policial e escritor. Sempre com as mãos sujas.”

Não concorda? Então, cai dentro! Acesse o Digestivo pelo link ao lado, confira no post Bala Perdida (06.08.05) e deixe mensagens. Ou mande comentários aqui mesmo. Se concorda, também. Mas faça alguma coisa. Não leve bala calado.
DEU NO NEW YORK TIMES

O último suplemento literário do NYT analisou três livros sobre a proliferação de bases militares americanas no exterior e constatou que existem hoje 725 bases espalhadas pelo mundo e mais 969 em território americano. Alguém tem dúvidas de que Hitler não está dando boas gargalhadas?
Depois disso, só com um pouco de poesia...

APELO

Lá fora, tudo parece estranho.
As ruas gritam como um assobio

- Não saia de casa. Você ainda é muito ingênua.

- É por isso que eu cobro
cem reais a hora.
(A inocência é sempre mais cara.)

O nome do cara é Tolomei. Guilherme Tolomei. E costuma trocar bala aqui.








A Editora Bom Texto e os quarenta ladrões...ops! Os quarenta contistas.
Sempre prestigiando os novos na literatura, a Bom Texto lançou esta coletâneacom os quarenta finalistas do concurso Contos do Rio, promovido pelo Caderno Proasa & Verso, do jornal O Globo. Entre eles, o vagabundo que vos fala, com um conto que já postei aqui (Vide No Elevador da Paixão).








...A solidão os uniu, o vazio os precipitou no mesmo abismo. Presos um ao outro desabam na sordidez. Ele a protege, defende. Ela o mantém. Mas é tudo provisório, arremedo de salvação. Foi assim desde o começo. Desde que decidiram dividir suas misérias. Trabalham para sobreviver, não têm alternativa. Dinheiro é o que importa. Contas pagas, barriga cheia, roupas novas...Mas isso parece pouco, parece nada. Sobreviver é morrer um pouco ao fim de cada dia. Trabalham à noite. Morrem de dia, na cama de casal, túmulo duplo.

