Sábado, Julho 30, 2005

NO ELEVADOR DA PAIXÃO
















"Já ouvi acusarem você de escritor pornográfico. Você é?"
"Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes."


A bala perdida de hoje foi disparada por Rubem "Rubão" Fonseca e feriu o, então, ministro da Justiça do governo Geisel, Armando Falcão. E o ferimento deve ter sido grave, pois Feliz Ano Novo, livro no qual foi disparada a bala, acabou ficando proibido por mais de treze anos.

PÉROLAS DO COTIDIANO

Rio, numa manhã qualquer.
Duas faxineiras estão em um ônibus, indo para o trabalho.
Faxineira A: "Ai, que Demora!"
B: "Até parece que a Pavuna está ficando cada vez mais longe do Leblon"
A:"É essa avenida Brasil cada vez mais enrolada"

FOTO?

Ah, sim. A foto acima foi tirada na noite de autógrafos, na ocasião do lançamento do livro Congos do Rio, Editora Bom Texto. São quarenta contos, todos escolhidos no concurso do mesmo nome, promovido pelo jornal O Globo. Entre os felizardos, eu. Aí, vai o meu conto.

NO ELEVADOR DA PAIXÃO

Um. A desilusão chegou ontem à tarde, por volta das quatro.
Dois. Chegou, mas não sem antes avisar. Pois bem me lembro da noite em que a conheci, naquele bar barulhento e enfumaçado.
“Qual o teu nome?”, perguntei.
“Eles costumam me chamar de Vênus, na manhã seguinte.”
“É porque eles nem se lembram mais do teu nome.”
“Seu bobo. É porque amo como deusa.”, triste, “Mas há milhões de anos não faço ninguém feliz.”
“Mentira! Estou apaixonado por ti.”
“Cuidado, meu caro. A paixão é um elevador que sempre tem os cabos cortados. Você sobe; você despenca.”
Três. Ah, se eu pudesse voltar no tempo, teria pago o meu drinque e ido embora, evitando, assim, maiores despesas com o destino. Mas o meu coração apressado e algumas doses de Dimple me levaram à pior besteira que fiz na minha vida cheia de besteiras: “Pois não tenho medo de tombos e quero você.”
Quatro. Passamos a viver juntos e, agora, olhe para mim. Trancado neste quarto, enquanto o elevador cai. Olho em volta e as lembranças da nossa curta história parecem apressar a minha queda. Aqui, sobre a cabeceira, está aquela tarde cinzenta, em Paris. Compramos este abajur em um ateliê minúsculo, no Quartier Latin. Os donos eram um simpático casal de chilenos. Nevava quando saímos com o embrulho nas mãos. Nos abraçamos. Os agasalhos trazendo um calor agradável, quase humano. Para trás ficaram os acenos dos amigos. Adios, adios. Palavras ao vento, misturadas com a neve. Estávamos há uma semana juntos e eu não podia mais viver sem ela.
Cinco. Ali, pendurado na parede, está aquele fim de semana em Búzios. Almoçámos em um restaurante que pertencia a um velho pintor. Champanhe, frutos-do-mar; carinhos e beijos. Duas semanas juntos. Ela se impressionou com o quadro a óleo em exposição. Achei de certo mau gosto, mas ela insistiu e o comprei. Faria qualquer coisa para agradá-la.
Seis. Ali, no porta-retratos, está a noite em que ela falou pela primeira vez que era minha. Tiramos esta foto durante um jantar esplêndido, no meu iate. Durante um longo beijo, ela sussurrou as palavras em meu ouvido: “eu-te-a-mo”. Não me recordo de ter experimentado emoção semelhante. Naquele mesma noite, fizemos amor pela primeira e única vez. Foi tão intenso que cheguei a crer sermos Vênus e Marte em perfeita conjunção no céu. E o prazer que sentíamos se multiplicaria pelo ar em pequenas partículas de energia, mudando o destino de cada homem e cada mulher na face da terra.
Sete. Agora, está tudo acabado. Ontem, às duas, o tal Almeida me ligou: “Já tenho o que o senhor quer, doutor.” O Almeida, ou detetive particular J. W. Almeida, corresponde perfeitamente à imagem que eu fazia de um profissional do seu ramo. Um tipo sórdido. Mas também muito competente. Havia comprado um carro importado e um bom imóvel, esmiuçando os podres alheios, as fraquezas humanas. Já posso imaginá-lo investigando esposas infiéis, dormindo com elas, chantangeando-as e não cumprindo as promessas feitas nas camas dos motéis. ‘O que é isso, amorzinho? Você está sendo boazinha comigo e juro que não vou contar nada ao seu marido. Não acredita em mim? Então, fique fria.’ Mas na manhã seguinte, entregava a coitada aos leões: ‘Lamento, doutor, mas sua mulher está mesmo pulando a cerca. O sujeito me contou até que ela gosta de fazer isso e aquilo na cama. Não é verdade? Então. Sinto muito.’ O cafajeste tem uma pasta para cada caso. E todos recebem um título: ‘o caso da dona-de-casa e o vizinho’, ‘do executivo e a secretária’, ‘do empresário e seus rapazes.’ O nosso chama-se o ‘caso da Vênus Insaciável.’ E o safado nem sabia do que os homens costumavam chamá-la na manhã seguinte.
