NO ELEVADOR DA PAIXÃO

"Já ouvi acusarem você de escritor pornográfico. Você é?"
"Sou, os meus livros estão cheios de miseráveis sem dentes."
A bala perdida de hoje foi disparada por Rubem "Rubão" Fonseca e feriu o, então, ministro da Justiça do governo Geisel, Armando Falcão. E o ferimento deve ter sido grave, pois Feliz Ano Novo, livro no qual foi disparada a bala, acabou ficando proibido por mais de treze anos.
PÉROLAS DO COTIDIANO
Rio, numa manhã qualquer.
Duas faxineiras estão em um ônibus, indo para o trabalho.
Faxineira A: "Ai, que Demora!"
B: "Até parece que a Pavuna está ficando cada vez mais longe do Leblon"
A:"É essa avenida Brasil cada vez mais enrolada"
FOTO?
Ah, sim. A foto acima foi tirada na noite de autógrafos, na ocasião do lançamento do livro Congos do Rio, Editora Bom Texto. São quarenta contos, todos escolhidos no concurso do mesmo nome, promovido pelo jornal O Globo. Entre os felizardos, eu. Aí, vai o meu conto.
NO ELEVADOR DA PAIXÃO
Um. A desilusão chegou ontem à tarde, por volta das quatro.
Dois. Chegou, mas não sem antes avisar. Pois bem me lembro da noite em que a conheci, naquele bar barulhento e enfumaçado.
“Qual o teu nome?”, perguntei.
“Eles costumam me chamar de Vênus, na manhã seguinte.”
“É porque eles nem se lembram mais do teu nome.”
“Seu bobo. É porque amo como deusa.”, triste, “Mas há milhões de anos não faço ninguém feliz.”
“Mentira! Estou apaixonado por ti.”
“Cuidado, meu caro. A paixão é um elevador que sempre tem os cabos cortados. Você sobe; você despenca.”
Três. Ah, se eu pudesse voltar no tempo, teria pago o meu drinque e ido embora, evitando, assim, maiores despesas com o destino. Mas o meu coração apressado e algumas doses de Dimple me levaram à pior besteira que fiz na minha vida cheia de besteiras: “Pois não tenho medo de tombos e quero você.”
Quatro. Passamos a viver juntos e, agora, olhe para mim. Trancado neste quarto, enquanto o elevador cai. Olho em volta e as lembranças da nossa curta história parecem apressar a minha queda. Aqui, sobre a cabeceira, está aquela tarde cinzenta, em Paris. Compramos este abajur em um ateliê minúsculo, no Quartier Latin. Os donos eram um simpático casal de chilenos. Nevava quando saímos com o embrulho nas mãos. Nos abraçamos. Os agasalhos trazendo um calor agradável, quase humano. Para trás ficaram os acenos dos amigos. Adios, adios. Palavras ao vento, misturadas com a neve. Estávamos há uma semana juntos e eu não podia mais viver sem ela.
Cinco. Ali, pendurado na parede, está aquele fim de semana em Búzios. Almoçámos em um restaurante que pertencia a um velho pintor. Champanhe, frutos-do-mar; carinhos e beijos. Duas semanas juntos. Ela se impressionou com o quadro a óleo em exposição. Achei de certo mau gosto, mas ela insistiu e o comprei. Faria qualquer coisa para agradá-la.
Seis. Ali, no porta-retratos, está a noite em que ela falou pela primeira vez que era minha. Tiramos esta foto durante um jantar esplêndido, no meu iate. Durante um longo beijo, ela sussurrou as palavras em meu ouvido: “eu-te-a-mo”. Não me recordo de ter experimentado emoção semelhante. Naquele mesma noite, fizemos amor pela primeira e única vez. Foi tão intenso que cheguei a crer sermos Vênus e Marte em perfeita conjunção no céu. E o prazer que sentíamos se multiplicaria pelo ar em pequenas partículas de energia, mudando o destino de cada homem e cada mulher na face da terra.
Sete. Agora, está tudo acabado. Ontem, às duas, o tal Almeida me ligou: “Já tenho o que o senhor quer, doutor.” O Almeida, ou detetive particular J. W. Almeida, corresponde perfeitamente à imagem que eu fazia de um profissional do seu ramo. Um tipo sórdido. Mas também muito competente. Havia comprado um carro importado e um bom imóvel, esmiuçando os podres alheios, as fraquezas humanas. Já posso imaginá-lo investigando esposas infiéis, dormindo com elas, chantangeando-as e não cumprindo as promessas feitas nas camas dos motéis. ‘O que é isso, amorzinho? Você está sendo boazinha comigo e juro que não vou contar nada ao seu marido. Não acredita em mim? Então, fique fria.’ Mas na manhã seguinte, entregava a coitada aos leões: ‘Lamento, doutor, mas sua mulher está mesmo pulando a cerca. O sujeito me contou até que ela gosta de fazer isso e aquilo na cama. Não é verdade? Então. Sinto muito.’ O cafajeste tem uma pasta para cada caso. E todos recebem um título: ‘o caso da dona-de-casa e o vizinho’, ‘do executivo e a secretária’, ‘do empresário e seus rapazes.’ O nosso chama-se o ‘caso da Vênus Insaciável.’ E o safado nem sabia do que os homens costumavam chamá-la na manhã seguinte.