Trecho do conto Condenados
Um dos Contos do Rio
O nome dele é Campelo. Wagner Campelo. Um dos quarenta ladrões...Ops, quarenta escritores. Esse mau elemento também gosta de trocar bala. aqui. E tem um blog, Quase Escritor. Link ao lado.
O quê? Quer mais bala? Então, segura essa!
Quando tudo acabou, chamei o canalha para uma conversa. Ele me levou até a janela, de onde se via o mar. Lá, me identifiquei: “Detetive Lacerda, nona DP. Quero saber sobre Otávio Brandão.”
O sujeito não escondeu a surpresa: “Isto não é hora. Espere a turma sair.”
“Não vou esperar nada. Sei que vocês tinham um caso.”
Marcelo examinou os meus olhos. Queria certificar-se de que não era um blefe. E era.
“Não é bem assim. Ele foi meu professor, me ajudou a montar esta oficina...”
“A mulher dele falou de vocês.”, blefei de novo.
“Não acredito. Virgínia não perceberia, era indiferente a ele. Posso pegar um cigarro?”
“Não. O que você quer dizer com indiferente?”
“Eles tinham um casamento de fachada. Posso pegar um cigarro agora?”
“Não. O que você fez na noite do crime?”
“Dei uma aula. Pensei em sair depois, mas o temporal me fez desistir. Por favor, preciso fumar!”
“Espere. No telefone você disse que dá aulas até aos domingos. Mas estou sabendo que antes você não dava (mais um blefe). O que foi? Está sem grana? A fonte secou com a morte de Otávio?”
“Eu não sou um aproveitador.”, não parecia estar ofendido, embora quisesse me convencer do contrário. “Ele me ajudava de vez em quando, sim. Mas não precisava me sustentar.”
“Sei, um filhinho de papai.”
Marcelo, sério: “Acho horrível esta expressão filhinho de papai. Não sou nada disso.”
“Não?”, circulei os olhos pelo apartamento sofisticado.
“Não sou, não. Quando meus pais descobriram a minha homossexualidade, eu tinha vinte anos. Fui expulso de casa. Eu tinha algum dinheiro na poupança, estava perdido e fui para Nova Iorque. Naquela época não era tão difícil viver como imigrante na América. Era só molhar — não é assim que vocês falam na polícia, molhar? (Como são hipócritas os canalhas!) — Era só molhar a mão das pessoas certas na imigração e pronto. Então, passei a dividir uma kitchenette, no Soho, com duas garotas de Ohio. Nancy e Susan. Eram lésbicas. Nos conhecemos através de um anúncio nos classificados do Village Voice. Desses do tipo ‘rapaz procura alguém para dividir despesas...’. Nova Iorque era muito alegre naquela época. E elas se apresentavam em um clube que promovia festas animadíssimas. O nome do show era...(rindo) era Nancy e Suzan em liquidação. Tudo pela hipoteca da mamãe. (Rindo ainda mais) Elas cantavam coisas como: ‘Não confie em meninas tímidas, olhando pro chão. Na verdade, elas estão olhando para o seu pau.’...”
“Vá direto ao assunto!”
“Para ganhar a vida, comecei a trabalhar em uma loja de conveniências. Eu fazia entregas a domicílio e trabalhava à noite. Ganhava bem porque era inverno e ninguém queria o horário noturno.”
“O viadinho que trabalhava na noite gelada pra sobreviver. Que história triste! Você quer que eu chore?”
“Não. Apenas me ouça.”
Não sabia por que ele estava se abrindo tanto. Ninguém se abre tanto para a polícia. Muito menos um canalha. Mas, por algum motivo, resolvi deixá-lo falar. Não sabia por que, mas eu não conseguia ficar irritado com Marcelo Peixe. “Prossiga.”, pedi.
“Aquele foi um inverno particularmente rigoroso e as calçadas estavam constantemente cobertas por uma fina camada de gelo. Eu levava tombos horríveis (leve afetação ao dizer ‘horríveis’)! Em um início de madrugada, fui fazer uma entrega em um hotel de luxo, perto da Madison. Levei um escorregão bem em frente à porta do hotel. Caí de bunda na calçada gelada e soltei um palavrão em português. Sempre preferi palavrões em português. Eles são mais fortes e permitem um desabafo maior. Gritar ‘porra!’ é mais reconfortante do que um ridículo shit ou merde ou...”
“Continue.”, eu não sentia mesmo raiva de Marcelo Peixe.
“Gritei um ‘porra!’ bem alto. Nesse momento um homem em um lindo sobretudo preto soltou uma gargalhada. Olhei para ele com cara feia. O desconhecido, então, me estendeu a mão e quando levantei, ele me perguntou em português se eu era carioca. O desconhecido era Otávio. Estava na cidade para uma conferência sobre literatura brasileira na Universidade de Nova Iorque. Havia viajado sozinho e no dia seguinte, era minha folga, e saímos. Ficamos até a madrugada em um restaurante italiano, na rua 46, discutindo sobre as diferenças entre Nelson Rodrigues e Tennessee Williams. Quando ele voltou para o Brasil passei a lhe telefonar.”
“Você estava apaixonado?”
“A primeira vez que liguei, caiu na secretária eletrônica. Otávio falava, enquanto, ao fundo, Chet Baker cantava (cantando) Ann, Wonderful one. You’re like the bluebird song. That breaks the summer’s dawn.”, eu realmente não conseguia ficar irritado com Marcelo Peixe, “Eu era muito jovem e me apaixonaria por qualquer um que tivesse Chet Baker cantando em sua secretária eletrônica.”
“E daí?”
“Por indicação de Otávio fiz um curso de verão sobre literatura clássica na Universidade de Nova Iorque. Quando o outono chegou, voltei ao Brasil. Fiz vestibular para Letras na Universidade Federal do Rio e passei a ser aluno de Otávio. Começamos, então, a ter um relacionamento. Eu me sustentava com as minhas traduções e com o meu trabalho como crítico literário em um jornal. Quando meu pai morreu, deixou este apartamento para mim. Otávio me ajudou a montar esta oficina e assim ganho a vida.”
“Satisfazendo vaidosos.”
“Sim, mas eles estão felizes. Precisamos viver de algum jeito.”
“O que mais você sabe sobre Virgínia Brandão?”
“Uma mulher fria e distante. Não amava Otávio, não ama ninguém. É uma escritora sem nenhum talento. Mas seria uma ótima atriz. Sabe manter as aparências.”
“Sei. Por acaso você sabe alguma coisa sobre um tal diário?”
“Sim. Acho que Otávio me falou alguma coisa. Por favor, os alunos querem ir embora.”
“Qualquer informação,”, tirei meu cartão do bolso e lhe dei, “me procure neste telefone.”
Olhando para o cartão, Marcelo sorriu.
“Desembargador Lacerda Muniz! E eu ainda perdi o meu tempo com você.”
“Isso é um problema seu.”



O detetive Lacerda fazendo o seu trabalho em A