Oito. Eu e o patife nos encontramos, por volta das quatro, em um bar discreto, na Lagoa. Ele abriu a tal pasta e mostrou-me toda a sujeira. Fotos, fitas e relatórios. Tinha os horários dos encontros e os codinomes dos amantes, já que, “por questão de ética, não posso dar os seus nomes verdadeiros. Entendeu, doutor?” Disse o canalha, como se conhecesse mesmo alguma ética. Na lista estavam o‘ carente da Urca’ (sofria com a esposa frígida), o ‘mesquinho do Leme’ (comerciante judeu, procurava sempre os motéis mais baratos) e o ‘narcisista da Barra’ (usava gravatas italianas e exigia quartos espelhados). O último havia sido o ‘intelectual do Leblon’ (recitava poemas e gostava de vinhos importados). Um dos encontros se deu em um sarau de poesia, no Centro. No meio da discussão literária, segundo o Almeida, “as mãos aflitas dos amantes percorreram as coxas um do outro, a procura das partes que lhes interessavam”. Nas conversas ao telefone, gravadas pelo detetive, o ‘intelectual’ pedia: ‘Quero te ver com aquela lingerie cor de neve’. E ela devolvia palavras em fogo: ‘Tudo bem. Você será bem-vindo dentro de mim. Mas para entrar, a senha será o seu carinho.’
Nove. ‘A Vênus Insaciável’! Hoje ela disse que iria embora. Enlouqueci. Antes do jantar, coloquei no seu vinho algumas pitadas do veneno comprado na última viagem ao Oriente, o qual, segundo o rótulo, mata em até dez minutos. Depois, me retirei, dizendo estar indisposto. Ela continuou em silêncio, como tem ficado nos últimos dias.
Dez. Dez minutos. Não resisto e vou até a sala.
Está caída, debruçada sobre a mesa. O rosto contorcido, encoberto pela cabeleira loura, não prejudicou a sua beleza. Meu coração se racha, mas só há um deserto de alternativas quando se está prestes a perder a mulher da sua vida.
E o deserto é ainda mais desolador e hostil quando essa mulher se vai.
Eu não posso viver sem ela. Acabo de matar a mulher de cuja existência dependo.
Você sobe; você despenca. Ela sabia o que estava dizendo.
Então, como planejei, sirvo-me do vinho e bebo num único gole o líquido mortal.
Dez. ‘Paixão e morte no Flamengo.’ Assim o Rio de Janeiro saberá de nós, nos jornais. Pego o seu corpo e o coloco sentado no sofá. Em seguida, sento-me ao seu lado.
Nove. Ah, minha querida! Fostes tão igual e tão diferente de todas as outras, tolas jovens humildes do subúrbio, deslumbradas com a vida de luxo e conforto que eu lhes dava! Olho em volta e lá estão os objetos que me recordam algumas delas. O relógio de mesa, me lembra Teresa. Pobre Teresa! Tão linda em sua melancolia! Nunca consegui entender o seu suicídio. Já aquele quadro me recorda Raquel. A impetuosa e determinada Raquel. Parecia conter a intensidade de cada sílaba do seu nome. Poderíamos ter sido muito felizes, não fosse aquele acidente terrível ao tentar fugir de mim, naquela noite de chuva! E aquela escultura me lembra Sílvia! A doce e delicada Sílvia. Tadinha, irei morrer sem visitá-la pela última vez na clínica psiquiátrica!
Oito. Oh, meu amor! Nem o Diabo se atreveria abandonar um homem como eu. O lado racional dessa tua cabecinha de vento deveria ter-te advertido sobre o risco que tu estavas correndo, meu tesouro!
Sete. Puxa, benzinho! Quantas vezes provei a dimensão do que sentia por ti! As surras que te dei em público, por exemplo, eram uma forma de demonstrar o meu ciúme, coração!
Seis. Se eu lembrava, a todo instante, cada centavo gasto contigo, era para mostrar-te o quanto te valorizava, meu docinho de coco.
Cinco. E por tudo que fiz por ti, o meu alcoolismo, a minha disfunção erétil, os meus surtos e os quarenta anos que nos separavam, tu devias superar....Não, eu não merecia...não merecia mesmo...tu não podias fazer isso comigo, meu bijuzinho...
Quatro. Meu biju...
Três. Meu bi...
Dois. (...)
Um. (...)