Oito. Eu e o patife nos encontramos, por volta das quatro, em um bar discreto, na Lagoa. Ele abriu a tal pasta e mostrou-me toda a sujeira. Fotos, fitas e relatórios. Tinha os horários dos encontros e os codinomes dos amantes, já que, “por questão de ética, não posso dar os seus nomes verdadeiros. Entendeu, doutor?” Disse o canalha, como se conhecesse mesmo alguma ética. Na lista estavam o‘ carente da Urca’ (sofria com a esposa frígida), o ‘mesquinho do Leme’ (comerciante judeu, procurava sempre os motéis mais baratos) e o ‘narcisista da Barra’ (usava gravatas italianas e exigia quartos espelhados). O último havia sido o ‘intelectual do Leblon’ (recitava poemas e gostava de vinhos importados). Um dos encontros se deu em um sarau de poesia, no Centro. No meio da discussão literária, segundo o Almeida, “as mãos aflitas dos amantes percorreram as coxas um do outro, a procura das partes que lhes interessavam”. Nas conversas ao telefone, gravadas pelo detetive, o ‘intelectual’ pedia: ‘Quero te ver com aquela lingerie cor de neve’. E ela devolvia palavras em fogo: ‘Tudo bem. Você será bem-vindo dentro de mim. Mas para entrar, a senha será o seu carinho.’
Nove. ‘A Vênus Insaciável’! Hoje ela disse que iria embora. Enlouqueci. Antes do jantar, coloquei no seu vinho algumas pitadas do veneno comprado na última viagem ao Oriente, o qual, segundo o rótulo, mata em até dez minutos. Depois, me retirei, dizendo estar indisposto. Ela continuou em silêncio, como tem ficado nos últimos dias.
Dez. Dez minutos. Não resisto e vou até a sala.
Está caída, debruçada sobre a mesa. O rosto contorcido, encoberto pela cabeleira loura, não prejudicou a sua beleza. Meu coração se racha, mas só há um deserto de alternativas quando se está prestes a perder a mulher da sua vida.
E o deserto é ainda mais desolador e hostil quando essa mulher se vai.
Eu não posso viver sem ela. Acabo de matar a mulher de cuja existência dependo.
Você sobe; você despenca. Ela sabia o que estava dizendo.
Então, como planejei, sirvo-me do vinho e bebo num único gole o líquido mortal.
Dez. ‘Paixão e morte no Flamengo.’ Assim o Rio de Janeiro saberá de nós, nos jornais. Pego o seu corpo e o coloco sentado no sofá. Em seguida, sento-me ao seu lado.
Nove. Ah, minha querida! Fostes tão igual e tão diferente de todas as outras, tolas jovens humildes do subúrbio, deslumbradas com a vida de luxo e conforto que eu lhes dava! Olho em volta e lá estão os objetos que me recordam algumas delas. O relógio de mesa, me lembra Teresa. Pobre Teresa! Tão linda em sua melancolia! Nunca consegui entender o seu suicídio. Já aquele quadro me recorda Raquel. A impetuosa e determinada Raquel. Parecia conter a intensidade de cada sílaba do seu nome. Poderíamos ter sido muito felizes, não fosse aquele acidente terrível ao tentar fugir de mim, naquela noite de chuva! E aquela escultura me lembra Sílvia! A doce e delicada Sílvia. Tadinha, irei morrer sem visitá-la pela última vez na clínica psiquiátrica!
Oito. Oh, meu amor! Nem o Diabo se atreveria abandonar um homem como eu. O lado racional dessa tua cabecinha de vento deveria ter-te advertido sobre o risco que tu estavas correndo, meu tesouro!
Sete. Puxa, benzinho! Quantas vezes provei a dimensão do que sentia por ti! As surras que te dei em público, por exemplo, eram uma forma de demonstrar o meu ciúme, coração!
Seis. Se eu lembrava, a todo instante, cada centavo gasto contigo, era para mostrar-te o quanto te valorizava, meu docinho de coco.
Cinco. E por tudo que fiz por ti, o meu alcoolismo, a minha disfunção erétil, os meus surtos e os quarenta anos que nos separavam, tu devias superar....Não, eu não merecia...não merecia mesmo...tu não podias fazer isso comigo, meu bijuzinho...
Quatro. Meu biju...
Três. Meu bi...
Dois. (...)
Um. (...)
"...dream up, dream up, let me fill your cup
with the promises of a man..."
Neil Young, na canção Harvest
Para Ana e todas as mulheres que se apaixonaram por canalhas
BALINHA
Há perigo nas ruas.
Em algum lugar,
o monstro irá seduzir a moça.
No dia seguinte, ele mandará flores.
Aí, virá um beijo, um carinho, mais
um beijo, outro carinho, e mais,
e mais, e mais e mais.
Então,
ela será encontrada roxa,
sufocada pelo o amor dele.
Em algum lugar,
o monstro irá seduzir a moça.
No dia seguinte, ele mandará flores.
Aí, virá um beijo, um carinho, mais
um beijo, outro carinho, e mais,
e mais, e mais e mais.
Então,
ela será encontrada roxa,
sufocada pelo o amor dele.
E TOME BALA
Rubão Fonseca, o desta foto aí do lado, extraída do site Bestiário, está lançando Mandrake/A Bíblia e a Bengala, no qual ele ressucita o detetive criado no romance A Grande Arte.
Quer mais Rubão? Tem mais no Bestiario, o link está ao lado
Quer mais bala? Então, tome!!!!
"Que vida sórdida a sua. Polícia, advogado, escritor. As mãos sempre sujas."
Rubão, em O Caso Morel
Não leve bala em silêncio.
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