"...dream up, dream up, let me fill your cup
with the promises of a man..."
Neil Young, na canção Harvest
Para Ana e todas as mulheres que se apaixonaram por canalhas
BALINHA
Há perigo nas ruas.
Em algum lugar,
o monstro irá seduzir a moça.
No dia seguinte, ele mandará flores.
Aí, virá um beijo, um carinho, mais
um beijo, outro carinho, e mais,
e mais, e mais e mais.
Então,
ela será encontrada roxa,
sufocada pelo o amor dele.
E TOME BALA
Rubão Fonseca, o desta foto aí do lado, extraída do site Bestiário, está lançando Mandrake/A Bíblia e a Bengala, no qual ele ressucita o detetive criado no romance A Grande Arte.
Quer mais Rubão? Tem mais no Bestiario, o link está ao lado
Quer mais bala? Então, tome!!!!
"Que vida sórdida a sua. Polícia, advogado, escritor. As mãos sempre sujas."
Rubão, em O Caso Morel
Não leve bala em silêncio.
Reaja e mande comentários.

Sexta-feira, Julho 29, 2005

Bala Perdida

Palavras
que
ferem

Mas só
os inocentes,
os adoradores de diários alheios,
os imbecis e...você sabe, os afins.

"Meu marido se apaixonou por mim e agora terá que pagar por isto"
A grande Liz Taylor ao interpretar a malvada Martha, em Quem Tem Medo de Virgínia Wolf.
...Porque em algum lugar desta cidade, uma loura com uma bolsa Louis Vuitton deve estar pensando o mesmo.
Lembrei-me de Martha, dias atrás, ao assistir pela tv o festival de baixarias, durante os depoimentos de secretárias e ex-mulheres de alguns dos vilões deste tsunami de escândalos, no qual estamos nos afogando.
Lembrei-me de Marta e lembrei-me também de um conto do meu libro de contos policiais, Crimes e Perversões. Pois, além do maremoto de escândalos, o país tem assistido batalhas sangrentas na eterna guerra dos sexos. Mulheres detonando homens, depois de assistirem passivamente aos crimes destes.
Na guerra do sexos não há vencedores, nem vencidos. Este é o mote deste conto que estou postando. Tá certo, ele é um pouco longo para um blog. Mas não tão longo quanto a história da corrupção no Brasil.

TESTOSTERONA


“A vida é como um ato sexual. Uma estranha disputa. Um pensa estar ganhando; o outro finge estar perdendo. No final, ambos ganham, ambos perdem.”
Palavras escritas na porta de um sanitário público
Por alguém que sabia o que estava dizendo

Eu, às nove

A noite era de chuva e fui navegando com dificuldade por entre a tormenta, jogado de uma onda a outra, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Para mim, as noites de crise sempre tiveram o gosto de cruzar um oceano em fúria.
De repente, um casal abraçado sob o guarda-chuva. E uma enorme vaga quase me afoga.
Parei na porta do Edredom e entrei.
O Edredom é um bar. Na verdade, este não é o seu nome. Mas o chamam assim porque é onde os carentes e solitários se refugiam da frieza do mundo.
Lá dentro, em meio a uma penumbra enfumaçada, homens e mulheres estavam espalhados pelo salão. Apesar do mau tempo, não eram poucos. Na verdade, nem mesmo o dilúvio do juízo final conseguiria afastá-los dali. Gente desesperada a procura de alguém.
Mas sabiam fingir. Uns fingiam estar ali apenas fazendo hora, esperando a chuva passar. Outros, para um drinque após o trabalho. E havia aqueles que fingiam estar apenas procurando amigos para um bate-papo. Mas era tudo mentira. Tudo não passava de uma estratégia aprendida em muitas noites iguais àquela. A vida lhes havia ensinado que, nesse mundo injusto, para se conseguir um copo d’água é preciso esconder a sede.
Encostei-me no balcão e pedi o meu drinque. Puro. Sem gelo.
Aí, notei a mulher. Vulgar, magra e com um olhar suplicante. Dessas que entregam logo o jogo. Dessas que não sabem fingir. Era o meu tipo. Sorria para mim. Mas tentei ignorá-la. Não iria facilitar as coisas para ela. Embora estivesse tão carente que seria capaz de pular em cima da primeira que me piscasse o olho.
Um garçom mal humorado serviu o meu whisky. Fiquei olhando para a TV, suspensa por um rack preso no teto. Estava na hora do jornal da noite.
O garçom voltou quando eu estava na metade do meu drinque. Colocou um pequeno papel na minha frente e disse:
“Aquela mulher lhe mandou isto.”
Não me virei para saber quem era. Eu sabia que havia sido ela. A suplicante. Ela usou letra de imprensa. Logo concluí que: l) ela tinha uma letra muito ruim, ou;
2) ela iria me matar e queria disfarçar sua letra.
Li o que estava escrito:

SEU SILÊNCIO ME INCOMODA, ME FAZ MAL E ME MATA
IREI GRITAR, IREI CHORAR, MAS ELE CONTINUARÁ
IMPLACÁVEL, INSENSÍVEL, ME ENGOLINDO AOS POUCOS
CHAMEM A POLÍCIA, CONVOQUEM O EXÉRCITO, ACORDEM A CIDADE.
FAÇAM QUALQUER COISA PARA QUE EU NÃO OUÇA MAIS O SEU SILÊNCIO.
POIS ELE É A TRILHA SONORA DA MINHA DOR.
Que bonitinho! Pensei. Talvez ela tenha copiado de algum lugar. Devia ser uma xérox. Ela devia ter outros em sua bolsa. A quantos palhaços ela não devia ter dado aquele bilhete nas últimas vinte e quatro horas?
O sisudo apresentador do jornal da noite transmitia, agora, mais uma notícia internacional: CARRO-BOMBA MATA CINCO PESSOAS EM ISRAEL.
Quando eu vi, a mulher estava ao meu lado.
“Malditos terroristas.”, disse. “Há anos venho tentando comprar um carro e fico revoltada ao ver tantos serem destruídos com tanta facilidade.”
Sua insensibilidade poderia me assustar. Mas nunca levei as pessoas muito a sério. Ela estava apenas tentando ser simpática. E gostei daquilo. Podia vê-la melhor agora. Era mais velha do que me pareceu, no início. Tinha a pele bronzeada e usava uma maquiagem excessiva. Tentei adivinhar. Quarenta a quarenta e cinco anos, funcionária pública, divorciada. Não, talvez ainda solteira. Havia tido algumas desilusões amorosas e perdeu parte da juventude, cuidando da mãe doente, pois era a única solitária da família. Pegava no serviço às onze. E, nos dias de sol, caminhava na praia pela manhã. Já conhecia o tipo.
Sorri para ela.
“Sabe”, disse, chegando-se para mais perto de mim. Usava um perfume comum. Desses que sempre são encontrados nas promoções. Desses que, misturados ao suor, produzem um cheiro acre-doce, “talvez empresas automobilísticas multinacionais estejam vendendo carros para estes criminosos.”
Uma observação inteligente. Queria mostrar-se inteligente. Para que eu não pensasse que era a mulher vulgar e desesperada que, na verdade, era.
Senti-me na obrigação de dizer alguma coisa. E isto me aborreceu.
“Você está errada, pois esses carros são roubados aqui no Brasil para serem transformados em carros-bomba e exportados para grupos terroristas lá fora.”
Ela me olhava como se eu fosse um garoto de oito anos e tivesse acabado de perguntar o que é um orgasmo. Abri um sorriso cínico, para alertá-la de que não deveria me levar muito a sério.
“Somos os maiores exportadores de carros-bomba.”, falei.
Ela riu um riso forçado.
“É verdade.”, prossegui. Sempre gostei de curtir com a cara das desesperadas. Servia para esconder que eu estava tão desesperado quanto elas. “Outro dia vi um anúncio que eles colocaram no jornal: COMPRE SEU CARRO-BOMBA AGORA E SÓ PAGUE QUANDO O GOVERNO CAIR. EXPLOSÃO GARANTIDA OU O SEU DINHEIRO DE VOLTA. DESCONTOS ESPECIAIS PARA GRUPOS DO TERCEIRO MUNDO.”
O sorriso em sua boca ficou mais largo e ela colocou olhos brilhantes sobre mim.
“Você parece saber tudo sobre carros-bomba”.
“Claro, eu sou um perigoso terrorista”, respondi.
“Não acredito.”
“Verdade! Já destruí ilusões e explodi sonhos. Tudo para ter um pouco de prazer.” Aí, olhei para ela como se estivéssemos dançando bolero numa espelunca qualquer, de décadas atrás, e sussurrei: “Você está disposta a me dar prazer?”
Havia malícia em seu sorriso quando disse: “Preciso conhecê-lo melhor.”
“Você fuma?”
“Sim.”
Pelo jeito nervoso com que segurou o cigarro, percebi que ela estava mentindo. Gostei daquilo. Nunca havia fumado na vida, mas, como uma adolescente, fumaria um cigarro para me impressionar. Estava em liquidação. Sensacional queima de estoque por motivo de carência afetiva, solidão, desespero.
Nós, às dez

Seu nome era Beatriz. Trabalhava como chefe de seção, no Ministério da Fazenda (concursada, fez questão de dizer). Sua mesa era maior do que as dos outros funcionários e ela possuía um carimbo com o seu nome. Nada era despachado, sem o seu carimbo e sem a sua assinatura. Talvez houvesse algo de sexual naquilo, pensei. Tinha quarenta e cinco, divorciada e morava sozinha em um apartamento frio e triste (Elas sempre moram num apartamento frio e triste). Estava divorciada há um ano, tinha um filho no Exército e havia cuidado dos pais. A mãe, com derrame, e o pai, Alzheimer.
Passamos, então, a falar de bobagens. Ela quis saber:
“Qual o seu grau de instrução?”
EU ELA
Sou Contador. Sou frio e calculista. Fui normalista.
Os números são mais sinceros do que
as palavras.
“Qual o seu tipo de música?”
EU ELA
Boleros. Desses em que o homem Tenho todos os discos do Roberto e
bate na mulher e ela se arrasta atrás sempre achei que as músicas dele fossem
dele. feitas pra mim.
“Um fato inesquecível?”
EU ELA
O meu primeiro estupro (ela riu). Uma vez fui eleita Garota Verão, em Cabo Frio.

“Você gosta de ler?”
EU ELA
Nelson Rodrigues. Fotonovelas.

“Você tem carro? Imóveis? Você já esteve no exterior?”, perguntou.
Pensei na hipótese de ela ser uma vagabunda, querendo arrumar um otário rico para garantir conforto para a segunda parte da vida. Nada falei sobre minha condição financeira. Não menti, pois eu não tenho mesmo nada.
Aquela conversa já estava me irritando. Comecei a olhar para o meu relógio. Queria terminar logo com aquilo. Não via a hora de fazer o que tinha que fazer e voltar para casa.
“Você é tão reservado!”, ela disse, “Ainda sei pouco sobre você.”
“Sou apenas um homem em crise.”
“Eu também sou carente. Converso com o meu cachorro, abraço árvores e, nas noites mais difíceis, peço pizzas por telefone, só para ver um homem.”
“Entendo.”
“Os solitários são chatos.”, ela disse, “Vivemos pelas ruas mendigando um carinho, um papo, um olhar ou tomamos uma postura arrogante, tentando enganar a nós mesmos de que não precisamos de ninguém. Até os garçons nos odeiam.”
Comecei a rir. Ela concluiu:
“É verdade. Você já reparou como os garçons odeiam aquele solitário que se senta no bar para se embebedar o resto da noite? Além do mais, os solitários são muito vulneráveis e atraem pessoas perigosas.”
“Como eu, por exemplo. Sou um terrorista, lembra-se?”


Ela tomou o resto do seu whisky e disse, girando o copo sobre o balcão:
“Me sinto solitária hoje.”, sorriu com melancolia, “Deixei pra trás uma noite de solidão e vodka. Minha agenda está vazia, nenhum e-mail, nenhum recado na secretária eletrônica.”
“Sempre entro em crise em noites de chuva.”
“Eu também. Sabe, às vezes, eu tenho dias em que o meu trabalho parece ser o bastante, entende?”
“Sei como é.”, falei. Estava começando a gostar daquilo. Sempre amei as desesperadas, as que rastejam. Com elas, o prazer é ainda maior.
“Esses são...digamos...trinta por cento dos meus dias. Dez por cento ficam com aqueles dias em que o sorriso fica mais fácil e tudo parece ser um grande baile de carnaval. Mas também há aqueles sessenta por cento de dias tristes e desanimados em que o sorriso de alguém é assim como um bote salva-vidas para um náufrago no meio do oceano. Quer saber como estou hoje?”
Falei que sim. Mas queria dizer que não.
“Então, adicione à imagem do náufrago, uma boa tempestade e alguns tubarões famintos ao redor e terá a idéia de como estou hoje.”
“Posso compreender.”
“Mas um homem atraente como você não deve conhecer a solidão.”, ela disse.
“Engano seu. As mulheres não me compreendem.”
“Você deve ter tido muitas.”
“Sim. Mas não as suporto depois que consigo o que quero delas.”
Ela ficou me olhando. Parecia preocupada. Sempre adorei fazer isto.
“Você fala como se fosse um monstro que apenas nos usa.”
“Tenho excesso de testosterona. Preciso de mulheres chorando aos meus pés.”
Ela sorriu. Pensou que eu estivesse brincando. Depois, disse:
“Sabe, eu sou uma pessoa bege.”
“Bege?”
“Sim. Combino com qualquer um. Vermelhos, azuis, amarelos, verdes...”
“Que bonitinho! E que cor eu sou?”
Ela pensou um pouco. Enquanto pensava, sorria. Ex-normalista, suplicante, desesperada, bege...era de alguém como ela que eu estava precisando.
“Marrom. Você é machista e conservador.”, ela disse.
“Bingo!”
“Você nunca se casou?”
“Já.”
“O que aconteceu?”
“Eu a esquartejei e derreti as partes com ácido.”
“Seu bobo. Sabe, após o divórcio, eu já tive alguns homens.”
Ah, meu Deus! E ela passou, então, a falar dos seus homens. E eu não estava interessado em ouvir sobre os seus homens. Já eram quase onze e não via a hora de me livrar dela. E enquanto ela falava, eu tentava imaginar como seria o resto da noite:


Nós, às onze

ELA
“Ednelson, 41 anos, Virgem. Gostava de servir.
Por sinal, era garçom. E me servia o trivial.
Sempre preocupado e cauteloso, como alguém atravessando uma avenida movimentada.
Partiu choroso, numa manhã de carnaval.
Não sofri. Coloquei minha fantasia e fui
para o Bola Preta. Respirei fundo e me senti
como um afogado deve se sentir, ao
conseguir se salvar. Estava eu lá, sambando,
e um cara vestido de pirata riu pra mim. Depois,
colocou as mãos na minha cintura. Gostei.
Sou do tipo que prefere os que atacam.
‘Tenho medo de piratas”, falei.
“E tem razão. Nós saqueamos
corações solitários.”, ele falou.
Brincamos e sambamos. Quando fomos
nos beijar, ele tirou o chapéu, o tapa-olho e a
barba postiça. E adivinha quem era? O
Ednelson. Fiquei puta. Ele começou a falar
de amor e a chorar. Já imaginou?! Quase
chamei um guarda. Achei um absurdo alguém
falar de amor e chorar no meio de um bloco, no sábado de carnaval!


EU

Deixe-me ver, sairemos abraçados na chuva, à procura de um táxi. Afrontaremos a todos com gargalhadas imprudentes, nesses tempos mal-humorados. E, embriagados, diremos coisas que virão às nossas mentes. Ela talvez diga algo como: ‘A sensibilidade é uma mulher feia que poucos homens convidam para dançar’. E eu direi que ‘nós, homens, não nascemos para ser sensíveis. Gastamos nosso tempo com coisas mais úteis. Como a busca pelo prazer, por exemplo. É a testosterona, entende?’ Ela não entenderá. E eu, já meio bêbado, direi: ‘A vida é como um ato sexual. Um finge estar perdendo, para que o outro pense estar ganhando. No final, ambos ganham; ambos perdem. Uma estranha disputa.’ Inocente, ela dirá: ‘Mas já tive que lutar muito em minha vida. E o prazer não se disputa, apenas busca-se.’
Mas, na cama, nos amaremos voraz e ferozmente (uma confusão de coxas ansiosas, músculos hipertensos, bocas gulosas, mãos possessivas, línguas invasoras e dedos oportunistas) e o prazer será disputado como a carne racionada nos tempos de guerra. Não deveria haver vencedor ou vencido. Mas, homem, como sou, lutarei pelo maior pedaço da carne. Ela deverá se contentar com migalhas. E sem reclamar.
ELA
Evaílson, 29 anos, Câncer. Nordestino parrudo, olhar de águia, muque de pedra. Desses que
riem aos pouquinhos, como que pra guardar um pouco pra depois. Coisa de quem já sofreu
muito. Mas ele aumentava a minha glicose. Levantava à noite para cobrir as minhas pernas, arrastava os meus armários, sem reclamar, e me chamava de ‘meu tudo’. Se ainda fosse de amor, querida, meu bem, essas coisas que qualquer um
diz, em qualquer lugar e hora. Mas ‘meu tudo!’
Resultado: me pegou debaixo de um
sargento do Corpo de Bombeiros.

EU
Depois, ameaçarei ir embora. Ela irá pedir que eu fique até a manhã seguinte. Mas não suportarei mais olhar para sua cara, nem ouvir a sua voz. Ela, então, cumprirá o seu destino de súplicas, agarrando-me o braço, na esperança de não me deixar partir. Depois, duas garras escarlates serão cravadas no meu dorso suado de macho. Talvez lhe dê uma bofetada. Talvez, não. Isso poderá piorar as coisas. Quero dizer, isso poderá fazê-la desejar-me ainda mais. Mas não suportarei mais a sua presença histérica. E, sim, uma bofetada a derrubará no chão, no seu lugar.
ELA
Gilmar, 34 anos, Leão, sargento do
Corpo de Bombeiros. Foi bom na primeira
noite. E na segunda também. Ele era
sempre bom. Mas só isso. E até o bom
um dia cansa, entende? A sua monotonia
fez dele um homem na multidão. Sabe, me
cansei do seu amor-funcionário-público.
Uma avenida repleta dele, não me
satisfaria jamais.


EU

Só então, olhando para os meus olhos, ela se dará conta de quantos degraus terá descido. Tentará subir para respirar o ar puro e revigorante que só o amor-próprio pode trazer. Mas será tarde demais. Já terei alcançado a porta. Ainda a ouvirei dizer, chorando, alguma coisa sobre uma mulher feia que nenhum homem tira para dançar. Ela irá pedir o meu telefone. Sentirei pena, mas não lhe darei. Pegarei o número dela. Para o caso de precisar, na próxima noite de crise.
Então, irei me despedir e voltarei para casa, assobiando New York, New York. Minha mulher, envelhecida e triste, estará me esperando, diante da TV. Chorando, como sempre. Mas a vida vale a pena. Sempre haverá uma mulher desesperada e suplicante para me satisfazer.

Eu, na madrugada seguinte

Na enfermaria de um hospital. Um médico e duas enfermeiras me olhavam.
Tentei entender o que estava acontecendo. Tentei recordar o que havia acontecido. Lembrei-me, vagamente, de termos saído abraçados na chuva. Havia um táxi na porta. O motorista — um cara grande e parrudo, como um boxeador —, gritava com insistência para que entrássemos. Parecia estar nos esperando. Ela me empurrou para dentro do carro. E partimos.
Agora, ali, na enfermaria, olhei para o meu pulso. Queria ver as horas. Mas estava sem o relógio. Estava também sem a carteira. E entendi tudo. Talvez um comprimido na minha bebida...
“Você está bem?”, o médico.
Com os olhos perguntei o que havia acontecido.
“Você foi encontrado caído, ao lado do caixa eletrônico de um banco.”, ele disse.
Fiquei olhando para eles.
“Quer ir à polícia?”
Após um longo suspiro, eu disse apenas que ‘a vida é mesmo um ato sexual’.
“O quê?”
“Esqueça. Preciso ir embora.”
Bem, eu postei e agora vou ter que pagar por isto.
Aguardo os comentários.

Quarta-feira, Julho 27, 2005

Bala Perdida



Palavras que ferem

Mas só os

  • Inocentes,
  • Os adoradores de diário alheio,
  • Os imbecis,
  • e os,,,você sabe, os afins.